Recém Casados
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Min Jun sentou-se no chão barrento e encharcado. Parecia não se importar com a chuva que caía sobre nossas cabeças. Parecia cansado, que havia desistido.
Por alguma razão misteriosa me juntei a ele, sentando-me ao seu lado, naquele momento aquilo parecia ser o certo a se fazer. Sua expressão parecia mais calma, talvez a chuva tivesse algum efeito calmante sobre Min Jun que apenas observava silenciosamente as plantas à nossa frente, desligado do mundo, em um mundo apenas seu.
Decidi me manter em silêncio, decidi me deixar ouvir apenas o som da chuva batendo na terra e nas folhagens. Ele parecia tão belo com as gotas de água molhando seu rosto, uma beleza quase mágica e única. Seus lábios se curvaram lentamente formando um sorriso e tudo o que eu podia fazer era observá-lo fixamente com meus lábios entreabertos e respiração pesada. Era como ver uma cena em câmera lenta e apreciar cada segundo.
Então Min Jun soltou uma gargalhada misturada à um suspiro, e começou a rir desenfreadamente como quem acabara de ouvir a piada mais engraçada do mundo. Riu até seu corpo se curvar batendo as mãos no chão enlameado.
— O que é tão engraçado? – Indaguei cuidadosa e ele finalmente olhou arfante em minha direção.
— Já parou para pensar no quanto isso é ridículo? – Levantei as sobrancelhas – Toda essa situação? Nós ficamos perdidos no meio da selva durante nossa lua de mel falsa no Hawaii e não fazemos ideia de onde estamos nem de quando nos acharão.
— E isso é engraçado? – Insisti com minha indagação.
— É tão ridículo que chega a ser engraçado, como naqueles filmes que de tão ruins acabam sendo bons – Ele parou de rir e me olhou sério – Eu sinto muito.
— Você sente muito? – Min Jun acenou um “sim”.
— Pensando bem a culpa não é toda sua. Você não me obrigou a vir aqui, você insistiu e eu vim porque depois eu queria te levar para um lugar pior apenas para me vingar. Nadar com tubarões talvez, não havia me decidido ainda. Então eu sinto muito, não tem que se sentir mal por mim – Voltou a olhar para frente – Me desculpe por ter surtado com você.
— O que? Pode repetir não ouvi direito! – Fiz-me de surda.
— Me desculpe...
— Como?
— Me desculpe! – Disse com uma certa irritação na voz.
— Tudo bem, eu te desculpo. Depois de pedir tantas vezes – Sorri e dirigi meu olhar para uma grande folhagem onde as gotas d’agua deslizavam e caiam sobre o chão – Por que simplesmente não admite que se importa comigo e não queria que eu ficasse chateada com todo o peso da culpa?
— Por que não me importo com você!
— É claro que se importa e não é primeira vez que faz isso. Você não é mau Min Jun, apenas quer que as pessoas pensem que é. Você é bom. Por incrível que pareça – Seus lábios curvaram-se rapidamente para um sorriso que ele conteve, soltando apenas um suspiro divertido.
— Acha que sou bom?
— Acho. Mas é meio babaca às vezes, assim como eu. Nós dois somos dois babacas convivendo um com o outro. Às vezes temos nossos momentos de bondade e às vezes somos apenas nós dois sendo idiotas um com o outro. Mas quem, não é assim?
— Veja, parou de chover – Não havia mais água caindo sobre nossas cabeças e as nuvens escuras se afastavam dando lugar a radiante luz do Sol que saíra de seu esconderijo.
— Acho que já podemos continuar procurando o caminho de volta... – Me apoiei para ficar de pé quando Min Jun segurou meu braço me impedindo de levantar.
— Nada disso senhorita, vamos permanecer aqui esperando por ajuda. Quando menos nos movermos mais fácil será para nos encontrarem. Aliás nem deveríamos ter saído do local de onde nos perdemos. Mas já que estamos aqui, esperaremos por ajuda.
— Min Jun há quanto tempo estamos aqui?
— Eu não sei, algumas horas eu acho...
— Viu, já perdemos a noção de tempo, temos que sair desse lugar – Murmurei chorosa.
— Não, vamos continuar aqui, em breve nos encontrarão. Apenas devemos esperar.
— Não era para ser assim. Deveria ser divertido, mesmo que fosse apenas pra te encher.
— Obrigado pela parte que me toca. Isso é interessante sabia? – Sorriu e olhou dentro de meus olhos.
— O que é interessante? – Pedi desconfiada.
— Tomar todas as suas atitudes pensando em mim. De certa forma pensa em mim o tempo todo. É quase romântico não acha?
— Nunca, não há nada de romântico nisso. Quero que odeie, não que se divirta com o que faço. Essa é a graça em te provocar.
— Você ficou vermelha dessa vez – Riu e segurou meu rosto entre suas mãos aproximando seu rosto do meu o bastante para sentir seu hálito – Realmente essa coisa de provocar os outros e deixá-los constrangidos é divertida – Soltou meu rosto em chamas e gargalhou.
— Sabe o que você precisa? De uma namorada, talvez ela pudesse fazer alguma coisa por você.
— E que mulher sairia com uma cara de acordo com suas palavras “com o humor de um velho rabugento”?
— Eu não sei, conheço muitas mulheres, poderia te apresentar alguém, Brie por exemplo, ela está sozinha no momento...
— Ela não faz meu tipo – Me interrompeu no mesmo instante.
— E o qual o seu tipo?
— Não sei, mas sei que ela não faz meu tipo. Talvez você seja meu tipo – Continuou sério e num impulso comecei a rir, gargalhando alto até meu estômago doer e por mais incrível que parecesse ele começou a rir comigo, como se aquilo fosse algum tipo de piada interna entre nós.
— Isso foi genial!
— Foi não foi? Você meu tipo ideal! – Dizia quase se engasgando com as risadas.
— Ah, acho que nunca contará uma piada tão boa quanto essa novamente – Eu tentava respirar controlando o riso.
— Tenho que concordar com você. Sabe, acho que funcionaríamos bem como amigos – Sugeriu e parei de rir no mesmo instante.
— Amigos? Há um tempo atrás você me odiava...
— Eu disse que te odiava às vezes, aquele foi um dos momentos que eu te odeio só às vezes. Neste momento não te odeio.
— Nunca pensei em você como amigo...teríamos que viver em paz... Hum, eu não sei.
— Isso seria ruim?
— Pense bem, nós funcionamos desse jeito entende? Brigando o tempo todo se desculpando e rindo juntos em seguida, depois voltando com a implicância recíproca, é um ciclo sem fim. É divertido.
— Não, isso não é divertido, somos adultos Lisa, isso não deveria acontecer. Mesmo que seja mais nova que eu não vejo problemas em sermos amigos...
— Qual o problema de eu ser mais nova? Você tem 20 e...
— Na Coréia eu tenho 28, aqui 27, sou um ano mais velho que você.
— E daí?
— No meu país, não é comum pessoas com idades diferentes serem amigos, muito menos se for um homem e uma mulher.
— Mas não está no seu país.
— Então seremos amigos?
— Seria como um tratado de paz, não é?
— Basicamente.
— É uma decisão difícil a ser tomada.
— Não é difícil, apenas vamos ser amigos e parar com toda essa baboseira de implicância mútua, podemos fazer nossa convivência se tornar mais suportável nesses meses que faltam.
— Tá, tudo bem – Disse contrariada e Min Jun estendeu sua mão como se devêssemos selar uma espécie de acordo – Mas eu vou implicar com você às vezes, só pra não ficar entediada.
— Certo, só as vezes já é ótimo – Sorriu exibindo seus belos dentes – Me sinto mais leve.
— Eu não – Murmurei fazendo beiço como uma criança mimada.
Passamos um tempo em silêncio. Parecia que não tínhamos mais sobre o que falar ou discutir e o tempo parecia não passar nunca, mesmo que o Sol começasse a dar lugar à noite e o céu tivesse sido pintado de laranja.
— Min Jun? – Cutuquei o braço do rapaz que cochilava sentado com a cabeça pendendo para o lado.
— Hum? O que? O que aconteceu? Nos encontraram? – Despertou assustado.
— Ainda não, é que está anoitecendo, e bom, estou ficando com medo – Disse trêmula, não pelo medo, mas pelo frio que sentia com as roupas ainda úmidas no corpo.
— Eu não imaginava que essa mata era tão grande, já deviam ter nos encontrado há horas – Dizia num tom preocupado – Isso não é nada bom – Franziu o cenho e segurou minha mão.
— Eu sempre quis ser atriz, mas eu realmente não queria fazer parte do quarto filme da Lagoa Azul.
— O que é Lagoa Azul? – Indagou curioso.
— Você realmente não sabe? Você é a droga de um ator!
— Não conheço muitos filmes americanos.
— É sobre dois jovens presos numa ilha deserta e acabam se apaixonando...
— Definitivamente não estamos nesse filme – Assinalou corando e apenas soltei um riso curto tapando a boca com a mão.
Voltamos a ficar em silêncio, apenas ouvindo o som dos animais noturnos e grilos. Min Jun voltou para seu cochilo como se o fato de estarmos sozinhos à mercê de animais não fosse um motivo suficiente para se manter em alerta.
Apesar de estar cada vez mais escuro notei que as folhagens se moviam de uma forma diferente. Não era o vento que as chacoalhava. Senti meu corpo estremecer e não pelo frio. Ouvi que algo caminhava e se movia entre as plantas e chacoalhei meu novo amigo, afinal se alguém devesse ir verificar do que se tratava, essa pessoa não seria eu.
— Min Jun! Min Jun! – Sussurrei assustada sem tirar os olhos da mata à nossa frente — Min Jun – Ele abriu os olhos ainda perdido.
— Aconteceu alguma coisa? Eu dormi de novo?
— Aconteceu...Tem algo se movendo ali – Apontei na direção dos barulhos e movimentos estranhos.
— E o que quer que eu faça?
— Que vá verificar, e se for uma fera da natureza? Ou um lobo selvagem? Ou um urso?
— Aqui tem ursos?
— Eu não vou saber se não olhar. Vai lá – O empurrei para que se levantasse – Vai!
Min Jun apertou os lábios e me lançou um olhar aniquilador. Vagarosamente moveu-se em direção aos sons e folhas que balançavam de forma anormal. Suas mãos tremiam, e parecia receoso. Sua respiração era pesada e rápida.
Ele moveu as folhagens e me levantei tentando ver algo sem sair de meu lugar. Ouvimos outro ruído.
— Eu não posso acreditar nisso! – Ralhou Min Jun nervoso.
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