- Tom, você está branco, o que houve? — perguntou Caroline, também entrando em desespero.

Eu não sabia o que estava acontecendo, mas senti algo ruim em meu intimo.

- É o Bill, ele sofreu um acidente. Será levado para Alemanha porque lá o tratamento será mais fácil. Minha mãe quem me ligou. – Tom sentara segurando a cabeça com as mãos.

- Mas por que a Alemanha? Aqui ele também será bem tratado. – argumentou a menina que, agora, também chorava.

- Não, minha mãe não quer, ela quer o melhor para ele. Mas não poderei ir com ele devido à faculdade. – respondeu.

- Se irmão faz letras aqui, não? Mas ele não poderá voltar tão cedo?- entrei na conversa.

Na real, eu senti muita pena de Tom, coitado. Eu podia perceber que ele estava desesperado.

- Ele passará por uma cirurgia amanhã e a recuperação dura uma semana, o resto do tempo será de terapia. – respondeu.

Pobre Tom, ele estava desesperado. A cirurgia de Bill seria de urgência, logo se supõe que o estado dele era péssimo. Eu queria fazer algo, mas eu nem ao menos conhecia o menino.

- Eu poderia fazer alguma coisa por vocês, Tom? –perguntei.

- Acho que não. – ele respondeu.

- Tom, eu sinto muito... Tudo o que você precisar, pode contar comigo. -falei.

- Eu não posso ficar sem um namorado, Tom. Fale com Bill e mande-o voltar antes. Eu não quero saber. –Carol agora estava histérica.

- Menina, será que você não entende? Seu namorado está mal, em uma cama de hospital, prestes a passar por uma cirurgia complicada e você aí preocupada com o fato de ter ou não um namorado por perto?!- gritei.

- Yuuki, não se intrometa nesse assunto, ele é meu namorado, não seu. Você acaba de nos conhecer. – A menina retrucou.

- Mas parece que ela se preocupa com ele mais do que você. –Tom retrucou Caroline.

Virei as costas para os dois e fui para meu quarto. Bill... eu conhecia alguém com esse nome. O menino que eu amava, do qual me separei há anos e nunca mais tive notícias se chamava Bill. Mas era impossível que tamanha coincidência fosse possível. Meu coração doía e eu nem sabia por que. Eu sentia o mesmo sofrimento que Tom, eu sabia.

- Não... não é possível. É apenas uma coincidência. – pensei.

Estava pronta para a faculdade. Então peguei meu material se saí. Eu sempre gostei da faculdade que cursava e era a melhor aluna da sala, mas naquele dia, o meu primeiro dia, não consegui me concentrar, pensando em como estaria o irmão de Tom que, pensava, eu nem conhecia ainda.

- Hey, Yuuki, é esse seu nome não? Você é a novata de quem todos falam? Você vem de onde? –um menino me chamava a atenção.

- Hã?... Ah! Sim, meu nome é Yuuki sim. Haam e o seu? Eu sou a novata sim, não sei se sou a de quem todos comentam, mas sou novata também. Vim do Brasil.- respondi.

- Nossa! Do Brasil? Que legal! Me desculpe, eu sou Gustav. –me respondeu o menino.

- É... Gustav?! Nome diferente. –respondi.

- Um pouco ,não é?! Mas Yuuki também é bem diferente. –ele riu — Seja bem vinda à faculdade de letras... Soube que você está na república com Tom, Bill e com a mala da Carol.

- Sim, estou. Ainda não conheci o tal Bill, mas acho que será impossível também... com aquela namorada por perto. –revirei os olhos e sorri.

- Sim, ela é difícil de lidar. Depois vou até a casa de vocês para falar com Tom. Afinal, hoje é sexta e nós sempre comemoramos a chagada de uma Sexta-feira. –Gustav parecia empolgado em ir até a casa onde eu estava.

Não falei nada, mas pensei que Tom não teria ânimo para comemorações naquele dia, mas preferi não contar a Gustav, afinal, eu não os conhecia muito bem e se alguém tinha que dar a notícia, este era o próprio Tom.

- é, é sempre boa a chegada de uma sexta-feira. Mas eu sempre passo o final de semana estudando também, então não há diferença para mim. –respondi.

Eu e a indiferença. Na verdade, eu nunca me importara com finais de semana. Desde que ele fora embora. Desde que ele se fora, eu me dediquei aos estudos.

- Meu Deus, menina! Você então não sabe o que é viver. Acho que você caiu na classe e na casa certa. –ele me respondeu.

- Haan, casa certa? – perguntei.

Uma casa certa? Certa para quê? Eu não sabia, de verdade.

- hahaha’ Tom é conhecido por dar as melhores festinhas particulares aqui no Campus. Ele é o festeiro da turma. E você precisa aprender se socializar mais. – Gustav me respondeu.

Achei aquela resposta uma afronta. Bem, o Tom tinha mesmo uma cara de festeiro, baladeiro e sem vergonha.

O sinal tocou, era o fim da aula.

- Bom,Yuuki, te vejo mais tarde então. – Gustav se despediu e me deu um beijo no rosto.

Me despedi dele e me virei para ir para a minha nova casa.

-Heeey, Novata! –uma pessoa gritou.

Parei para ver quem me chamara. No momento que parei todos da minha sala me cercaram e me deram uma chuva de ovos.

Se não bastasse a minha recepção na república, ainda tinha isso. Todos saíram correndo e gritando boas vindas.

- Hunf’ odeio ser caloura. – falei baixinho.

Fui em direção a minha casa para tomar banho. Era final de tarde. Logo Gustav chegaria, maldito fosse, também me surpreendera com ovos. Nem sabia o que eles fariam naquela sexta, mas eu iria à uma praça no campus, uma muito bonita na qual havia um lago.

- Nossa! O que houve com você? Foi a um galinheiro pegar ovos e as galinhas decidiram se vingar? Hahaha’ – Caroline, ao me ver, tentou fazer uma piada.

- Háha. Muito engraçadinha você. Acho que não, não me lembro de tentar pegar algo no seu quarto. –respondi.

Tom ouviu nossa breve conversa e começou rir. Eu deixei a menina lá, com a maior cara de quem acabara de ser cortada por uma resposta espetacular, e subi para meu quarto.

-Tom, Gustav disse que vem para cá hoje. Muito simpático o seu amigo. E, a propósito, diz pra ele que eu não preciso aprender a me relacionar com ninguém. – falei enquanto subia.

Tomei meu banho, tirei minhas roupas da mala e as coloquei no guarda-roupa, coloquei um moletom surrado, um tênis e desci para comer algo e depois ir para a praça.

- Como foi seu primeiro dia na faculdade, Yuuki? – Tom me perguntou.

- Conheci seu amigo Gustav, tive aulas, e tomei uma chuva de ovos. Nada demais. – respondi.

-Você é sempre irônica assim ou só quando está estressada?- Tom me perguntou com um meio sorriso no rosto

-Depende do dia. Eu não controlo minhas ironias. –respondi.

Sentei-me à mesa com Tom e Caroline. A mesa estava posta.

- Nossa, que mesa linda, foi você quem arrumou, Caroline? –perguntei.

- Não, fui eu mesmo. Arrumei tudo. As refeições por aqui são feitas por mim, a princesinha aí não faz nada.- Tom respondeu, me surpreendendo.

-Nossa! – a única coisa que pude responder.

Além de lindo, ele também cozinhava, e arrumava as coisas. Senhor, será que seu irmão também era assim? Se Tom não fosse tão sem vergonha (será que era mesmo?)... Seu irmão eu não poderia nem olhar por algum tempo. Mas, mesmo que eu o visse, não poderia sentir nada, pois ele tinha uma namorada, a Caroline.

Gustav também não era nada mal, muito atraente. Mas não mais que Tom. A diferença era que Gustav era mais calmo, menos sem vergonha e parecia mais intelectual.

O jantar seguiu em silêncio, eu não tinha o costume de conversar durante as refeições. Ao terminarmos o jantar, ajudei Tom a arrumar as coisas, enquanto Caroline ia para o quarto se arrumar para ir ao shopping com as amigas.

- Eu vou sair, caso precise de mim, estarei na praça, escrevendo e pensando um pouco. — falei.

- Tudo bem. Daqui a pouco o Gustav chega, não quer ficar aqui conosco? Vai ser bem legal. Tentar esquecer que meu irmão está mal, no hospital. — Tom respondera.

- Obrigada, mas não quero estragar uma noite de rapazes. – tentei ser o mais simpática possível.

Saí em direção ao parque, sempre gostei de ficar em lugares inspiradores, refletindo sobre a vida e escrevendo. Neste dia, em especial, não sei a razão, fiquei pensando em Bill e no que poderia ter acontecido com ele e senti que o conhecia, mas não lembrava de onde. Sim, eu conhecera um Bill, o que se despediu de mim e que prometera sempre se lembrar, mas que na primeira oportunidade que teve, me esqueceu. Mas seria muita coincidência.

*lembrança*

- Você escreve bem, pretende seguir carreira na área de letras? – ele me perguntou.

- Talvez, posso mudar minha opinião mais tarde, mas por hora, a faculdade de letras é a que mais me atrai. – respondi.

- Que idiotice, Yuuki, eu farei exatas, é algo mais para gente normal. – Tom caçoou de mim.

- Cale a boca, Letras é legal sim. Eu não sou muito bom em escrever ou ler, mas por você, yuuki, eu até penso em fazer essa faculdade, eu até me esforço mais no colégio para ser um pouco melhor na matéria. – Bill dissera.

Eu fiquei com vergonha no momento, mas sabia que ele faria aquilo por mim, eu sentia.

*fim da lembrança*