Recortes em Hogwarts.
1 1º Ano: Primeiro Episódio - Parte 01.
Notas iniciais
01º Ano: Como eu conheci as pessoas mais irritantes
do mundo inteiro(I).
Ser o primogênito da minha família já não me dava muita base para ter ideia do que esperar em uma escola de magia. Digo, os meus dois pais eram bruxos e eu era bem integrado ao nosso universo, porém tratando-se de experiências escolares, eles estavam totalmente ultrapassados. Vamos lá.Eles estudaram no tempo dos comensais da morte e da Nimbus 2000 sendo a vassoura do momento. As coisas podiam estar completamente diferentes. E se não era pouco que eu fosse o primeiro membro da família da minha geração a entrar em uma escola de magia, eu tive que me preparar para novidades muito maiores porque eu fui um dos alunos convidados para um programa de intercâmbio em Hogwarts. Em síntese, eu não era apenas um novato em uma escola de magia, como era um novato naquele país como um todo.
Qualquer pessoa teria ficado preocupada e ansiosa, caso estivesse no meu lugar, mas eu tinha onze anos, uma confiança exacerbada e pouco senso de perigo. É óbvio que eu considerei a experiência o máximo! Ela seria como uma aventura desbravadora!
Essa minha energia e positividade quanto ao meu primeiro ano em Hogwarts teve subidas e descidas logo de cara. Quando eu fui comprar meus materiais no Beco Diagonal, eu consegui uma coruja branca que tinha os olhos mais engraçados e o meu medidor para a aula de poções era tããão legal! O lado chato da minha visita ao Beco, por sua vez, ocorreu quando fui comprar a minha varinha. Eu estava esperando que eu pudesse escolher algo maneiro como uma varinha com fibra de coração de dragão ou, sei lá, escamas de quimera. Alguma coisa empolgante assim! Mas sabe o que aconteceu? O cara da loja falou alguma bobagem sobre como “A varinha escolhe o bruxo, não é o bruxo que escolhe a varinha” e não me deixou pegar a que eu queria. Que velho chato! Com um bico justificadamente aborrecido, eu tive que me submeter a experiência de ficar agitando um monte de varinhas e fazendo caixas voarem para toda parte até eu finalmente conseguir apanhar uma que teve a “reação certa”. Ela criou uma espécie de nuvem brilhante a meu redor e eu não consegui sacar o que estava acontecendo, mas parecia emocionante!
– Que incrível! Então essa é a minha varinha?
– Sim, senhor. Uma varinha de trinta centímetros. Madeira de cerejeira e cerne de pêlo de unicórnio. É uma varinha bastante elástica e confiável. Ela consegue lidar bem com uma variação enorme de feitiços e é ideal para aqueles que pretendem experimentar com a magia. Uma boa companheira, senhor Beilschmidt.
– Madeira de cerejeira?! — eu fiquei horrorizado — Pêlo de unicórnio?! Eu não posso ficar com uma varinha menos açucarada?!
Aí ele repetiu aquela porcaria de que a maldita varinha sabia mais sobre o que era melhor para mim do que eu mesmo e eu tive que comprá-la muito insatisfeito.
Caso apenas esse incidente tivesse acontecido, a visita ao Beco Diagonal não teria sido tããão ruim. Lamentavelmente, eu tive outra frustração naquele dia. Os meus pais não me deixaram comprar de jeito nenhum uma vassoura.
– Está muito claro na sua lista de materiais, Gilbo! “Alunos do primeiro ano não podem ter vassouras individuais”!
– Mas e se eu for como aquele jogador de quadribol dos seus tempos de escola que conseguiu virar apanhador da Grifinória com onze anos?! Vocês estarão tirando as minhas chances de brilhar e nunca se perdoarão por isso!
– Eu acho que nós vamos conseguir dormir em paz, mesmo sabendo que nosso filho-prodígio terá que esperar mais alguns anos antes de ficar voando em um pedaço de madeira.
– Mãããe!
Comprar os livros não teve nada demais, e quando nós compramos a minha luneta, eu estava chateado com tudo que havia acontecido e não me importei com ela. Enfim, foi uma tarde com altos fantásticos – porque a minha coruja era formidável! Ela parecia tão esperta! E eu gostava da maneira como ela olhava para os meus pais como se estivesse de saco cheio deles! Eu via que nós dois iríamos nos entender bem!– e baixos abismais – porque uma varinha de cerejeira e pêlo de unicórnio era uma humilhação e um segredo que eu levaria para o túmulo.
Após toda a confusão da minha viagem e da compra dos meus materiais, o grande dia chegou mais rápido do que eu pensava. Um dia eu estava chegando em Londres, usando pó-de-flu, e no outro eu estava entrando no trem da plataforma 9 3/4, enquanto os meus pais acenavam para mim com lágrimas nos olhos e o meu irmão caçula se constrangia por nós dois quanto ao comportamento melodramático deles.
Hogwarts, aí vou eu!, foi o meu pensamento animado.
Eu senti esse ânimo sendo parcialmente reduzido quando um garoto estranho tomou o banco da frente na minha cabine.
À primeira vista, eu pude perceber que havia algo de diferente naquele menino de óculos. Só para começar, ele se sentou na minha cabine sem dizer uma palavra ou dar um relance para mim. Os seus olhos foram da porta da cabine para o chão e do chão para um livro que ele botou em seu colo. Ele daria mais atenção para o ar do que para a minha existência, era a impressão que ele causava.
Eu fiquei encarando aquela figura aristocrática por vários minutos indecisos, antes de decidir que era melhor que eu não tentasse iniciar um assunto. Certo, eu estava ansioso para ganhar vários amigos naquele lugar novo e aquele poderia ter sido um começo, entretanto eu não estava desesperado a esse ponto para fazer amizades. Aquele garoto tinha uma cara muito esnobe, um jeito muito formal e um comportamento bastante esquisito. Ele parecia um velho que desaprova as novas gerações.Nós estávamos no trem para Hogwarts, cercados por pessoas se socializando, e ele estava lendo um livro enorme cujo título era “A utilização da música na história da magia” como se fosse a prioridade máxima na sua vida. Brinca com a minha cara.
Eu mal havia entrado no trem e já havia descoberto que passaria horas sem ter com quem conversar. Fale sobre um bom começo.
Como o senhor aristocrata não estava falando comigo, eu revezei silenciosamente minha atenção entre a janela e a cara dele. Na maior parte do tempo, eu observei a paisagem distraidamente porque eu não tinha nada melhor para fazer, porém em certos instantes, eu não conseguia evitar a tentação de observar aquele jovem mestre e brincar de tentar adivinhar a história e personalidade dele através das poucas pistas visuais que eu tinha. É, eu sei. Como eu disse, eu estava morrendo de tédio e ele era ligeiramente mais interessante do que um bando de árvores.
As linhas de raciocínio que eu segui nas minhas ocasionais observações ao meu colega de cabine foram as seguintes... Ele tinha uma cara meio esnobe, então ele também devia ter um nome esnobe. “Theodor” provavelmente. A julgar pela combinação “óculos + interesse muito maior por livro do que por pessoas”, era fácil prever que ele iria para a Corvinal. Heh! A varinha dele deveria ser feita de gelo puro com cerne de papel. Ok, ok, uma varinha como essa não tinha chances de existir, mas ela definitivamente era a cara dele e...!
– Com licença, você pode parar de me encarar de essa forma? — ele fechou o livro de repente e me sobressaltou com aquela mudança de postura repentina e com a sua surpreendente percepção de que eu estive lançando olhares para ele, a despeito do quão limitado e imóvel fora o centro do seu campo visual anterior. Ademais, ele passou de uma indiferença total à minha existência a uma irritação enérgica com ela e eu não me envergonho em admitir que gostei muito mais da segunda. — A menos que exista algo que você queira me dizer? É rude rir de uma pessoa na frente dela.
– Então você fala! — os cantos da minha boca subiram com deboche. Eu estava tão, tão satisfeito em obter uma reação daquele garoto de quem eu não esperava praticamente nada que senti uma onda de agitação passar pelo meu corpo, levando-me a praticamente dar pulos em minha cadeira. Tentado a continuar empurrando os seus botões, eu estendi uma das minhas mãos e complementei com humor mordaz.– Ah! Se você quiser, eu posso rir pelas suas costas, aristocrata!
– Nós mal nos conhecemos e você já está me dando apelidos pejorativos? — ele franziu as sobrancelhas, fitando-me repreensivamente.
Ohhh! Pergunta errada! Há, há! Ele havia pisado na mina terrestre! Eu tinha o motivo perfeito para dar apelidos a ele.
– Bom, eu preciso te chamar por apelidos porque eu não faço a menor ideia do seu nome, jovem mestre. — eu sorri amplamente, com a cabeça apoiada nas mãos e com as intenções mais firmes de fazê-lo confrontar-se com a minha acusação indireta de forma a causar maior constrangimento e dano possível à sua imagem solene. Vê?! Você não me contou o seu nome e agora eu estou jogando isso na sua cara! Como você não me deu seu nome, agora você terá que aceitar os meus apelidos, a minha vitória e a minha superioridade intelectual! HÁ, HÁ, HÁ!
Todavia, os meus planos não deram tão certo. O garoto estranho não se constrangeu ou ficou perturbado com a minha acusação. A sua irritação continuou no seu grau moderado e suficientemente palpável, e não houve um traço na sua expressão que tenha mudado de lugar. Para completar, ele me deu a resposta mais pragmática e conclusiva possível ao se colocar em palavras. Sério. Se ele tivesse gritado na minha cara, os efeitos seriam menos impactantes e desprazerosos. Aquela fala perfeita dele foi...! Urgh!
– O meu nome é Roderich Eldestein, eu estou atônito com o seu comportamento grosseiro e exijo que você pare de importunar. — ele respondeu em um único fôlego, cruzando os braços e as pernas com uma pose autoritária caricatural. – Satisfeito?Eu espero que o assunto esteja encerrado. O meu livro é uma companhia mais apreciável do que você.
– O meu nome é Gilbert.... — ele abriu o seu livro de novo de uma maneira barulhenta, como se as suas páginas tivessem se transfigurado em concreto, e voltou a lê-lo determinadamente, não me cedendo mais uma única gota de atenção. – ...A propósito. — eu complementei para o nada, fixando meus olhos no chão e mordiscando o meu lábio inferior com raiva.
Agora era definitivo. Eu conhecia Roderich Eldestein há poucas horas e havia conversado com ele por poucos minutos e eu já podia assegurar com confiança que ele era o garoto mais chato do universo.
Eu me senti tão ofendido! Tão irritado! Quem ele pensava que era para tratar alguém hiper-mega-incrível como eu daquele jeito?! Que convencido!
Ele merecia receber o mesmo desprezo que ele me deu. Quem com ferro fere, com ferro será espancado ou algo assim. Todavia, eu tinha onze anos e garotos de onze anos normais não agiam como o aristocrata quando ficavam chateados. Após dar a língua para ele, eu fiquei chutando o banco dele, enquanto olhava para a minha janela com as bochechas cheias de ar e os olhos cheios de rancor. Ironicamente, essa atividade não foi divertida o suficiente para me distrair e eu comecei a lamentar que eu não tivesse trazido um livro também.
Depois de uns vinte minutos naquele silêncio, entrou outro menino na nossa cabine.
– Ei, pessoal! Vocês viram o meu sapo?
Spoiler: esse não será um personagem secundário ou mais simpático comigo do que o jovem mestre. Lembrem do título desse capítulo! Eu realmente tive um mau começo no meu expresso para Hogwarts. Vocês não viram nada.
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