Recomeço
29 Capítulo 29 - O vilão e a cura
Notas iniciais
Castiel se aproximou da porta e ao ver Mia paralisada pelo ódio diante de Crowley, tentou explicar:
– Mia, me desculpe... Eu ia te contar... Eu juro...
Mia o olhou sem entender porque ele estava tão nervoso. De repente uma ideia passou pela sua cabeça e ela perguntou desconfiada:
– Desde quando o Crowley está aqui?
– Oh... Há muito tempo. Meses, para ser mais exato. — respondeu Crowley fazendo Mia voltar a olhar pra ele.
– Meses? — repetiu ela incrédula e então olhou para Castiel e quis confirmar — Isso é verdade?
Castiel encarou Mia sem saber como explicar aquilo. Havia imaginado que ela podia acabar descobrindo que Crowley estava lá, só não havia pensado no que faria se isso acontecesse.
– Você já sabia disso? — quis confirmar ela olhando Castiel um pouco decepcionada por ele ter mentido, e principalmente, por ele ter afirmado que não tinha mais nada para contar minutos antes, quando eles combinaram que seriam honestos um com o outro.
– Eu sinto muito... Mia, me desculpe... Eu ia contar... — garantiu ele.
– Ele está mentindo. — provocou Crowley e Mia o olhou com ódio — Ele não ia contar. O Squirrel e o Winchester Jumbo Size também não iam contar. Mesmo o fracote do Kevin não ia contar. E sabe por que, Mia? Por que nenhum deles sabia como você iria reagir. Eles ficaram com medo da sua reação. E honestamente, eu compreendo. Você devia entender também. Afinal, é difícil prever como uma aberração, como você, vai reagir quando descobre que foi enganada por aqueles que mais amava e que diziam te amar também. E que diziam que sempre seriam sinceros com você... É incrível, não é? Traições sempre vem de onde e de quem menos esperamos. E depois somos nós, pobres diabos, que levamos a fama de vilões da história.
Com muito ódio, Mia se moveu rapidamente na direção do demônio e o segurou pelo pescoço enquanto seus dedos se fechavam com força em volta dele.
– Cala a boca! Eu não consigo suportar o simples som da sua voz, Crowley! Eu te odeio! — gritou Mia.
Mesmo com dificuldade, Crowley conseguiu dizer:
– Aí está a sua reação. Humm... Eu confesso que esperava mais. Viu, Cas? Nem foi tão ruim assim.
– Eu vou arrancar o seu coração! — gritou ela ainda com mais raiva.
– Humm... Agora melhorou. Vá em frente, Mia. Se você encontrar um coração aqui dentro, é claro. — desafiou ele.
Castiel se aproximou e segurou Mia tentando fazer com que ela soltasse Crowley.
– Fica longe de mim! — gritou ela para Castiel, depois de soltar Crowley e dar um passo para trás.
Ao ouvir Mia gritando, Dean que estava em um das salas do bunker com Kevin, correu em direção à masmorra imaginando o que estava acontecendo. Kevin o seguiu atônito.
Castiel tentou se aproximar de Mia, mas novamente ela deu alguns passos para trás.
– De todos, você era o único que não poderia ter mentido pra mim, Cas. — disse ela sem conseguir mais conter o choro.
– Eu concordo. — opinou Crowley.
– Cala a boca. — ordenou Castiel com ódio por ele incentivar aquela discussão e voltando-se para Mia, explicou — Eu ia te contar. Eu juro que ia. Eu só precisava conversar com Sam e Dean primeiro pra...
– Pra descobrir uma forma de contar pra aberração aqui que o demônio que matou os pais dela estava o tempo todo sob o mesmo teto que ela? — completou Mia magoada.
– Você não é uma aberração. — esclareceu Castiel.
– Há controvérsias... — provocou Crowley.
– Cala a boca! — gritou Mia para o demônio.
– Você é a mulher que eu amo, Mia. E eu juro que eu ia te contar. No momento certo. — continuou Castiel.
– No momento certo? — repetiu ela ainda mais chateada — E quando seria este momento certo, Cas? Antes ou depois de fazer “nada” comigo na outra sala?
– Por falar nisso, por que vocês pararam? Ah! Certo! Porque eu interrompi. — provocou Crowley mais uma vez.
– Cala a boca! — gritaram Mia e Castiel ao mesmo tempo.
Neste momento, Dean e Kevin entraram no porão e ficaram alguns instantes atônitos diante daquela cena. Então tinha mesmo acontecido? Mia tinha descoberto que Crowley estava lá. E com certeza estava odiando todos eles naquele momento.
– Olá, Squirrel! Olá, Kev! — cumprimentou o demônio — Onde está o Moose? E os outros? Eu sei que tem outras pessoas aqui.
– Cala a boca, Crowley! — disseram Kevin e Dean ao mesmo tempo.
Em seguida, Dean voltou-se para a vampira e começou:
– Mia, eu posso explicar...
– Não precisa, Dean. — interrompeu ela um tanto ríspida — Eu já entendi. Crowley nunca sumiu naquela igreja na noite em que os anjos caíram. Vocês o trouxeram pra cá. E o mantiveram aqui. E decidiram que era melhor não contar pra mim porque não sabiam como eu iria reagir. Eu sou uma vampira, minhas emoções estão amplificadas e vocês tiveram medo da forma como o monstro aqui poderia reagir quando soubesse. Mas é engraçado porque foram vocês que me convenceram de que eu ainda sou eu, lembra? Em Mystic Falls? Todo aquele papo meloso de que eu fazia parte da família e que eu não era um monstro? Então quando vocês tem que provar isso, confiando em mim e me contando a verdade, vocês preferem me deixar de fora e mentir.
– Você está chateada... Eu entendo, mas nós só queríamos te poupar, Mia. E sim, eu admito, nós não sabíamos como você iria reagir, mas nós só queríamos preparar melhor o terreno. Eu garanto que nós íamos te contar. — expôs Dean.
– Deixa eu adivinhar. No momento certo? — indagou Mia com raiva e em seguida, acrescentou — Chega... Eu não quero mais ouvir vocês explicarem o que não tem justificativa. Vocês mentiram pra mim. Mas eu preciso que vocês me respondam pelo menos por que o Crowley ainda está respirando? Por que vocês estão mantendo ele vivo? Depois de tudo que ele fez? Não só pra mim, mas pra vocês também.
– Acredite, eu ia adorar acabar com esse desgraçado, tanto quanto você, Mia. — afirmou Dean enquanto Crowley olhava ora para ele, ora para Mia um pouco assustado — Mas, infelizmente, ele é útil. Crowley pode nos dar os nomes de todos os demônios que estão possuindo pessoas por aí, talvez possa nos ajudar com Abaddon, talvez até ajudar o Kevin a traduzir a Tábua dos anjos. É só por isso que ele está vivo, Mia. Depois que nós tirarmos tudo dele, não haverá mais nenhum motivo pra ele continuar respirando.
– Eu acho que nós podemos negociar alguns detalhes. — propôs o demônio e quando todos o encararam com ódio, ele se antecipou — Ok, cala a boca. Mas eu realmente preciso dizer uma coisa.
– Diz logo. — consentiu Dean sem muita paciência.
Crowley respirou fundo e enquanto olhava para Mia e Castiel, disse:
– Tem mais uma coisa que vocês podem tirar de mim. Claro que terá um preço. E claro que é a minha liberdade.
– E o que valeria tanto a ponto de nos fazer concordar em soltar você? — indagou Castiel.
– A cura pra vampira problemática aí. — respondeu o demônio e após alguns instantes observando a reação de todos, revelou — Sim, eu sei como curar uma vampira. É simples na verdade. Nós precisamos de um feitiço que minha finada mãe conhecia muito bem e alguns ingredientes. Um deles, inclusive, parece que o Cas já descobriu qual é.
Mia, Kevin e Dean seguiram o olhar de Crowley e pararam no pescoço de Castiel. Mais especificamente no curativo que ele tinha no lado direito. Na pressa, para vestir a camisa, Castiel acabou esquecendo de esconder aquela parte do pescoço.
– Você não se cortou fazendo a barba, não foi? — deduziu Kevin.
Dean logo deduziu o que Crowley estava insinuando e disse surpreso e indignado:
– Espera um pouco. Cas, isso no seu pescoço... Foi a Mia? Mia! Você está mordendo o Cas?! Vocês perderam o juízo?!
– Poupe o sermão, Dean. Eu sei que foi errado. Mas não se preocupe, não vai acontecer de novo. — disse Mia enquanto olhava para Castiel ainda magoada por ele ter mentido — E sobre o que o Crowley disse, só para constar, eu não acredito. Não existe uma cura pra mim. Ele está mentindo, blefando. Como sempre faz.
– Talvez não, Mia. O meu sangue te fez bem de alguma forma. Talvez... Eu possa mesmo te curar. — supôs Castiel.
– Ei! Calma que eu ainda estou tentando assimilar a ideia de que a Mia se alimentou de você, Cas. — interrompeu Dean — Onde vocês estavam com a cabeça quando deixaram isso acontecer?! Desde quando vocês estão trabalhando neste spin-off de True Blood?!
Castiel franziu a testa confuso e disse:
– Eu sou humano agora, mas continuo não entendendo algumas referências, Dean. Dá pra ser mais claro, por favor.
– Desde quando a Mia está se alimentando de você? E por quê? De quem foi a ideia genial? Como vocês puderam fazer isso? Vocês não percebem como isso é perigoso? Vocês estão brincando com fogo! — reformulou o Winchester.
– A ideia foi minha. — respondeu Castiel preferindo ocultar que na verdade, foi Mia que pediu para beber o seu sangue pela primeira vez, mas que depois ele acabou concordando e insistindo para que ela fizesse aquilo todos os dias. Em seguida, completou — E se você quer mesmo saber, eu não me arrependo, Dean. A Mia estava passando mal há dias e não estava mais conseguindo se alimentar com o sangue do estoque refrigerado. Então, eu resolvi ajudá-la como eu podia ajudar. Com o meu sangue. E funcionou. Ela está melhor. Até voltou a compelir pessoas. E não teve mais alucinações ou qualquer mal estar. Eu sei que isso parece errado, perigoso, arriscado, mas o que eu puder fazer pela Mia, eu vou fazer, sem hesitar. Mesmo que isso custe a minha vida e mesmo que você não concorde. Eu faria qualquer coisa por ela, qualquer coisa por amor a ela. Então... Poupe o sermão porque não vai adiantar.
Enquanto Dean assimilava aquelas coisas, Mia olhou para Castiel e esclareceu:
– Não pense que esse discurso vai me fazer esquecer que você mentiu pra mim, Cas. Eu não vou esquecer. — e olhando para o Winchester, tranquilizou — Mas não se preocupe, Dean. Eu não vou mais beber o sangue desse idiota. Mas se mesmo assim vocês quiserem dar ouvido ao imbecil do Crowley...
– Ei! — protestou o demônio.
– Vão em frente. — prosseguiu ela e em seguida, completou — Eu sei que vocês nunca conseguiram aceitar a nova Mia mesmo. E eu entendo. Você e o Sam são caçadores e eu... Um monstro. O tipo de monstro que vocês costumam decapitar sem pensar duas vezes. É natural que vocês queiram encontrar uma cura pra mim. Uma forma de me consertar pra não precisarem me matar no futuro.
– Você está sendo injusta, Mia. Nós te aceitamos do jeito que você é. Você faz mesmo parte desta família. O único motivo pelo qual nós queremos encontrar uma cura pra você é porque nós sabemos que lá no fundo, é isso que você quer também. E nós só mentimos pra você sobre o imbecil do Crowley porque nós sabíamos que você iria ficar assim. Nós só queríamos te poupar desse desgosto. — argumentou Dean.
– Nossa! Vocês sabem mesmo como fazer um demônio se sentir bem vindo, não é? — resmungou Crowley.
– Cala a boca. — ordenou Kevin.
Mia olhou para todos eles, enxugou o rosto, começou a se afastar e disse:
– Eu não quero mais falar sobre isso. Desculpe, mas eu ainda estou tentando assimilar o fato de que o demônio que me torturou, matou os meus pais e o meu melhor amigo está bem na minha frente e eu não posso acabar com ele porque... Como você disse mesmo, Dean? Ah! Ele é útil. Depois dessa, eu vou para o meu quarto.
– Eu vou com você. — disse Castiel a seguindo.
Mas ele parou em seguida quando Mia esclareceu:
– Não, você não vai, Castiel. Sabe de uma coisa? É assim que eu vou te chamar de agora em diante. Castiel. Nada de "anjo" ou "Cas". E eu disse que vou para o MEU quarto, não para o NOSSO quarto. Mesmo porque, adivinha? Não existe mais "NOSSO QUARTO", Castiel. Não existe mais nada NOSSO. Acabou.
– Como assim acabou? — temeu ele.
Mia o encarou uma última vez antes de se mover rapidamente e sair da masmorra sem dizer mais nada. Logo chegou ao quarto, entrou, bateu a porta e se jogou na cama. Em seguida levantou e trancou a porta. Depois disso, voltou pra cama, abraçou o travesseiro e chorou sobre ele.
– Se eu fosse você, ia atrás dela. Vocês precisam discutir a relação e restabelecer a questão da confiança, Castiel. — provocou Crowley.
– Cala a boca. — disse o ex-anjo, mas em seguida saiu do porão porque realmente precisava conversar com Mia.
Depois que ele saiu, Dean olhou para o profeta e pediu:
– Kevin, porque você não volta pra outra sala e continua aquelas pesquisas? Eu preciso falar com esse diabo aí em particular.
– Ok. — assentiu o profeta e em seguida também saiu de lá.
Então Dean puxou uma cadeira e sentou de frente para Crowley antes de recomeçar:
– Então, o que você sabe sobre a cura do vampirismo? Ela existe mesmo?
Crowley sorriu com um certo ar de superioridade e exigiu:
– Antes de responder, eu quero esticar as minhas pernas.
Dean pensou um pouco e relutante, levantou. Pegou uma arma na cintura e apontou para o demônio enquanto se aproximava com cautela da armadilha. Em seguida livrou Crowley da corrente que prendia os seus braços na cadeira e também de um tipo de argola de ferro em volta do seu pescoço. Depois se afastou e guardou a arma. Então o demônio levantou e se esticou demoradamente dentro da armadilha. Em seguida andou de um lado pro outro e por fim parou no centro da chave de Salomão.
Dean voltou a sentar na cadeira e continuou:
– Não pense que eu estou aceitando a sua proposta. Você não vai sair daqui tão fácil, Crowley. Mas eu preciso saber se essa cura existe mesmo ou se é mais um dos seus blefes. E antes de mais nada, eu preciso saber o que está acontecendo com a Mia exatamente. Por que ela começou a passar mal de repente e por que o sangue do Cas fez isso parar? Ele pode mesmo ajudá-la? Curá-la?
Crowley observou Dean por alguns instantes. Ele tinha cumprido a parte dele e o deixado mais confortável, mas o demônio sabia que tinha que ser cauteloso ou Dean descobriria rapidamente como a cura funcionava.
Enquanto escolhia as melhores palavras para começar a explicar sem comprometer a sua única vantagem, Castiel batia incessantemente na porta do quarto de Mia. Lá dentro, ela terminava de colocar as roupas do ex-anjo dentro de uma mala. Ele apoiou a testa no batente e pediu:
– Mia... Abra a porta. Vamos conversar. Por favor. Eu posso explicar. Me desculpe, eu não queria ter escondido isso de você, mas Sam e Dean pediram segredo. Eles mesmos queriam contar no momento certo. Por favor, abra a porta.
De repente, Castiel foi surpreendido porque Mia finalmente abriu a porta. No entanto, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela empurrou a mala pra ele e trancou a porta de novo.
– O que significa isso? — indagou ele confuso.
Mia ficou apoiada do outro lado da porta e respondeu:
– Significa que você precisa procurar outro quarto pra ficar, Castiel. Aqui você não entra mais.
– Mia... Isso é ridículo. Abre a porta, vamos conversar. Eu sei que você está chateada, mas também não precisa ser tão radical. — argumentou ele.
– Você olhou nos meus olhos e afirmou que não estava escondendo mais nada de mim. E você mentiu. Desculpe, mas eu tenho que ser radical, Castiel. — contrapôs ela.
– Dá pra parar de me chamar de Castiel? — pediu ele.
– Não é este o seu nome? Castiel? — provocou ela.
Ele pensou um pouco, respirou fundo e então disse:
– Ok, você está com raiva. Eu vou te dar um tempo pra pensar e depois eu volto aqui, ok? Mas eu quero te pedir uma coisa, Mia Clarke. Lembra do que você me disse sobre nunca ficar com raiva de mim por tentar te ajudar? Pois é. Eu estava tentando te ajudar. Lembra disso, ok?
– Então você quer mesmo me convencer de que fez isso pensando em mim? De que mentiu com as melhores intenções? Pra me ajudar? — duvidou ela ainda irritada.
– Sim. Eu sabia que você ia ficar arrasada quando soubesse que o Crowley estava aqui e por isso eu não contei antes. Eu queria te poupar. Você passou por todas aquelas coisas ultimamente e eu pensei que te poupar de mais um estresse era o melhor a fazer naquele momento. Mas mesmo assim eu ia contar. Eu juro que eu ia. No momento certo. Com cuidado. Não era pra você ter descoberto desta forma. Mas mesmo assim eu sinto muito por ter mentido. Eu sei que eu errei, Mia Clarke, mas foi tentando acertar, foi pensando no melhor pra você. — expôs ele.
– Dá pra parar de me chamar de Mia Clarke? — pediu ela tentando conter a vontade de abrir a porta e acabar com aquela discussão.
No entanto, Mia estava mesmo magoada e era muito orgulhosa também. Sabia que se abrisse a porta esqueceria de tudo e perdoaria Castiel imediatamente. E ele tinha mentido. Todos eles tinham mentido. Ela não podia esquecer aquilo tão fácil.
– Não é esse o seu nome? Mia Clarke? — devolveu ele e após alguns instantes em silêncio, fez uma última tentativa — Abre a porta, Mia. Por favor.
– Não. Vai embora, Castiel. Me deixe sozinha. — respondeu ela.
Após um longo momento de silêncio, ela respirou fundo e decidiu abrir a porta. Mas para sua surpresa, Castiel não estava mais lá. Ele já estava no final do corredor arrastando a mala para um dos quartos. Então Mia fechou a porta com cuidado para não fazer barulho e para que ele não percebesse que ela havia fraquejado por um breve instante.
– Melhor assim, anjo estúpido. — disse para si mesma antes de voltar para a cama.
No porão, Dean pressionou:
– Hora de começar a falar, Crowley. O que está acontecendo com a Mia?
O demônio observou o Winchester por mais alguns segundos, antes de começar a explicar:
– Bem, apesar da Mia ser uma sanguessuga nojenta agora, o meu sangue ainda está lá, correndo por aquelas veias imortais. Lutando contra o sangue do vampiro que a transformou. Em outras palavras, o lado demoníaco está rejeitando o lado vampiro. Em palavras ainda mais diretas, o corpo dela está rejeitando a transformação.
Confuso, Dean perguntou:
– Por quê? E por que agora? A Mia estava bem em Mystic Falls.
– Me corrija se eu estiver errado, Squirrel, mas Mystic Falls não é aquela cidadezinha patética, no meio do nada, e repleta de vampiros e outras aberrações? Porque se for, significa que a Mia estava quase em família por lá. Talvez, vivendo com outros vampiros. E agora ela está entre caçadores. Pode não parecer, mas o ambiente influencia este tipo de mudança que está acontecendo com ela. Ao tirá-la do seu habitat natural, vocês aceleraram um processo que de uma forma ou de outra iria acontecer. — explicou Crowley.
– Que processo? Que mudança? Do que você está falando? — quis entender Dean.
Crowley revirou os olhos e provocou:
– Que saudade de conversar com o Moose. Ele é bem mais perspicaz do que você, Squirrel. Mas tudo bem, eu explico num nível que você consiga entender. — e após uma pausa, prosseguiu — A Mia tem o meu sangue, certo? Você sabe que sangue de demônio tem o poder de dar algumas habilidades a certas pessoas, não sabe? Sam e Azazel, lembra? Pois bem. Desde que a Mia nasceu, o meu sangue vem moldando ela, a transformando, ampliando os seus dons.
Dean lembrou de algo e interrompeu:
– Antes de ser transformada em vampira, a Mia tinha pesadelos que eram como premonições. Depois ela começou a ter visões também. E ela sobreviveu a algumas coisas que até hoje eu não entendo. Eu consigo explicar porque ela voltou da morte quando aquele Cão do Inferno a matou há alguns meses, mas eu não consigo explicar como ela voltou da segunda vez, em San Francisco, depois de ter exorcizado você. A Mia estava morta. Cas não a trouxe de volta porque estava meio impossibilitado naquele momento. Então como? — Dean fez uma pausa e então ele mesmo respondeu — Era o seu sangue, não era? Ele estava deixando a Mia mais forte e ampliando aquele dom de prever as coisas. Bem, isso também explica porque ela sobreviveu à coisas que uma pessoa normal não sobreviveria.
– Que saudade do Moose... — murmurou o demônio mais uma vez e Dean o encarou ofendido — Por favor, me deixa explicar o resto. Mia estava evoluindo, ano após anos, dia após dia, até que um vampiro resolveu transformá-la e o meu sangue parou de evoluir dentro dela. Que pena... Mas, quando vocês a tiraram de Mystic Falls, do convívio com outros vampiros, esse lado começou a despertar. E agora está rejeitando a transformação porque precisa continuar evoluindo.
Dean pensou um pouco assimilando tudo que tinha ouvido e então continuou:
– Então as duas únicas formas de ajudar a Mia é a curando do vampirismo ou deixando ela em algum ninho de vampiros?
– Não. Uma vez que o lado demoníaco acordou, não adianta mais jogar aquela idiota em um ninho de sanguessugas. Isto não vai parar, Squirrel. O corpo da Mia vai continuar rejeitando a transformação até que vocês encontrem uma forma de curá-la do vampirismo ou até que ela enlouqueça e peça para alguém tirar a vida dela. — esclareceu Crowley.
– Isso não vai acontecer. A Mia está melhor. Bem ou mal, o sangue do Cas está fazendo alguma coisa com ela. — argumentou Dean.
– O sangue do Cas, não está resolvendo o problema. É apenas algo paliativo. Logo logo, a Mia vai voltar a passar mal, a ter alucinações e quando isso acontecer, não vai mais parar. E então nem o sangue do Cas poderá ajudá-la. — explicou Crowley.
– Mas você disse que o sangue dele pode curá-la... — lembrou Dean.
– Não sozinho. Existem outros ingredientes. Juntos eles podem curar a Mia. Separados, nunca. — esclareceu o demônio.
Dean levantou da cadeira e andou de um lado pro outro enquanto digeria aquelas revelações. Precisava entender mais algumas coisas e então prosseguiu:
– Por que o sangue do Cas? Ele é humano agora? Que ele não me ouça, mas não tem nada de poderoso naquele sangue.
Crowley revirou os olhos e sentou na cadeira no centro da armadilha antes de dizer com desdém:
– Pode colocar a culpa no poder do amor.
Dean franziu a testa sem entender e indagou:
– Como assim?
– Bem, só de falar isso me dá vontade de vomitar, mas aquele idiota ama aquela sanguessuga. Eles tem algo, uma conexão. Para os mais românticos pode-se dizer que eles são almas gêmeas. — respondeu ele
– Almas gêmeas não existem. — discordou Dean.
– Quanto romantismo, Squirrel. E eu jurava que estava rolando um clima entre a gente. — debochou o demônio.
– Foco, Crowley. — cortou Dean e em seguida, recomeçou — Tudo bem, digamos que almas gêmeas existem e que o Cas e a Mia tenham sido premiados. E daí?
– Seus pais liam histórias pra você dormir, Dean? Aquele tipo de história onde o amor sempre vence no final e onde ele pode curar qualquer maldição? O beijo do amor verdadeiro faz uma dorminhoca acordar, transforma uma fera ou um sapo em um príncipe idiota, esse tipo de coisa? — indagou Crowley e como Dean não respondeu, ele continuou — O sangue do Castiel tem um efeito parecido para a Mia. Ele pode curá-la do vampirismo, que, neste caso, seria como uma maldição. Claro que com mais alguns ingredientes e com o feitiço certo. E claro que só eu sei como fazer isso. E claro que eu vou querer alguma coisa em troca. E claro que é a liberdade.
Dean pensou mais um pouco e prosseguiu:
– Olha, isso é apenas uma suposição, ok? Então, digamos que eu aceite as suas condições e você nos ajuda a curar a Mia. O que acontece com ela depois disso? O que acontece com a Mia quando não houver mais sangue de vampiro no organismo dela para impedir que o seu sangue evolua dentro dela?
– Ela vai voltar a ter aqueles pesadelos. Aquelas visões. A prever as coisas, como nos velhos tempos. Ou seja, ela vai voltar a ser estranha. — respondeu o demônio.
Desconfiado, Dean insistiu:
– E o que mais? Você disse que o seu sangue estava fazendo a Mia evoluir desde que ela nasceu. Então, algo me diz que se nós a curarmos, ela não vai apenas voltar a ser como era antes. Ela vai continuar evoluindo, não é? Evoluindo para o quê exatamente? Evoluindo como?
– Eu não sei, Dean. Sangue de demônio age de formas diferentes em cada pessoa. Você não lembra das crianças de Azazel? Do seu irmão? Bem, o meu palpite é que os dons premonitórios da Mia vão se expandir e talvez ela fique mais forte de alguma forma. Foi você mesmo que disse que ela sobreviveu a coisas que uma pessoa normal não sobreviveria. Então...
– Por que você fez isso com ela, Crowley? — perguntou Dean o interrompendo — Por que você fez aquilo com os pais dela? Você tirou qualquer chance que a Mia tinha de ter uma vida normal.
– Sem mim, ela nunca teria nascido. — lembrou Crowley — Além disso, eu só estava fazendo o meu trabalho, que na época era selar pactos, comprar almas, essas coisas. Eu não tenho culpa se um casal desesperado e inseguro, que queria a todo custo ter um filho, aceitou beber o meu sangue para se curar da infertilidade.
– Eu e você sabemos muito bem que aquilo não era necessário. Você fez o Bobby voltar a andar apenas estalando os dedos. Então por que você fez aquilo com os pais da Mia? — insistiu Dean.
– Eu não os forcei a fazer nada. — defendeu-se Crowley.
– Você os enganou. — acusou Dean.
– Eu sou um demônio. Enganar faz parte da minha natureza. — justificou-se ele.
– Só quando você tem algum interesse escuso. — contrapôs o Winchester e em seguida, deduziu — Talvez você tenha algum interesse escuso em relação à Mia. Assim como Azazel tinha em relação ao meu irmão e aos outros como ele. O que é, Crowley?
O demônio ficou um pouco surpreso diante da perspicácia de Dean, e sentiu que precisava encerrar aquela conversa de uma vez antes que o caçador desconfiasse de mais alguma coisa. Pensando assim, continuou:
– Então? Eu pensei que nós estivéssemos falando de negócios, mas de repente você começou a falar sobre o passado... Por que nós não voltamos a falar sobre as minhas condições para dizer como curar a Mia?
Dean deu um sorriso de canto e esclareceu:
– Eu não vou negociar com você, Crowley. Além de estar escondendo alguma coisa, você não sabe ou não quer dizer o que vai acontecer com a Mia se nós a curarmos. E eu não vou apostar a vida dela em um palpite. Desculpe. Agora se você me permite, eu vou te prender de novo, como o animal asqueroso que você é.
Após dizer isso, Dean apontou a arma com um das mãos e com a outra prendeu Crowley de novo. O demônio o encarava incrédulo e tentando disfarçar a decepção. Por um momento, ele achou que iria conseguir o que queria. Sua liberdade.
Ao ver Dean se afastando, ele fez uma última tentativa:
– Quando os sintomas da rejeição voltarem, e vocês perceberem que não podem fazer nada para ajudar a Mia, quando ela piorar tanto que vocês vão implorar para que ela peça que algum de vocês acabe com ela, eu vou estar aqui, Squirrel. Aberto a negociações.
Dean sorriu com sarcasmo e antes de fechar a porta, desejou:
– Aproveite a sua solidão, Crowley.
Em seguida, o demônio ficou na mais completa escuridão.
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