Albus tinha sardas que salpicavam o seu nariz e olhos azuis que brilhavam quando ele falava sobre seus interesses. Ele também tinha mãos com dedos longos e magros, um porte esguio e uma forma de falar que encantava qualquer um que o ouvisse. Gellert sempre gostara de tudo isso, seja lá por qual motivo... Talvez os olhos fossem uma prova do quão devotado o outro bruxo podia ser, enquanto a voz encantadora era um atributo muito valioso quando se queria conquistar os outros e o porte, ótimo para duelos. As sardas, no entanto, eram apenas um charme que agradavam à Grindelwald.

“Você é um homem interessante, Sr. Scamander.”

E foram as sardas que fizeram com que ele se lembrasse de Albus enquanto interrogava aquele menino. Muitas sardas, cobrindo o rosto inteiro. Havia até uma pequena mancha no lábio superior do bruxo e Gellert teve que se conter para não fazer algo um tanto indecente para a situação deles ao notá-la.

Depois, percebeu as mãos. Dedos longos e finos, a pele marcada por cicatrizes e arranhões, as unhas curtas e sujas de terra. Havia sardas ali também. Calos nos dedos e, muito provavelmente, uma textura áspera. Mãos boas para segurar uma varinha, para tecer a magia do jeito que fosse necessário. O bruxo também era magro e, apesar de não ter o porte altivo de Albus e parecer estar querendo se esconder dentro de si mesmo a medida que encolhia os ombros cada vez mais, Grindelwald tinha quase certeza de que as pernas compridas ajudariam muito na hora de correr em um duelo.

“Expulso de Hogwarts por colocar a vida de um colega em perigo-“

“Foi um acidente.” A voz do rapaz não era tão encantadora quanto a de Albus. Era baixa, como se ele tivesse medo de emitir qualquer som, e as palavras às vezes saíam grudadas umas às outras, sem a eloquência que seu velho amigo tinha.

“Com uma criatura.”

Os olhos não eram da cor azul brilhante que era tão característica de Albus Dumbledore. Eram verdes, quase puxando para um cinza, dependendo de como a luz se incidia. Era difícil encará-los, já que o rapaz desviava o olhar o tempo inteiro, como se encarar alguém fosse machucá-lo. Bom... Gellert certa vez ouvira falar que animais não gostavam de contato visual pois aquilo os intimidava. Talvez o jovem tivesse perdido a noção de como se comportar perto de seres humanos com o passar do tempo. Mas aqueles olhos, apesar de serem verdes e esquivos, apresentavam um certo brilho: eles brilharam com uma mistura de medo e bravura quando aquela maleta voou para longe de suas mãos.

“Mas um de seus professores pareceu ser contra a sua expulsão.” Ele tinha que controlar o sorriso. Falar de Albus sempre o fazia sorrir, era um tanto inconveniente. “Agora... Por que Albus Dumbledore gosta tanto do senhor?”

“Eu não saberia dizer.”

Grindelwald se perguntava se os cabelos daquele rapaz conseguiam ficar de um tom acaju como os de Albus. Ele parecia ruivo, mas era como se o vermelho tivesse desbotado dos fios até deixá-los quase loiros. Muito provavelmente fora o sol... Ele não dissera que ficara um ano viajando para pesquisar para algum livro sobre bestas? Definitivamente, um ano debaixo do sol deve ter lhe dado novas sardas e um cabelo desbotado.

“Então... Soltar criaturas mágicas nessa cidade foi apenas mais um acidente? É isso?” Gellert queria poder forçar o garoto a olhá-lo. Queria ver a mudança nos olhos dele enquanto falava sobre as suas tão amadas criaturas. Se os olhos de Albus brilhavam ao falar de teoria da magia, os daquele bruxo o faziam quando falava sobre algum pássaro mágico qualquer.

“Por que eu faria isso de propósito?” O olhar do jovem quase encontrou o seu. Quase. Ele precisaria de algo a mais para conseguir se aproximar daquela criaturinha arisca.

“Para expor a comunidade mágica. Para gerar uma guerra entre o mundo mágico e o não mágico.”

“Um massacre em nome do bem maior, você quer dizer.”

Garoto inteligente. Acanhado e sem um pingo de tato em relação a como se portar perto de pessoas, mas inteligente. Rápido. Grindelwald queria sorrir, queria parabenizá-lo, queria pegar aquele rapaz nos braços e levá-lo junto consigo e com o menino Barebone. Ali estava a razão de Albus gostar tanto dele: jovem e apto com magia, com uma paixão específica e uma mente rápida para associações. O próprio Gellert era assim e Dumbledore realmente gostava dele.

“Bom, sim...” Ele tinha que manter a voz calma e baixa, como o Percival Graves verdadeiro faria.

“Não sou um dos fanáticos de Grindelwald.”

O rapaz finalmente o olhou. Aqueles olhos verdes sabiam de alguma coisa e, apesar de isso ser perigoso, também era divertido demais. Gellert realmente queria poder sorrir naquele momento.

Notas finais
Porque eu não consigo ver a cena do interrogatório sem pensar nisso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!