Recomeço

2 Capítulo II


24/12/1998

Nymphadora andava pelo Beco Diagonal com Teddy em seu colo. Era véspera de Natal e ela não conseguia ficar em casa. Antes o Natal na casa dos Tonks era uma divertida festa familiar, mas naquele ano a alma da festa tinha sido ceifada. Seria o primeiro Natal sem seu pai e ela não tinha ânimo para comemorar alguma coisa, muito menos sua mãe. Também seria seu primeiro Natal sem o marido. Toda vez que pensava em Remus seus olhos se enchiam de lágrimas, mas ela tentava não chorar na frente do filho.

Andou olhando as vitrines para se distrair, era bom ver o Beco Diagonal em pleno vapor outra vez. Era o primeiro Natal depois da guerra, as pessoas tinham inúmeros motivos para comemorar esta data em 1998. Ela abraçou o filho e se virou para mostrar-lhe a vitrine da loja de animais quando o reflexo de um rapaz que passou atrás de si lhe chamou a atenção.

– Não é possível... – Ela murmurou para si mesma enquanto olhava para o rapaz, que se afastava.

Correu para alcançá-lo e tocou em seu ombro.

– Sirius?

Ele se virou, confuso.

– Desculpe? Você me chamou de Sirius?

Nymphadora caiu na real que não tinha como aquele jovem ser Sirius, ele era muito mais novo que seu primo e Sirius estava morto há mais de dois anos.

– Desculpe, acho que te confundi. – Ela sorriu sem jeito. – É que você se parece com... Deixa pra lá, me desculpe de novo.

Ela já ia sair quando ele a chamou.

– Espere! Você conhece Sirius Black?

– Conheço... Ou melhor, conheci. Infelizmente ele morreu há dois anos.

O jovem suspirou, cabisbaixo.

– Então é verdade? Ele está mesmo morto?

– Você conheceu Sirius?

Agora era ela quem estava confusa.

– Quem é você, garoto?

Ele tentou se desvencilhar e seguir caminho, mas ela o interrompeu.

– Espera aí! Se você é parente do Sirius, é meu parente também!

– O quê?

Isso pareceu atrair a atenção dele.

– Olha, vamos sair do meio da rua e achar um lugar sossegado para conversar? Fora que eu preciso alimentar meu bebê.

Ele concordou e os dois seguiram para o Caldeirão Furado, escolhendo uma mesa mais no canto do bar. Ali, Tonks tirou da bolsa um pote pequeno e uma colher, ajeitou Teddy na cadeira alta para crianças oferecida pelo velho Tom e começou a oferecer colheradas de frutas picadas para o filho.

– Vamos lá. – Ela disse sem parar o que estava fazendo. – Tira minha dúvida: você por acaso é um filho perdido do Sirius?

– O quê? Não, não sou. Sirius Black era meu irmão mais velho.

Ela deixou cair a colher, fazendo Teddy reclamar.

– O quê? Opa, desculpe, querido. – Recolheu a colher e limpou com um aceno de varinha antes de voltar a oferecer as frutas ao bebê. – Mas isso não é possível, o irmão de Sirius morreu há muito tempo!

– Não, ele não morreu, ou melhor, eu não morri. Não sei o que aconteceu, eu devo ter ficado em algum tipo de estado de coma ou congelado naquele lago, mas eu não estou morto.

– Lago?

– É uma longa história.

Os dois ficaram um momento em silêncio.

– Então... – Ela voltou a falar, guardando o pote agora vazio e oferecendo uma mamadeira a Teddy, que aceitou de bom grado. – Você é Regulus Black?

Ele deu um meio sorriso.

– Em carne e osso. E você é...?

– Nymphadora Lupin, mas todo mundo me chama de Tonks. Era meu sobrenome de solteira e, como eu nunca gostei do meu nome, pedia para as pessoas me chamarem assim e ficou, mesmo depois do meu casamento. Inclusive, pode me chamar assim, se quiser. Quando me chamam de Lupin, me faz lembrar do meu marido e eu ainda não superei a morte dele.

Regulus olhava confuso. Tinha muita informação ali.

– Espera aí, vamos devagar. Você disse Tonks? Isso quer dizer que você é filha da...

– Andrômeda? Sim.

– E se casou com Lupin? Remus Lupin?

– Isso.

Ele olhava ainda mais confuso. Ela quebrou o silêncio estranho.

– Então... Enquanto você assimila as informações, deixa eu te fazer algumas perguntas. Primeiro, desde quando você voltou? E por que parece tão jovem?

– Maio. Eu voltei para casa e descobri que não tinha mais ninguém lá além do retrato da minha mãe.

Ela sentiu um calafrio.

– A casa de Grimmauld Place? Aquele retrato traumatizou muita gente.

– Eu conversei com ela e descobri umas poucas coisas, como que a casa tinha sido invadida por pessoas que ela não usou um vocabulário muito educado para descrever, mas não soube me passar mais nenhuma informação sobre. Acho que estava impedida por algum feitiço. Mas espera aí, como conhece a casa? Sirius fugiu em 76 e Andie nunca morou lá, não faz sentido você conhecer aquela casa.

– Longa história. – Ela sorriu. – Depois te conto, continua.

– Certo. Como eu disse antes, acho que fui congelado ou coisa parecida, porque acordei igual ao que era quando fui puxado para o fundo daquele lago, com dezoito anos. Fiquei chocado quando descobri que a casa em Grimmauld Place não pertence mais aos Black, mas pelo menos consegui recuperar o que meus pais me deixaram no Gringotes. Você sabe, os duendes nunca fazem muitas perguntas se você comprovar sua identidade. Só não me contaram quem estava controlando aquele cofre antes de me devolverem.

– Os Malfoy. Narcissa foi a única que restou, uma vez que minha mãe foi cortada da árvore genealógica.

Regulus fez uma careta.

– Imagino que vou ter que encarar minha prima em algum momento.

– Boa sorte.

A conversa rendeu por horas. Tonks contou a Regulus sobre a guerra, sobre Harry Potter e a derrota de Voldemort, sobre a Ordem da Fênix e o fato de terem usado a casa em Grimmauld Place como base, tendo que esconder suas ações por meio do feitiço Fidelius. Estava explicado por que o retrato de sua mãe não conseguia dar mais informações sobre os “invasores” da casa. Contou também sobre seu casamento com Remus Lupin e o nascimento do bebê Teddy.

Regulus, por sua vez, contou sobre ter se tornado um Death Eater por influência de sua prima Bellatrix e desistido após abrir os olhos para o que realmente eram. Disse que pretendia procurar Sirius para se esconder com ele, mas não teve essa chance. Contou, ainda, de sua descoberta da horcrux e de como estava aliviado por terem conseguido destruí-la, uma vez que Voldemort estava morto.

– Isso explica muita coisa. – Disse Nymphadora acomodando um pequeno Teddy adormecido em seu colo.

Foi então que Tom, o dono do bar, veio até a mesa.

– Com licença, vocês desejam um quarto na estalagem? Porque estamos fechando o bar.

Tonks levantou-se num pulo, fazendo Teddy chorar por ter sido acordado.

– Gente, olha a hora! Desculpe, queridinho. – Ela tentou acalmar o menino enquanto pegava as coisas e se levantava, indo rumo à porta de saída. – Regulus, ainda tem muita coisa que quero saber, e imagino que você também queira saber mais coisas. Quer passar o Natal lá em casa?

– Posso mesmo? Vai ser bom passar o Natal com companhia que não seja o retrato da minha mãe. Sem falar que eu adoraria ver Andie de novo, sempre senti falta dela.

– Er... – Ela desviou o olhar. – Eu não vejo minha mãe desde maio. Nós brigamos.

– Ah, sim... Entendo.

Só então Nymphadora percebeu o quanto sentia falta da mãe. Pensou em como ela estava sozinha desde a morte de seu pai. Talvez ela gostasse de ver o primo que há muito tempo julgava morto.

– Sabe... Acho que minha mãe ia ficar feliz de receber uma visita surpresa no Natal. Anima vir comigo e com Teddy?

– Claro!

Regulus sorriu e continuou acompanhando os passos da prima. Ele teria uma nova vida agora.