Red Rain
1 Red Rain
Notas iniciais
O rock alto e pesado reverberava por todo o quarto cheio de posters de cantores famosos e paredes roxas. Na cama alta de solteiro estava uma jovem deitada de barriga para cima, uma perna coberta por couro preto por cima de outra, o lábio vermelho pelo batom era mordido por impaciência e algo mais, uma mexa do cabelo escuro curto ao estilo chanel era enrolado por um dos dedos.
Um suspiro escapou pelos lábios da garota, ela virou a cabeça para o lado, para a porta do banheiro do quarto e disse, mal humorada:
— Você morreu aí dentro?
Teve como resposta um suspiro alto e logo a porta estava aberta, revelando Amora vestida em roupas pretas, uma saia curtíssima e uma blusa que parecia ter sobrevivido à guerra, seus saltos a deixavam quinze centímetros mais alta. A maquiagem forte a transformava em outra pessoa. Julieta, na cama, levantou-se em um pulo, avaliando a melhor amiga de cima a baixo seriamente.
Amora abriu os braços rapidamente, de repente não tão certa sobre seu figurino.
— Então. – Ela começou insegura. – O que achou?
Julieta sorriu, levantando-se da cama e caminhando até a outra. Ela usou um dos dedos para limpar o excesso de batom vermelho no canto da boca de Amora. Quando o serviço estava pronto, ela segurou o rosto da amiga entre as mãos e disse, olhando em seus olhos:
— Acho que hoje você perde a sua virgindade.
Amora riu, afastando-se e pegando sua bolsa. No caminho para fora, ela desligou o som, deu uma última olhada no espelho, arrumando uma última vez os cabelos castanhos claros.
As duas amigas estavam esperando por aquele show desde que souberam de seu acontecimento. Os pais de Julieta eram muito mais liberais e miscigenados, a mãe da morena era uma das criaturas que os pais de Amora tinham medo. Sua amizade com a garota era proibida, assim como a ida àquele show em particular, mas eles tiveram que viajar a trabalho ao mesmo tempo e é claro que Amora não iria deixar passar uma oportunidade como aquela.
Amora até que entendia as razões dos pais. Nesses tempos, era preciso ter cuidado e sair tarde da noite ia contra essa regra, assim como ir a um show de rock, onde com certeza haveria uma grande concentração daqueles que seus pais odiavam, os que representavam um perigo maior que os ladrões convencionais, os ladrões de sangue.
Os vampiros.
Mas Amora amava aquela banda. Red Rain era composta por alguns vampiros, inclusive o vocalista. Era comum escutar sobre mortes durante seus shows, mas só acontecia se um dos humanos passasse para o lado dos vampiros, coisa que Amora não iria fazer e, ela confiava, Julieta iria protegê-la com sua descendência meio-sangue.
Mas sua missão mais importante para aquela noite era o que Julieta estava tão certa de que aconteceria, perder a virgindade. Seja o que fosse, com quem fosse e onde fosse. Amora estava decidida.
O carro onde ela estava deu uma guinada, parando bruscamente em frente ao estacionamento. O carro de Julieta era uma coisa velha, praticamente uma relíquia das falidas fábricas de Henry Ford.
As duas saíram do carro, Amora segurando a saia perigosamente curta. Julieta dirigiu-se até o recepcionista, entregando as chaves e, enquanto ela preenchia as perguntas básicas no formulário e recebia sua senha, Amora observou o braço de ferro do estacionamento erguer o carro na vertical e coloca-lo em um cubículo que parecia bastante com um elevador e subir no ar, virou a esquerda em direção a sua vaga e desapareceu.
Julieta pegou em seu braço e arrastou-a para a entrada, retirando seus ingressos de dentro do sutiã. Ela estendeu os ingressos para um homem grande e forte que os colocou em uma caixa ao seu lado. O homem pegou um instrumento pequeno, do tamanho de uma caneta com uma ponta extremamente pequena, como uma agulha e abriu a outra mão. Julieta, acostumada com esses locais, estendeu o braço que foi pego sem nenhuma delicadeza. Foi com certo espanto que Amora viu a agulha afundar no dedo indicador de sua amiga. Uma pequena luz verde brilhou na outra ponta do instrumento.
— Meio sangue. – O homem resmungou, retirando o instrumento. – Em qual vai entrar?
Os meios sangues eram tratados com certas regalias. Onde vampiros e humanos precisavam ficar afastados, eles poderiam escolher com quem ficar, uma vez que não bebiam sangue e estavam fora de perigo junto aos vampiros, que gostavam menos do sangue de um híbrido do que de um próprio vampiro.
— Humanos. – Julieta respondeu.
O segurança apontou para a porta a sua frente e Julieta deu passo naquela direção, sem entrar por estar esperando a amiga.
Amora engoliu em seco e aproximou-se do segurança com o braço estendido, sempre odiara agulhas ou qualquer coisa que pudesse romper sua pele. O homem enfiou a agulha em seu dedo indicador tão rápido quanto havia sido com Julieta. Amora fechou os olhos, mas logo os abriu; a agulha era tão fina que quase não causava dor alguma. Após poucos segundos, a luz acendeu, dessa vez azul. A agulha saiu e Amora suspirou aliviada.
O homem apontou para a mesma porta de Julieta e ela caminhou para lá rapidamente. Olhou para trás a tempo de ver um homem bonito com o instrumento em seu dedo, a luz brilhava um vermelho vivo. Ele sorriu para Amora, revelando seus caninos proeminentes e indo para a porta ao lado da sua.
Julieta puxou seu braço, tagarelando sem parar sobre como aquilo era demais. Amora assentia, sorrindo de orelha a orelha e sentindo a animação percorrer todo o seu corpo.
Elas chegaram no momento em que a banda de abertura cantava sua terceira música. Elas dançaram e beberam durante quase toda a apresentação, fazendo piadas e rindo uma com a outra, até Julieta bater os olhos em um grupo de garotos e em um deles em particular, um garoto alto, magro, com cachinhos dourados e um sorriso de lado encantador. Amora tinha que admitir que ele era bonito e seus amigos também, mas garotos não a atraíam do jeito que deveriam e nenhuma das garotas ali pareciam perceber que ela era gay, o que a frustrava como nada na vida.
Quando Red Rain começou a tocar, Julieta já tinha a língua do menino de cachinhos na metade da garganta e Amora teve que curtir o show sozinha. Ela até percebeu que tudo que os separava dos vampiros era uma cerca de aço que poderia facilmente ser pulada. Normalmente os vampiros não faziam isso, se eles quisessem o seu sangue, simplesmente fariam você pular. Por isso era sempre bom não olhar na direção deles ou dar atenção as suas vozes.
Amora bebeu mais do que o permitido, dançou sensualmente, mas nenhuma garota se aproximou dela e, aquelas que ela mesma resolveu se aproximar, não jogavam no seu time.
Após uma boa quantidade de músicas cantadas, Julieta resolveu largar o garoto e dar um pouco de atenção a sua amiga, que já estava sentada cabisbaixa com uma garrafa de vodca em mãos. Ela deu um tapinha em uma das pernas de Amora.
— E então? – Ela perguntou.
Amora imitou um choro.
— Ainda virgem. – Ela respondeu.
Julieta tirou a garrafa de suas mãos e colocou-a no chão ao seu lado, pegando uma das mãos da mais nova, que encostou sua cabeça no ombro da morena.
— Você ainda é nova, Amora. Não entendo essa sua pressa de perder a virgindade, mas vai acontecer, ainda tem tempo.
Amora desencostou a cabeça.
— Esse não é o problema. – Julieta levantou uma sobrancelha. – Não é o único problema. – Amora se corrigiu. – O problema é que parece que ninguém percebe que eu sou gay. E se ninguém perceber eu vou ficar sozinha pra sempre.
Julieta riu baixinho.
— Não vai não. Você é linda, Amora. Aposto que tem uma garota por aí, só esperando por você.
— Ela podia tentar me achar ao invés de só ficar me esperando.
Julieta riu mais ainda e logo Amora a acompanhou. Inesperadamente, Julieta soltou a amiga e disse:
— Max tá me chamando. Já volto.
E foi embora, deixando a outra mais uma vez sozinha. Amora abaixou-se, pegando a garrafa de vodca e levando-a à boca. Ryan Lake cantava tudo de si no palco e a plateia ia a loucura, ele já estava sem camisa e as luzes piscavam em tons de vermelho, deixando tudo a sua volta como se estivesse banhado em sangue.
Amora adorava a música que eles cantavam naquele momento e iria levantar para gritar junto com os outros, mas foi impedida quando alguém sentou-se ao seu lado. Ela sabia que não era Julieta, por isso resolveu dar uma olhada. Era uma jovem, talvez vinte e poucos anos, com uma bota cano médio, calças jeans rasgadas e uma blusa de mangas compridas que talvez fossem brancas, mas estavam vermelhas por causa da iluminação; ela tinha um rosto lindo e cabelos repicados que pareciam bastante com rosa.
O que mais a intrigou era o fato de que ela a olhava séria.
Antes que Amora pudesse perguntar se elas se conheciam, a outra falou:
— Ouvi o que disse para sua amiga.
Amora sentiu as bochechas esquentarem consideravelmente, abriu a boca pra falar, mas antes que emitisse algum som, a outra se adiantou:
— Se sexo for o seu problema, me procura.
Ela estendeu um guardanapo que Amora pegou no automático e, pelo o que viu, era um endereço. Seus olhos castanhos voltaram-se para os da mulher a sua frente.
— Você é algum tipo de prostituta? – Ela se sentiu idiota por perguntar, mas tinha que fazer isso.
A outra sorriu amarelo, desarrumando ainda mais o cabelo tingido.
— Não. Mas talvez eu queira algo em troca. – Ela disse, caindo em um silêncio logo após, apenas olhando para Amora. A mão que antes arrumava os cabelos, caíram para os cabelos de Amora e seu dedo indicador retirou uma mexa do rosto, apenas para acariciar um pedaço de pele ali. Amora sentiu um arrepio percorrer seu corpo daquele ponto. – Sua amiga tem razão. – A mão foi retirada. – Você é bonita. Muito.
Ela sorriu, novamente sem mostrar os dentes, levantou-se.
— Eu adoraria cuidar do seu problema. Então, me procura na terça.
Com a cabeça a mulher de cabelos cor de rosa apontou para o guardanapo nas mãos de Amora, sorrindo. Ela colocou as mãos nos bolsos traseiros da calça, parecia querer dizer algo a mais. Sua cabeça virou-se ligeiramente para o lado e depois ela olhou para aquela direção. O barulho de vidro quebrando foi o primeiro a ser ouvido, em seguida um grito alto, agudo, que fez todas as pessoas ficarem quietas. Pelo menos do seu lado, no lado dos vampiros, a festa continuava.
— Acho que é melhor você ir.
Amora tornou a olhar a jovem, que ainda olhava em direção a área dos vampiros. Os olhos claros da desconhecida cravaram-se nos castanhos e assim permaneceram até Julieta agarrar seu braço.
— Amora. – Ela falava alto, assustada. – Ferrou, menina. A gente tem que ir embora agora.
A cabeça rosa balançou levemente, ela olhou para a adolescente mais baixa e disse:
— Vou estar te esperando. Terça.
E sumiu em meio da multidão que já estava em pânico, tentando sair. Julieta não perguntou pela estranha naquele momento, se sentia responsável demais pela amiga para fazer qualquer outra coisa além de segurar em seu braço e leva-la para longe dali. A grade que os separava dos vampiros balançava perigosamente, como se eles fossem derrubá-la para pegar os humanos. A música estava mais alta e infernal.
As duas se apertaram em meio as outras pessoas, empurrando, sendo empurradas, e, surpreendentemente, levando alguns apertões no traseiro. Quando finalmente chegaram ao lado de fora, continuaram correndo até o estacionamento do outro lado da rua, que não era a do local do show, o que acabou sendo uma boa ideia, pois grande parte do público estava se amontoando na porta do estacionamento deles.
Julieta retirou o papel com a senha de dentro do sutiã, alisou-o e deixou a máquina sugá-lo para dentro de si. Amora olhava para o outro lado da rua, era possível ouvir os gritos de onde estava, Julieta saltitava no mesmo lugar, murmurando para o carro chegar logo. A alguns metros dali, a recepcionista olhava de boca aberta para o outro lado da rua.
O carro havia chegado e Julieta mal deu tempo para respirar antes de entrar no veículo. Quando Amora conseguiu terminar de colocar o cinto, ela já estava a um quarteirão de distância do local do show.
Amora estava paralisada no banco, o guardanapo amassado em sua palma firmemente fechada. Julieta suava, olhava para trás e para frente e dizia palavrões o tempo todo.
De repente ela parou, olhou para a amiga ao seu lado.
— Ei. – Uma de suas mãos voou para o cabelo da outra. – Ei, Amora, você tá legal?
Amora assentiu, ainda olhando para frente fixamente. Sem que a morena percebesse, ela enfiou o guardanapo na bolsa do casaco que jazia em seu colo.
— Eles... – Amora começou. – Eles estavam... aquelas pessoas...
— Eu não sei. – Julieta cortou, antes que ela terminasse de dizer o que realmente queria.
A viajem seguiu-se em silêncio até a casa de Amora; Julieta havia dito aos pais que dormiria na casa dela. O carro foi colocado na garagem e as duas meninas rumaram para o quarto como zumbis.
Elas trocaram de roupa e deitaram-se para dormir, mesmo que só fossem conseguir em alta madrugada.
No dia seguinte, ambas acordaram tarde e Julieta apressou-se em fazer o café da manhã, como forma de se desculpar por ter levado a amiga àquela festa. Amora sentou-se de frente para ela, ligou a televisão e as duas assistiram abismadas as notícias do dia, que tinha como principal matéria a chacina no show da banda Red Rain. Os vampiros derrubaram a grade e mataram um grande número de humanos que estavam lá, que não conseguiram sair como Amora e Julieta.
Elas se entreolharam e permaneceram em silêncio até a Julieta dizer:
— Eu sinto muito, Amora.
— Não foi sua culpa. Eu estava lá porque quis. Além do mais, nada aconteceu com a gente.
Julieta assentiu e voltou a comer sua panqueca. Após o término da refeição, a mais velha trocou de roupa e partiu para o carro. Era uma manhã fria e ela pegou o casaco que estava no banco da frente, enfiando as mãos bem fundo para esquentá-las. Sentindo o material do guardanapo, ela o retirou e leu.
Voltou-se para Amora com o papel em mãos.
— O que é isso?
Amora empalideceu e jogou-se para frente para pegar o guardanapo. Julieta rapidamente deixou-o fora de seu alcance.
— É um endereço. – A mais nova respondeu.
— É, eu percebi. Isso não é meu, então... Quem te deu?
A adolescente suspirou, colocando o cabelo castanho atrás da orelha.
— Lembra aquela hora em que conversamos? Pouco antes de você ir atrás daquele cara. – Julieta assentiu. – Apareceu uma garota que disse ter ouvido nossa conversa e se ofereceu para... – Sua voz ficou baixa e ela inclinou-se em direção a amiga. – Resolver o meu problema.
— O que?
— Sabe, tirar a minha virgindade.
— Ah... – A morena coçou o lado da cabeça. – E ela era bonita?
Amora encostou-se no carro, olhando para cima.
— Linda.
— E você vai... sabe, aceitar a proposta?
A mais nova olhou para a morena.
— Não sei. Quer dizer, eu disse que estava aceitando tudo, mas eu não conheço ela. Sabe-se lá o que ela poderia fazer comigo.
Silêncio por um momento, até Julieta quebrá-lo.
— Ela disse quando vocês podem se encontrar?
— Terça.
— Bom, ainda é sábado, você tem tempo pra decidir.
— É.
Julieta devolveu o guardanapo para a menor, abraçou-a forte, entrou no carro e partiu de volta para sua casa.
Amora observou-a ir, pensando seriamente sobre tudo o que aconteceu na noite anterior. Olhou para o papel em sua mão e lembrou-se dos hipnotizantes olhos claros da estranha.
***_***_***
A terça chegou mais rápido do que ela poderia imaginar.
Os pais chegaram na segunda, comentando nervosamente sobre o show da Red Rain, nem pensando na possibilidade de que sua querida filha pudesse estar lá. Amora apenas assentiu em todos os comentários dos pais e respondeu suas perguntas de como havia passado o fim de semana, mas não conseguia parar de pensar no show.
Não apenas nas mortes daquelas pessoas, mas na garota de cabelo rosa que ela havia conhecido lá.
Só pode falar com Julieta durante as horas de intervalo na escola, mas não conseguiu chegar a uma conclusão se deveria ir ou não ao encontro.
O tempo estava fechando e Amora estava sentada na escrivaninha de frente à janela, olhando para o céu cinzento e batucando seu lápis no canto da boca. Soltou um suspiro e deixou os olhos caírem no guardanapo amassado e velho em sua frente.
Ela conhecia o endereço, era o hotel que ficava em frente ao escritório de sua mãe, não ficava tão longe de sua casa, talvez meia hora de caminhada. Olhou mais uma vez para o céu cinza e levantou-se em um rompante, pegando um casaco de capuz cinza e saindo do quarto correndo.
— Volto logo, pai!
Era o meio da tarde e o dia de folga do pai, não teve problema em conseguir sair de casa. Caminhou pelas ruas limpas e quase desertas de sua cidade a passos largos, querendo chegar ao seu destino de uma vez por todas; suas mãos suavam e seu coração batia acelerado.
Um relâmpago iluminou o céu e um trovão reverberou logo em seguida, fazendo a adolescente olhar para cima e apressar ainda mais o passo. Quando chegou em frente ao prédio da mãe, observou o hotel grande, em cores pastéis e portas de vidro. Durante o tempo em que ela ficou observando o prédio, a chuva caiu de uma vez só, forte e impiedosa.
Amora suspirou, colocou o capuz na cabeça e correu a todo vapor até o outro lado da rua. As portas de vidro abriram-se automaticamente e ela entrou, agradecendo por estar seco e quente lá dentro. Por um segundo não soube o que fazer, a mulher tinha lhe dado o endereço do hotel, mas o nem o nome dela Amora sabia.
A garota estava pronta para dar meia volta e voltar pra casa, mas o recepcionista a interrompeu dizendo:
— Posso ajudar?
Amora olhou-o, espantada, olhou ao redor e percebeu que falava com ela mesma. A adolescente aproximou-se, colocando os pulsos em cima do balcão; o homem sorria, mas olhava-a impaciente.
— Eu vim encontrar uma pessoa. – Ela disse.
— Qual é o nome?
— Bem, eu não sei. – O recepcionista ia replicar. – Eu a conheci em uma festa. Ela disse para eu procura-la. – Parou por um momento. – Ela é alta, branca, tem cabelo cor de rosa.
Os olhos do homem arregalaram-se e, por um momento, Amora pode jurar que seu corpo magricela e amarelado tremeu.
— Acho que sei quem é. – Ele disse, afrouxando o colarinho. – Mas acho melhor você não ir.
— Por quê? – Perguntou, confusa. – Ela não está?
— Não, está sim. – Ele respondeu rapidamente. – É que... Você tem certeza que vai fazer isso?
Amora sentiu-se apreensiva e até mesmo nervosa com a atitude do homem.
— Olha, você pode avisar que eu estou aqui?
O homem pareceu ficar ainda mais pálido.
— Não precisa. – Ele disse. – Pode ir lá com ela.
Ele anotou o número do quarto da mulher em um post it e indicou o caminho com a mão. Era ainda no térreo, bastava dobrar a esquerda da recepção e seguir direto. Alcançou o quarto da mulher e bateu três vezes antes que perdesse a coragem. Não foi atendida na primeira vez e bateu uma segunda. Foi pega de surpresa durante a terceira batida, com a mão no ar.
O rosto da mulher que Amora conheceu no show da Red Rain apareceu, seus olhos eram de um verde extremamente claro, mas seu cabelo não era rosa, muito menos curto. Seu cabelo liso e loiro acinzentado caía até o meio das costas, bagunçado e revirado.
— A garota virgem.
Amora corou e a outra continuou:
— Será que você pode esperar só um minuto?
Ela assentiu e a porta logo fechou na sua cara. Amora suspirou, retirando o casaco e encostando-se na parede. No final de sua espera, Amora já estava sentada no chão de frente para a porta.
Quando ela finalmente abriu, a adolescente olhou para cima e levantou-se em um salto, ansiosa. Uma garota saiu de lá, mas não era a do show, e sim uma menina branca, de cabelos castanhos e olhos cabisbaixos, ela tinha um lenço ao redor do pescoço.
A loira encostou-se no batente da porta, os braços cruzados sobre o peito, olhando para Amora de cima a baixo.
— Entra. – Ela disse, dando passagem.
Amora entrou, logo reparando nos lençóis desarrumados e as roupas jogadas pelo chão. A janela estava fechada, mas as cortinas abertas, dando para ver as gotas de água da chuva forte que caía lá fora, tão forte que Amora mal conseguia ver o prédio de sua mãe, que ficava do outro lado da rua.
A loira ergueu a mão, pegando o casaco de Amora e jogando-o na cadeira em frente ao computador.
— Então você veio. – Ela disse.
Amora assentiu.
— É, eu vim. – Ela olhou ao redor, colocando o cabelo atrás da orelha.
A garota loira aproximou-se, invadindo o espaço pessoal de Amora, uma mão em cada lado do rosto. Foi com surpresa que ela recebeu o beijo da até então desconhecida. Ela beijava bem, quase deixou Amora sem fôlego ou força nas pernas. Quando Amora abriu os olhos, seu coração batia ainda mais rápido, porque a outra sorria e seu sorriso tornava-se assustador com aqueles dois caninos proeminentes.
Amora pulou para longe, batendo as costas das pernas na beira da cama e caindo sentada.
— Você... – Ela balbuciou. – Você é uma vampira.
A loira riu, assentindo. Com as mãos nos quadris, ela caminhou em direção a mais nova como a predadora que era, enquanto Amora se afastava o quanto podia.
— Não precisa ficar assim. – Ela sussurrou, escalando a cama, cada braço de um lado do corpo de Amora, prendendo-a com o corpo à cama. Seus lábios quase se tocavam. – Não precisa ter medo.
Amora tremia.
— Quando você disse que ia querer algo em troca... – Ela tentou falar, mas perdeu a voz.
A vampira sorriu.
— E eu quero algo em troca. – Amora tremia da cabeça aos pés, a loira sorria, esticando o braço esquerdo da adolescente e massageando a pele exposta do braço. – Só que não é dinheiro. – Seus olhos claros encontraram os castanhos. – Nem vai deixar marca por muito tempo.
A vampira era bem mais forte que Amora, e não havia realmente muita chance de escapar, mas no momento em que a adolescente iria se remexer ou tentar empurrar a outra, os dentes fortes e pontudos cravam na pele de seu braço, pouco acima do pulso.
Um grito mudo escapou de seus lábios.
Ela se debateu, mas aquilo pareceu causar mais mal do que bem. A vampira sugava com força e causava uma dor tremenda por todo o corpo de Amora, como se todas as suas veias estivessem se rasgando por dentro. Amora parou e a sucção instantaneamente tornou-se mais suave e a dor diminuiu até não restar mais nada dela.
Os dentes foram retirados, o que causou mais uma dor aguda que logo passou. Amora sentiu o peso do corpo da vampira ser deslocado de cima de si, mas estava tão fraca pela perda de sangue que não conseguiu sair do lugar. Seus olhos não conseguiam ficar abertos e quando abriam, as imagens estavam embaçadas e disformes.
Amora fechou os olhos, entregando-se a inconsciência, mesmo sabendo do perigo.
Ela sentiu os dedos da loira em seu pescoço, levantando sua cabeça. Os lábios da outra tocaram os seus levemente, passando para seu pescoço e percorrendo uma trilha para o sul enquanto ela retirava as roupas de Amora. Ela posicionou-se entre as pernas da humana, afastando suas coxas ao mesmo tempo que dava bons apertões nelas. A vampira plantou um beijo em seu baixo ventre e em seguida Amora sentiu a língua da outra entre suas pernas.
Amora abriu os olhos, soltando um gemido de surpresa e prazer.
---*---*---
O balconista lhe lançou um olhar assustado quando Amora deixou o hotel, algumas horas mais tarde. Ela nem olhou para ele, seguindo direto para fora, onde o sol já começava a dar espaço para a lua. Aquele era o horário em que sua mãe saía do trabalho e um encontro entre elas era bastante provável.
Reunindo todas as poucas forças que ainda lhe restava junto com o pouco sangue circulando pelo corpo, Amora engatou em uma corrida lenta, as vezes escorregando ou tropeçando nos próprios pés.
Levou mais tempo para chegar em casa do que havia levado para chegar ao hotel, mas chegou sã e salva e antes de sua mãe. Seu pai já estava fazendo o jantar, mas ela não foi até ele, para lhe dar um beijo no rosto, apenas deu um grito avisando que já estava em casa.
Nem tirou os sapatos quando chegou no quarto, nem ao menos conseguiu pensar nos eventos estranhos da tarde, apenas jogou-se desmazeladamente sobre a cama e dormiu um sono sem sonhos.
No dia seguinte, sua mãe veio acordá-la, perguntando preocupada se ela se sentia bem.
— Estou. – Ela respondeu. – Só estava cansada.
A mãe olhou-a desconfiada, mas não perguntou porque estava tão cansada. Amora sorriu e levantou-se com a energia renovada, entrando no banheiro logo em seguida, fazendo com que a mãe desistisse de qualquer pergunta.
Debaixo da água morna, Amora lembrou-se dos acontecimentos do dia anterior. A vampira havia feito com que ela bebesse seu sangue. Foi nojento no início, mas ela disse que faria com que a marca em seu pulso cicatrizasse.
Agora Amora observava seu pulso, os dois pontinhos mínimos azul prateados.
Na escola, Julieta esperava por ela com um sorriso imenso no rosto, de quem sabe de mais, mas, a fim de evitar lhe contar o que havia ocorrido, Amora foi obrigada a ignorar a amiga por o todo o dia escolar.
Não foi possível impedir, é claro, que ela fosse abordada na saída da escola por uma Julieta um tanto quanto nervosa. Amora foi pega pelo braço e levada até o carro da amiga. Elas dirigiram em silêncio até Julieta parar em uma ruela.
— O que aconteceu ontem? – Ela perguntou logo.
Amora suspirou, olhando para o céu momentaneamente e voltando os olhos para a garota ao seu lado.
— Não sou mais virgem.
Julieta sorriu, devassa, dando um leve soco no ombro de Amora.
— Realizou o seu sonho, boneca. – Disse Julieta. – E qual foi o problema, por que estava me evitando?
Amora mordeu o lábio, olhando para qualquer outro lugar que não fosse a amiga. Suas bochechas esquentaram e ela se sentiu uma grande idiota.
— Foi tão ruim assim? – A outra perguntou.
— Não. – Disse Amora, devagar. – Na verdade, foi muito bom. – E depois em um tom mais baixo. – Surpreendentemente bom.
— De novo, qual o problema?
Amora ergueu o braço, desenrolando a manga de sua blusa vinho e mostrando o pulso, onde jazia dois pontinhos azul prateados. Julieta ficou quieta, mas Amora sabia que ela estava chocada.
— Ela era uma vampira. – Disse o óbvio.
Julieta segurou a mão da outra.
— Você poderia ter morrido. – Julieta disse.
Elas ficaram em silêncio depois disso, cada uma com seus próprios pensamentos, até Amora se pronunciar novamente.
— Ela me chamou pra ir lá de novo no sábado.
Julieta deu uma risada sem humor.
— Amora, você não escutou quando eu disse que você poderia ter morrido? Já deu sorte uma vez, vê se não abusa.
— Se quisesse me matar teria feito isso terça.
— Olha, amiga, cair nessa uma vez, tudo bem, acontece. Mas se jogar na toca do leão de livre e espontânea vontade... É burrice.
— Julieta...
— É verdade.
Amora suspirou, colocando os cabelos atrás da orelha avidamente.
— Ela é legal.
— Ah, pelo amor de Deus. Sabia que isso é uma síndrome? Esqueci o nome, mas já foi comprovado que os vampiros exercem esse tipo de encantamento sob a pessoa, que mesmo sendo machucada, pensa que está vivendo, sei lá, um tipo de romance épico.
Amora franziu as sobrancelhas.
— O que? Eu não tô apaixonada por ela, é só que... É só que...
— Só que o que?
— Ah, nada. Tchau, Julieta.
E saiu do carro, caminhando apressada para chegar em casa e fingir que nada daquilo havia acontecido.
---*---*---
Ela voltou no sábado ao apartamento da vampira, dessa vez recebeu apenas um olhar reprovador do recepcionista, que inclinou a cabeça e sinalizou para que ela entrasse de uma vez.
O quarto não estava tão bagunçado dessa vez, a não ser pela coberta que fazia um montinho do meio da cama. Não chovia e o sol brilhava com todo o seu poder do lado de fora, então as cortinas estavam fechadas. Vampiros não morriam com o sol, mas a estrela causava grandes danos a sua pele sensível a luz.
Amora entrou devagar, sabendo o que a esperava mas ainda assim receosa. A vampira pulou na cama, completamente despreocupada.
— Achei que você não fosse voltar. – Ela disse, olhando para o teto e brincando com uma mexa loira de seu cabelo liso. – Você pareceu abalada.
Amora aproximou-se.
— Eu estava abalada. – Ela declarou.
A vampira sorriu, deu um salto e parou sentada na beira da cama. Suas mãos pálidas foram para a cintura coberta por um moletom azul anil de Amora, puxando-a para mais perto de si. Amora engoliu em seco.
— Meu nome é Amora. – Ela disse, cheia de expectativa para que a vampira revelasse seu nome.
A garota loira não pareceu ligar para o que ela havia dito, preocupada demais em enrolar a manga do moletom até expor o pulso já marcado de Amora. Ela levou os pontos azulados para bem perto dos lábios. Parou. Olhou nos olhos de Amora e disse:
— O meu é Sofia.
Então seus dentes cravaram-se na carne macia.
---*---*---
Julieta se afastou dela nos dias que se seguiram e, alguns meses depois, ela já quase não se falavam. Amora tentava, mas não conseguia ligar tanto. Passava cada vez mais tempo com Sofia e a cada encontro, a vampira lhe revelava algo novo sobre sua vida.
E que vida ela havia tido.
Sofia já tinha quase 60 anos, havia sido transformada aos 23 por uma vampira que agia da mesma forma que ela agia agora. Sofia um dia havia estado no lugar de Amora, mas pediu para que sua criadora a transformasse em vampiro depois que sua família a repudiou quando descobriu seu envolvimento com a mulher.
Ela já havia visto tanta coisa, viajado para tantos lugares e conhecido tantas pessoas que quase fazia com que Amora sentisse vontade de se tornar uma vampira para ser como ela. Para ser livre.
E Sofia também era interessante. Quando elas estavam deitadas na cama, apenas o cobertor ocre cobrindo-as, e Sofia percorria seus dedos pelos cabelos de Amora, contando histórias incríveis e sorrindo, Amora não conseguia fazer com que seu coração desacelerasse.
Ela queria poder falar com Julieta sobre isso, sobre o que estava sentindo por aquela garota. Amora já estava até com um pouco de raiva da amiga; era hipocrisia ignorar Amora porque ela dormia com uma vampira, quando a mãe de Julieta era uma.
As vezes, quando ela estava com Sofia, pegava-se pensando sobre seu relacionamento quase falido com Julieta.
Ela sentiu os dedos de Sofia na base de seu pescoço. Tremeu, mas não saiu de seus braços.
— Tudo bem?
Amora assentiu, virando seu rosto em direção a vampira, olhos castanhos encontrando-se com os verdes extremamente claros de Sofia.
— Me conta uma história. – Ela pediu.
Sofia sorriu, mostrando seus dentes extremamente brancos e seus caninos proeminentes que já não assustavam tanto Amora. Ela descobriu que se não lutasse contra a mordida, não doía tanto e, as vezes, ela nem sentia nada.
— Pensei que tivesse medo de mim. – Sofia disse.
Amora sentiu a mão de Sofia descer, até encontrar com seus dedos e observou enquanto eles enrolavam-se uns nos outros.
— Não mais. – Amora replicou. – Deveria?
Sofia negou, seus olhos grudados em seus dedos.
— Não. – Ela olhou para Amora. – Não mais.
Amora sorriu de orelha a orelha.
***-***-***
Amora havia acabado de tomar um banho, estava pronta para voltar para casa, mas a visão de sua vampira preferida a fez parar no meio do quarto. Sofia tinha os cabelos incrivelmente loiros e longos soltos, alcançando sua cintura; ela estava sentada, as pernas dobradas e os braços cruzados sobre os joelhos, olhando pela janela. A cortina estava aberta, o que era raro, mas o dia lá fora estava cinzento.
Ela virou seus olhos claros para Amora, parecia culpada.
Amora queria dizer alguma coisa, mas as lembranças lhe voltaram. Daquela vez, Sofia quase perdera o controle. Quando Amora começou a se sentir tonta e que iria perder os sentidos, tentou empurrar com gentileza a cabeça loira, esperando que a sucção parasse. Sofia parou, mas da forma que Amora esperava. Ela ouviu um rosnado escapar da garganta de Sofia e olhou amedrontada para as veias negras ao redor dos olhos agora escuros da vampira. Seus caninos estavam ainda mais proeminentes e sua boca estava suja de sangue.
Antes que Amora pudesse ter qualquer outra reação além do medo, Sofia voltou a cravar seus dentes, desse vez no pescoço de Amora. Ela desmaiou.
Pensou que iria morrer, mas acordou.
Quando acordou, estava sozinha no quarto. Estava suja de sangue e sentia seu pescoço latejar. Sua cabeça doía e parecia que pesava uma tonelada. Sentia o gosto do sangue de Sofia em sua boca e quase vomitou por isso.
Tomou um banho demorado, escorada na parede do banheiro e quando saiu, lá estava ela.
— Eu... – Sofia começou, engoliu em seco, desviando o olhar com vergonha. – Amora, eu sinto muito.
Amora olhou para os próprios pés e caminhou até a cama, onde havia descartado sua blusa de manga comprida, suja com seu sangue.
— As vezes. – Dizia Sofia. – Perdemos o controle. Mas eu sinto muito, eu não queria ter te machucado.
Amora deu um sorriso amarelo. Ela deveria mesmo estar ficando louca. Talvez Julieta tivesse razão e ela realmente estava desenvolvendo aquela síndrome.
— Eu sei. – Ela disse. – Está tudo bem, eu estou viva.
Sofia levantou-se, usava apenas uma blusa cinza de mangas compridas que chegava até quase metade de suas coxas. Ela caminhou com seus pés descalços até alcançar a adolescente, suas mãos repousaram nas bochechas de Amora e seus lábios róseos encostaram-se aos dela.
Elas não fizeram sexo naquela tarde. Apenas trocaram alguns beijos. Elas estavam deitadas, Sofia abraçando-a por trás, sendo a concha maior. Ela plantou um beijo em seus cabelos castanhos ondulados e disse ao pé de seu ouvido:
— Quer sair um pouco?
Amora olhou-a com suspeita.
— Sério?
Sofia assentiu, sorrindo. Amora sorriu de volta.
O recepcionista pareceu intrigado quando viu as duas deixando o hotel juntas. Amora sorriu confiante. Talvez ela fosse a primeira com quem Sofia saísse. Talvez ela fosse especial.
Elas foram até o parque da cidade e tiveram bons momentos juntas. Sofia ganhou um pequeno urso marrom para Amora, aparentemente ela não era tão boa no tiro ao alvo. Amora surpreendeu-se quando viu a vampira comprar duas maçãs do amor; vampiros podiam comer comida, mas ela nunca havia visto a loira fazer isso.
Sofia ergueu uma sobrancelha levemente clara, perguntando silenciosamente qual era o problema. Amora riu, aceitando uma maçã do amor e caminhando em direção a roda gigante. No caminho, ela deixou sua mão deslizar para dentro da de Sofia e ficou radiante quando a vampira entrelaçou seus dedos, como se não fosse um gesto importante, como se fizessem aquilo o tempo todo. Como se fossem namoradas.
Foi quando Amora viu sua melhor amiga vindo em sua direção. Ela e Julieta não se falavam a alguns meses, desde que o relacionamento baseado em sexo e sangue com Sofia começara. Amora sentia falta da amiga, mas não queria dar o braço a torcer, não queria se afastar de Sofia.
Julieta parou em sua frente, o cabelo escuro ainda curto e um garoto moreno de olhos azuis um pouco atrás de si.
— Oi. – Ela disse em uma voz pequena.
— Oi. – Amora respondeu, um pouco temerosa. Ela sentiu um aperto em seus dedos e olhou para a bela mulher ao seu lado. – Ah, Sofia, essa é Julieta, minha... – Houve um momento de hesitação. Mas, não importava o que acontecesse, só havia uma coisa que Julieta poderia ser para ela. – Minha amiga, Julieta. – Sofia sorriu para ela. – Julieta, essa é a Sofia. – Ela não colocou um adjetivo junto ao nome da vampira. Não tinha certeza de qual ela deveria usar.
Julieta sorriu amarelo e apertou a mão estendida de Sofia. Ela apresentou o garoto que estava ao seu lado e os quatro passaram alguns segundos constrangedores em silêncio.
— Então... – Disse o novo namorado de Julieta. – Onde vocês estavam indo.
— A roda gigante. – Sofia respondeu.
— Não querem ir na montanha russa com a gente?
Amora olhou para Sofia e soube na hora que a roda gigante era o último lugar em que ela queria estar. Deu de ombros e Sofia sorriu.
— Claro. – Ela respondeu.
Eles partiram para o brinquedo. Foram em outros depois desse, brincaram, se divertiram e riram. Logo era como se Julieta e Amora não tivessem se afastado nunca. Após outra volta na montanha russa, eles estavam indo para casa. Os cabelos desarrumados e os corações ainda acelerados. Sofia andava um pouco a frente, com o namorado de Julieta, Otto, discutindo alguma coisa sobre a história do parque. Amora vinha atrás, sorrindo como uma boba, olhando em direção a menina loira.
Ela sentiu um braço passar pelos seus ombros e foi puxada de encontro ao corpo de Julieta. Elas se entreolharam e nada foi dito. As coisas tinham voltado ao normal, estava tudo bem. Julieta olhou para frente, para seus acompanhantes e disse baixinho:
— Ela é bonita.
Amora deu uma risada, passando seu braço pela cintura da amiga.
— É. Ela é.
***-***-***
Sofia parecia surpresa quando viu Amora novamente na semana seguinte. Na porta de seu quarto, com suas roupas folgadas e cabelos ligeiramente desalinhados pelo vento. A loira abriu a boca para dizer alguma coisa, Amora nunca soube o que era. Jogou-se em sua direção, os braços envolvendo o pescoço da outra e seus lábios cobrindo os lábios da vampira com avidez.
Os braços de Sofia envolveram sua cintura e puxou-a para dentro do quarto. A porta foi fechada com um baque e logo os lábios da loira estavam sobre os de Amora novamente. Sofia desceu seus lábios para o pescoço da garota e Amora preparou-se para a dor, mas nada veio.
Apenas beijos foram distribuídos ali e, quando houve mordida, foi superficial e sensual. Sentiu os dedos da outra abrindo os botões de sua blusa enquanto seus próprios dedos perdiam-se na maciez dos cabelos loiros.
Foi somente quando ela já estava nua sobre a cama, os seios de Sofia pressionando-se gostosamente contra seus e os dedos da vampira brincando com o seu centro que ela perguntou:
— Você não vai... – Sua voz cortou-se quando Sofia colocou um pouco mais de pressão em seus dedos – Não vai beber sangue?
Sofia sorriu, momentaneamente parando seus movimentos e olhando nos olhos castanhos da garota.
— Hoje não.
Amora sentiu dois dedos deslizando para dentro de si e soltou um gemido alto de satisfação. Um sorriso surgindo em seu rosto.
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