Red Angel - Sonho de um anjo
26 Capítulo 26- Técnicas impossíveis
Notas iniciais
Malina
Esperamos que o Mamoru subisse para cima da máquina para podermos começar o treino. Ele estava bastante entusiasmado enquanto esperava que os veteranos da Inazuma Eleven verificassem a máquina uma última vez.
—Malina? — voltei-me para o treinador.
—Sim?
—Porque não experimentas usa-la também?
—Eu? Mas porquê?
—Soube que também tens trabalhado para obter uma nova técnica antes da final, talvez com este treino te saia algo. O que achas? — estava um pouco surpreendida.
—Mas a máquina não foi feita para a Majin The Hand?
—É verdade, mas também não custa experimentar para outras posições.
—Quem sabe não tens algum resultado. — Olhei para os veteranos, agradecida pela força que eles me davam, quando senti uma mão sobre o meu ombro.
—Vá lá, Malina. É só mais um treino que fazemos juntos. — Vi o meu primo sorrir abertamente.
—Está bem! — não conseguia dizer que não. Claro que também queria treinar, queria melhorar e talvez aquela máquina fosse a melhor solução.
Subimos ambos para cima da máquina, sendo ajudada pelo Mamoru. Era mais assustadora vista de perto, mas não me podia deixar intimidar por isso. Respirei bem fundo para me preparar. Olhei para os círculos no chão, assim como para os tubos que saiam de todos os lados, antes de dar uma olhadela para o meu primo, a meu lado. Ele também parecia tenso com aquela visão.
—Têm de ir até ao fim. Têm de ir pisando os círculos alternando com o pé direito e esquerdo, está bem?
—Sim. — O Mamoru iria começar primeiro do que eu já que não dava para irmos ao mesmo tempo.
—Vamos lá! Vocês vão conseguir!
Não consegui fazer nada mais a não ser sorrir para o Ichinose, pronta para começar, apesar do nervosismo. No entanto, nada estava a andar. Olhei para os rapazes e vi que não se mexiam.
—Está muito dura. — Um dos veteranos aproximou-se.
—Parece completamente enferrujada.
—Claro, foi construida há quarenta anos, não é?
—Escutem, e isto serve para quê? — um dos veteranos trazia com sigo um pequeno tubo de lubrificante nas mãos – Aproximou-se das roldanas da máquina e colocou lubrificante para lá – Talvez isto chegue. — Eu esperava que sim.
—Estão prontos?
—Sim. — Foi a nossa rápida resposta ao treinador.
A máquina ainda parecia um pouco enferrujada, mas estava finalmente a mexer, apesar do barulho todo que fazia, e dos rapazes parecem estar a fazer imenso esforço. Só que nós não podíamos estar a pensar nisso. Assim que o Mamoru começou a andar, eu fui atrás, tentando não ser acertada por nada.
—Endou, faz força sobre a parte inferior.
—Está bem.
—Malina, utiliza a tua flexibilidade para te desviares dos obstáculos.
—Sim, treinador.
No entanto, o Mamoru acabou por cair ao ter uma das barras a acertar no seu pé. Tentei desviar-me para não o magoar, mas acabei por ser atingida de lado e empurrada para trás.
—Voltem para trás e repitam.
—Sim, vamos lá. — E voltamos para a posição inicial.
—Movam mais rápido a cintura. E tenham em conta que se não conseguem fugir bem aos obstáculos, não serão capazes de continuar a avançar.
Era fácil falar, mas estava a ser difícil conseguir passar sem levar com os obstáculos em cima; nas pernas, nos braços, nas costas, até na cabeça nós levamos com eles. Sempre íamos ao chão, mas tornávamos a levantar e a ir para a posição inicial. Se um caía, o outro tinha de voltar também, mesmo quando um de nós estava atrás. Sentia-me bastante dorida, mas também não pretendia desistir. No entanto os rapazes pareciam bastante cansados de estar a fazer a máquina mexer.
—Vocês estão bem? — eles estavam a soar bastante. Assim que nós descemos da máquina deu bem para ver isso.
—Rapazes, e se descansassem um pouco?
—Então nós vamos ocupar o vosso posto, ok? — fiquei surpresa ao ouvir o Kurimatsu.
—Rapazes… — os do primeiro ano estavam todos reunidos, e pareciam sérios.
—Não podemos ficar sentados a descansar e ver como vocês se esforçam sem parar.
—Deixem-nos dar uma ajuda, por favor.
—Capitão. Malina. Nós também queremos ajudar. — Elas também?
—Nós estamos dispostas a ir até ao fim!
—Aki… Haruna… Amigos… — sentia-me tão feliz por ter aqueles amigos, por ter aquelas pessoas a meu lado e ter a sua amizade.
—Tenho tantos amigos a meu lado, a preocuparem-se comigo e eu só estou preocupado em conseguir fazer a Majin The Hand sem me dar conta que sou o rapaz mais burro do mundo. — Pousei a mão sobre o ombro do meu primo.
—Tem calma, Mamoru. Eu sei o que isso, não ver aquilo que temos à nossa frente, mas agora sabemos que temos amigos maravilhosos com os quais podemos contar.
—Tens razão. — Tirei a mão do ombro dele – Contamos com a vossa ajuda para conseguir as nossa técnicas, por favor!
Nenhum deles disse que não. Todos nos queriam ajudar, todos nos apoiavam e assim como nós queriam vencer a final e ser os melhores do Japão.
Cada um deles girou a máquina. Foram trocando de lugar, passando a vez uns aos outros sempre o que estava a rodar se cansava de o fazer. Enquanto isso, sentia que avançávamos cada vez mais. Eram raras as vezes que caíamos ou éramos acertados pelos pinos da máquina, o que era bom, porque me sentia bastante maltratada, além de que era um bom sinal, o de que estávamos a avançar bem. O treinador continuava a dar-nos indicações e nós tentávamos segui-las da melhor forma possível. E assim que chegamos à plataforma do outro lado da máquina, parei sobre as costas do Mamoru que já lá se encontrava. Foi só então que caí na realidade… Tínhamos terminado.
—Conseguimos… — encarei o Mamoru antes de o abraçar.
—Conseguimos!
—Boa. Agora o próximo passo.
Fomos rapidamente tirar os fatos revelando os nossos equipamentos por baixo, prontos para testar o treino com a máquina. Eu só esperava que tivesse dado em algo. O treino não nos podia desiludir, nunca o tinha feito, não o podia fazer agora.
—Lembrem-se de como se sentiram na máquina.
—Não esqueço. — Respirei bem fundo sem saber o que responder.
—Estás pronta?
—Sim.
Comecei por correr um pouco com a bola até ao Mamoru e quando achei que fosse o momento certo, atirei a bola ao ar. Não tinha exatamente uma técnica em mente como o Mamoru tinha a Majin The Hand, muito menos como haveria de rematar a bola para completar a técnica, acabando por saltar, girar uma vez no ar, antes de começar a rematar em vários pontos da bola para lhe dar poder, dando-lhe por último o chute final em direção à baliza. Senti como um poder imenso crescia em mim, algo quente e poderoso que não tinha sentido antes.
O único problema é que saiu muito fraco já que acabei por rematar com a ponta do pé ao deixar demasiado tempo a bola no ar. Tinha medo que a sua força para-se a meio, só que isso não impediu o Mamoru de tentar realizar a sua técnica. Comecei a cair e quando dei por isso estava sobre os braços do Goenji e do Kidou que me sorriram, mal me conseguiram apanhar. Só tive tempo de lhes sorrir também antes de pôr de pé observando o meu primo. Vi pelos olhos dele que também sentia aquele poder dentro de si, aquele calor que antes não existia. Tinha a mão levantada e assim que a bola chegou mais perto baixou-a para a agarrar, mas acabou por não conseguir e ser um pouco empurrada trás, falhando a técnica, tal como eu.
—Foi por pouco. — Não tinha bem a certeza se concordava com o Domon – Já não vos falta quase nada.
—Mais uma vez.
—Sim! — nenhum de nós pretendia desistir.
E foi novamente. Senti que a técnica foi com mais força depois de decidir onde queria rematar, apesar de me ter sentido indecisa ao início, o que atrasou um pouco tudo, mas fiquei aliviada pela sensação não ter desaparecido. O meu primo também falhou uma vez mais a técnica, mas continuou logo a seguir. E para além disso, eu tinha de treinar também a minha aterragem no chão. Os rapazes não iam estar sempre ali… Segundo o treinador.
Só que não demorou muito até começarmos a ficar todos um pouco frustrados com as falhas.
—Bolas! Eles assim não vão conseguir. — Infelizmente sentia que o Someoka tinha razão.
—Raios! — vi-o dar com o punho no chão – Porquê que não consigo fazê-lo?! — suspirei. Era como se tudo não valesse para nada.
—De certeza que nos está a escapar algo. — Foi então que o treinador me encarou – O que achas que falta à tua técnica?
—Não sei bem. Ainda não decidi exatamente como a fazer ou como rematar. Parece que todas as formas de o fazer são erradas e nenhuma parece resultar como eu quero e isso acaba por tirar toda a força à técnica e…
—E?
—E falta algo mais, mas eu não sei dizer o quê.
—Talvez algo fundamental.
—Algo fundamental?
—Sim. Não sei o quê, mas tenho a certeza que é isso, até mesmo para ti, Endou.
—Como assim?
—Talvez a Majin The Hand seja uma técnica fantasma que só Endou Daisuke conseguia fazer, não sei. E talvez para ti, Malina, seja uma técnica difícil de realizar.
—Então isso quer dizer que por muito que vocês treinem… — nem o Someoka conseguiu acabar aquela frase.
—É possível que nunca dominem as técnicas.
—Uma técnica fantasma… Que só o meu avô conseguia fazer.
—Não! — não consegui aguentar mais aquele silêncio e aquela forma de pensar – Nem pensar! Recuso a acreditar nisso.
—Mas Malina…
—Nem mas nem meio mas! — cerrei os punhos com tanta força que quase sentia as unhas espetar na pele — Passei muito tempo a duvidar das minhas próprias capacidades há alguns anos e não superei isso para agora me dizerem que é impossível realizar uma técnica! — ninguém me respondeu. Todos estavam com caras de desistência – Não é impossível para nenhum de nós! – caminhei até eles – Não fiquem com essas caras. Até parece que já perdemos. Lembrem-se que o jogo ainda nem começou.
—Mas… Mas se não conseguirmos defender os remates nem marcar.
—Não conseguiremos marcar porquê? Temos tantas técnicas fantásticas! Sejam individuas ou conjuntas. E se eles marcaram algum golo, nós teremos de marcar mais um.
—Marcar mais um?
—Se marcarem dez, marcaremos onze. Se marcarem cem, marcaremos cento e um. Assim com certeza que ganhamos.
—Malina...
—A Malina tem razão. — As nossas ajudantes juntaram-se a mim – Temos de marcar mais um golo do que eles.
—Temos de marcar sempre mais um até obtermos a vitória.
—Meninas…
—Se eles marcam dez, nós marcamos onze.
—Isso!
—Se eles marcam cem, nós marcamos cento e um.
—Exato! — olhei para o Kidou e o Goenji, vendo-os sorrir – E tu, Kidou? Que dizes?
—Sim. Marcaremos os que fizerem falta, até cento e um. — Sorri. Finalmente a equipa estava a recuperar o seu animo habitual.
—Nós também faremos algo. — Encarei o Kazemaru – Defender, defender e defender para que não sejam rapazes de rematar à baliza.
—Claro! Eu também! — até o Kabeyama.
—Apostaremos tudo na defesa para vence-los. — Assim como Kurimatsu.
—Vamos fazê-lo, Mamoru! Podemos consegui-lo se todos unirmos as nossas forças.
—Malina… Amigos! — já parecia bem mais animado – Vá, vamos em frente! Vamos mostrar-lhes do que somos capazes, de acordo?!
Nenhum de nós conseguiu ficar indiferente, concordando sem hesitar uma única vez. Finalmente estávamos bem e com novas forças para lutar.
—Bem rapazes, vamos todos para cima descansar. O grande dia está quase aí
Todos começaram a correr para cima, conversando sobre tudo e mais alguma coisa, até mesmo sobre a final, mas já com um sorriso no rosto. Talvez menos eu que ainda continuava no mesmo lugar, observando-os.
—Malina? Não vens? — encarei o Goenji à minha frente, junto ao Kidou e ao Mamoru. Sorri-lhes.
—Sim! Claro! — corri para me juntar a eles e subir.
*
Que bela altura para começar a chover! E que ótima altura para não ter um chapéu de chuva! A minha mãe pediu-me para levar as compras rapidamente para casa, mas o rapidamente não seria tão seco como ela queria. Nem eu! Só não queria apanhar uma constipação ao ficar toda molhada, muito menos tão perto da final onde preciso de estar a 100%. E com a vinda do meu irmão mais velho, de França, onde estava a jogar futebol, era mais um motivo para não ficar doente. Razão pela qual a minha mãe me mandou às compras enquanto arruma a casa.
Estava a passar pelo campo junto ao rio quando vi uma bola de futebol no campo, detendo-me de imediato. Foi então que as palavras do treinador me passaram pela cabeça.
Como assim era impossível para mim realizar aquela técnica? Não era o mesmo que estar a dizer que sou fraca? Então porque estou na equipa? Só para a Raimon se puder vangloriar de ter a primeira rapariga a participar no Football Frontier? Não queria ser isso, queria que todos percebessem o meu valor e que não era apenas uma menina bonita ou que está lá para ajudar os seus companheiros, passando-lhes a bola e sendo útil.
Talvez o meu pensamento fosse errado, sabia que os meus companheiros não pensavam dessa maneira e só isso já era suficiente, mas eu queria mais, queria poder fazer algo mais, muito mais!
Já não sabia o que mais me molhava a face, se as lágrimas ou a chuva, mas tive logo de limpar a face e continuar a correr para casa.
A final era já depois de amanhã.
*
O dia finalmente tinha chegado e eu… Ainda me sentia um pouco doente.
No dia em que o meu irmão chegou desmaiei com a febre e ontem passei o dia na cama, também com febre, tentando recuperar rapidamente para estar pronta para a final e claro, o meu irmão passou o dia a cuidar de mim. Lamentava imenso não poder passar o dia com ele como devia ser.
—Entre. — E após bater à porta, vi o meu irmão entrar.
—Bom dia!
—Bom dia, Hayato. — o cabelo castanho do meu irmão já parecia bem mais arrumada. Quando saí do quarto para ir ao wc, ele parecia um zombie e nem me disse uma palavra.
—Como te sentes?
—Bem melhor! — aproximou-se de mim e pousou a mão sobre a minha testa.
—Ainda estás quente. — Ok, também não estivesse assim muito melhor, mas estava o suficiente para jogar a final.
—Eu estou bem. — Desviei a mão para que parasse de se preocupar – A sério. Estou bastante melhor e pronta para jogar a final. — Ouvi-o suspirar.
—É isso que me preocupa. Eles não te podem substituir? Têm mais jogadores na equipa, não?
—Sim, mas eu quero estar lá. Quero jogar a final junto com todos, independentemente de como eu esteja e quero poder ajudar a equipa a ganhar. — Sorriu novamente.
—Sabia que dirias algo assim. — Foi então que tirou a mão que tinha atrás das costas, mostrando umas velhas chuteiras de futebol, eram verde-escuro e pretas. Reconheci-as de imediato.
—Mas isso é…
—As chuteiras que eu usava quando era mais novo. Elas não me servem mais. E olha só...- Volta-as de cabeça para baixo, antes de me encarar e sorrir – São o teu número.
—Hayato, são as tuas primeiras chuteiras…
—E agora são tuas. — Pegou numa das minhas mãos, fazendo-me estender também a outra – Quero que jogues com elas na final. — Pousou-as sobre a minha mão. Eu sabia o quão importante eram para ele. Foi as primeiras chuteiras que os nossos pais lhe conseguiram comprar. Antes ele tinha sempre as velhas que os amigos já não precisavam ou que os veteranos lhe ofereciam.
—Mano… Tens a certeza?
—Claro que sim! Se vais jogar, ao menos é para vencer, não?! — sorri.
—Óbvio! — abracei-o com toda a força – Obrigada. — Soltei-o e corri para a mochila para a arrumar. Era hora de ir – Vou indo! -comecei a descer as escadas – Desejem-me sorte!
*
Finalmente estávamos em frente ao estádio, aquele onde iria ser disputada a final com a Zeus, o nosso maior e mais poderoso adversário. Só que havia um problema. O estádio estava fechado.
—Mas o que se passa?
—Não percebo. Não está ninguém.
—Afinal o que se passa aqui? — foi então que ouvimos o celular da Natsumi tocar.
—Sim? Estou? — fez um pouco de silêncio até aparecer o espanto na sua face – O que significa isto? Mas como sabe que… Sim, claro. Sim. Entendido.
—Quem era? — assim que terminou a chamada, não consegui evitar perguntar.
—Era um comunicado urgente. Ao que parece, mudaram o estádio da final do torneio.
—Mudaram o estádio? Mas mudaram para onde?
—Pois, isso… — ela não disse nada mais e limitou-se a levantar a cabeça, olhando para o céu. Todos nós fizemos o mesmo em seguida, vendo algo enorme planar sobre o estádio Frontier, enquanto algumas estátuas pareciam olhar para nós desde lá de cima, como anjos a ver-nos no céu, mas um pouco zangados.
—Não acredito. Então o estádio afinal vai ser…
—Sim. — A Natsumi apenas confirmou o que o Kidou e todos nós pensávamos.
—Ali em cima?
Assustava-me um pouco aquilo que estava preparado para nós.
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