Reflexões
1 Refletindo: Você e Eu
Notas iniciais
Dois corpos molhados pelo suor ofegavam levemente sobre a cama; um fino lençol cobrindo a parte inferior das duas figuras. A forma mais esguia certamente pertencia a uma mulher; estava debruçada s obre o peito nu e firme de um homem; ela com cabelos negros e longos, ele com madeixas loiras, repicadas e curtas. Os orbes negros na mulher miravam algum canto qualquer do quarto; as duas safiras do homem focavam o teto.
Os dois haviam feito amor durante a noite toda; seus corpos cansados pelos prazeres carnais mais primitivos que ambos se renderam naquelas incontáveis horas. Nenhum deles saberia explicar o que os atraía; ela era a capitã da quarta divisão da Gotei 13 – uma das shinigamis mais fortes por sinal – que tinha sido enviada em uma missão: caçar e matar a presa que lhe fora designada; ele, um antigo membro da Nibantai que foi exilado por insubordinação décadas atrás.
Era simples, e ignóbil, magia. Os dois se envolviam em um jogo perigoso em que a maior arma era a sedução. Desejo mesclando-se com singelos toques de paixão e luxúria, uma combinação pura e mortalmente saborosa.
Ela não sabia exatamente como deveria se sentir, estava dividida. Uma parte de sua mente fazia questão de gritar para ela não deixar-se levar, voltar a ser a mulher serena e recatada que comandava a Yonbantai – a parte que insistia em usá-lo apenas para satisfazer suas vontades mais profundas e insanas.
Já outra parte dessa mesma mente suplicava ao dizer para ela se entregar a seu turbilhão de sentimentos confusos, jogar tudo para o alto e amá-lo como ele merecia; amá-lo como uma verdadeira mulher amaria um verdadeiro homem – a parte que insistia em abrir seu coração para a felicidade que lá no fundo ela sabia que podia experimentar ao seu lado.
“Sabe, Retsu.” Ele subitamente começou. “Estive pensando...”
Suprimindo uma risada divertida, ela elevou seu olhar até a face do loiro. Não era comum um ser como Naruto mergulhar em devaneios.
“Sim?” Ela disse.
“Você não está me usando, está?”
Uma leve pontada de dor atingiu Unohana com mortífera precisão. Aquela pergunta era uma retórica, ela tinha certeza disso.
“Ara, ara. Por que a pergunta?” Ela o respondeu, evadindo a questão.
As narinas do loiro exalaram um suspiro.
“Você sabe muito bem,” Oh sim, e como ela sabia. “você aparece praticamente do nada na minha vida, quase me mata, e agora está aqui: nua, na minha cama, pela milésima vez... É confuso. E...”
“E... O que?” Ela traçou.
“É que... Eu só quero estar preparado para caso acordar um dia e não encontrar você do meu lado.”
Aquilo certamente doeu tanto quanto a ferida que Kenpachi lhe cravou séculos atrás – se não mais.
Os filetes de sentimento que ousaram escapar pela boca do Uzumaki, ao proferir aquelas palavras, a faziam se sentir ainda mais vil que um hollow. Ela sabia que ele era inexperiente com suas emoções, afinal, era o pária de sua vila quando criança e havia sido expulso da Seireitei; nunca conheceu verdadeiramente o amor em nenhuma de suas mais variadas formas – quanto mais a lasciva concupiscência de uma mulher para com um homem.
Tudo bem, ele foi exilado não só por ser tido como uma ameaça pela Central 46, mas também por carregar sentimentos por sua antiga capitã, Soi Fong. Mas até onde iriam tais sentimentos? Seria um amor platônico? Uma mera paixão leviana? Unohana Retsu não tinha nenhuma convicção sobre isso; especialmente depois de virar o mundo do loiro de cabeça para baixo durante incontáveis noites.
Em uma cama.
Mas não se engane; a capitã sabia que tirar proveito – e a virgindade – de um menino solitário e confuso era errado. Bastante errado.
Mas era tão bom!
Sentir as mãos inexperientes e tensas do rapaz percorrer seu corpo e, pouco a pouco, ganharem coragem e conhecimento para excitar qualquer mulher; ver os músculos perfeitamente distribuídos gingarem com cada vez mais luxúria e poder...
Ah mas nada superava aqueles olhos... Oh sim, aqueles azuis infinitos; antes cheios de ingenuidade e receio transbordando em libido ao ver seu corpo nu pela primeira vez, agora carregados de experiência e imponentes como os orbes de um predador que com toda a certeza devoraria sua presa. Aquelas duas safiras a faziam experimentar várias emoções diferentes...
Ânsia.
Para possuí-lo e deixar claro que ele era seu.
Temor.
Porque ele poderia despi-la apenas com aquele olhar.
Orgulho.
Ela – ela! – era quem havia lhe dado aquele olhar depois de longas noites de intenso e lascivo coito.
Retornando ao mundo real, Retsu inconscientemente colocou um sorriso ambíguo no rosto antes de mirar Naruto.
“Acha que vou deixar você, Naruto-kun?”
Os olhos dele finalmente encontraram os dela. Resquícios de um receio assombroso conseguiram cintilar naquelas joias azuis. Ficaram ali durante alguns momentos até Naruto quebrar o contato visual e olhar para o teto novamente.
O loiro sabia que quem ele segurava em seus braços naquele exato momento não era uma mulher qualquer; debaixo daqueles olhos profundos, madeixas longas e sorriso arrebatador, jazia uma assassina de olhar frio, movimentos precisos e mortais. Sim, ele sabia porque já havia visto em primeira mão quando lutaram meses atrás.
Unohana era muito mais velha do que aparentava ser, mesmo após séculos o tempo parecia não fazer questão de passar para a morena. Ela já havia visto muitas coisas, feito muitos atos e, quem sabe, experimentado muitos prazeres pelas mãos de algum outro homem – uma possibilidade que fez o sangue de Naruto ferver. Sendo assim, enganá-lo não seria muito difícil para uma mulher como ela.
“Vou ser sincero e dizer que não tenho certeza, Retsu.” Ele, enfim, respondeu; levemente áspero. “Horas acho que sente algo por mim, outras que apenas me usa como bem entender. Me sinto perdido.”
Retsu continuou com seu sorrisinho presente em seu rosto.
“Ara, o coração de uma mulher é assim mesmo.” Ela pausou, rindo. “Como um mar cheio de águas misteriosas para navegar.”
Ele piscou algumas vezes.
“Mas isso não me impede de perguntar, não?”
“Bem, acho que sim...” Ela disse, evadindo a pergunta mais uma vez,
Naruto pensou por alguns instantes antes de falar novamente.
“Não vou lhe condenar caso for embora.”
“Como?” Agora foi à vez dela de indagar.
“Disse que não vou odiar você caso for embora.” Os olhos dele faiscaram tristeza. “Ou melhor, quando você for embora.”
O sorriso da morena desvaneceu de forma solene, ao mesmo tempo em que seus orbes negros perdiam um pouco de seu brilho. Agora era claro que o loiro tinha plena consciência de que assim que ela recebesse uma mensagem com a ordem de voltar para a Soul Society, ela o faria – sem hesitar. E por mais que ele tentasse esconder, aquilo o machucava; a grande experiência que só o tempo pôde conceder à shinigami sendo o bastante para ver através daquela fachada de apatia que escondia o menino solitário e temeroso; o menino que não queria sofrer o abandono mais uma vez em sua dura vida.
“Você se preocupa demais, Naruto-kun.” Disse Unohana, já engatinhando como um gato em cima do tórax de Naruto; um ar de malícia pairando sobre a mulher. “Apenas relaxe.”
Ele não ofereceu nenhuma resistência enquanto ela lançava delicados beijos por seu peito até subir para sua face; as cobertas da cama já haviam caído no momento em que a morena levantou-se, seu corpo perfeito arqueando-se sensualmente sobre o loiro.
Ao sentir a língua quente de Unohana brincar com sua orelha, Naruto se pronunciou.
“Às vezes me pergunto,” O loiro começou. “se estivesse com Soi Fong estaria mais certo sobre o que estou fazendo.”
A reação foi imediata – ao ouvir o nome da capitã da Nibantai, o corpo de Retsu ficou estranhamente rígido por alguns segundos; madeixas negras cobrindo a face do loiro enquanto a temperatura a seu redor decaiu de forma fantasmagórica.
“Não é muito educado falar em outra mulher quanto se está prestes a fazer amor com outra, Uzumaki-san.”
O tom de Unohana era sombrio e carregado de uma aura intimidadora – não como a aura que usava para com seus subordinados e sim algo de seu lado secreto exalava quando emergia para o mundo. A mulher doce e enigmática de outrora fora substituída pela monstruosidade presa em seu interior; uma monstruosidade que Naruto não fazia a mínima questão de encarar de novo.
E então, tão subitamente quanto se fez presente, a hostilidade se foi; a bela mulher resumiu suas carícias que iam gradualmente evoluindo em gestos mais eróticos. E Naruto...
Bem...
O loiro apenas se entregou para ela e seus prazeres.
Mais uma vez.
Oh sim... Talvez com Soi Fong tudo fosse mais simples...
Quem sabe...
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