Redemption

2 No corpo, a guerra. No toque, a rendição


Rey

Rey não contou a ninguém que partiria sozinha. Era uma missão secundária, uma interceptação simples de suprimentos em um planeta do Borde Exterior, um ponto quase esquecido pela guerra. Informações recentes apontavam para presença de armas da Primeira Ordem ali, mas não parecia significativo o bastante para envolver toda a equipe. Ela decidiu ir sozinha, alegando que confiava em seus instintos.

Não era mentira. Só não revelou o que realmente esperava encontrar nesse planeta.

O planeta, chamado D’Qin, era desolado, com terrenos áridos e uma atmosfera densa de poeira metálica que deixava o céu permanentemente coberto de nuvens laranjas. Rey pousou sua nave sem dificuldades, mas algo estava errado desde o início. O local parecia quieto demais.

Quando se afastou do veículo para vasculhar um dos armazéns abandonados, foi emboscada.

Quando o primeiro tiro veio, ela não se surpreendeu, apenas reagiu. O sabre azul se acendeu com um estalo furioso, e a luz cortou a sombra. Quatro soldados da Primeira Ordem surgiram de onde não havia nada, como espectros. Eles não gritaram ordens, não hesitaram, apenas a atacaram.

Ela bloqueou os disparos com precisão, cada movimento uma dança de sobrevivência. Quando um deles avançou com uma lâmina de vibro, ela desviou, girando com o corpo inteiro, e enterrou o sabre em seu peito. Outro veio por trás, ela se abaixou, cortando a perna dele e girando para afastá-lo, mas o terceiro foi mais rápido. A lâmina passou rente ao seu ombro, abrindo a carne com um ardor abrasador.

Ela gritou, girou sobre o calcanhar e, com um movimento instintivo, decepou o braço do agressor. O sangue jorrou vermelho e quente, mas ele não caiu. Avançou novamente com a outra mão, o rosto por trás da máscara uma sombra de fúria.

E então, como se o próprio inferno tivesse se aberto no chão, um sabre vermelho surgiu entre eles.

Um sabre vermelho familiar em forma de cruz. Vivo e furioso.

O som do impacto foi surdo e a lâmina atravessou o peito do soldado do braço decepado como se carne fosse papel. O corpo parou, convulsionou... e caiu.

Rey recuou um passo, arfando. O calor do combate ainda vibrava sob sua pele. Sangue escorria de seu ombro até o pulso, misturando-se à poeira espessa do chão.

O quarto soldado, aquele que a salvara, estava diante dela. Parado. Máscara escura. Respiração calma.

Ela sabia. Sabia antes mesmo que ele erguesse as mãos e tocasse o capacete com lentidão, como se relutasse em revelar o inevitável.

Ben Solo. Kylo Ren.

Rey apertou o ferimento no ombro e respirou fundo.

— Claro — ela disse entre os dentes, sem conseguir impedir o sarcasmo. — Você. Embora não precisava ter me ajudado, mas... obrigada mesmo assim.

Ele não respondeu. Apenas permaneceu parado. Alto, impenetrável, com a armadura escura coberta de poeira e o sabre ainda em punho, pulsando com uma luz vermelha que parecia viva, pulsante, irritada. O capacete de soldado que usava caiu com um leve tilintar metálico quando ele o retirou lentamente, revelando o rosto que ela não via de perto há meses.

A luz tremeluzente desenhou sombras em seu rosto exausto. As olheiras mais profundas. As cicatrizes mais evidentes. Ele não era o mesmo, ou talvez fosse, mas enterrado mais fundo do que nunca. Ben Solo. Kylo Ren. Ambos estavam ali, sob a pele que ela conhecia como nenhuma outra.

— Você veio sozinha. — Ben disse finalmente, a voz baixa, áspera, como se cada palavra lutasse contra algo dentro dele antes de ser liberada.

— E você finalmente não está me ignorando — ela respondeu, sem esconder o tom de acusação, os olhos fixos nos dele. — Queria que fosse em um lugar melhor, no meio de um campo de flores por exemplo.

Os lábios dele se moveram, como se fosse sorrir, mas não havia nada leve ali.

— Eles estavam certos sobre você — ela continuou. — Todos eles. Leia. Finn. Poe. Luke. Han Solo.

— Talvez — Disse Kyle. —Acredite neles e pare de tentar o impossível.

Ela soltou uma risada seca, e por um momento quase se esqueceu da dor no ombro.

— Ah, você é mesmo um caso perdido. Teimoso como uma mula. Mas mesmo assim... mesmo assim eu...

Ele ergueu o olhar lentamente e a interrompeu.

— E você ainda assim acha que pode me salvar?

— Não. — Ela deu um passo à frente, firme. — Eu acho que posso parar você. Fazer você enxergar. Porque você não está perdido, Ben. Só está fugindo.

Ele franziu o cenho levemente com as últimas palavras, mas não respondeu. A raiva nos olhos dela não era a mesma que ele estava acostumado. Não era ódio, era mais como se fosse frustração. Desespero e cansaço.

Houve um silêncio entre eles. Um silêncio feito de todas as palavras que nunca disseram. De todos os toques que nunca aconteceram.

— Mas eu sei que posso te ajudar — ela disse finalmente, e dessa vez a voz era mais baixa, quase um sussurro. —Colocar juízo nessa sua cabeça idiota. Te fazer ver que você não precisa continuar com isso.

— Eu não preciso? Esse é quem eu sou, Rey! — Ele riu, mas o som soou vazio, forçado. Quase uma súplica disfarçada. — Já passou da hora de você entender… Ben Solo morreu.

Sua voz vacilou por um instante.

—Não adianta mais, Rey.

Adiantaria se você tentasse. — Ela rebateu —Mas você prefere fugir. Porque é mais fácil se esconder atrás desse nome do que encarar quem você foi. Do que encarar a dor de tudo o que perdeu... e de tudo o que ainda pode perder.

Ele a encarou, como se cada palavra dela fosse uma lâmina se cravando em sua pele.

— Você não entende... — sussurrou ele, quase com raiva. — Eu matei Ben Solo. Não tem nada aqui pra salvar.

Você está aqui agora, Ben. Está olhando pra mim, respondendo, hesitando. Isso não é Kylo Ren. Isso é o que sobrou de quem você realmente é. E é suficiente. Pra mim, é suficiente.

Ele respirou fundo, os olhos brilhando com algo entre raiva e desespero.

— Você não entende... Eu não sei mais quem eu sou sem a dor. Sem a raiva, sem a guerra. Você olha pra mim e vê esperança. Mas tudo o que eu vejo quando me olho no espelho... é ruína. E você... você merece mais. Eu preciso te proteger de mim.

Você não tem o direito de decidir isso por nós dois! — ela explodiu, a dor transbordando. — Você não pode simplesmente se fechar, sumir, e dizer que está me protegendo. Isso não é proteção, é fuga! Você está se escondendo atrás do medo. Do medo de sentir, de errar, de amar... de mim.

—Não é medo — ele murmurou. — É a minha escolha.

Ela o encarou por um momento, o coração apertado no peito.

— Então escolha lutar. Por você e por nós. Ou, pelo menos, admita que está jogando tudo fora por orgulho. Porque, se você realmente acreditasse que me afastar era o certo... não estaria sofrendo tanto agora.

Silêncio.

Ele desviou o olhar dos olhos dela com dor.

— Ben... — ela sussurrou, se aproximando ainda mais. — Você não está sozinho. Nunca esteve.

Ele cerrou os dentes, a voz áspera e cansada:

— Desista.

— Não, Ben. Eu vou fazer você mudar de ideia.

Ele riu, sem humor e voltou a encara-la.

— E o que vai fazer? Vai me dar sermão até eu me render?

— Não — ela respondeu, e sua mão se ergueu, firme, puxando o sabre para si com um estalo de energia. — Vou te dar uma surra até você parar de agir como um covarde.

Os olhos dele se estreitaram, surpresos. Por um segundo, parecia pronto para responder com ironia. Mas a expressão se desfez, dando lugar a algo entre dor e alívio.

— Você realmente veio até aqui... pra me enfrentar?

— Eu vim até aqui pra te acordar. Se for preciso te derrubar algumas vezes no processo, que seja.

— Então venha — ele murmurou, ativando seu próprio sabre, o vermelho vibrando no espaço entre eles. — Me mostre o quanto se importa.

— Com prazer — ela disse, e avançou.

O sabre vibrou com um rugido azul, vibrando em sua mão como uma extensão do próprio coração. Kylo sacou o dele com a mesma rapidez, a lâmina vermelha estalando como fogo líquido. O choque entre as espadas preencheu o galpão com faíscas e relâmpagos de energia crua, azul contra vermelho, luz contra sombra.

Eles se moviam em círculos apertados. Não havia gritos. Não havia ordens. Apenas o som da respiração entrecortada, do metal raspando contra metal, da poeira erguida pelas botas e do impacto das lâminas colidindo com fúria.

Era uma dança, mas sem ritmo. Uma luta, mas sem ódio. Um confronto nascido de tudo que não foi dito. De tudo que ficou preso na garganta, sufocado por orgulho e medo.

— Você podia ter voltado! — ela gritou, empurrando com a força, fazendo-o recuar dois passos.

— Você podia ter me deixado! — ele rebateu, atacando de lado, e ela mal teve tempo de bloquear.

— Você me afastou!

— Você não entende!

— Então me faz entender, droga! — Ela girou, o sabre cortando o ar com um assobio, e ele desviou por pouco, sentindo o calor da lâmina passar rente à sua pele.

Ele recuou, o peito arfando, mas os olhos fixos nela. Havia algo ali, algo profundo de uma dor que nunca desapareceu.

— Eu tentei parar. Eu tentei ficar longe. Porque quando eu estou perto, Rey, tudo se quebra. Eu estou quebrado!

— Então que seja! — ela gritou. — Quebre tudo! Mas me deixa ver quem você é de verdade, ao menos uma vez!

A resposta dele foi um golpe forte, desesperado, que quase a derrubou. Ela cambaleou, mas se manteve firme no último segundo.

E naquele momento, quando as espadas se tocaram outra vez, algo cedeu.

Não havia mais movimento. Só o som das lâminas chiando entrelaçadas, os rostos próximos demais, as respirações pesadas se encontrando no espaço estreito entre eles.

Ela podia ver os olhos dele. Não os de Kylo Ren. Mas os de Ben. E ele, por um instante, viu nela mais do que a inimiga, mais do que a ameaça, viu o lar que nunca teve coragem de pedir.

— Eu te odeio... — ela sussurrou, empurrando-o com a força do sabre. — Por me fazer sentir isso.

— E eu odeio a mim mesmo... por tudo. — A voz dele quebrou. — Mas não consigo parar.

Ela o empurrou com a Força, cheia de raiva pelas palavras dele e ele cedeu ficando de joelhos. O sabre escorregou de suas mãos e caiu no chão.

Rey ficou ali, arfando, o sabre azul ainda tremendo com ela de pé o encarando.

— Me mata então — ele disse, abrindo os braços e deixando o peito exposto, os olhos fixos nos dela. — Se é isso que vai te libertar.

Mas ela não o fez.

Lentamente, ela largou o sabre no chão e caiu sobre ele, se ajoelhando ao seu lado. As mãos ainda trêmulas. A respiração descompassada.

— Rey...

— Você sabe — ela disse, a voz rouca, apontando o dedo para ele. — Você sempre soube. Não tem volta pra mim... se você morrer. E mesmo assim você continua se jogando no escuro como se não tivesse ninguém que se importasse com você.

— Você não entende... — ele balbuciou.

— Então me explica — ela exigiu. — Me explica por que você prefere o vazio à verdade.

Ele estremeceu. Eles estavam tão próximos.

Um segundo de hesitação e Kylo se curvou. E a boca dele encontrou a dela com violência.

O beijo foi brutal, sujo, impaciente. O primeiro beijo de verdade.

Nenhum dos dois sabia o que estavam fazendo, ou talvez soubessem, mas não se importassem com as consequências. Os dedos dela cravaram nas costas dele com força, puxando-o mais para perto, como se finalmente tivessem rompido uma represa. As mãos dele seguravam o rosto dela com urgência, como se a qualquer momento ela fosse se desfazer.

A dor desapareceu. A guerra desapareceu. Não havia mais Jedi nem Sith. Não havia Primeira Ordem nem Resistência. Apenas duas pessoas quebradas, se agarrando uma à outra como se aquele fosse o único momento verdadeiro de suas vidas.

Kylo a ergueu no colo e a levou para um canto escuro e mais limpo do galpão, os corpos ainda quentes da luta, e ali se deitaram sobre um sofá velho. O toque dele era áspero, os dedos calejados, e mesmo assim cuidadoso. Rey sentiu o calor dele como se fosse uma febre e se entregou por inteiro, sem promessas, sem perguntas. A boca dele descia por seu pescoço como se buscasse algo perdido, e ela o puxava de volta sempre que ele tentava afastar-se.

Eles se amaram como quem luta para sobreviver, como quem sabe que a manhã seguinte pode nunca chegar.

Não houve palavras durante o ato, mas cada toque dizia o que nunca ousaram confessar. Amor, talvez. Desejo, com certeza. Entrega. E, acima de tudo, saudade.

Quando Rey adormeceu, cansada, depois de um tempo, a respiração dele ainda tocava sua pele, porém ao acordar, horas depois, sem saber como chegou em sua nave, ele não estava mais lá.

Ben

Notas finais
Até a próxima.