Se passou mais um dia, como outro qualquer. Me deitei e esperava o sono vir, é neste momento que vem os pensamentos. Girando atordoados em minha mente, pensando em o que poderia ter digo ou feito. Talvez fosse melhor planejar o amanhã, e então me lembro do que está por vir. Apenas uma semana de férias, e escola novamente. Eu acho que escola não é apenas um lugar onde te ensinam matérias que muitos só usam para passar no vestibular. Mas também te prepara ao futuro, chefe, pessoas que só querem te ver cair, seus amigos, sim estou falando do trabalho.

Uma semana se passou rapidamente, e então o primeiro dia, não conhecia ninguém, era uma nova escola. Me mudei três vezes nos últimos dois anos. Não era mais novidade, o ambiente muda, as pessoas mudam, porem continua sendo a mesma coisa. Dormi pouco noite passada, minha mãe me acordou aos gritos, dizendo que eu estava atrasada. Levantei e me arrumei com pressa, passei apenas um lápis para contornar os olhos e penteei meus cabelos. Eu não sou uma garota de características diferentes, tenho olhos castanhos um pouco esverdeados, meus cabelos são escuros e sou pálida, mesmo com horas ao sol, só ficava vermelha como um pimentão. Desci apressada e meu irmão já estava no carro.

– Bom dia pra você também, Nathan. — Disse com um tom de ironia na voz.

– Bom dia baixinha, animada?

– Não muito, e você?

– Claro, já vou buscar algum curso de luta.

Meu irmão lutava jiu jitsu na nossa antiga escola, sempre gostou desses esportes violentos, acompanhei ele em alguns torneios mas logo desistia de assistir, só ia por ele. Quando alguém nos via juntos já sabíamos que éramos irmãos, seu rosto era bem parecido com o meu,mesmo não sendo meu irmão de verdade. Quando chegamos ao colégio, vi que ele era realmente gigante, como iria me encontrar ali dentro? Meu irmão desceu e foi logo aos amigos que tinha feito no nosso novo bairro.

– Esta tudo bem, querida? — Disse com um tom calmo.

– Sim, tranquilo.

Sai do carro colocando meus fones de ouvido com Nickelback tocando ao ultimo. Adorava ouvir musicas nesse estilo, apesar de ser bem eclética, ouvia de tudo. Procurei meus horários de aula e ele demorou muito tempo para sair, quando entrei na sala já era o final do segundo tempo. Uma mulher muito simpática me levou a porta da sala, a próxima aula era Física. Entrei e logo procurei um lugar vago para me sentar, todos olhavam para mim e comentavam.

– Qual é o seu nome garota? — perguntou o professor.

– Nathalie. — gaguejei.

– Nathalie Branco?

– Isso mesmo.

– Sou o professor Sauler, seu professor de Física. Vamos fazer duplas e queria que você se sentasse com o Pietro, ele vai te auxiliar no que precisar.

Levantei e fui em direção de um garoto sorridente, ele me explicou algumas coisas do colégio e foi realmente simpático.

O dia cansativo passou, cheguei em casa e meu irmão já estava almoçando, nossa família era bem diferente das outras famílias. Anos depois de o governo ter distribuído jovens, que cometeram crimes para famílias novas, eu e meu irmão fomos obrigados a ficar com a família adotiva. Todos os problemas de rebeliões contra a política já tinham se cessado, apesar de existirem erros no governo. Alguns jovens foram raptados, retiraram suas memórias e os enviaram para famílias novas, sendo que nunca cometeram crimes algum. Como também, poucas pessoas que não cometeram crime algum escolheram esquecer a vida que levavam e recomeçar outra. A partir deste momento, foi implantado um nova lei, seria avaliado a ficha técnica de antes da memória do individuo ser excluída e se ele desejasse se lembrar novamente teria que recuperar a memória por direito. Porem seriam eliminados do programa e ficariam sem família ou ajuda financeira. Com essa regra muitos ficaram em um abrigo que se chamava "abrigo das memórias" , como não tinham outra escolha. O pior, era as famílias que ficavam sem os filhos e sofriam por isso.

Nathan e eu, optamos por não se lembrar, não recuperar as memórias perdidas, cada um com seu próprio motivo, não queria saber se eu matei alguém, ou se quis esquecer de uma vida passada ruim que tive. Simplesmente queria recomeçar.

— Como foi a escola? Quase não te vi hoje...- Disse Nathan

— Foi normal Nathan, nada novo.

— Quando passei no corredor, te vi conversando com o Pietro, dizem que ele não bate bem da cabeça.

— Que bobagem é essa? Ele foi bem gentil comigo.- Disse tentando parecer natural.

— É só o que dizem. — Falou com um tom de aviso.

Almocei e subi para ver como estava Nala, minha gatinha. Nos últimos anos, mudando sempre de casa, encontrei uma gatinha que estava sendo doada por uma moça jovem. Ela tinha dito que não poderia ficar com a gatinha e então eu pedi para adota-la, no inicio não aceitaram muito a ideia, mas hoje ela é nossa queridinha. Assim que cheguei a porta do meu quarto, Nala veio se roçando em minha perna, peguei ela no colo para acaricia-la.

— Oi fofinha, como você esta? Gostando da casa nova? Nala ronronou com o meu carinho e correu para de baixo das minhas cobertas se enroscando.

— NATHALIE, AQUELE SEU AMIGO ESTA AQUI NA PORTA, DISSE QUE QUER FALAR COM VOCÊ. — Gritou o Nathan da porta de casa. Desci as escadas pensando em quem poderia ser, alguém da antiga escola, ou do antigo bairro. Assim que cheguei vi Pietro sorridente me esperando.

— Ah! é você...

— Pareceu se desanimar agora, esperando alguém em especial? — Não! Não exatamente, mas do que precisa?

— Nada, só queria te mostrar o bairro.

— Tudo bem então. Saímos caminhando pelo bairro, era realmente bonito, estava escurecendo e ventava um pouco. As luzes já começavam a acender e a cidade ganhar vida, apesar do fim de tarde, muitas pessoas ainda estavam na rua andando e conversando pelas ruas.

— Gostando de tudo? — disse me olhando com um ar calmo.

— Comum, mas realmente bonita. Pietro era magro, seus cabelos eram curtos e escuros como seus olhos. Ele tinha um sorriso feliz e era tranquilo com tudo.

— Você se passa de superficial, com frases curtas, sei que você esconde mais. — Pietro disse sorrindo.

— Você vai precisar de semanas pra descobrir mais de mim — disse rindo com um tom de brincadeira

— Triste, mas até lá te arranco algumas informações.

— Quem sabe? Me fale de você... — disse sorrindo

— Bem, eu como poucos da escola sou filho dos meus pais, claro que sou filho dos meus pais, mas estou dizendo que não fiz nada para o governo e também não me tiraram da minha família.

— Jura? Acho que nunca conheci alguém assim. — Disse surpresa.

— Sim, tenho fotos antigas de quando eu era criança com meus pais, não sei se concordo que todas as pessoas praticaram algum crime ou escolheram essa vida sem nem querer saber a verdadeira identidade, não conhecer a família.

— Nunca pensei assim, mas se em algum momento queria esquecer algo eu deveria esquecer... Voltamos para casa já estava escuro, entrei e me despedi de Pietro, antes de fechar a porta ele disse:

— Pense se queria mesmo esquecer...