Notas iniciais
Apenas o devaneio de uma espectadora saudosista.

Capítulo 01

Karina estava voltando pra casa depois de seis anos e apesar dos motivos não serem dos melhores, ela estava feliz por estar no Rio novamente.

A cerca de três meses, durante uma luta, ela rompeu o ligamento do joelho direito e fraturou o tornozelo, tudo isso por um golpe mal executado em direção à sua oponente. Logo que chegou no hospital e fez os exames necessários, o médico foi bem curto e grosso: a carreira de lutadora deveria chegar ao fim.

Claro que ela não aceitou tudo pacificamente, ela chorou, esperneou, fez birra, até chegou a afirmar que lutaria mesmo assim e para impedi-la teriam que cortar sua perna fora. Nem parecia a garota de 25 anos que ela era. Ela só se acalmou quando seu pai e Dandara a convenceram de que não era o fim do mundo, e que ela acharia outra coisa pra fazer.

Depois de conversar com o médico responsável, Gael ofereceu a Karina o posto de professora infantil em sua academia. Karina amava crianças e a possibilidade de ensina-las o esporte que tanto amava, animou a loira. Com as esperanças renovadas, ela fez a cirurgia no tornozelo e, após se recuperar, voltou para o Rio.

Dandara ficou com ela até ela poder afirmar o pé no chão e fazer as coisas sem ajuda, o que era duas semanas atrás. Ela era muito grata a sua boadastra, como ela e Bianca chamavam a mulher.

O táxi parou e ela observou a praça José Wilker, que estava vazia de mais para um sábado de manhã. Ela aceitou a ajuda do taxista e se apoiou na muleta que estava auxiliando seus passos.

—Quer que eu leve suas malas pra algum lugar? -O homem perguntou e ela negou.

—Pode coloca-las ali perto do banco? Eu vou ligar pro meu pai. -Ela indicou os bancos de pedra.

O homem colocou as três malas ali e, após receber pela corrida, se foi.

Karina tirou o celular da bolsa e enviou uma mensagem via Whatsapp ao pai.

"Estou na praça, cadê você? Preciso de ajuda com as malas"

Entregue, mas não visualizada. Ela suspirou e buscou o contato de Bianca, digitou a mesma mensagem e recebeu a mesma respostas: nada.

Ela tentou o número de Bete, da Dandara, do João, do Cobra e até do Duca. Ninguém atendia nem respondia suas mensagens. Será que tinham se esquecido de que ela chegaria hoje? Karina olhou em direção à sua casa e viu que todas as janelas estavam cobertas pelas cortinas, ela praguejou e sentiu uma par de mãos delicadas cobrir seus olhos.

Ela tocou as mãos que estavam sobre seus olhos e percebeu que certamente eram mãos femininas.

—Bianca? -Ela arriscou e ouviu uma risada baixa.

—Tente de novo K. -Karina conheceria aquela voz mesmo que se passassem dez anos.

—Tomtom. -Ela exclamou tirando as mãos dos olhos dela e se virando para vê-la melhor. -Você está enorme!

—Claro né, você nunca mais veio me ver. -A garota acusou com um beicinho. -Esse é o Gustavo, meu namorado. -Tomtom indicou o garoto moreno ao seu lado.

—Oi Karina, é um prazer te conhecer. -O garoto apertou a mão dela de uma forma animada. -Sou um grande fã, fiquei triste ao saber que não vai mais poder lutar.

Karina alternou o olhar entre os dois, fazendo Tomtom sorrir.

—Nem me pergunte nada. Se bobear, ele sabe mais coisas sobre você do que sobre mim. -Ela disse empurrando o namorado com os ombros. -Quer ajuda com as malas K?

—Se não for incomodar vocês, vocês poderiam levar até minha porta por favor? Parece que o seu Gael esqueceu de mim. -Ela respondeu se levantando do banco.

Gustavo pegou duas malas e deixou a terceira para Tomtom, que seguiu calmamente com Karina. A loira subiu as escadas lentamente e logo estava à frente da porta.

—Será que tem alguém em casa? -Tomtom perguntou batendo na porta, obviamente sem resultados.

—Quando eu morava aqui, meu pai costumava deixar uma cópia da chave naquele vaso. -Ela indicou o vaso e Gustavo, por estar mais próximo, mexeu nas folhas, erguendo uma chave de lá.

Karina pegou as chaves e mancou até a porta, abrindo-a.

—Surpresa. —O grito ecoou em seus ouvidos.

—Eu não acredito nisso. Seus filhos da... -Ela começou mais foi interrompida por Cobra que correu até ela e tapou sua boca.

—Oi maninha, quanto tempo... -Ele disse beijando a testa dela. -Como você está?

Karina riu e socou o braço dele. Ela observou que tinha bastante gente ali, o pessoal de sua época na academia, alguns da Ribalta, Dona Dalva, até Delma e Marcelo estavam ali.

—Achei que tinham esquecido de mim. -Ela reclamou fazendo beicinho.

—Alguma vez já esquecemos de você, maninha? -Bianca se aproximou e a abraçou fortemente.

—Teve aquela vez, que vocês se esqueceram que eu ia chegar do acampamento e simplesmente saíram pra jantar. Teve também, aquela em que o meu pai deveria ir me buscar na escola, mas foi levar você no ballet, e aquela...

—Ok, chega né Karina? As pessoas vão achar que eu sou um pai ruim. -Gael disse se aproximando da caçula.

—Eu não poderia pedir um pai melhor. -A loira disse abraçando o homem. -Estava com saudades.

—Também estava, que bom que você voltou. -O mestre disse beijando a testa da filha.

Karina cumprimentou a todos e foi praticamente obrigada a se sentar e ser servida. A todo momento aparecia alguém com um pedaço de bolo, ou um prato com salgados, ou um copo de refrigerante.

A loira tentava manter uma conversa com todos, mas Tomtom e Gustavo sempre tinham a atenção dela. Ela ficou sabendo que os dois se conheceram na academia do Gael, onde Tomtom praticava o esporte. Ficou sabendo que Gustavo era um grande fã dela e veio de outro estado apenas para treinar com o mestre Gael.

—Mas tipo, vocês querem lutar profissionalmente? -Ela perguntou e Gustavo assentiu imediatamente.

—Ah, quando eu comecei, eu até pensava nisso. Mas meu pai e minha mãe me convenceram que não era um esporte de garota.

—Ei, eu sou o que? -Karina disse apontando pra ela mesma. -Por você Tomtom, você lutaria?

—Sim... É, eu acho que sim. -A garota disse encolhendo os ombros.

—Então deixa o resto comigo. -Ela piscou pra Tomtom e deixou o copo na mesa de centro.

O celular de Tomtom tocou e ela foi até a cozinha para atender. Karina se levantou e caminhou até Marcão e Zé que conversavam perto da porta.

—Loirinha, que bom te ver. -Marcão abraçou-a pelos ombros. -Se você já era bonita antes, esses anos fizeram muito bem pra você...

—Yo Marcão, larga minha filha tá certo? Quer limpar a academia sozinho amanhã? -O mestre gritou do outro lado da sala, onde Tomtom falava com ele.

Marcão ergueu os braços e Karina revirou os olhos.

—Abre a porta ai Karina. -O mestre gritou ao ouvir a batida na porta.

Karina caminhou os poucos metros e abriu a porta.

—Pedro?! -A loira disse observando o garoto à sua frente.

Claro que ela já tinha visto ele em programas de TV e capas de revista, mas vê-lo ali, braços tonificados e cabelos arrepiados era totalmente diferente.

—Hey K, Tomtom me disse que a galera estava aqui... Posso entrar?

—Claro, pode. -Ela deu passagem pro guitarrista entrar. Ele deixou a pequena mala e a guitarra em um canto e seguiu para abraçar sua família.

Karina se encaminhou para onde Bianca e João que se beijavam em um canto da sala.

—Vocês são nojentos. -Ela disse revirando os olhos para o casal.

—E você é amargurada maninha. -João disse beijando a bochecha dela.

—Você sabe que é estranho pra mim né? Você me chamar de maninha enquanto beija minha irmã. -A loira fez uma careta.

—Você é maluca loirinha, maluca. -O nerd disse se encaminhando para o melhor amigo que conversava com Tomtom.

—Ficou abalada com a visita surpresa do Pedro? -Bianca perguntou observando o guitarrista.

—Apenas surpresa. -Ela encolheu os ombros desconfortável.

—Você ainda é caidinha por ele... -Bianca disse fazendo cócegas na mais nova.

—Não viaja tá Bianca. -Karina disse saindo de perto da irmã e indo até Duca e Nath que conversavam sobre a última luta do Cigano.

Bianca observou a irmã e o guitarrista e sorriu.

—O que você está aprontando agora Bianca? -Jade se aproximou de onde ela estava.

—Vou juntar o casal novamente. -Bianca apontou discretamente para Pedro e Karina.

—O guitarrista agora é famoso, será que ele se contenta com dois mil reais? -A morena disse recebendo um olhar mortal da atriz ao seu lado. -Brincadeira Bianquinha, apenas brincadeira.

Primeiro Bianca precisava saber quanto tempo o guitarrista iria ficar no Rio, para então bolar um plano pra juntar o casal novamente.