Recortes em Hogwarts.

3 1º Ano: Primeiro Episódio - Última Parte.


Notas iniciais
Ou... "Como eu conheci as pessoas mais chatas do mundo inteiro(III).".

Quando o carrinho havia passado pela primeira vez, eu ainda estava cheio do café da manhã reforçado da minha mãe e incapaz de pensar em comer alguma coisa. Quanto mais comprá-las. Nessa segunda vez, horas já tinham sido transcorridas e as opções à minha frente passaram a parecer muito coloridas e tentadoras. Haviam tantos doces bons ali! Quais eu deveria comprar? Os feijõezinhos de todos os sabores tinham o potencial para serem uma ótima compra ou um investimento terrível. Uma vez, o meu pai havia comprado uma sacola deles que tinha os sabores “lama”, “areia”, “urina”, “espinafre” e “fígado”. Não era garantido que eu teria a sorte da mamãe que apanhou as únicas balas de menta, morango e cereja da sacola.

Os abacaxis cristalizados do Horácio Slughorn também tinham essa característica de serem os favoritos de alguns e os horrores culinários de outros. Como eu nunca havia experimentado um deles, a minha curiosidade estava incitada, embora moderada por uma dose de hesitação. Pedaços secos de abacaxi cobertos por açúcar azedo... Será que aquilo dava certo?

Diabinhos de canela eram os meus favoritos, o que os tornava uma opção um tanto...Meh. Escolher aquilo que você está acostumado a comer quando há novidades à sua disposição não tem nenhuma graça.

Tantas, tantas escolhas. Tantas, tantas dúvidas. Eu não estava com muita fome e não podia comprar mais do que aguentaria comer – essa foi uma lição que a mamãe me passou insistentemente. Argh! Eu tinha que tomar uma decisão logo.

O único doce que eu, com certeza absoluta, queria comprar seria um sapo de chocolate.

Em primeiro lugar, porque eu precisava da figurinha do garoto que sobreviveu na minha coleção. Eu pegava todos os benditos amigos dele e nunca conseguia adquiri-lo! Por que ele tinha que ter tantos amigos? Digo, ele salvou o mundo, eu sei, mas isso foi só depois de muito tempo! Eu não ia gostar de um cara que fez a escola inteira estar em perigo constante por sete anos! Ele não devia ter aquela quantia absurda de bons relacionamentos.

Em segundo lugar, um sapo de chocolate seria uma provocação direta ao estranho e ao Roderich em um único golpe de cacau. O tempero da implicância maligna e as gotas de escárnio cairiam muito bem no chocolate e estimulariam o meu apetite, tornando aquela a sobremesa perfeita!

Para me auxiliar a decidir o que comer, eu tive uma ideia que nem passou pelo filtro da minha cabeça quando foi ativada. Eu observei os meus colegas de cabine para ver o que eles queriam.

Pela forma maravilhada como eles estavam olhando para o carrinho, era fácil verificar que eles queriam alguma coisa dali. O estranho estava se inclinando tanto para frente a ponto de me assustar com a possibilidade que ele caísse de cara nos doces. O jovem mestre, por sua vez, era mais sutil em relação aos seus anseios, contudo a sua insipidez constante fazia com que as pequenas reações dele aparecessem com mais presença do que teriam nos rostos dos outros.

Ou talvez eu inconscientemente tenha o considerado um garoto curioso o bastante para ficar atento aos detalhes praticamente imperceptíveis das feições dele.

– Hum.. Er... — o intruso estava vivendo algum tipo de conflito interno. A sua mão por vezes subia em uma menção de apanhar os doces e recuava pouco depois como se tivesse tocado em uma poção altamente tóxica. A angústia dele era indisfarçável e os seus olhos quicavam no Roderich e no carrinho, no carrinho e no Roderich... — E-Eu não sei!

– Não, obrigado. — ele recusou, com sua cabeça erguida em uma linha muito acima do carrinho, e de uma forma muito séria e decidida, a qual era imensamente engraçada para mim. Ele estava muito parecido com aqueles gatos que estão precisando de atenção, mas não querem mostrar interesse pelos seus donos, porque gatos são assim, e ficam andando repetidamente pela sala onde eles estão como se não quisessem nada. É uma descrição esquisita, eu sei, porém ela é bem precisa! — Eu não posso gastar o meu dinheiro dessa forma.

Eu não sei exatamente o que foi... Algo no tom de voz forçadamente controlado dele, na maneira solene como ele se expressou, na terrivelmente forjada indiferença dele... Estimulou uma atitude minha que nem eu estava esperando.

– Mande três de cada tipo de doce! — eu pedi, apanhando o meu dinheiro para pagar por eles.

O choque dos meus colegas de cabine foi tão grande que eu consegui sentir os olhos deles me acertando quando eu me inclinei para apanhar minhas compras. E vejam eu não estava prestando tanta atenção nos meus arredores, porque, duh, eu estava recebendo doces! Poucos segundos depois, o espaço entre as minhas pernas logo ficou lotado de guloseimas variadas, e o ambiente, de uma harmonia inacreditável.

– Oh, eu não sabia que você tinha um lado gentil. — o intruso começou a dizer, sentando-se no seu lugar de novo e desfazendo a sua postura de ataque por completo. — Obriga...

– Lado gentil? Esses doces são todos para mim! Vejam e invejem! — eu ri espalhatosamente.

– Céus! Você é mesmo um idiota de marca maior! — gritou o intruso, com a cabeça para frente e os braços para trás, agitando seus ombros e o seu pescoço de forma exasperada. Pelo visto, ele era uma daquelas pessoas que expressam sua raiva com todo o corpo.

O exato oposto do aristocrata.

– Eu não me importo. — o jovem mestre cruzou os braços sobre o peito com um bico nitidamente aborrecido que contrastava bastante com as suas palavras de desdém. Era hilário vê-lo tentar fingir toda aquela indiferença quando ele não conseguia tirar os olhos dos meus abacaxis cristalizados. Eu nunca havia conhecido alguém que mentisse tão mal! — Eu não quero os seus doces e nunca pedi por eles. — ele desviou o rosto para o lado com um ar de ofensa, como se a mera presunção de que ele tinha esperanças de adquirir os meus doces fosse extremamente ultrajante.

Eu tive que rir daquilo.

– A sua cara é engraçada quando você está mentindo mal, aristocrata. — eu sorri para ele, jogando em seguida parte dos doces no colo dos dois e gerando diferentes sons de surpresa em cada um deles.

Ah! Como era doce o sabor da vitória! Literalmente, nesse caso! Eu não me arrependi minimamente em repartir o que comprei com os dois chatos que estavam comigo. Esse foi um dos melhores investimentos da minha vida. O espanto e desnorteamento deles fez com que cada moeda valesse a pena. Nada como jogar a sua gentileza na cara das pessoas! Elas ficam completamente desarmadas!

Como eles não sabiam o que dizer para mim e eu estava muito concentrado em aproveitar sozinho o meu momento de glória, nós começamos a comer em silêncio, ouvindo somente os sons dos mecanismos do trem em funcionamento.

Foi surpreendente confortável comer aqueles doces com aqueles dois idiotas quando eles estavam calados. Era bom sentir a gratidão constrangida deles, e como um ponto-extra que deveria ser consequência das nossas brigas anteriores, também não havia nenhum clima tenso de “quem-pode-dizer-o-quê” entre nós. Afinal, quem diabos nós teríamos que impressionar naquele vagão? Ninguém poderia mais bancar o Senhor Simpático, logo nós ficamos bastante à vontade muito rapidamente. Eu vou ceder nesse ponto. Foi legal ter essa sensação de conforto.

– Como você tem toda essa quantidade de dinheiro para gastar? — rompendo a pausa para o lanche dos nossos conflitos, o intruso de repente fez a primeira questão que não era ofensiva para mim de todo aquele percurso. Para ser sincero, ela era até um pouco agradável de responder!

Os meus pais eram os melhores do mundo!

– A minha mãe é do alto escalão do Ministério da Magia e o meu pai é editor-chefe do Profeta Diário. — eu expliquei, sentindo um caloroso orgulho dentro de mim ao mencionar os meus pais. Eles eram demais. Não era à toa que eles haviam tido um filho incrível como eu.

– Wow! Parte de uma elite, huh? As suas chances de ir para a Sonserina triplicaram! — o garoto deu um meio-sorriso que tinha algo de presunçoso, implicando comigo. — No meu caso, eu tenho algum dinheiro, eu só não sabia se seria bom comer na frente do...! — desculpem-me, mas eu não posso afirmar nada quanto a essa interrupção abrupta. Se eu tiver que dar um palpite, eu acho que ele realizou o que estava dizendo no meio da sua frase e se conteve a tempo, pondo uma grande porção de chocolate na boca para silenciá-la de uma forma parcialmente discreta. Ao engolir, ele fez uma brusca mudança de assunto, disfarçada por um sorriso alegre e descontraído. Naquele tempo, eu não tinha ideia das motivações por trás desse disfarce e me limitei a pensar que aquele visitante era super-esquisito. — A minha mãe é uma bruxa, mas o meu pai é um trouxa. Ela só contou para ele quando estava grávida de mim! O coitado ficou chocado! Ele achava que ela trabalhava no ramo da farmacêutica e não fazia a menor ideia de que o laboratório dela produzia exclusivamente poções!

Por um momento, eu me esqueci das nossas brigas iniciais e ri genuinamente dessa estória. Os mestiços tinham as estórias mais engraçadas. O meu pai também era um mestiço e a estória dele sobre como a vovó, nos seus primeiros anos de casamento, desconfiou que o vovô estava tendo um caso até que ele decidisse revelar para ela que a razão pela qual a vida dele era cheia de viagens misteriosas se devia à sua posição como um estudioso de dragões e não por conta de alguma amante que ele precisava encontrar em segredo, era uma verdadeira comédia. Mais engraçado ainda foi o fato de que a vovó não comprou aquela estória de jeito nenhum e o vovô acabou tendo que levá-la para o local de criação de dragões onde ele trabalhava e ela desmaiou assim que pôs os olhos em um.

Ao terminarmos de rir, como nós dois havíamos falado sobre os nossos pais, presumimos que era a vez do jovem mestre e nos voltamos para ele. Entretanto, ele fez o máximo para nos ignorar e somente cedeu a pressão após vários minutos de completo silêncio.

– Os meus pais são trouxas. — ele finalmente relatou.

Trouxas, huh? Quem diria? Ele tinha jeito de ser um daqueles filhos mimados das linhagens mais tradicionais de bruxos! Eu estava um tanto surpreso e, não posso negar, ávido por mais detalhes daquela estória.

Eles não vieram.

– E??? — eu perguntei com impaciência a partir de um certo ponto daquele silêncio desconfortável. Vamos lá! A estória dele não podia ser tão monótona!

– Eu não estou fazendo uma pausa dramática, Beilschmidt. — ele respondeu friamente, confrontando-me com uma expressão tão sombria e definitiva que nem parecia estar sendo feita por um menino de onze anos. — Eu apenas não tenho mais o que dizer.

Eu não posso dizer qual foi o sinal que me fez perceber a seriedade daquele tema. Aos meus onze anos, eu era fantástico, mas não tinha tanta sensibilidade para noticiar os problemas das vidas alheias. Eu estava concentrado nos meus próprios dilemas como a minha insatisfação com a minha altura e a minha raiva por ter uma varinha açucarada, e não achava que tinha que ficar cuidando dos outros. Essa era a tarefa dos adultos, não era? Eu podia ter despercebido por completo o que estava implícito nas maneiras do aristocrata. O jovem mestre era sério o tempo todo e seria fácil assumir que ele estava tão somente mantendo o seu grau de “simpatia” mostrado nos outros momentos da nossa conversa.

Mas aquilo veio como um golpe inesperado... Como uma sensação abrupta ou um pressentimento repentino. Eu me refiro a uma realização que eu tive quando ele terminou de falar.

O jovem mestre tinha problemas sérios em casa.

– Entregue esse doce aqui. — eu pedi uma das guloseimas que não foram abertas por ele, deixando os meus ombros e cabeça caírem em derrota.

– Essa é a sua forma de me punir por não querer compartilhar detalhes pessoais da minha vida com um estranho que implicou comigo durante toda a viagem? — ele perguntou rispidamente, fitando-me como se eu fosse a origem de todos os males da humanidade.

Eu dei um suspiro cansado.

– Não, eu estou pedindo de volta porque esse doce é um sapo de chocolate e eu não quero que você se assuste com ele. — eu admiti, mantendo os meus olhos no chão para tentar tolerar o que eu estava sentindo. O sentimento mais próximo da sensação que eu sentia... Seria a humilhação. Não se enganem. Eu não estava me sentindo humilhado. Eu estava me pendurando nas bordas da humilhação, quase chegando lá, mas os meus sentimentos não foram para essa área.

Eu não tinha a menor vergonha da minha tentativa de assustar o aristocrata. Eu tinha, no entanto, uma vergonha enorme de estar me corrigindo assim. “Eu não quero que você se assuste com ele”. Urgh. O que havia de errado comigo? Eu havia acabado de estragar uma brincadeira que seria hilária!

– Oh.

Fale em um momento tenso.

Aquela foi a primeira vez em que passei por uma experiência assim e ela estava sendo tããão estranha. Eu estava sendo generoso, então eu deveria me orgulhar dos meus feitos e sorrir diante da gratidão infindável do jovem mestre. Entretanto... No lugar de um orgulho, eu estava me sentindo envergonhado e nervoso com a atmosfera ao nosso redor, como se nós dois tivéssemos sido pegos no meio de algo que não deveríamos estar fazendo. Foi um momento totalmente bizarro.

Ele colocou o sapo de chocolate na minha mão sem saber muito bem o que dizer ou como ele poderia me encarar. Ele ficou um pouco recolhido e desconfiado, como se a minha consideração fosse ainda mais assustadora do que aquilo que ele estava me entregando. Eu me senti grato ao fato de que ele também abaixou seu rosto e estava encarando o chão determinadamente, pois eu não estava mais confortável do que ele com aquela situação e eu não tinha qualquer noção sobre a expressão que eu deveria fazer, caso os nossos olhos se encontrassem.

As nossas mãos se afastaram aos poucos. Nós tínhamos a impressão de que seria meio perigoso fazer movimentos repentinos. Sei lá. Nós poderíamos mudar de assunto?!

Eu cobri a minha boca com o punho e procurei um canto seguro onde colocar os meus olhos. Felizmente, enquanto eles estavam abaixados, eu identifiquei uma figura que me deu a chance de transferir a minha atenção para uma zona mais confortável.

– Aliás, você deveria apanhar o seu. — eu falei para o intruso, apontando para a figura marrom logo abaixo do banco dele. O meu rosto ainda estava quente, então eu continuei disfarçá-lo mantendo o meu punho no lugar. — Você o deixou cair no chão.

– Huh? — ele piscou confusamente — Não, eu estou com ele no meu colo.

– Nesse caso, que sapo é...?

Como se nós tivéssemos descongelado um ser adormecido, o sapo misterioso lançou-se em um salto que nos deu a resposta.

– Verde-Limão?! — gritou o visitante em reconhecimento.

– Por que você chamou um sapo praticamente marrom de Verde-Limão?! — eu perguntei, colocando os meus braços na frente do meu rosto para protegê-lo da ameaça anfíbia à nossa volta. Por alguma razão, aquele sapo idiota havia escolhido a minha cadeira como uma espécie de cama-elástica e estava saltando ao meu redor o tempo todo.

– Essa não é a nossa preocupação imediata, Gilbert! — ele reclamou enfurecido.

Eu entendi o significado dessa frase quando pus meus olhos no jovem mestre.

– Céus, céus, céus! Tirem esse sapo daqui! Tirem esse sapo daqui! Imediatamente! — ele gritou, recuando totalmente em um canto da sua cadeira e usando o seu livro para cobrir o seu rosto.

– Rápido! — o intruso voltou-se para o meu lado com urgência, percebendo que o seu sapo havia desenvolvido um favoritismo por mim. Aquele macote imbecil pelo menos tinha um gosto melhor do que o dono! — Eu preciso de ajuda para pegá-lo!

Bom, falar isso não me ajudava em nada! Eu tentei segurá-lo algumas vezes e ele deslizou pelas minhas mãos como se fosse um líquido. Toda essa agitação acordou a minha coruja que manifestou sua indignação com um som aborrecido. Infelizmente, esse barulho deixou o sapo ainda mais inquieto.

– Ele é muito escorregadio! — eu estalei minha boca, sentindo-me irritado por estar sendo derrotado por um sapo com um nome ridículo. — Eu não consigo...!

Eu e o intruso ficamos nessa luta desastrosa para capturar o tal do Verde-Limão. Enquanto isso, o Roderich, que não tinha a menor condição de nos ajudar, repetia para si mesmo, respirando aceleradamente:

– Acalme-se. Acalme-se. Acalme-se.

Como nós estávamos empatados há um bom tempo e poderíamos continuar naquela mesma baderna por vários minutos, subitamente, o sapo teve uma inspiração inteligente e finalmente começou a perceber que seria mais fácil sair pelo corredor do que pela janela.

– Feche a porta da cabine! — o intruso alertou, girando o corpo dramaticamente na direção da saída. — Ele não pode sair!

Ah, tenha paciência! Ele queria que eu fechasse a porta da cabine e capturasse o sapo ao mesmo tempo? O que mais ele esperava de mim? Que eu aproveitasse para cantar uma música emocionante como fundo sonoro daquele evento, desse tapinhas confortantes nos joelhos do aristocrata e começasse a escrever uma crônica sobre esse incidente?

– Eu não tenho quatro braços! — eu gritei, lançando um olhar furioso ao dono daquele mascote imbecil. A minha paciência estava por um fio...! Se aquele bendito sapo saísse da droga da cabine, não seria eu que perderia meu tempo correndo atrás dele!

Espantosamente, houve alguém que perdeu a paciência antes de mim. Uma pessoa que não se importava se nós capturaríamos o sapo ou se ele partiria para conhecer novos horizontes e construir uma família com uma sapa estrangeira. Uma pessoa que simplesmente queria que aquele sapo parasse de se mover livremente pela cabine. Um desejo que vinha do fundo do seu coração.

– Tirem. Esse. Sapo. Daqui!

Assim que o Roderich terminou de gritar a última palavra, nós sentimos um vento forte passar por nós. Um vento tão forte que me fez fechar os olhos por um segundo. Quando eu voltei a abri-los, eu vi que o sapo agora estava paralisado. Em pleno ar. Bom, tecnicamente, ele estava girando em um eixo vertical, mas os seus membros estavam imóveis e era bastante óbvio que ele não tinha mais controle dos seus movimentos. Era como se ele estivesse sendo pendurado por uma força invisível

… Huh?

O-O que havia acontecido ali? Aquilo era sério? Aquilo era real?

O Roderich estava com as pálpebras fechadas e abraçando o seu livro com força. Ele estava em alerta máximo e, aparentemente, o efeito disso era a levitação do anfíbio a nossa frente.

Houve um silêncio que se estendeu por vários segundos e eu posso garantir que o sapo não era o único a estar paralisado por ali... Como nós deveríamos reagir a um acontecimento daqueles? Eu não tinha uma resposta certa.

Mas com certeza essa reação não deveria ser a mesma que o dono do sapo teve.

– Verde-Limão! — o visitante exclamou alegremente, rompendo o silêncio e a tensão no ar para segurar o seu mascote com afeição. O sapo aceitou as suas mãos de muito bom grado e passou a ficar muito quieto. Ele devia estar assustado. O nosso menos cauteloso visitante, por sua vez, ofereceu o mais terno e relaxado dos agradecimentos ao jovem mestre, ignorando completamente o contexto no qual aquela ajuda havia sido dada. — Obrigada por detê-lo para mim, Eldestein!

Calma aí! “Detê-lo” não era a palavra certa e aquela não era a reação certa também! Ele paralisou o sapo! Ele levitou o sapo! Sem palavras mágicas e sem uma varinha! Esse não era uma situação pela qual nós pudéssemos passar por cima com um agradecimento! Como ele havia feito aquilo?! Ele definitivamente não havia apenas oferecido uma ajuda ao nosso visitante! Não é como se ele tivesse erguido elegantemente a sua mão e dito “Não se preocupem, senhores! Com a minha magia, eu capturarei esse sapo em um piscar de olhos!”. Ele estava gritando de medo e agarrando-se em um livro. Por conta do sapo, inclusive. E ele conseguiu fazer uma magia nesse estado.

Sim, sim, eu sei que emoções podem levar bruxos a fazerem magias acidentais, mas eu nunca tinha visto algo assim. Digo, essas magias acidentais geralmente exigem certa concentração. Uma pessoa que está tentando controlar sua raiva pode transformar aquele que é o alvo dos seus sentimentos em, digamos, um balão. Uma pessoa que está desejando intensamente algo pode acabar fazendo uma mágica convenientemente associada aos seus anseios contidos. Todavia, eu não tinha notícias de um bruxo que conseguisse executar um feitiço sem varinha, sem palavras mágicas e sem concentração, como ocorreu com o jovem mestre. Bem, ele havia desejado verdadeiramente que o sapo parasse, mas uma coisa é algo como "Eu quero que esse sapo pare. Eu queria tanto que houvesse uma forma de pará-lo. Se eu pudesse..." e outra totalmente diferente é "Sapo! Sapo! Sapo! Que horror! Um sapo! Tirem-no daqui! Façam com que ele pare! Eu odeio sapos! Sapos são horríveis! Não, não, não!". O terror dele se convertia tão facilmente em mágica? Eu nem queria pensar em como o quarto dele devia ficar quando ele tinha um pesadelo!

Bah! Não vamos mudar de assunto. Nós tínhamos que entender como aquele garoto havia feito aquilo. Eu ainda estava com arrepios – e não o tipo de arrepio “Wow! Maneiro!”, mas o tipo de arrepio “Céus, o que será que teria acontecido comigo se ele tivesse sentido metade da fúria que o dono do Verde-Limão sentiu por mim?! Eu escapei por pouco?!”. Até a minha coruja parecia desconfiada dele!

Eu comecei a abrir a boca para perguntar alguma coisa que eu não havia processado inteiramente, quando uma senhora sorridente apareceu na entrada da nossa cabine.

– Por favor, comecem a juntar suas coisas. Nós estaremos em Hogwarts em quinze minutos.

Graças àquele sapo que provavelmente veio de uma floresta que passou milhões de anos sem ter qualquer contato com a vida humana, os meus pertences estavam todos bagunçados a meu redor e eu tive que começar a juntá-los, ignorando qualquer questionamento que eu pretendia fazer ao jovem mestre. Eu não pude escapar dessa tarefa chata, portanto eu tentei me conformar amaldiçoando repetitivamente todos os sapos de Hogwarts, enquanto apanhava cada pertence meu. Ei! Eu era um bruxo. Podia dar certo.

O visitante também levantou-se para começar a organizar as suas coisas. No seu caso, ele não precisaria de tanto tempo para reuni-las. Eu inferi que ele deveria ser uma daquelas pessoas que gostam de resolver logo as pendências para não ficarem protelando. Essa era uma boa qualidade, embora não o suficiente para compensar o seu péssimo gosto em mascotes e amigos.

Ele concordava (em parte) comigo, tendo em conta quão desapontado ele aparentava estar quanto à conduta do seu sapo.

– Eu devia ter escolhido outro animal. — o visitante suspirou pesarosamente e abaixou seus olhos aflitos, pondo-os no aterrorizado e recolhido anfíbio em suas mãos. — Agora que eu vejo como o Eldestein ficou assustado com ele, eu estou começando a me preocupar com a reação das outras garotas do dormitório. A sua coruja foi tão bem-comportada durante o percurso que eu sequer cheguei a...

A Neve era uma coruja praticamente perfeita. Fato incontestável. Não era nisso que eu queria me focar agora.

– Outras garotas? — eu fiquei confuso.

– Sim? — ele franziu as sobrancelhas em estranhamento.

A-aquilo não significava que...! Não! Sério?!

– Quer dizer...? — eu pisquei atordoado — Espera um pouco aí! — eu estendi minhas mãos, pedindo um tempo necessário para a averiguação dos fatos. — Então você é uma garota?!

– Você não havia percebido ainda?! — ele, digo, “ela” pareceu chocado, digo, chocada...! ARGH!

– Biologicamente?! — eu tive que conferir e não disfarcei o choque com o qual eu fiz essa questão. Seria inútil, uma vez que todos os traços do meu rosto estavam se contorcendo em dúvida e perplexidade.

– SIM! — ele/ela gritou, cerrando os punhos como se estivesse irritado(a), mas olhando para mim como se estivesse prestes a chorar. Ah, não! O que eu havia feito agora???? Por que ele... Ela estava prestes a chorar?! Eu não queria fazer ninguém chorar! Eu não conseguia lidar com lágrimas!

Diferente de mim, um garoto atordoado que só estava conseguindo remexer os braços nervosamente e balbuciar um bando de palavras incoerentes, o jovem mestre levantou-se de sua cadeira para solucionar o problema, como um príncipe herdeiro que enjoou do baile onde ele deveria encontrar a sua noiva.

Sem desperdiçar um segundo, ele começou a apanhar os seus pertences e a consolar a nossa visitante simultaneamente.

– Não se preocupe, senhorita. — ele falou com uma elegância e compostura, das quais ele obviamente se orgulhava e contava como vantagem sobre o meu atual “eu” desorientado, o que era o cúmulo do cinismo em alguém que estava gritando e se abraçando desesperadamente em um livro há menos de dez minutos. — Esse indivíduo denominado Gilbert nos mostrou provas repetitivas de sua estupidez profunda e essa é apenas uma delas.

….Aristocrata, você está sendo sério?!

Provas contínuas da minha estupidez?! É verdade, eu consigo pensar em alguns exemplos disso agora que penso bem! Como a minha consideração pelos seus sentimentos que me fez desistir de fazer uma brincadeira totalmente hilária com você e as minhas legítimas tentativas de agarrar o sapo que te apavorou tanto que fez com que você o paralisasse em pleno ar! Pois é! Eu consigo me lembrar dessas ações idiotas! Mas sabe o quê? Melhor ser um idiota do que ser um babaca de categoria-mor como você!

...É o que eu teria gritado para ele se eu não estivesse com me... D-Digo, sendo cauteloso quanto às possíveis reações de alguém imprevisível como ele.

– Obrigada por me defender, Eldestein. — o... a visitante sorriu vermelha, fitando o aristocrata com uma admiração profunda e demasiadamente óbvia. Hmpf. Ela persistia em acreditar que o Roderich estava assumindo um papel protetor em relação a ela. Há! Como se fosse! Ele era um medroso, um ingrato e um cara rude. Não um protetor! Ele estava tentando me irritar. Como ela esteve me irritando ao longo da viagem, ele aplicou o velho “O inimigo do meu inimigo é o meu amigo”. Ela não podia ser tããão tonta assim! — Er... Será que você poderia me acompanhar até a cerimônia de abertura? — assim que os olhos do jovem mestre se voltaram com esquiva, cautela e desprezo para as mãos dela, ela lembrou-se de complementar — Eu prometo deixar o Verde-Limão em um lugar seguro!

Analiticamente, ele encarou a garota transbordando de expectativas à sua frente, com uma contrastante apatia profunda, antes de tomar sua decisão:

– Eu não me incomodaria. — ele deu de ombros com o rosto preenchido de um tédio mortal.

– E-Eu serei eternamente grata! — ela exclamou em resposta, com o rosto radiante e mais vermelho do que antes, mal conseguindo conter o quanto estava emocionada.

Eu estava enganado. Não havia limites para o descaramento do aristocrata ou para a idiotice da sua admiradora. Aquela devia ser a pior dupla de todos os tempos. Urgh! Eu havia aprendido minha lição. Eu ia sentar longe deles na cerimônia de abertura.

Eu mal havia chegado em Hogwarts e já havia conhecido as duas pessoas mais irritantes do mundo inteiro. Que belo começo para a minha vida escolar!

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Notas finais
Olá, damas e cavalheiros! Eu agradeço muito por todos os comentários que recebi nesse primeiro episódio e espero continuar recebendo o incentivo de vocês! Eu pretendo responder aos reviews do capítulo anterior mais tarde! Por enquanto, saibam que eu estou feliz em dar fechamento a esse primeiro episódio, pois eu tenho pelo menos cinco planejados para o primeiro ano do Gilbert! Novamente, eu reforço que essa é uma coletânea mais casual que eu escrevo somente para relaxar e me distrair, então perdoem-me por possíveis erros de distração ou similares. No próximo episódio, nós teremos a cerimônia de abertura! YAY!. Por favor, continuem a acompanhar, apreciar e comentar essa coletânea! Eu espero que esse capítulo tenha conseguido entretê-los um pouco! Até breve(eu espero)! Bai, bai!:3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.