Refém... ou não?
2 Medos
Notas iniciais
Acordei naquele quarto novamente. Pois é, estou novamente aqui. Acho que o que eu mais verei pela frente será esse quarto. Será que ficarei trancada aqui por muito tempo? Não quero ficar aqui sozinha. Quero ficar com alguém, pode ser até mesmo "ele".
Fico deitada por um tempo, estou pensando no que eu fiz para estar aqui. Será que é algum tipo de vingança e "ele" está me enganando falando que quer somente o meu amor? Alguém que me ama não me manteria trancada em um quarto. Vou levantar e ver se tem alguma forma de sair daqui.
Levanto-me, a única fonte de luz é a que vem da janela, a luz da Lua. Procuro o interruptor. Vou até o outro lado do quarto, apalpando com a mão qualquer coisa que ajude-me a encontrar algo que me dê luz. Em certo momento toquei algo diferente, algo macio, como se fosse pano. Continuei a tocar aquilo, quero descobrir que objeto estranho é esse que eu não lembro-me de ter visto hoje de manhã. Sinto como um buraco, envio a mão naquela brecha, sinto algo quente e macio, porém cheio de imperfeições. Enfio mais minha mão para sentir aquilo que despertou tanto minha curiosidade. E ao sentir todas aquelas feições, percebo que se trata de uma pessoa. É "ele" sentado na escuridão do quarto, estava vendo-me dormir, não deixou-me sozinha.
— É... você?! — "ele" liga a luz do abajur ao seu lado e vejo que estou diante dele com minha mão enfiada dentro de sua máscara, ainda não consigo ver sua pele, mas a sinto, estou tocando-a. Seus olhos azuis, tão claros que parecem neve em dia de inverno, brilham como se fossem água. "Ele" fecha os olhos sentindo meu toque em si. Há quanto tempo "ele" não é tocado? Há quanto tempo ele não sente alguém?.. Ou alguém não o sente? Também fecho meus olhos para senti-lo. Sua pele... quente... mas com imperfeições. Seriam cicatrizes?
Toca-lo. Essa é uma sensação incrível. Sinto-me diferente. Parece que tenho uma extrema vontade de balançar as pernas, acho que estou hiperativa.
Sinto-o abrir seus olhos. Abro os meus também. "Ele" me encara e abre os braços como se esperasse que eu o abraçasse. E fiz isso. Sentei em seu colo e o abracei, por algum motivo confio nele.
— Achei que estivesse sozinha. Não quero ficar sozinha. — "ele" pegou seu caderno e escreveu com sua linda letra.
"Você tem medo de ficar sozinha?"
— Sim, tenho, tenho muito medo — eu o abracei mais forte e o vi escrevendo em seu caderno. Depois ele virou o caderno para mim e eu me surpreendi com.
"Eu tenho esse medo também. É um trauma de infância."
— Sério? Do que mais você tem medo? — levantei minha cabeça para olhar em seus olhos.
"Promete não rir? É que eu tenho medos de criança". Dei um sorriso com isso.
— Prometo — "ele" pensou um pouco, não sei se estava em dúvida se contava seus medos para a pessoa que ele sequestrou ou se estava reunindo-os.
"Tenho medo do escuro, do fogo... e da solidão."
— São poucos medos. Por que você tem medo do escuro? — "ele" pensou na resposta.
"Porque a minha infância toda eu fui uma criança solitária. Não tinha amigos e minha mãe, minha única família, sempre estava trabalhando, era difícil de vê-la. Essa era minha escuridão, eu tinha que viver com ela. Todos temos que aceitar nossa escuridão, de um jeito ou de outro. Essa escuridão pegou grande parte da minha vida. Quando eu era uma pequena criança, vivia acabando a luz em casa e eu ficava só... e no escuro"
— Mas você estava no escuro há uns minutos atrás. Isso significa que você superou seu medo?
"Acredito que me acostumei ao medo. Tecnicamente... eu ainda estou na escuridão... na escuridão sem ninguém e na escuridão sem luz, eu queria ver quem está em minha frente, mas a escuridão não me deixa."
— Mas quem está diante de você sou eu. Sou sua amiga... eu acho. — "ele" colocou os dedos em meu rosto e o acariciou.
"Não te vejo da mesma forma que você me vê. Te vejo de duas formas diferentes. Mas você não irá compreender. Não vejo sua beleza superficial, nem seu tamanho, nem roupa, nem se você é gorda ou magra... Eu vejo seu caráter. E é por caráter que eu vivo. Você não vai entender.
— E por que eu não entenderia? — estou me sentindo estranha. "Ele" pensa que eu sou egoísta à ponto de não ver a beleza nas pessoas?.
"Não vai entender pois você enxerga tudo isso nas pessoas, querendo ou não você vai ter uma primeira intenção delas."
— Você não sabe, como poderia? — estou me irritando. Está se achando tão superior. "Ele" ficou um tempinho escrevendo
"Não. Eu não sou você. Mas, tenho certeza que ao me ver pela primeira vez, pensaste que eu fosse um sequestrador. Depois você deve ter pensado que eu era alguma pessoa vingativa de seu passado. Agora deve estar pensando que eu me acho superior. Bem... eu não posso me dar ao luxo de pensar mal das pessoas pela aparência delas, mesmo sendo a de um psicopata assassino, eu não posso, não sou a melhor pessoa para julgar ninguém, principalmente se for pela aparência. Depois eu te explico isso direito."
— E o que você queria que eu pensasse de uma pessoa que me trouxe de algum modo, para um lugar que eu não conheço, sem a minha permissão e ainda me amarrou? Tudo bem, vamos parar com essa discursão, apesar de eu ainda não entender direto esse assunto. — "Ele" concordou positivamente com a cabeça
"E seus medos? Quais são?"
— Tenho medo de altura, de cobras, de ficar sozinha, de ser esquecida, de elevadores, de atravessar a rua, de pessoas estranhas, de ser assaltada, de ficar em lugares pequenos... Bastante. — "ele" só concordou com a cabeça, mas não fez nenhuma pergunta. Acho melhor assim, não quero explicar meus medos, alguns nem tem explicação.
"Ele" começou a fazer cócegas em mim e eu quase cai de seu colo de tanto rir. Comecei a fazer nele, mas não deu muito certo pela quantidade de pano, mas quando eu consegui fazer cócegas senti uma grande felicidade em vê-lo rir, sua risada silenciosa me cativa. "Ele" estava rindo quando começou a tossir. Primeiro foi uma pequena tosse misturada as risadas silenciosas, depois não havia mais risadas, somente tosse. Fiquei muito preocupada achando que "ele" fosse morrer. Me levantei de seu colo.
— Ai meu Deus! O que eu faço? — "ele" me apontou para o banheiro, eu juro que percebi essa porta agora. Entrei correndo para lá e vi um cilindro de oxigênio, deve ser isso. Peguei e levei até "ele".
Eu o entreguei a máscara de plástico e rodei um pouco a válvula de escape do cilindro. "Ele" levantou um pouco a máscara que usava, o suficiente para colocar a máscara de plástico do oxigênio em seu nariz e boca. Pude ver um pouco de sua pele, ela era branca, mas em uma coloração meio rosa ou laranja, mas nada muito forte, está de um jeito muito estranho, cheio de imperfeições e espécies de cicatrizes que eu nunca tinha visto antes. "Ele" respira com dificuldade, mas está voltando ao normal.
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