Red Hood
1 Little Red Riding Hood —
Notas iniciais
Pobre vovozinha.
Não bastava morar no meio do nada, sozinha e estar mais que idosa, ainda conseguia pegar uma virose que mal a deixava sair da cama. A única coisa que minha mãe poderia fazer, visto que moramos bastante longe, era mandar a filha mais velha entregar frutas, bolos e flores, junto com esperanças de melhoras à pobre anciâ…
Mas, como nada dá certo para mim, ela manda o filho o meio — o único rapaz da família —, que poderia estar estudando ou lendo um bom livro, entregar isto por ela. Como se não me bastasse aquele frio terrível, ainda tinha que carregar a cesta por ai.
Tirando a camisa de mangas e as calças longas, só tinha o capuz vermelho que minha própria vó havia feito de presente e nunca vesti. Cada vez que a brisa gelada me atingia, encolhia-me no tecido rubro, escondendo as mechas que se bagunçavam ali.
A cestinha artesanal feita por minha mãe era bem segurada, às vezes se ocultando também nos lados da capa que esvoaçava-se pelos ventos. Bufava cada vez que o capuz era jogado para trás, sempre me encolhendo com aquela friagem, como diria a própria velhinha prestes à ser visitada.
Eis que me deparo com uma bifurcação. Duas placas...uma delas aponta a cidade — barulhenta, movimentada, insuportável —, um caminho bastante longo até a casa de minha avó. Porém, o recomendado por minha mãe.
“Red, preste bem atenção...o caminho pela cidade é mais longo, porém seguro. O caminho pela floresta pode até ser mais rápido, mas muito perigoso. Teu pai já encontrou uma fera por lá…um lobo. Entendeu bem? Porque eu não vou repetir. Cidade, sim! Floresta, não!”...
E isso algumas milhões de vezes até que se desse por satisfeita de que, sim, seu filho arrancado do quarto para esta aventura iria pelo caminho da cidade.
Porém, sou um rapaz muito prático. O dia ainda está claro e o caminho da floresta é um atalho. Feras não atacam tão cedo, então posso muito bem chegar mais rápido pelas árvores e, na volta, pegar o caminho da cidade para evitar que algo realmente grave aconteça.
Acho que posso me enquadrar em “gênio”. Pois foi seguindo esta linha de raciocínio que ignorei minha doce mãe e peguei o caminho mais rápido. Fui adentrando naquele bosque quase sem fim e apercebendo-me de que não sabia chegar na casa da minha avó por ali…
Deveria ter ouvido mamãe. Bufei, mas não dei meia-volta. Continuei entrando cada vez mais fundo naquele espaço desconhecido, grudado à cesta e olhando ao redor sempre. As folhas das grandes árvores cobriam boa parte da luz, então não fazia mais a mínima ideia de quanto tempo se passara.
Após uma caminhada cansativa, com os pés doloridos e sem nenhuma força de vontade, sentei-me ao chão, resmungando. Com a cesta em meu colo, brinquei com as amarras do capuz em meu pescoço e algumas pedrinhas do chão…
Uma respiração. Pisquei e olhei ao redor sem me movimentar muito. Era meio irregular e baixa...Provavelmente de um animal. Encolhi levemente os ombros. Um animal com fome…? Aos poucos, senti uma brisa mais quente no pescoço e apertei as pálpebras como instinto.
Me sentia vulnerável, observado e prestes á ser devorado.
— Algum problema? — Algo estranho que se seguiu. A respiração quase assustadora sumiu, e em seu lugar, um rapaz de uma cabeleira acinzentada com um sorriso esboçado no rosto. Estava sentado de modo estranho, bem em frente à mim. Mãos apoiadas no chão, assim como os pés, juntos...Feito um cachorrinho.
Os cabelos eram enormes. Pareciam revoltos e nunca terem visto um pente na vida. Um pouco sujos de grama, mas exalavam um aroma de lavanda. O rosto era de um homem maduro e ainda jovem, com queixo másculo e traços... Diferentes.
Orbes da cor de um pôr de sol, alaranjados e bastante fora do comum. Porém, devo admitir, lindos de verdade. Cílios escuros e bastante volumosos os emolduravam, fazendo um efeito ainda mais belo. O porte físico era bem atlético. Parecia ficar horas correndo e criando os suaves e desenhados músculos que faziam sua silhueta. Pele alva, também suja com as pequenas plantinhas que provinham do arbusto.
Aw, e como detalhe, orelhas felpudas, um pouco longas e enegrecidas na bagunça que eram seus cabelos. Em um salto, pulei para trás do arbusto, podendo ver também uma cauda balançando-se e dançando no ar atrás do rapaz, na mesma tonalidade.
— O que é você?! — Indaguei, tentando escapar pelos lados que não existiam. Se me perdesse ainda mais ali, nunca acharia a saída ou a casa de minha avó.
A criatura incógnita sorriu...mostrando seus caninos levemente afinados. Gargalhou, se colocando de pé e estendendo a mão direto em meu rosto, como se tentasse apresentar-se...Mas, claramente não era bom naquilo.
— Sou lobo. Mas não precisa me chamar de lobo... Wolf é bom também. — Ele parecia bem simpático... À ponto de me assustar. Hesitei totalmente e não aceitei seu aperto de mão, até porque as unhas eram enormes e meio escurecidas, como garras.
O sorriso convidativo retraiu-se em um beicinho triste. Abaixou a mão mais um pouco, me fitando. O tronco nu, uma calça meio rasgada e esfolada nos joelhos, totalmente suja… “lobo” parecia devidamente apropriado.
Mas, todos sabem que lobos não são humanos, são lobos. Duh.
— Seu nome é óbvio demais. — Balbuciei em um tom baixo. Ele balançou a cabeça confusamente e suas orelhas lupinas moveram-se algumas vezes antes de se abaixarem por um curto período de tempo.
Pisquei algumas vezes. Por alguns segundos, nos mantemos calados e nos encarando, como se sua confusão passasse para mim por olhares. Coçei a nuca e dei de ombros, percebendo que ele não havia entendido nada mesmo.
— Foi insulto?
Segurei um riso infantil e cobri a boca com a mão e parte do capuz. Ele falava engraçado, do mesmo modo que uma criança aprendendo as palavras. Aquela era a tal fera dos bosques que me rasgaria em pedaços? Parabéns, mãe.
Abanei as mãos sem lhe dar uma resposta consistente e saí de trás dos arbustos, tirando pequenos galhos das roupas para não acabar como o tal de Wolf. Talvez fosse só um fruto da minha imaginação de garoto com fome.
Seu olhar pousou em mim...mais precisamente no capuz vermelho. Entendeu as garras e roçou a ponta delas no tecido, levando uns fiapos junto. Fiquei parado no lugar enquanto ele encarava os linhas do pano vermelho em sua mão.
— Você... Chapeuzinho Vermelho. — Ergueu o olhar levemente, aproximando-se. Franzi o cenho, dando um passo para trás. — Tem um chapeuzinho vermelho. É seu nome?
Abri uma pequena fenda entre meus lábios, mas nada disse. Chapeuzinho Vermelho? Ele não tinha mesmo noção ou senso de normalidade. Mas, soava de um modo engraçado, e ele pareceu ter gostado da ideia de me chamar assim.
— Pode ser.
Esboçei um sorriso leve e abri um dos lados da cesta e peguei uma das maçãs que levava para minha vó. Antes da primeira mordida na superfície avermelhada, estendi levemente ao rapaz que não desprendia os olhos da fruta.
— Está com fome?
O assisti lamber os lábios levemente e assentir rapidamente. Segundo minha mãe, muitas pessoas vinham desaparecendo por culpa da fome incontrolável da besta que os atacava na floresta. Ainda não conseguia vê-lo como esta besta, mas preferi tirar um pedaço da maçã e lhe entregar o resto.
As garras arranharam a casca. Encarou a mordida que eu havia dado, que por acaso tinha um formato de coração. Piscou. Voltou à sentar no chão como um animal e devorou a fruta do modo que um cachorro faria, faminto como uma draga.
Após levar metade da inocente maçã — as orelhas bem em pé, como se alguém fosse roubá-la de si —, levantou o rosto sujo e me fitou com uma ligeira inocência no olhar. Engoliu pacientemente e usou o braço para se limpar.
— A cor. Lembra você, Chapeuzinho. — Dei um riso abafado e afaguei suas longas mechas, vendo a cauda se balançar ainda mais rápido e as orelhas abaixando-se levemente, como se tivesse gostado do novo contato.
Meu Deus, eu tinha arranjado um cachorrinho dos bosques.
Desajeitado e com um sutil rubor nas bochechas, ele sorriu e voltou à estraçalhar a fruta com as presas e garras, rapidamente dando um fim á ela. Se havia devorado tantos homens, por que sentia tanta fome?!
— Lobo, você vive aqui faz muito tempo? — Ele fez que sim com a cabeça, novamente sujo com os restos do que havia comido. Tirei um lenço branco do bolso...Um com rendas que minha mãe me dera. Limpei-o pacientemente. — Minha vó mora por aqui. É uma casa de madeira no fim da floresta. Sabe onde fica?
Pareceu remoer a pergunta por um tempo. Coçou a parte de trás da orelha e sorriu fracamente, novamente assentindo.
— Pode me mostrar o caminho?
Wolf fez beicinho mais uma vez. As orelhas se moveram, quase se sacudindo para os lados. Admito que fiquei com um pouco de medo, já que nunca entendi as ações caninas. Ele colocou-se de pé e segurou minha mão delicadamente.
Mais do que o esperado.
Antes que notasse, eu estava sendo levado por entre as árvores do bosque.
— É muito longe, Wolf? — Perguntei enquanto pulava galhos no meio do caminho. Ele parecia fazer um esforço para correr apenas nas duas pernas...Traseiras? Ele ainda parecia muito um humano.
— Não. Escolhi caminho direto. Chapeuzinho não vai precisar se perder ainda mais na floresta, hm? — Esboçou um sorriso gentil e meio latiu. Algo como “Arf!”, que me fez rir em baixo tom. Piscou com minha expressão...Me acompanhou na risada. — Por que Chapeuzinho veio só para o meio das árvores? É perigoso.
Naquele momento, não sabia se a criatura era sincera ou usava da ironia para confundir-me. De um modo ou outro, acabei desviando o olhar e dando de ombros levemente enquanto ajeitava a cesta no braço.
Ele não parecia mau. Ou perigoso. Bom, talvez as garras e presas fossem intimidadoras, mas ao que aquele rapaz abria a boca, ficava cada vez mais inofensivo. Talvez eu devesse tê-lo ouvido. Andar sozinho pelas árvores altas era mesmo perigoso.
— Não há nada aqui.
Apenas um múrmurio que sumiu no vento forte de sacudiu minha capa vermelha. Apertei as pálpebras para evitar que algo entrassem em meus olhos e quando os abri, dei de cara com aquele projeto de lobo me assistindo silenciosamente enquanto andávamos.
Nada disse. Continuou o caminho sem dizer mais uma palavra, neutro.
Enquanto andávamos, aproveitei o momento para continuar o observando de perto e sua estrutura curiosa. Parecia um homem. Quantos anos deveria ter? A idade canina era adicionada sete anos da humana, não? Perguntas...
Paramos no início de uma estrada de terra. Às árvores ao redor eram menores, mas isso já havia descoberto. A densidade da floresta diminuíra. O dono dos fios prateados sentou-se ao chão daquele seu jeito próprio.
— Lobo não pode passar daqui, mas não ameaças à Chapeuzinho. — Acho que minha face se tornou uma carranca ligeiramente amargurada pela despedida que se seguiria. — As pessoas têm medo de um Lobo Mau.
Ao olhar sua face, senti uma pontadinha de dor e culpa. Ele não era um “lobo mau”. Na verdade, ainda tinha um pouco de dúvida se era mesmo um lobo ali. Imaginava como deveria ser triste ser temido.
Lobos não vivem em bandos…? Alcateias? Matilhas?
Meu Wolf era diferente.
— Não é um Lobo Mau, Wolf. É bonzinho e me trouxe para o caminho certo. Obrigado...Chapeuzinho Vermelho agradece. — Segurei a capa como uma saia e me inclinei como se fosse uma reverência, assim como os velhos senhores ricos das minha cidade “obrigavam” as damas à fazer.
Toquei seu rosto com delicadeza...Ele sorriu. Sorriu, porém o olhar desviou-se à outro ponto da paisagem com um pouco de angústia e me deu às costas, correndo com as...quatro patas. O rapaz se tornara um verdadeiro lobo de pêlo escuro ao correr para longe.
Franzi o cenho silenciosamente e peguei o caminho para a casa da anciâ que provavelmente descansava na cama, doente e fraca. Na verdade, ainda não entendia como uma senhora forte como minha vó havia se abatido tanto pela tal gripe, mas parecia grave.
Meus ombros caíam ao olhar o céu e notar que a tarde caíra.
Exatamente, porque era um pôr do sol, que possuía a mesma tonalidade alaranjada e brilhante do olhos lupinos do lobo.
O caminho parecia ainda mais longo. Não era como no início de tudo. Quando sai de casa, não sentia que precisava de uma companhia. Só minha capa, minha cesta e pensamentos aleatórios para ocupar-me enquanto meus pés faziam boa parte do trabalho.
Quando já conseguia avistar a casa feita de madeira — pintada de verde por minha avó, minha irmã e eu —, algo chamou minha atenção. Uma movimentação diferente lá dentro. Alguns estrondos, rosnados, gritos, ofensas berradas…
Como uma briga.
Taquicardia automática. Corri como pude para dentro da casa, notando a porta arrombada, porém não derrubada. Assim que entrei, assisti à uma cena demasiado desagradável e aterradora.
Naquele instante, tive o desprazer de assistir um...Lenhador? É. Um lenhador atacar o rapaz que havia me deixado sozinho à pelo menos meia hora no caminho para a casa de minha avó. Segurava um machado e tentava desferí-lo contra Wolf, que pulava pelos móveis e tentava fugir dos golpes.
Era ruivo. Tinha fios longos presos em uma fita enegrecida e usava uma camisa de flanela verde. Parecia bastante bravo e praticamente disputava rosnados altos com o lobo que tentava atacar.
A anciâ doente? Segurando uma cadeira na direção de Wolf. Pálida, os cabelos brancos soltos pela possível briga que havia se iniciado e uma expressão misturada de medo e coragem. Mas...Vó?
E ainda sim, minha pergunta era: “O que ele faz aqui?!”.
— O que estão fazendo?! Parem! Parem, agora! — Tentei chamar a atenção deles bem na hora que o lenhador levou uma mordida profunda na perna esquerda. — Wolf! Não faz isso!
Me adiantei, afobado e louco para acabar com a situação. A lâmina afiada do machado atingiu o ombro do lobo em meio à pelagem cinza-escura, arrancando um grito de horror meu. Sangue de ambos espalhava-se no chão...E sujou meus sapatos quando corri até eles.
Arranquei o machado das mãos do ruivo, arremessando-o pela janela. O ferimento — aberto, grande e bastante grotesco também — de Wolf deveria ter doído bastante, ao ponto de ter voltado para a forma na qual o conheci.
Ajoelhei-me ao seu lado, sem saber o que fazer. A cesta cheia estava caída na entrada, e minha confusão estava tão clara quanto meu susto. O rosto do rapaz mostrava toda a dor que sentia, mas não deixava de rosnar para quem o fez.
— O que está fazendo aqui?! Você tinha ido embora! — Quase vociferei, tentando limpar o corte com as cortinas. Ele me olhou como se não estivéssemos naquela situação, esboçando um sorriso, ainda que este fosse afetado pela dor.
— Wolf não disse adeus. Tinha pego caminho longe de pessoas para ver Chapeuzinho de novo...Mas acharam Lobo antes. — E, de repente, eu estava soluçando. — Nee...Chapeuzinho não pode chorar. Tem lindos olhos.
No meio daquele desespero, quis surrá-lo por dizer uma bobagem tão grande...Mas o meu lobo não parou de falar, e nem eu pude interrompê-lo enquanto derramava lágrimas.
— ...Que olhos grandes tem, Chapeuzinho. Ainda bem que deixou o Lobo Mau te acompanhar. Algum outro lobo podia achar a Chapeuzinho. — Seus dedos tingidos do vermelho líquido que saía do ferimento recente acariciaram minha face, manchando-a também. Sangue e lágrimas. — Para que servem estes olhos?
Meu peito parecia cheio de pedras quentes. Pedras enormes, que aos poucos eram diminuídas pelo calor e quebravam até se tornarem areia. Areia fervente em meus pulmões. Segurei sua mão em meu rosto e beijei-a com suavidade, chorando feito criança.
— Para te ver melhor, lobo…
E o sorriso não saía de sua face.
— Que nariz pequeno tens, Chapeuzinho. É delicado. Lembra uma boneca. Para que serve? — Sua voz era arrastada e rouca. Não conseguia entender o propósito daquilo, mas responder era o que eu podia fazer.
Enlaçei meus dedos aos teus. Não notava, mas o lenhador ruivo e a senhora também presentes encaravam a cena sem entender nada...Até assustados. No fundo, também não dava a mínima. Continuava tentando acalmar os soluços.
— Para sentir teu aroma melhor, lobo… — Balbuciei em resposta.
Ofegava. Tentava recuperar a respiração quando deitei em seu peito desnudo, ouvindo o bater descompassado de seu coração. Sua pele era quente…
— Chapeuzinho...Que mãos macias você tem...Para que servem?
Seu hálito roçou em minha nuca, causando cócegas. Limpei as lágrimas com as mãos trêmulas, erguendo o olhar para sua face. As feições intocadas. Continuava belo. E diferente. Inclinei-me sobre Wolf, segurando seu rosto com as duas mãos.
Consegui sorrir.
— Para acariciá-lo melhor, lobo…— Confirmei a resposta murmurada com afagos leves onde minhas mãos estavam. Ele cerrou as pálpebras suavemente. Já tinha outros hematomas da briga antes d’eu ter aparecido. Estava ferido demais...
Mas ainda esperava a próxima pergunta com o coração apertado.
— Então para que servem os lábios rosados que tens, Chapeuzinho Vermelho? — Entreabriu as pálpebras levemente. Nos olhamos em pleno silêncio enquanto minha resposta não vinha. Cerrei os punhos sobre seu peito...encolhi os ombros.
Wolf não era e nem nunca seria um lobo mau. Era bonzinho. E inofensivo. Não era uma fera, como minha mãe dizia, e talvez nunca encontrasse um lobo como ele, que mesmo sendo taxado de mau, caminhou ao meu lado para não me deixar só.
— Para que servem os teus, lobo? — Sussurrei, aproximando nossas faces tingidas de um tom rosado. Sentia seu coração perdendo batidas e o sangue que não se decidia quanto à estancar de vez ou continuar sujando-lhe o corpo. Minha capa, mais vermelha que antes. — Os lábios da Chapeuzinho servem para lhe beijar melhor, é claro.
As gotas salgadas mancharam nosso contato. O capuz rubro caiu e deslizou de meus ombros para o chão maculado por sangue, mas nenhum de nós ligava. Em um beijo paciente e quase desajeitado, enlacei o pescoço do meu lobo que não era mau…
E acordei.
De repente, assustado e sentindo uma pressão suave contra meus lábios, abri os olhos e dei de cara com mechas acinzentadas caindo ao meu lado, e notei estar sendo beijado enquanto dormia. Lágrimas escorriam aos poucos, e os orbes alaranjados me fitaram com um misto de vergonha, surpresa e preocupação.
— Red? A-ah, você estava acordado? Desculpa, é que eu não resisti… — Pisquei algumas vezes após o contato ser rompido. Olhei ao redor. Estantes com cd’s e discos, uma mesinha de centro com suco de groselha e Coca-Cola e um volume de Moby Dick marcado em mais da metade das páginas.
Graças à Deus. Eu sabia onde estava e sabia quem era aquele rapaz de longos fios de prata. Sabia que onde estávamos deitados era um sofá de couro escuro e aquele era o quarto do meu namorado, Dominique Wolf. Meu lobo.
Abracei-o fortemente, ignorando o choro quase desesperado e alegre que começou à sair, como se nunca mais tivéssemos nos visto. Não via seu rosto, mas sabia que estava confuso e com um meio sorriso típico dele.
— Tive um sonho...Que era a Chapeuzinho Vermelho. — Enxuguei as lágrimas rapidamente, fitando-o. Antes que completasse, ele disse:
— E eu o Lobo Mau?
Inclinei a cabeça levemente para o lado...Sorri. Prontamente neguei e enchi seu rosto de beijos, imensamente feliz dele estar bem e sermos novamente amantes, e não um amor proibido e oculto de contos de fadas.
— Meu lobo, mas não mau. — Ele riu. Afagou minhas mechas, fazendo-me encolher e fechar os olhos da mesma forma que um certo rapaz fizera em meus sonhos. Piscou. Logo em seguida, me abraçou forte como se fosse uma pelúcia.
— Awn! Red é tão fofo! — Rimos juntos e inverti as posições no sofá, fitando-o de cima. Tocou a ponta do meu nariz, sorrindo docilmente. Olhei para trás rapidamente para checar se não havia mesmo nenhuma capa vermelha.
Não. Um lençol da mesma cor jogado ao chão. Provavelmente o que me cobriu enquanto cochilei no sofá de Wolf. Seu violão estava encostado na parede, fora da capa. Franzi o cenho e esbocei um sorriso.
— Dominique...O que cantou enquanto eu dormia?
Ficou pensando por alguns segundos antes de sorrir nervosamente e coçar a nuca, envolvendo-me pela cintura. Deu de ombros como se dissesse “a vida é assim, nee?”.
— Little Red Riding Hood.
Ah, claro. “Chapeuzinho Vermelho”. Tsc.
Revirei os olhos antes de pular do sofá e pegar o instrumento. Meu namorado sentou com uma expressão divertida ao estender-lhe o violão. Não disse nada, mas ele entendeu o que quis dizer com tal ação.
E foi assim. Sentados um ao lado do outro no galpão que Dominique chamava carinhosamente de “quarto” com seu violão e sua voz enchendo o lugar com a doce letra de “Little Red Riding Hood”, que nossa história teve seu…
...Quase-final feliz. Não terminou, mas estava tudo bem.
Ei, Chapeuzinho Vermelho,
Você é linda com certeza.
Você é tudo que um lobo mau poderia querer.
…
Que olhos grandes você tem,
O tipo de olhos que deixa os lobos loucos.
Então só pra ver que você não vai ser perseguida,
Eu acho que devia andar com você um pouquinho.
Que lábios carnudos você tem,
Eles claramente servem para seduzir alguém mau.
Então até que você chegue na casa da vovó,
Eu acho que você devia andar comigo e ficar segura.
Eu vou ficar com minha pele de ovelha,
Até eu ter certeza que você viu
Que eu posso ser confiável pra andar com você sozinho
Chapeuzinho Vermelho,
Eu gostaria de abraçá-la se pudesse.
Mas você pode achar que sou um lobo mau, então não vou.
Que coração grande eu tenho
Pra te amar melhor.
Chapeuzinho vermelho,
Até lobos maus podem ser bonzinhos.
Tentarei ficar satisfeito só de andar ao seu lado.
Talvez você enxergue as coisas do meu jeito
Antes de nós chegarmos na casa da vovó.
…
— E viveram felizes para sempre...
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