Red Eyes
11 Meu futuro é seu.
Notas iniciais
Quando acordou ela não estava mais lá. Havia seguido seu rumo até sua aldeia.
Lupus levantou sozinho. E seguiu sozinho. Não se importou em segui-la dessa vez. Porem não podia negar que sentia a falta dela. Apesar disso, não admitiria em voz alta nem que sua vida dependesse disso. Quando deixou o quarto em que compartilharam a ultima noite, viu a presilha de cabelo da jovem. Mesmo que odiasse aquele sentimento. Guardou o objeto para si
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Quando Chegou ao templo viu a sombra daquilo que fora um dia. Estava vazio, correu pelos corredores de pedra e terra batida e se viu sozinha. Desta vez não era um sonho. Era real. E um pesadelo.
Ao chegar no templo principal avistou a única pessoa que não queria ver. Kumi.
-Pensei que seria mal educada e não iria me cumprimentar
Em um segundo viu a jovem mulher no meio do templo, no segundo seguinte a metade raposa metade humana a atacava. Suas garras eram enormes e deixavam um rastro vermelho onde passavam. Lin esquivou do primeiro ataque por pouco, mas o segundo a acertou. Um golpe crescente que tomou seu ar e a fez cair.
-Essa é a tão temida reencarnação? – gargalhou
As garras da raposa desceram até si, mas quando alcançaram seu alvo, o mesmo se explodiu em escuridão. As habilidades de Lin ainda lhe pareciam um tanto estranhas, contudo as usava como se tivesse treinado tais poderes por anos. Usando o clone das sombras como distração, Lin desceu sobre a raposa, tentando golpeá-la com seu leque, contudo o contra-ataque de Kumi foi rápido. As caudas se uniram como um chicote que a golpeou. Tal ataque não fora mortal, apenas o suficiente para frustrar o plano de Lin em atacar a raposa.
E mais uma vez ela voltou com suas garras. Navalhas avermelhadas que tentavam alcança-la como facas sedentas. Um passo em falso e Lin sentiu uma delas raspar lhe o ombro. Fechou o leque e, daquilo que sairia um raio de luz, brotou um raio negro que fez a raposa recuar.
Estava cansada. Kumi atacava freneticamente e se Lin falhasse, seria retalhada. Tinha de atacar de longe, mas selos de vento não eram mais de seu poder; o poder das sombras exigia um ataque feroz e próximo. Não podia e não queria ficar na defensiva. Empunhou o leque firmemente e quando a raposa voltou com sua rajada de golpes, a sacerdotisa passou a revidá-lo entre uma esquiva e outra. No enorme templo as paredes ecoavam o som da batalha. Lin saltou para trás quando uma das caudas de Kumi tentou derrubá-la. Desceu como um meteoro negro. Quando bateu no chão, espinhos que pareciam ser feitos de sangue saíram do toque entre o leque e o chão e a raposa bambeou para trás. Mais uma sequencia de golpes e Kumi caiu sobre um joelho;
Daria o ultimo golpe, quando sentiu uma energia emanar do chão e fazê-la recuar. As paredes do templo racharam e o ar se tornou tão pesado que Lin quase sentiu com se pudesse tocá-lo
-Não me subestime! – rugiu Kumi
As paredes do templo racharam e o local foi ao chão como se fosse feito de areia. Quando o teto cedeu, tudo o que Lin teve tempo de fazer foi levantar aos mãos sobre o rosto. Não sentiu o impacto, porem. Uma áurea estranha a torneava; Já havia visto tão áurea. Ao seu redor tudo era escombros, mas ao seu lado, a paladina e ela se encontravam intactas
-Não me leve a mal, só estou fazendo isso por que temos um inimigo em comum – Holy estendeu uma das mãos e em segundos os arranhões de Lin sumiram.
-Ainda sim agradeço
Das pedras caídas, Kumi se ergueu. As caudas formando um escudo, mal havia sido arranhada. Estendeu uma das mãos, tornando o céu negro, mesmo que não houvesse nuvem alguma. No segundo seguinte uma estranha chuva caiu do céu; era vermelha como sangue, tão escarlate quanto suas unhas.
-Artes negras, evite ficar muito tempo parada – Holy segurou seu machado com ambas as mãos, ficando pronta para atacar
-Isso é... sangue? – Lin tinha a palma da mão suja por conta do líquido que caia e quando olhou para cima, sentiu seu corpo pesar
-Ei, ouviu o que eu disse?
Kumi rugiu e no instante seguinte enormes orbes vermelhos passaram a cair dos céus. Holy puxou Lin pelo braço, esquivando de um dos orbes. Mais outros caíram, enquanto elas se abrigavam em um pequeno cômodo, onde ficavam os equipamentos de jardinagem; mas isso era nos tempos felizes, os tempos de paz.
-Não são pesados, mas se um deles te encostar, terá sérios problemas.
-Temos que chegar perto dela – a sacerdotisa proferiu, porem ao olhar seus braços e roupas sujos de sangue, hesitou
-Não podemos, não enquanto ela invocar isso
Lin retrucaria, mas seu sangue gelou quando ouviu um estouro rouco. Entre as gotas da chuva de rubi, Lin pode vê-lo. Kumi não esperava uma rajada de tiros vinda de suas costas. Com isso a chuva diminuiu, passando a ser apenas algumas gotas vermelhas.
Kumi passou a atacar Lupus, que desviou bem de seus golpes. Lin aproveitou a distração e atacou pelo flanco. O sorriso nos lábios da morena não escondia o quanto estava feliz; e aliviada. Tinha plena convicção de que iriam ganhar. Já sentia o sabor da vitória nos lábios; quando tudo de repente se tornou amargo e o mundo parou. Sangue respingou no momento em que Kumi desapareceu e voltou-se a centímetros de Lupus, o levantando do chão. Suas garras o empalando. A expressão no rosto do caçador foi de dor e supressa. As pistolas caíram no chão sujo pelo vermelho da chuva, e agora de seu próprio sangue.
Lin gritou no momento em que Kumi deixou o corpo de Lupus cair. Num instante sentia desespero palpável e no seguinte sentiu o tempo parar. Seus ouvidos ficaram surdos ao mundo e seus olhos ficaram nublados. A dor em seu peito era tão sufocante que se assemelhava a uma apunhalada. Até respirar era doloroso.
Sentiu seu corpo aquecer e depois as assas se erguerem. Mas não era a mesma sensação de antes. Agora, em suas costas, duas assas negras se ergueram. Sua pele enegreceu e sentia-se com um poder que jamais sentiu antes. Tinha garras nas mãos e vestes negras. Era a encarnação do mal.
Foi ao encontro de Kumi e com um empurrão fez a mesma bambolear para trás. Num salto, bateu ambos os pés no chão, quebrando o local e fazendo a raposa recuar cada vez mais. Atacou sem piedade, culpa, hesitação. Nada disso era digno de ser sentido pela deusa – ou pelas trevas que a tomaram. Com as garras no chão, Lin formou um pequeno furacão de energia escarlate, a raposa não conseguiu esquivar. Por fim, Kumi tentou agir em desespero. A chuva se intensificou e novos orbes se formaram. Apesar disso, antes que qualquer um atingisse o chão, Lin foi mais rápido; era como se seu corpo não lhe pertencesse, contudo estava cega de mais para se importar, por mais que fosse uma marionete do ódio e das trevas, fosse como fosse, acabaria com Kumi ali.
As assas da reencarnação a levantaram, seus cabelos cor de prata dançando com tal movimento. Formou dois orbes de energia, um negro outro escarlate, magia massiva e poderosa. O chão sobre si rachava com a pressão o ar se tornou pesado e a raposa era puxada pela gravidade incomum dos orbes. Era como se ambos puxassem o mundo para si. A pressão era grande, mas Lin sabia que tinha de fazê-lo. As trevas mandavam, precisava obedecer. Com força e dificuldade, a sacerdotisa aproximava os orbes e, quando se tocaram, uma explosão negra se fez presente. Kumi foi arremessada e seu corpo caiu ao chão sem vida, as trevas gritaram naquele momento. Lin se viu entre dor, sofrimento e solidão. A energia a corrompeu, mas havia usado muito de si. As assas negras se desfizeram como papel e quando Lin caiu de joelhos, estava como humana.
Demorou certo tempo até ter forças para se levantar. Suas pernas bambeavam e sentia seu corpo doer; travou ao sentir vertigem com um simples movimento com a cabeça. Meio arrastando-se, meio andando, foi até Lupus, caído entre sangue e terra. Ao seu lado, Holy a olhava como quem encarava um morto-vivo – ou um demônio talvez.
-Não deveria ser capaz de ter sua consciência de volta
Lin estava ofegante e até sorriria em triunfo por ter dominado a escuridão em si; mas aquela situação era outra. Tudo o que conseguia era ficar ali, olhando o copo de Lupus; Lin tremia e lágrimas grossas já caiam de seu rosto:
-Você – Holy começou, mas Lin sequer olhou para a paladina – Como conseguiu?
-E faz diferença? – os joelhos da morena falharam e ela caiu de mal jeito ao lado do caçador. – No final... Não teve diferença. Ela conseguiu... Tirar tudo o que me era importante
-Que os céus me perdoem – Holy encostou o cabo no machado no chão, sussurrando alguma coisa que Lin não pode ouvir – Farei isso por questão de dívida. Não confunda as coisas
Com os olhos marejados, Lin encarou a pequena na esperança de entender o que dizia:
-Não conte a ninguém... – balançando a cabeça negativamente, continuou – espero que eu não me arrependa disso. Redenção
Sobre o martelo luzes brancas e esverdeadas se formaram e o chão sobre si formou um circulo desenhado. A energia era quente e acolhedora e quando as luzes morreram, os olhos escarlates se abriram.
-O que.. – Lin pulou sobre o caçador, ignorando as dores de seu próprio corpo e chorando incessantemente.
Lupus apenas retribuiu o abraço. O aperto no coração de Lin se desfez e por um longo momento ficou ali, abraçada a ele. Por fim, o ajudou a levantar. Seus olhos ainda transbordavam de lágrimas, contudo estas eram de pura felicidade e alívio
-Daqui nosso caminho se separa — começou Holy, mas antes que a pequena pudesse terminar seu discurso solene, Lin se apressou a tomou em um abraço
-Obrigada, de verdade...
Quando se despediram de Holy, já não via mais sua inimiga, mas sim uma amizade que teria daqui pra frente. Lupus ao seu lado se matinha quieto, andavam pelas ruínas do templo quando Lin parou a sua frente:
-Então.. o que você — O caçado a tomou em seus braços, beijando-a de surpresa. O beijo foi intenso e fez Lin se esquecer do mundo a sua volta. Das ruínas, das mortes, do problemas. Nada pareceu importar naquele momento. Por fim quando separaram os lábios, os orbes escarlates foram tudo o que Lin via:
-Não me importo com o que vier daqui pra frente. Desde que você esteja ao meu lado — Sussurrou o caçador.
Naquele dia, caçador e caça caminharam lado a lado. Lin não tinha rumo, objetivo, destino, apenas um futuro, e este estava entregue àquele que lhe deu outra vida. A vida das trevas.
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