Reencarnaciòn
1 Prólogo - Amaldiçoado seja o amor
Notas iniciais

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder, para me encontrar
(Trecho do poema ‘Amar’, de Florbela Espanca)
PRIMEIRO ATO –
Amaldiçoado seja o amor
♣ Themyscira || Ilha Paraíso || Lar das Amazonas ♣
Os homens não sabem disso, mas localizado no vasto Mar Egeu, há um paraíso escondido chamado Themyscira, lar de uma raça imortal de mulheres guerreiras. A rainha Otrera, rainha deusa das amazonas, criou a ilha com a intenção de fazer dela um exemplo, que serviria de inspiração às sociedades que almejam a paz e a justiça.
Contudo, o objetivo da rainha fora comprometido quando, há mais de mil anos antes de Cristo (a.C), a princesa Hipólita, filha de Otrera, deixou-se corromper, seduzida pelo mais conhecido de todos os semideuses: Hércules, o filho preferido de Zeus.
Enciumada com as predileções de seu esposo, o rei do Olímpo, pelo filho concebido por uma mortal – agindo indiretamente para favorecê-lo mais que a qualquer outro filho, semi-deus ou deus – Hera executara seu plano de vingança contra o marido infiel, tramando contra seu amado protegido.
A rainha dos deuses gregos cuidou para que o enfeitiçassem, fazendo-o louco e irascível o bastante para assassinar sua mulher e filho. Para então, com o subterfúgio de dar-lhe a punição merecida, condená-lo a realizar uma dúzia de tarefas mortais e impossíveis de serem cumpridas. Que a mitologia grega chama de ‘Os 12 trabalhos de Hércules’.
Um deles determinava que Hércules deveria encontrar o Cinturão Sagrado de Ares, guardado pelas guerreiras amazonas, em sua ilha. Segundo o deus da guerra, o poderoso artefato confeccionado por Hefesto estava escondido à sete chaves – E apenas a rainha, sua filha e sua general da guarda real tinham conhecimento do local e acesso à ele.
Otrera recebera o filho de Zeus com honras – festejando por dias sua estadia. Então certa noite, enfeitiçada por suas paixões indomáveis despertadas pela sedução do semi-deus, Hipólita o levou para sua cama e canções sobre o encantamento irracional de Hipólita, que caíra sob o véu da sedução de Hércules, são cantadas pelas musas até os dias de hoje – como exemplo da vilania masculina.
Na manhã seguinte, tendo roubado o Cinturão, Hércules partiu, deixando as amazonas sob o domínio e o escárnio do exército doriano, que o trouxera à Ilha.
A escravidão durou 15 longos anos: as amazonas sofreram estupros constantes, violência desmedida, tortura e abuso físico e emocional. Uma humilhação da qual as guerreira jamais se recuperaram — justificando sua raiva e desconfiança eterno dos homens.
Após a morta da rainha Otrera, durante o martírio, Hipólita liderou a revolta que libertou as amazonas – uma luta feroz e armada contra seus algozes.
As amazonas oraram aos deuses em busca de proteção, para viverem em paz. Entretanto, ainda que dispostos a atendê-las, seus deuses patronos não poderiam realizar qualquer feito à revelia. Tudo tinha um preço – seja benefício ou prejuízo. Um preço que após anos de escravidão, elas aceitaram prontamente pagar.
Os deuses fizeram então de Themyscira um paraíso escondido do mundo. Sua ‘mágica’ isolou o local, desfrutado desde então apenas pelas amazonas que sobreviveram ao martírio dos dorianos.
O preço?
“Obedecendo às Leis Universais da criação – que nos exige manter o equilíbrio no uso de nossos ‘dons’: Para tudo que lhes é dado, uma contrapartida lhes será cobrada”, exortou Hera, deusa do lar e da família, rainha dos deuses gregos.
“Sua proteção eterna lhes será concedida. As bênçãos dos deuses sobre vós e sua casa, livrar-lhes-á da maldade do patriarcado; da cobiça e da sedução do homem; de serem maculadas pela mão da morte. Nenhuma amazona testemunhará o fim da vida de outra. Vocês, de agora em diante, serão imortais”, determinou Atena, a deusa da sabedoria.
“Contudo... Toda benesse merece igual benefício. A prova de sua virtude, dedicação e devoção nos é suficiente. Desde que obedecida, como demonstração de sua resignação. A desobediência será severamente punida”, destacou Apolo, deus do sol, da arte e da Medicina.
“Maldito seja a paixão de uma amazona por um homem. Amaldiçoada seja aquela que se deixa contaminar pelas flechas venenosas da paixão que eles despertam. Maldita seja aquela que desonrar a palavra consagrada de seu povo; amaldiçoada seja a deslealdade daquela que desobedece seus deuses”, coube a Afrodite, deusa do amor, verbalizar a maldição.
“Mortal ou semi-deus; digno ou indigno; virtuoso ou maligno; rei ou vassalo; senhor ou escravo... Todo aquele que ousar apaixonar-se por uma amazona cujo sentimento lhe seja recíproco, será punido com o sinal da morte. Toda aquela que se deixar enfeitiçar pela luxúria de um homem, terá como castigo ser ferida profundamente pela morte. Ter o espírito rasgado pela dor de ter o homem a quem dedica seus afetos tomado de si por ela, com violência, diante de seus olhos... Será condenada à pena cruel de uma vida eterna evitando o sentimento mais nobre e inebriante que um dia experimentara. Para não condenar à morte o homem que vier a amar e não reviver a dor alijante da separação”, sentenciou Deméter, a deusa da colheita.
♣ Themyscira || Ilha Paraíso || 500 anos depois ♣
Os homens eram proibidos de entrar na ilha, mas isso não se aplicava aos deuses. Hades, senhor supremo do submundo, apaixonado pela rainha Hipólita, guardiã dos portões do inferno. Era comum que ele lhe fizesse constantes visitas noturnas, sem que fossem punidos – por dois motivos: Hipólita não se apaixonara por ele. Hades era um deus... Livre da maldição.
Ao tentar uma guerra contra o Olimpo, para destronar seu irmão Zeus, com a ajuda de Ares, Hades foi banido eternamente, obrigando Hipólita e as amazonas à missão, imposta por Zeus e Hera, de guardar os portões do Tártaro pela eternidade.
Solitária e sem companhia do homem que depois veio a amar, após tantos séculos, Hipólita implorou aos deuses por uma filha. E teve o pedido concedido.
A rainha conta a história que Athena e Hera aprovaram seu pedido e, a partir do barro, moldado em conjunto com Hades, quando ainda eram amantes, a menina de lindos olhos azuis e cabelos negros foi trazida à vida. Mas os cabelos negros de Diana não negam sua real paternidade.
À criança foi concedida: A força de Gaia; a velocidade de Hermes; a beleza de Afrodite; a sabedoria de Athena; a expertise e sentidos super-aprimorados da deusa da caça, Artemis; resistência e durabilidade de Apolo; e cura acelerada, dada por Deméter.
Seu nome: Diana!
(...)
Quando 1.500 anos depois, sua filha, a campeã dos deuses, decide ir ao mundo dos Homens, Hipólita ora aos deuses que Diana não sofra com a maldição que ela trouxe à suas irmãs.
Tendo o pedido concedido pelos Deuses, que tinham em mente renovar a fé e devoção dos mortais neles – que perdiam cada vez mais sua influência sobre os homens, dividindo espaço com inúmeras outras divindades, a exemplo das nórdicas, romanas, egípcias e demais deuses pagãos.
Diana estava livre para explorar o mundo patriarcal.
A única exigência dos deuses era que sua primeira visita fosse à Grécia, mais precisamente: Esparta!
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