Reflexo

1 Capítulo Único - Quebrando o espelho.


Notas iniciais
Consegue enxergar a sua alma refletida no espelho?

Quer apreciar meus lamentos? Lamentos de uma criatura podre e sem vida? Um monstro? Pois é isso que eu sou, e quero que saiba que nada nem ninguém pode mudar isso...

Desde muito nova eu sempre achei os espelhos sobrenaturais, talvez porque havia sido criada sem qualquer tipo de vaidade que é naturalmente voltado para a maioria das mulheres. Em sua maioria querendo se embelezar para os homens, tolas infelizmente.

Claro eu já me olhei no espelho como qualquer pessoa normal uma hora ou outra na vida se observa. Olhos cinzentos opacos, cabelos negros sempre trançados, bochechas sempre rosadas. Um corpo que não me fazia jus à uma jovem de vinte e dois anos, era esguio, mais do que eu gostaria, no entanto isso não importava.

Toda vez que me olhava não conseguia enxergar-me como eu mesma, era mais como algo falso, pode me chamar de louca, eu não me importo, mas sempre que permanecia mais que alguns instantes perto de um espelho sentia como se algo dentro de mim estivesse sendo puxado para dentro do meu próprio reflexo e sentia um certo frio.

Mamãe diz que é isso que acontece com às pessoas que ficam horas se olhando e se admirando, parte de sua alma é puxada ao reflexo fazendo com que só se sinta completa ao se olhar. Se tornam tolas e narcisistas.

Se transformam em algo frio, seus corpos continuam a mover-se como normalmente, porém parte deles deixa de existir, se tornam ocos, coisas boas são retiradas deles e sobram apenas com o resto.

Na minha concepção, tudo o que é retirado, vai para algum lugar. Talvez o espelho seja a própria passagem ao inferno, ou ao mundo dos mortos depende de sua crença, talvez um portal onde almas ficam presas por toda a eternidade enquanto são obrigadas a observar seus corpos agirem sem elas.

Esses pensamentos me deixam intrigada.

E o que faço quando essas coisas não saem da minha cabeça? Eu pinto.

Isso mesmo, pintar! E é o que estou fazendo nesse instante. Com traços negros fortes representando a culpa, um rosto com agonia e uma lágrima pingando em um lugar onde ninguém consegue enxergar, ninguém vê a menina chorando.

Uma das poucas formas que encontrei de transportar meu próprio caos interno, minhas dúvidas, meus anseios para fora de mim.

A maioria das pessoas acha que sou uma louca, assim como minha mãe.

Pobre mulher, viúva à quase 10 anos. Não pensava em se casar de novo e quem poderia querê-la nas circunstâncias onde estava? Hoje em dia era uma bêbada.
Minha é uma bela mulher não aparenta ter quase 40 anos de idade. Com cabelos loiros jogados sobre os ombros e olhos azuis como dois cristais. A maioria dos meus traços havia herdado do meu pai como pode perceber.

Não a culpo pelas coisas que me faz, não, de maneira alguma. Ela só o fazia pois encontrou o jeito certo de se livrar da sua depressão, infelizmente o seu jeito certo de se livrar daquele imenso farto que carregava era fazendo com que eu mesma sentisse dor.

Por favor não a julgue, você não sabe pelas coisas que ela já passou.

Teve grande parte da sua vida vivendo miseravelmente vida, fora uma pobre coitada na mão de suas duas irmãs mais velhas. E quando conheceu meu pai, fora a primeira coisa boa que já lhe tinha acontecido.

Finalmente achara alguém que lhe havia compreendido, com quem teve uma única filha.

Meus pensamentos são quebrados ao ouvir o som da porta de abrir.

Larguei prontamente meu pincel e desci as escadas o mais rápido possível.

Mamãe me espera na porta.

Com os braços estendidos vou até ela e a abraço. Ela retribui o abraço.

— Vamos lá, minha querida? – Diz numa voz lenta e calma, olhando nos meus olhos, que mais parecem duas bolas de gelo, sem nenhum sentimento dentro deles.

Seu hálito cheira a álcool como sempre. Seguro sua mão e juntas vamos seguindo em direção ao porão.

Lágrimas escorrem do meu rosto, contudo eu tento ao máximo ser forte para isso. No fundo eu sei que a culpa é minha.

Abrimos a porta e ela me empurra escada abaixo. Vou rolando escada abaixo, meu pulso bate contra um degrau de madeira, causando um arranhão.

No fim da escada bato minha cabeça contra ao chão e fico momentaneamente tonta.

Permaneço no chão onde é o meu lugar. Ela vai descendo devagar a escada. Quando se aproxima de mim segura meu rosto com força com uma das mãos e cospe.

— Você sabe que é culpada, não é? Sua pequena vadia!

— Sim, eu sei. – Digo com culpa e mais lágrimas escorrendo.

Ela bate em meu rosto deixando um arranhão com suas grandes unhas.

— Você não tem o direito de chorar uma gota sequer.

Ela chuta meu estômago e uma dor agonizante começa a se alastrar sobre meu abdômen.

Me arrasto até uma cadeira que está no meio do porão e sento-me nela.

Mamãe me amarra sobre a cadeira.

Ela sempre começa aos poucos e vai aumentando gradualmente minha dor, porque diz que foi assim que aconteceu quando perdeu o seu amor.

Começou com uma pequena cicatriz, mas quando se deu conta de que nunca o veria outra vez ela se rasgou e se alastrou por todo o seu ser.

— Deus! Piedade dessa pobre alma, piedade por ela matar pessoas, por ela estragar uma vida. Ela merece ser castigada, e eu a castigarei. – Grita ela com os olhos fechados.

Irônico, não? Pedir piedade e em seguida realizar um castigo. Eu rezei tanto, por tanto tempo para que pudesse eu ser perdoada, mas até Deus me virou às costas, eu sei disso. Mas eu realmente mereço isso.

Ela pegou um martelo enferrujado que guardava numa caixa ali. Estava sujo com sangue seco, ela costumava usá-lo quase todas as vezes.

Em seguida pega um pano velho e o enfia em minha boca para que meus gritos não cheguem à ouvidos de pessoas erradas, pois eles não entenderiam a verdadeira razão para aquele castigo. São ignorantes.

Primeira martelada, e dor intensa passa pela minha perna esquerda. Segunda martela, meus gritos ficam presos ali naquele pano, minha perna esquerda já rocha.

Seguindo nesse ritmo, no final minhas pernas sangram quase quebradas, várias feridas abertas latejam, mas isso é bom, o sangue me lembra de quem eu sou e do que eu fiz e não me deixa esquecer que no fundo eu sou como assassinos de crianças. Não nos diferenciamos muito, e tanto eu quanto eles merecemos queimar.

Não sei mais quanto tempo se passou, enxergo tudo com certa vertigem. Duas pauladas na cabeça me deixaram assim, mamãe chora como uma criança. Ela está jogada no canto e eu a observo. Pobre mulher, como pude criar tanto sofrimento à ela?

Mamãe enxuga suas lágrimas com a manga de seu vestido e vai em direção à escada, sobe e quando volta está com uma colher de prata e um maçarico em mãos.

Ela pega um isqueiro e acende o maçarico, eu observo mamãe passar o fogo pela colher. Vai se aproximando de mim com a colher em mãos e a coloca em meu braço.

A dor é intensa e agonizante, um grito longo e doentio sai de minha garganta. Cheiro de queimado invade minhas narinas. Ela remove a colher e vejo que bolhas estão nascendo em minha pele.

Ela repete o ato, de novo, de novo e de novo. Eu já não aguentava mais, meus dois braços e meu rosto foram queimados em várias partes. E quando estou a ponto de desmaiar ela para. Vai pegar algo atrás de mim, está coberto por um pano, mas aos poucos já posso deduzir o que é. Ela tira o pano e observo o meu reflexo pálido. Um espelho.

Parece antigo, com belos ornamentos em madeira ao seu redor.

Essa podre criatura que está em minha frente, eu não reconheço. Um calafrio percorre meu corpo, e olho para o outro lado a fim de não enxergar àquilo.

Mamãe pega mais dois grandes espelhos e os coloca um do lado do outro, quase que em um círculo. Não importa para onde e olhe, eu consigo me enxergar, não me sinto bem. Um sentimento ruim cresce em meu peito, sinto como se fosse desmaiar. Fecho meus olhos.

— Nem pense nisso! – Minha segura meu rosto e o aperta. Dor se alastra por ele, me fazendo assim abrir meus olhos – você irá observar. Vamos, olhe bem!

Olho no espelho, por um segundo consigo ver loucura nos olhos de minha mãe.

— Quero que você observe Rebecca, observe o monstro que é você. Sempre fora um monstro e eu não percebi, carreguei você em meu ventre e não percebi o mal que habitava em mim, mas não me culpo – ela estava à beira de lágrimas – eu sei que foi Deus querendo me testar, ver se eu conseguia ser forte o suficiente para castiga-la, mesmo sendo minha filha. Foi um mal implantado em mim, e agora quero que observe! E não tire os olhos desse espelho até eu voltar, e não se incomode com sua alma ser sugada, você não tem alma alguma...

Falou a última frase próxima a meu rosto, largando ele.

Por fim saiu cambaleando do porão, subindo a escada e quase caindo.

Deixou uma luz branca pálida acesa, me deixando sozinha com meu reflexo.

Fecho meus olhos, que já não possuíam lágrimas.

Tudo que eu sento é uma dor interna, eu posso sentir dentro de mim, posso sentir minha alma pedindo por ajuda. Mas isso é impossível, eu não tenho alma, eu sou um demônio. Devia pôr fim a minha própria vida, quem sabe assim eu não livraria mamãe do farto que é ter sempre que me castigar.

Quero apenas me deixar partir, e queimar no inferno como mereço.

Não quero viver. Cometi muitos erros no passado, muitos erros, fiz coisas que jamais achei que faria. Não, não me force a falar sobre o que fiz.

Eu provei sangue, na minha pele e em minha boca. Só isso que você precisa saber, mas o sangue não era meu. E eu gostei do que fiz, havia sentido pela primeira vez na vida que estava inteira. Pela primeira vez paz e um prazer indescritível. Mas isso é errado, e como eu sei, como parar eu lhe pergunto? Como?

Minha mãe só esta punindo um monstro, para me alertar. É isso que os monstros merecem afinal, e no final o inferno me aguarda.

Ouço vozes gritando para mim, os demônios em meu ser. Me ordenando para fazer coisas, mas mesmo sem essas vozes esse é meu destino. Pois eu gosto de fazer o que elas mandam.

Quando mamãe me puni, todas as vozes se calam e eu enxergo tudo com maior clareza. Vejo meu pai, vejo sangue, vejo morte. E no meio de tudo isso está eu. No meio de todo aquele sangue, eu fico ali parada apreciando.

Mas as vozes não se calam por muito tempo, elas sempre voltam. E em frente aos espelhos que estou elas se irritam e seus gritos sempre ecoam até o fundo do meu ser. São diferentes cada uma com um humor estranho. E elas começam.

''Você é patética! Continue se lamentando, ninguém consegue entende-la Rebecca! Você é especial.''

— Não! – Eu grito balançando minha cabeça.

''Você sabe que precisa de sangue, sem ele você irá morrer, vamos só um pouquinho..'' diz a mais grossa ecoando.

Não consigo ignora-las. Meu subconsciente sempre é tomado e eu não consigo me libertar disso. Nesse ponto quero sair dali, eu preciso me desamarrar.

Tento ao máximo sair dali me mexendo e remexendo na cadeira. Minhas mãos sangram.

''Vamos sua molenga, desamarre logo!'' dizem ''Vamos saia dai!.''

Finalmente consigo afrouxar a corda e tirar minhas mãos de lá.

Derrubo os espelhos no chão e eles quebram na hora, tudo não passa de um mundo estranho, mal ouço o barulho do vidro se quebrando.

Meu mente gira e eu apenas pego um caco grande do chão e sigo cambaleando até a escada, é como se não fosse eu aqui, e eu estivesse apenas me enxergando sem poder controlar meu corpo.

Saio de lá e vou em direção ao quarto da minha mãe. Eu quero parar, quero poder sair dali e voltar para onde estava, mas uma força maior me arrasta cada vez mais perto do quarto, enquanto continuo ouvindo gritos em minha mente.

Eu chego até a porta e giro a maçaneta.

Minha pobre mãe mal tem tempo de gritar ou saber o que aconteceu ou de onde veio sua morte. Ela estava jogada no meio do quarto bêbada e chorando.

Vou para cima dela com o vidro em mãos e atinjo em seu pescoço. O sangue esguicha em meu rosto, antes mesmo de gritar eu faço um corte e seu pescoço e sangue jorra dali.

Largo o vidro e vou com a boca em direção a seu pescoço completamente ensanguentado. Aquele sabor é indescritível, passo a língua sobre a ferida aberta ainda com sangue respingando e tento sugar o máximo que posso.

Ao redor do corpo uma poça de sangue se acumula e eu deito por cima dela, passando o liquido vermelho sobre todo meu corpo.

Sorrio em meio àquilo. Lambendo meus dedos e saboreando.

Deito-me na cama e a realidade vem a tona.

— Não! Não, não não, não!

As vozes cessaram em minha mente.

— O que vocês fizeram!?

Silencio.

Não posso acreditar no que eu fiz. Eu mereço morrer eu mereço.

Desço correndo até o porão, pego o maçarico e uma lata de querosene.

''Não! Você não vai mudar! Você é assim!'' diziam as vozes.

— Não mais!

Vou devagar até o porão. Respingando sangue de mim pelo piso da casa.

Procuro por algo que possa me fazer queimar no inferno. E acho querosene, e junto pego o isqueiro.
Subo de volta a escada já sem forças, arrastando-me pelo chão.

Chegando lá, jogo o querosene por todo o quarto.

''Vamos te seguir até no inferno sua maldita!''
Olho o sangue e o corpo da minha mãe e tomo minha decisão.

— Desculpe mamãe.

Acendo o isqueiro e o coloco sobre o querosene. Instantaneamente o fogo se alastra por todos os lugares onde o querosene está, fazendo um circulo ao redor do corpo de mamãe e eu.

Abaixo e pego no cadáver. Abraço forte contra mim e beijo seu rosto.

Eu devia ter feito isso a muito tempo, monstros como eu devem morrer.

A fumaça invade minhas narinas e chega aos pulmões. Dói, dói muito, mas não tanto quanto você descobrir que é um monstro pior do que imagina.

Meu corpo tenta procurar oxigênio enquanto o fogo se alastra pelo quarto. Eu abraço forte minha mãe enquanto tossia. Abraço ela até que por fim não consegui respirar, mas aquilo não importa, mereço sofrer em vida e em morte.

(...)


O bombeiro Steve observava o fogo sendo controlado depois de uma hora inteira. Não sobrou praticamente nada da casa e nenhum sobrevivente.

— Quem morava ai? – Perguntou ao policial próximo.

— Parece que só uma jovem, os vizinhos dizem que era louca. Ao que parece seu pai morreu assassinado e sua mãe se matou dois meses depois, então ela teve um surto.

— Nossa. – Disse surpreso e com pesar.

— Realmente, mas é a mente humana, não? Tudo o que precisamos é de uma faisca para desencadear a loucura.

Dizendo isso saiu de perto.

Tudo fora queimado na casa, menos o porão, onde acharam dezenas de espelhos completamente intactos.

Notas finais
O que acharam, hein hein hein? XD Espero que tenham gostado, e por favor comentem! Haha eu ficarei muito grato.E para quem quiser eu tenho outra One que se chama Laços de Matrimônio, deem uma olhada também, tem muito mais sangue e tristeza hahhaAté a próxima one talvez. /o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!