Recordações
4 4. Os segredos de cada um
Notas iniciais
Eu sei, eu demorei.
Eu sei, eu disse que ia tentar atualizar mais rápido.
Eu sei, eu não consegui seguir com os meus planos.
Culpem a faculdade, não eu -ok? :3 Eu juro que faço o possível. =.='' Mas é que eu sofro de um mal muito grande chamado "falta de inspiração", e quando não é isso é "pura preguiça". T^T Sorry~
Bem, eu tentei caprichar no capítulo ao menos. Ele está um pouco maior como vocês já devem ter visto. Quanto a qualidade... Ele começou bem, mas aí eu meio que me perdi. =< E logo na cena que eu tanto queria escrever. *suspira*
Bem, boa leitura! ^^
Eu segurava o violino, tentando mantê-lo na posição demonstrada pela garota minutos antes. Na pequena sala, os sons se misturavam enquanto os outros três alunos da jovem Elizabeta Héderváry praticavam com seus instrumentos emprestados, formando algo que certamente não se poderia chamar de sinfonia.
Apoiei o corpo do instrumento na curva de meu pescoço, sentindo a madeira fria contra a pele aquecida. Ergui o braço do instrumento a fim de alcançar melhor as cordas e... Foi o necessário para que Eliza voltasse novamente a direcionar suas palavras a mim.
– Não, não, Rod! Está fazendo errado, de novo. – ela se aproximou e ajeitou meus braços na posição certa, olhando-me com os orbes verdes muitos sérios, mas bastante pacientes – Deste jeito. – disse ela, firme – Você não pode deixar o violino tão virado.
Sem dizer mais qualquer outra palavra a garota me deu as costas e caminhou em direção a outro de seus alunos, dando-o algumas explicações particulares e as quais não pude ouvir. Suspirei, mantendo o braço firme na posição incômoda que a garota dissera ser a correta.
Ela realmente se esforçava — isso eu, e qualquer outro, facilmente percebia — e não seria justo eu não a recompensar, esforçando-me também; ainda mais depois de ter sido recebido neste clube de música com um sorriso mais que acolhedor por parte da húngara.
Falando no clube de música, percebo agora que ainda não contei de minhas descobertas mais recentes sobre este orfanato: eu teria aulas, assim como todos os outros órfãos sempre tiveram. Minha vida acadêmica não haveria de ser interrompida!
Quando eu ainda estava no hospital, preso àquela cama de lençóis muito brancos e gelados, algo que muito me perturbava era o que seria de meus estudos. Eu estava realmente preocupado.
Eu já havia, àquela altura, decidido que eu honraria meus pais e o sobrenome que carregava. Eu mostraria ao mundo do que um Edelstein era capaz. Mas... Como eu faria isso com sequer o fundamental concluído? Seria impossível! E foi exatamente por essa razão que eu tanto me alegrei ao ser informado de que as senhoras, que de nós cuidam, eram também tutoras para nos ensinarem ao menos o ensino básico. Com um aditivo: haviam também uns poucos cursos extras, para os realmente interessados, como aulas de desenho, música e dança.
Mas, como eu já havia rapidamente percebido, não era muitos os que se sujeitavam a essas aulas extracurriculares. A maioria não parecia sequer muito satisfeita com as obrigatórias, que tinham que assistir toda manhã, seis vezes por semana.
Não que isso fosse ruim para o meu lado. Na verdade, eu não tinha do que reclamar. Era muito melhor assim, inclusive. Ao menos as aulas de música eram organizadas e tranquilas, sem a bagunça dos desagradados por aquela educação injustamente imposta - como muitos insistiam em reclamar, durante o que fora meu primeiro e único dia de aula até agora.
Eram, ao todo, três alunos que, juntos comigo, frequentavam a pequena e improvisada saleta de música, sob os cuidados da jovem de catorze anos. Dizendo com sinceridade, eu não conhecia, exceto por Eliza, nenhum deles; e nem tinha pretensões para tal. Eu simplesmente não me via interessado em criar qualquer vínculo com aquelas crianças.
Mas o meu problema não era apenas com esses três, em particular. De todos os órfãos daquela casa — Que chegariam à quarenta, no máximo? -, os únicos por quem eu possuía algum interesse em me aproximar eram Ludwig e Elizabeta, sendo que essa última nem uma órfã é, na verdade. Acho que poderíamos acrescentar também o Gilbert nessa conta, mesmo que o que eu sinta por ele seja mais uma inexplicável curiosidade que qualquer outra coisa.
Bem, mais não é como se eu fosse fresco e exigente quanto à amizades. Realmente não é esse o caso! Simplesmente, algo nos órfãos, exceto por Ludwig — por motivos óbvios -, não me agradava, e talvez fosse o modo como tratavam o Gilbert.
Eu não considerava o albino um amigo ou coisa assim, mas... Mas eu realmente não gostava da forma como ele era menosprezado e deixado de lado!
Tudo bem! As senhoras não desejam que nos aproximemos dele! Mas porque todos as obedeciam? Eles não acham isso tudo nem um pouco estranho ou errado? Eles convivem com o Gilbert há muito mais tempo do que eu, mas por que sinto que sou o único que pensa assim?
E é por essa razão que eu praticamente só conversava com Ludwig e Elizabeta, deste minha chegada na manhã de ontem. Claro, eu troquei algumas palavras com Gilbert, mas foram poucas as vezes que pudemos chamar o que houve entre nós de conversa.
Em contraponto, exceto por esses já mencionados, eu não havia trocado nem mesmo uma letra com os demais órfãos, sequer um cumprimento pela manhã.
Meu falecido pai, sem dúvidas, condenaria meu comportamento desrespeitoso — afinal ele sempre me educou para que eu fosse um cavalheiro, apesar de sermos apenas uma comum família de classe média -, mas, no momento, nem mesmo uma bronca imaginária por parte dele me faria criar vontade para dizer um mísero “Olá.”.
Eu simplesmente não me importava com os demais e apenas de pensar em os cumprimentar em já me sentia entediado e abatido.
Suspirei, levando o arco às cordas do violino e provocando o surgimento de sons ruidosos e pouco organizados. Fechei os olhos, tentando me concentrar o máximo possível, mas não estava a dar certo. Era estranho aprender algo novo e tão complicado, e ver que eu não estava a me sair tão bem quanto eu gostaria não me deixava nem um pouco alegre.
Meus pensamentos também não colaboravam em minha concentração, pois faziam de tudo para voar para longe em indesejados devaneios.
– Rod, sem apertar tanto as cordas. Assim o som não vai sair direito. Deslize o arco com certa pressão, mas não tanta. – ela voltou a se direcionar a mim, subitamente. Surpreendi-me por só então notar sua presença ao meu lado, tendo sua aproximação me passado totalmente despercebida.
– Ce-Certo! Vou tentar de novo. – meus olhos buscaram os seus, enquanto minha voz transparescia todo o meu nervosismo.
– Isso. É apenas não desistir. – ela sorriu – Você está indo bem para a sua primeira aula.
– Você acha? – perguntei, uma das sobrancelhas um tanto erguida. Não sei se poderia realmente chamar o meu progresso de bom, considerando-se que o som que saia do violino que eu tinha em mãos me lembrava um gato sendo esgoelado.
Eliza era realmente muito gentil...
– Sim, Rod! Não menospreze suas próprias habilidades! Normalmente os alunos desistem na primeira aula, por sequer conseguirem segurar o violino de forma correta. Esses três foram os únicos que continuaram tentando até conseguirem. – ela ainda sorria quando desviou os olhos aos outros alunos, ao que segui a direção por eles apontada.
Meus orbes violetas não demoraram em voltar a fitar os seus, que também logo buscaram os meus. Eu estava surpreso com suas palavras e não sabia o que dizer; não sabia sequer se acreditava no que ela dizia, para falar a verdade. Seria apenas a sua gentileza falando? Ou então, quem sabe, alguma forma de incentivo? Suas intenções me eram totalmente desconhecidas e isso me deixava sem reação.
– Eu só o corrigi uma vez e você já aprendeu como segurar o violino. Você está fazendo um trabalho excelente!
– Mas não é tão difícil assim... Segurá-lo, digo. Tocar é que é o verdadeiro problema. – ergui a sobrancelha ainda mais, eu estando agora, sobretudo, confuso.
– Acredite, Rod, para tocar você só precisa de prática. E... – ela fez um bico, enquanto sua face se avermelhava levemente – Segurar o violino não é fácil... É super incômodo no começo e demora um tempo até se acostumar.
Estranhei a reação da garota, mas decidi por não perguntar. Havia algo a mais me importunando.
– Err... Eliza, apenas por curiosidade, mas quanto tempo você demorou para aprender a tocar?
Ela sorriu novamente, de forma larga e alegre, e ergueu uma de suas mãos, exibindo três dedos.
– Três anos. Na verdade, três anos e meio... E sabe quanto tempo eu demorei para aprender a segurar o violino?
– Quanto? – perguntei, minhas feições um tanto curiosas e surpresas. Eu não esperava que ela me perguntasse aquilo.
– Duas semanas. – ela disse, sorrindo.
– O-O quê? Tudo isso? – minhas feições desacreditadas e chocadas fizeram a jovem rir por um momento, o que me deu a oportunidade de ver um lindo sorriso abrir em sua face clara – Sério?!
– Sim, sim, Rod. Eu tinha sete anos quando comecei a aprender. Apenas um ano a menos que você. Ou seja... Quando eu digo que você está indo bem, é porque está.
– Bem... Mas... – eu queria dizer algo, mas meus pensamentos e palavras não se entendiam. Suspirei, tentando acalmar-me de minha agitação – Eu apenas espero ser capaz de tocar o violino tão bem quanto você, algum dia. – concluí, em ar cansado e as bochechas um tanto quentes.
– Você vai. – ela abaixou-se, dobrando os joelhos, e levou a mão aos meus cabelos pretos, bagunçando-os em um afago. – Até melhor.
– Obrigada... – eu sorri timidamente.
– Não há de quê. – ela disse, em resposta – Agora volte ao seu treino, okay?
– Ah, certo... Mas, espera, Eliza. – eu a chamei, quando esta já havia me dado as costas e caminhado uns poucos passos a outro aluno.
– O que foi, Rod? – ela perguntou, agora a face menos sorridente e descontraída. Era simplesmente impossível saber através de suas feições o que se passava por sua mente.
– Err.... Apenas por curiosidade. Algum dos seus outros alunos já conseguiu segurar o violino sem grandes problemas, assim como eu?
– Ah, bem... Sim. Mas ele teve que parar as aulas. – ela sorriu tristemente – Foi uma pena. Ele tinha talento.
– Ah, entendo.
– Por que, Rod?
– Ah?
– Por que a pergunta?
– Ah, por nada. Como eu disse, curiosidade apenas. – concluí, com um sorriso.
A garota encarou-me por alguns momentos, um tanto confusa, mas então sorriu também. Sem qualquer outra palavra ter sido dita, ela se virou e voltou a se encaminhar ao outro órfão, que aguardava suas explicações.
Fechei os olhos e sorri uma vez mais, sentindo uma sensação confortável por dentro. Fitei o violino, observando com atenção cada um de seus detalhes, curvas e entalhes. Era um instrumento tão elegante... Eu certamente não desistiria, eu aprenderia a tocá-lo tão perfeitamente quanto Eliza!
Levei o arco às cordas e deixei que os ruídos voltassem a tomar conta da pequena saleta e também, desta vez, de meus pensamentos. Um sorriso mantinha-se firme em meus lábios finos.
O sol jazia alto, quente e dominante no céu limpo do meu segundo dia no Orfanato Rainha Maria Teresa.
Era quase quatro da tarde e já fazia pouco mais de uma hora e meia que a aula de música havia encerrado. Entretanto, eu ainda não me encontrava totalmente satisfeito com meus resultados e, sendo assim, acabei por pedir à Eliza que me deixasse pegar emprestado o violino por mais um pouco de tempo. A garota aceitara, depois de refletir um pocado, e, assim, eu até agora continuava o meu treino.
A camiseta lilás em meu corpo mostrava-se bastante encharcada pelo suor que eu não podia evitar, mas eu tentava não me incomodar muito com ela. Mesmo as leves brisas e a sombra proporcionada pela maior das árvores daquele grande, e um tanto maltratado, jardim não puderam conter a minha transpiração exagerada. Eu também não pretendia me mover ao interior da casa, pois, como eu já havia constatado anteriormente, seria impossível realizar qualquer treino decente dentre toda a barulheira que dominava o orfanato num dia tão quente e abafado como aquele.
Suspirei, encerrando por um momento o movimento do arco que eu tinha em mãos e deixando que tudo se aquietasse por um instante. Realmente, não tinha outro jeito a não ser enfrentar o sol quente, mesmo que eu não estivesse nem um pouco feliz com isso.
Mas, pela chance de melhorar ao menos mais um pouco no violino, eu colocaria até a mão no fogo!
Eu realmente estava determinado a dominar o violino o mais rápido possível e, assim, surpreender a húngara. Eu mostraria a ela o meu talento! E, bem... Até que era divertido tocar. Eu não podia negar que estava me divertindo muito aprendendo.
Larguei o violino ao meu lado, na grama rasteira e falha que rondava as raízes grossas da alta macieira, e estiquei as pernas e os braços, ainda me mantendo sentado. Bocejei, cansado, ao que algumas folhas verdes caíram sobre mim. Levei a mão aos cabelos, limpando-os, enquanto eu subia o olhar violáceo meio que inconscientemente. Meus olhos imediatamente se surpreenderam, enquanto focavam a figura albina que se mantinha recostada ao tronco, sentado em um alto galho.
Ele dormia e sua face pálida não demonstrava nada além de cansaço. Perguntei-me se ele se encontrava ali todo aquele tempo, sem que eu tivesse me apercebido.
– Gilbert? – pus-me em pé de imediato e tentei o chamar, não obtendo resposta – Ei, Gilbert! – tentei uma vez mais, pronunciando-me um pouco mais alto. Novamente, sem retorno por sua parte: ele permanecia adormecido.
Franzi as sobrancelhas, desagradado. Eu estava irritado pela falta de resposta por parte do alemão, mas não entendia o porquê. Não era como se eu pudesse o culpar por estar adormecido... Mas eu também não podia conter minha crescente irritação e, assim, acabei por chamá-lo novamente, elevando ainda mais minha voz.
– Gilbert! Está me ouvindo?
Ele se remexeu e enfim acordou. Os seus olhos rubros e ainda bastante sonolentos não demoraram em varrer o local, em busca do interlocutor. Ele observou a minha pessoa inexpressivamente.
– Vejo que temos um aristocrata bem insistente aqui... – ele disse, por fim, ainda sentado no alto, mas já iniciando os preparativos para a sua descida. Ele agarrou-se a alguns galhos mais baixos e saltou ao chão, causando um alto estrondo.
– O que a sua realeza deseja comigo?
– É perigoso dormir lá em cima. Se está com sono, vá para o quarto. – eu disse, simplesmente, enquanto me sentava novamente no gramado. Eu já havia, àquela altura, percebido que de nada adiantava eu me irritar com suas provocações.
Para a minha surpresa, ele me imitou e se sentou ao meu lado na larga sombra da macieira. Eu nada disse, mas me sentia bastante confuso para com seus atos. Além disso, eu não me sentia lá muito confortável... Algo me dizia que o destino aprontava algo conosco, ou ao menos comigo.
– Como se desse para dormir lá, com todo aquele barulho... – ele disse, coçando a cabeça e bagunçando os fios brancos. Sua voz permanecia séria e supus que isso se devia ao sono. O porquê de tamanha cansaço já era outra questão, e da qual eu desconhecia a resposta.
– Não é como se fosse minha culpa.
– Eu não disse que era. E não estou aqui para te irritar ou coisa assim, sabe.
O silêncio instaurou-se entre nós por alguns instantes, ao que peguei o violino nas mãos e decidi continuar com os treinos interrompidos. Tentar formar uma conversa decente com ele se mostrava impossível no momento. Minhas dúvidas teriam que continuar por mais um tempo, até que eu não me sentisse estranhamente desconfortável perto dele.
Mas as coisas nem sempre ocorrem como desejamos, pois foi apenas o albino ver o instrumento que ele se animou, sua surpresa também estando bastante evidente.
– Jovem mestre, então você decidiu participar das aulas da Eliza?!
– Bem, sim. – respondi, monotonamente, meus olhos pregados nas cordas do instrumento que eu terminava de ajeitar corretamente no lugar.
Ele me observava, agora calado. Eu não sabia dizer que expressões ele tinha no rosto, pois eu não focava minha atenção em si, mas ele parecia bastante atento e interessado ao que eu fazia. Algo me dizia que ele sorria.
– E como está indo? – ele perguntou, enfim, em tom curioso.
– Não sei... A Eliza disse que estou indo bem, mas eu não concordo. – respondi, ainda bastante distraído com o que eu fazia.
Comecei a deslizar o arco pelas cordas, suavemente, fazendo com que as notas distorcidas passassem a fazer parte do plano de fundo de nossa repentina e recém formada conversa.
Por vários instantes nenhum de nós voltou a se pronunciar, ao que agradeci por poder me concentrar melhor ao que eu fazia. Os ruídos ajeitaram-se um pouco, permitindo certa distinção das diferentes notas musicais. Não pude conter que um leve sorriso se formasse em meus lábios ao que vi um mínimo melhoramento.
– Ela tem razão. O jovem mestre aprende rápido. – ele disse, enfim – Apesar de que você ainda desafina bastante.
– Bem, eu só tive uma aula até agora... Acho que está bom para um iniciante. – eu disse, encarando-o por um momento e errando assim as notas que eu tocava. Eu estava, sobretudo, irritado com seu descaso para todo o meu esforço.
Irritei-me ainda mais ao que os erros persistiram, lançando um olhar impaciente para cima do instrumento. Eu tentava voltar à ordem que eu havia alcançado anteriormente, mas me via incapaz desse feito. Eu desejava enterrar a cabeça alva do garoto ao meu lado na terra, por ele ter me atrapalhado, mas isso também seria impossível. Tudo que eu conseguia era resmungar baixo, enquanto tentava tocar como instantes antes.
Gilbert riu, vendo minha face se avermelhar pela raiva que me consumia. Eu tentava ignorá-lo, mas ouvir sua risada debochada impedia-me disso.
– Jovem mestre, não se estresse tanto! Não faz bem para a sua saúde! – ele disse, risonho.
– E de quem você acha que é a culpa de eu ter me estressado?!
– Não reclame... Não quando eu me dei a trabalho de te dar a minha incrível opinião!
– Desnecessária essa, certamente. – repliquei – Justo quando eu estava começando a acertar um pouco...
– Eu acho que ainda faltava bastante para poder se dizer que você acertou.
– Você fala demais, Gilbert. – eu disse, enfim desistindo do instrumento – Sendo assim, deve tocar muito bem.
Sem mais nem nenos, virei-me a ele e estendi o instrumento em sua direção, irritado, mas sorrindo.
– Mas é claro! – ele sorriu, confiante como sempre.
Sem demoras, ele aceitou o instrumento e o pegou nas mãos, ainda com um largo e brilhante sorriso nos lábios. Não demorou muito até que ele o ajeitasse na curva de seu pescoço e fizesse o que eu tentara a tarde toda. As notas soavam tranquilas e belas enquanto as cordas tremiam pela ação do arco. Não era nem de longe uma melodia, mas era bem mais do que eu capaz de fazer até então.
Eu o observava, chocado, o que o fez rir enquanto me devolvia o instrumento.
– Como você...?
– Eu sei! Eu sou incrível! Claro, não tanto quanto a Eliza, mas ainda sou incrível!
– Como você sabe tocar?! – exclamei, exasperado, ignorando as suas últimas palavras.
Em resposta à minha agitação ele sorriu convencido, o que me deixou ainda mais irritado e agitado do que eu já estava. O gosto amargo de derrota não me agradava o paladar.
– Eu tive aulas, ué!
– Com a Eliza?
– Com quem mais?
– Mas... Mas você não frequenta as aulas! – eu disse, em forma acusatória, apontando em sua direção.
– Não mais. – ele corrigiu-me, sua voz soava estranha e repentinamente séria. – Mas eu tive, até uns dois meses atrás.
Eu nada disse por alguns instantes, permaneci apenas mergulhado no escarlate de seus olhos, que também me encaravam. Ele provavelmente notara toda a minha surpresa, mas isso não me significava nada. Eu tinha todo o direito de estar surpreso afinal.
Mas o que me impedia de me pronunciar não era, desta vez, a minha surpresa, mas o meu receio. Eu já havia percebido que estava a adentrar em um território complicado, o meu próximo passo é que eu não sabia definir qual seria mais apropriado.
Seria melhor recuar ou seguir adiante?
– Você por acaso não é o aluno que ela disse que conseguiu segurar o violino na primeira aula, é?... – quando percebi já havia soltado a pergunta no ar.
Eu sentia que iria me arrepender de minha decisão, mas era tarde para arrependimentos.
– Primeira tentativa, você quer dizer? Sim, sou eu mesmo. E eu não sabia que ela falava de mim... – ele disse, enquanto desviava os olhos de mim e fitava o quintal vazio que se estendia diante de nós. Ele sorria novamente, mas tinha ares pensativos.
– Bem... Na verdade, eu que perguntei. Ela nem me disse que era você, que estranho... – eu disse, pensativo, com os olhos entreabertos.
– Nem tanto. – ele disse, balançando os ombros levemente. Ele ainda tinha os olhos longe, perdidos.
– Você acha? – perguntei, fitando seu perfil. Seus cabelos brancos e curtos estavam tão suados quanto os meus pretos, pois estava começando a aumentar novamente o calor, mas a preguiça era quem tomava conta de meu corpo. Assim, deixei-me estar.
– Eu não acho. Tenho certeza. – ele suspirou cansadamente após dizer essas poucas e simples palavras.
– Hum... Por que diz isso?
– Por que sim, ué! – ele replicou, impaciente.
Quando ele enfim virou em minha direção, as suas expressões me abalaram. Não era a primeira vez que eu o via com tamanha seriedade, mas, desta vez, expressivo nervosismo misturava-se a essa. Ele não estava normal. Sua reação fora mais que estranha e suspeita.
Foi então a minha vez de suspirar. Eu sabia que estava invadindo um território complicado do albino, logo já esperava que algo assim acontecesse. Levei as mãos aos cabelos, ajeitando os fios pretos não muito cumpridos que me incomodavam.
– Desculpa. Acho que me meti onde eu não devia, não é? – eu disse, depois de alguns segundos.
Gilbert fitou-me com surpresa, nossos olhos se negavam a desgrudar. Um silêncio desconfortável pairava sobre nós.
– Ah? Não, não é isso, Rod. É só que... – sua voz soava um tanto arrependida e entristecida – Eu e a Eliza não falamos muito do tempo em que eu tinha aulas de música. É um assunto meio que proibido entre nós.
– Não precisa dizer nada. Perguntei apenas por perguntar.
– Rod... – seus olhos pediam-me perdão e compreensão.
Sorri levemente para o albino, fazendo-o ser tomado por repentina surpresa.
– Já falei que tudo bem.
– Certo... – ele disse, encolhendo-se para mais perto da árvore e envolvendo os joelhos. Ele tinha um leve e quase inexpressivo sorriso no rosto – Ah!
Ele imediatamente põs-se de joelhos, diante de mim. Sua reação fora tão espontânea que não pude evitar ser pego de surpresa. Ele agarrou-me pelos ombros, as feições subitamente aflitas.
– Rod, por favor, me prometa que não falará disso com a Eliza! Nada do que conversamos hoje deve alcançar os ouvidos dela! Ela não pode saber que você sabe que eu já tive aulas com ela! – o albino soava desesperado e não tinha como não estranhar tal fato.
– Okay... Tanto faz. – respondi, um tanto confuso, mas cedendo ao pedido dele – Mas por que isso?
– Você faz muitas perguntas... – ele contraiu os beiços, ainda com ambas as mãos apoiadas em meus ombros e o rosto diante do meu. Ele parecia se sentir encurralado por questões, a ele, problemáticas.
– E você não responde nenhuma delas... – eu disse, simplesmente, já um tanto cansado de tudo aquilo – Também não pode me dizer, não é?
Eu não estava com raiva dele, talvez um pouco decepcionado, no máximo; decepcionado porque minha curiosidade não seria aliviada. Até porque... Não haveria realmente motivos para eu me sentir ressentido por ele não desejar compartilhar seus segredos com alguém que acabou de conhecer.
Gilbert encarou-me com olhos tristes e então anuiu a cabeça levemente.
– Desculpe. Juro, não é que eu não queria te dizer, eu simplesmente não posso.
– Isso está relacionado ao porquê de você viver isolado, não está?
– É... – ele disse, com ares infelizes, desviando seu olhar do meu.
Suspirei, fazendo-o subir o olhar novamente aos meus.
– Okay, não vou perguntar mais nada. Mas espero que possa me dizer um dia. – eu disse, voltando às minhas expressões habituais.
Gilbert sorriu ao se ver livre de todo aquele interrogatório. Ele então me soltou, sentando-se ao meu lado mais uma vez. Desviei meu olhar de si e lancei-o à pontos aleatórios.
– Falando nisso, Rod... Você sabe que se nos verem juntos vamos ambos ser punidos, não sabe?
– Sim. Sei sim. – eu disse, simplesmente, tendo agora o céu azul como meu campo de visão.
– E não se importa?
– Não. – respondi, prontamente.
– Eu não sabia que você era um aristocrata rebelde. – ele brincou, com um sorriso largo.
Sua voz soava debochada novamente, e eu ficava estranhamente feliz por ouví-la.
– Eu apenas não vejo porque obedecer uma regra tão sem sentido. Acho que sou o único que pode decidir sobre me afastar ou não de alguém. – eu respondi, com toda a seriedade possível, fechando meus olhos por um momento.
– Então você não vai me evitar?
Ao ouvir a interrogativa tão séria e surpresa do albino, meus olhos se abriram imediatamente e partiram em busca, apressados, dos escarlates. Encaramo-nos por alguns instantes, dando oportunidade para que o silêncio mais uma vez dominasse a nossa volta.
– Não... – eu disse, enfim, tão surpreso quanto ele, mas por motivos totalmente diferentes. Eu não conseguia entender aquele maldito albino – Não até que eu te considere irritante ou insuportável demais. – eu completei, desconfortável, desviando o olhar do do albino que agora me encarava com um largo sorriso.
– Você vai se meter em problemas... – ele continuou, ainda com o sorriso nos lábios.
– Como eu já disse, eu sei.
– Depois não diga que não avisei. Não quero ser culpado.
– Não se preocupe. Estou pronto para arcar com as consequências.
Ficamos em silêncio por alguns segundos e eu nunca antes havia tanto desejado enterrar meu rosto no meio da terra. O olhar radiante que o outro me lançava servia apenas para me desconfortar. E, para piorar, eu não sabia sequer se ele fazia isso para me provocar ou se estava realmente feliz.
– Hum. Certo, então! – ele exclamou, contente – Ei, Rod, estou com sono.
– E o que quer que eu faça? Vá dormir. – virei a face lentamente, até que ela estivesse novamente direcionada ao alegre alemão. Eu estava feliz por ele ter mudado de assunto; ou seria aliviado uma melhor definição?...
– Me empresta o seu colo, vai. – ele disse, com um bico.
Senti minha face esquentar de imediato. Eu não sabia como reagir àquele tipo de pedido.
– O quê?! N-Nem pensar!
– Ahhh.... Mas, Rod, eu estou com sono e o sol me faz sentir mal. Não é como se você fosse treinar mais por enquanto, então me faz esse favor vai. Juro que é só um pouquinho!
Ele fitou-me como os olhos grandes e brilhantes e, para completar, um beiço de cachorro pedinte. Desviei o rosto, escondendo grande parte dele com uma de minhas mãos.
– Ce-Certo... – eu disse, enquanto tirava o violino do caminho do albino – Mas não vá se acostumando! Só desta vez, entendeu?
– Sim, sim...
Ele deitou a cabeça em meu colo e encarou-me de baixo, sua face virada para mim. Ele passou os dedos em meu queixo, chamando minha atenção, e então sorriu ao a ter.
– Obrigado, Roderich.
– Na-Não há de quê, Gilbert...
Ele fechou os olhos e eu fiquei a encará-lo, até que sua respiração acalmasse e ele enfim adormecesse.
O dia estava acalentado e o calor ainda se fazia mais que presente. Meu corpo estava quente, principalmente a minha face, mas agora é que eu não tinha como me mover. Não agora que Gilbert havia dormido.
Fiquei sentado no gramado rasteiro e falho do jardim, sentindo as brisas frescas baterem-me na pele, limpando Gilbert e eu mesmo das folhas que vez ou outra abandonavam os galhos da grande macieira e encarando o leve e calmo sorriso que dominava as expressões do albino.
Eu não sabia o que se passava comigo e mal compreendia o que havia acontecido esta tarde. Tudo que eu sabia é que eu havia acabado de me meter em uma bela encrenca. Mas, por alguma razão, eu não conseguia me importar com isso. Eu simplesmente queria fazer o que eu tinha que fazer.
Afinal, seria hipocrisia minha apenas reclamar dos outros e não agir.
Certo?
Notas finais
Eu sei, os personagens ficaram meio OOC. T^T Quem souber me dizer os pontos que ficaram mais errados, por favor, sinta-se em casa.
E, antes que alguém reclame que "o Gilbert estava muito sério!", eu tenho uma descul... Digo, razão para isso. u.u Ele estava embaixo do Sol há um bom tempo e isso faz mal a ele porque ele é albino. Além disso, ele estava com sono. xD Claro, não posso conter o ódio de vocês pela minha pessoa com apenas isso, mas espero engan.. Digo, ter feito ao menos alguém entender os meus pensamentos. ^^
E o Gil estava extremamente uke neste capítulo ou foi impressão minha? xD Bem, sei lá.
Me deem as suas opiniões! Me apontem erros de gramática! Me deem palpites sobre o enredo! Reclamem da minha demora! Façam o que quiser! Apenas me deixem um review -ok? :3
Bem, despeço-me aqui. Até! o/
BJJS~
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