Reckless - Divergente
1 Prologo
Notas iniciais
– Está ansiosa? – pergunta minha irmã. Ela tem que se segurar para não cair. Balanço meus pés para fora do trem, ao meu lado, Uriah ri.
– Pelo o que? Todos nós sabemos que essa gracinha vai continuar na Audácia. – ele sorri para mim. Sorrio de volta. Sim. Eu irei continuar na Audácia. Aqui é minha casa.
– Não sei, vai que o resultado do teste dela dê diferente? – pergunta minha irmã. Uriah empurra seus ombros brincando.
– Deixe de besteira, Lir.– vejo o edifício que um dia foi chamado de Sears Tower—e que hoje chamamos de Eixo – se aproximar. O trem passa pelos trilhos elevados. Uriah e minha irmã continuam falando sobre o teste de hoje. Olho, com cuidado para baixo, tento ver os ônibus passando por baixo de nós. Por que não fomos de ônibus? Por que isso é para os caretas da Abnegação – a facção que valoriza o altruísmo – , para os sabe tudo da Erudição – a facção que valoriza o conhecimento. – ou para os boca grande da Franqueza – a facção que valoriza a honestidade. Nós valorizamos a coragem. Nós desafiamos a morte todo dia ao pular de um trem em movimento.
Olho no meu relógio. 07h25minhrs em ponto. Hora de pular.
Vejo o edifício de Níveis Superiores abriga a mais antiga das três escolas da cidade: Níveis Inferiores, Níveis Medianos, e Níveis Superiores. Levanto-me já me preparando para pegar o impulso e saltar. Olho para trás. Eles continuam gritando e rindo. Vejo Lynn ajudando Marlene a se levantar para se prepararem para pular. Ela sorri para mim e quando olho novamente para fora pulo.
Isso é tão natural quanto sorrir. Em um momento estou no ar e no outro estou em frente á escultura que tem em frente ao edifício. Ano passado eu quebrei minha perna tentando escalar mais alto que Zeke. Uma menina da Abnegação chamou a enfermeira para mim. Ele ainda mantem o recorde de quem escala mais alto. Olho para baixo sentindo uma mão se apoiar em meu ombro.
Falando no diabo... Zeke quase caiu. Quase. Ele se segurou em mim. Não posso deixar de rir da sua cara.
– Pare Ruthless. – ele também ri e passa o braço ao redor dos meus ombros antes de entrarmos na escola.
Há um clima de fome no ar, como se cada aluno de dezesseis anos estivesse tentando devorar o máximo deste dia possível. É bem provável que não caminhemos mais por estes corredores depois da Cerimônia de Escolha—depois que escolhermos nossas novas facções, elas se encarregarão de nos oferecer o resto dos nossos estudos.
Mas olho ao redor. Membros vestidos de preto, rindo e fazendo bagunça me cercam. Caminhamos pelos corredores e os alunos param para nos olhar. Acho isso realmente engraçado. Nós, membros da Audácia temos certa popularidade por aqui.
Nossas aulas hoje durarão metade do tempo, para que assistamos todas elas antes do teste de aptidão, que ocorrerá depois do almoço.
– Testes de Aptidão hoje. – minha irmã me lembra. Antes de entrar em uma sala qualquer. Ela é três anos mais nova que eu, então está só tentando me deixar pressionada, mas não ligo.
O grupo da Audácia se divide. Vou para a sala de Historia das Facções junto com Lynn.
– Com medo Ruthless? – pergunta Lynn quando passa por mim.
– Medo? Não sinto medo, Lynn. – digo rindo. O que gosto na escola é que é um dos poucos lugares em que os membros de todas as facções podem interagir junto. Meu pai conheceu minha mãe aqui, dois anos antes de mudar de facção. Ele nunca me disse de qual facção ele era antes, mas sei que foi a Erudição. Ele tem uma tatuagem no peito para comprovar minhas teorias.
Uma vez, ouvi um membro da Franqueza nos chamar de “endiabrados”. Um dia perguntei á minha mãe o que a coragem tem a ver com um anel de metal pendurado no nariz. Ela disse que isso era um bônus. Nossa principal função era proteger a cidade. Do que exatamente eu não sei.
Sinto como se alguém estivesse acabado de me chamar e me viro na direção. Uma menina da Abnegação olha para nós de dentro da sala E. Seus cabelos loiros estão presos do mesmo jeito que todos da Abnegação e suas roupas cinza a fazem parecer quase um fantasma de tão largas que são em seu corpo pequeno. Ela desvia o olhar e eu entro na sala.
Os exames de aptidão começam depois do almoço. Sentamos- nos ao longo das extensas mesas do refeitório enquanto os avaliadores chamavam dez nomes por vez, um para cada sala de avaliação.
Os avaliadores são, na maioria, Abnegados voluntários embora haja um voluntário da Erudição em uma das salas de avaliação e um da Audácia em outra para testar os membros de outras facções, uma vez que as regras determinam que não podemos ser testados por alguém de nossa própria facção. As regras também dizem que não podemos nos preparar de forma alguma para a avaliação, assim eu não sei o que esperar, mas não estou nervosa. Sei que o teste dirá Audácia. Assim, passarei na iniciação, virarei uma instrutora para os nascidos na Audácia e me casaria com alguém e viveria “feliz”. Na altura do possível dentro da Audácia.
Sento-me ao lado de Lynn. Sua careca é o que mais chama atenção nela, seguido pelas roupas largas e seu jeito de durona. Ela acabou de contar uma piada, mas não prestei muita atenção.
Pego uma carta na mesa e me inclino. Encostando meu corpo na parede e as pernas em cima da mesa. Uma dama de Espadas. Uma vez, meu pai disse que simbolizava a deusa Atena. Não temos uma religião concreta, mas se eu fosse escolher uma, eu escolheria essa dos nossos antepassados.
Um grupo de garotas da Amizade, vestidas de amarelo e vermelho, sentam em circulo no chão da cafeteria, brincando de algum tipo de jogo que envolve canções ritmadas e batidas de mão. A cada minuto escuto gargalhadas delas quando alguém é eliminado da brincadeira e obrigado a sentar no meio do círculo.
– Cadê os modos, Ruthless? – grita Uriah do outro lado da mesa. Sorrio de lado e dou de ombros. Ele ri e diz algo no ouvido do menino ao seu lado.
Olho para meu lado. Um menino de cabelos claros está com a cabeça baixa. Quando eu digo claro, não estou falando de loiro; estou falando de um loiro tão claro que chega a ser platinado. Uma experiência da sua irmã que quase o deixou careca.
– James. – o cutuco. Ele levanta seus olhos escuros para mim. Juro que um dia ainda jogo uma tinta no cabelo dele. Talvez azul ou verde.
– Sim? – ele pergunta. Seus olhos vermelhos. Chorão.
– O que você tem menino?! Está nos envergonhando. – digo brincando. Ele me empurra levemente. – Aja como alguém da Audácia, só por hoje.
– Não está nem um pouco preocupada, Ruthless? – ele pergunta.
– Não. – rio.– Olho ao redor, para as mesas. Acho estranho o modo como os Eruditos estão sempre estudando e lendo. Ou como os Francos estão sempre debatendo, ou os membros da Abnegação quietos.
– Sortuda... – ele murmura e um dos avaliadores chama os nomes. Conheço- a. É Tori. Ela é tatuadora e fez minha primeira e única tatuagem. Temos algumas coisas em comum também, como o medo.
Seus olhos são pequenos, escuros e angulares, e ela usa um blazer preto—como os ternos masculinos—e jeans. Ela olha na minha direção e sorri antes de ler os nomes. Dois da Franqueza, dois da Abnegação, dois da Amizade, dois da Erudição e dois da Audácia. James se levanta quando seu nome é chamado, mas não lhe desejo boa sorte nem nada. Só consigo pensar em Tori.
Deve ser estranho, mas vou tentar explicar. A Audácia tem um sistema “peculiar” de iniciação. Em quanto em outras facções é preciso fazer 30 dias de trabalho voluntario ou algo assim, como na Abnegação. Na Audácia temos o sistema “Vocês nos escolheram, agora, escolhemos vocês.”. Os iniciados passam por uma serie de testes até sair à pontuação final. Geralmente são eliminados quatro. Quatro se tornam sem -facções.
Sempre fui curiosa. Quando tinha uns 10 ou onze anos, eu entrei na passagem do medo escondida. Essa passagem é usada nas iniciações, mas eu estava curiosa para saber meus medos. E um deles eu tenho em comum com a Tori. O medo do escuro.
James volta depois de dez minutos, ele está relaxado. Será que deu Audácia? Não acho. Ele nunca foi realmente um membro da Audácia. Mais nomes são chamados, mais conversas e risadas. Finalmente um membro voluntário da Abnegação chama os nomes.
– Da Erudição: Andrew Galahad, Will – ele diz os nomes, mas não presto atenção até os últimos. – Da Audácia: Victoria Ruthless e Uriah. – antes de ele terminar eu já estou em pé.
Sigo Uriah até a saída. Ambos passamos eretos. Uma vez, minha irmã disse que eu tenho a postura orgulhosa e prepotente enquanto ando; como um erudito.
Esperando por nós, do lado de fora, estava um corredor com dez salas. Elas são utilizadas apenas para os testes de aptidão, então eu nunca estive dentro de nenhuma delas antes. Diferente das outras salas da escola, elas são separadas não por vidro, mas por espelhos. Observo meu reflexo. Sou muito mais baixa que Uriah. Ajeito meus cabelos escuros antes de entrar na sala sete e ele entrar na oito. Ele acena para mim e eu murmuro.
– Boa sorte. – foi mais para mim do que para ele, mas tudo bem. Entro na sala e uma mulher da Abnegação está me esperando.
Seus olhos são gentis e verdes e seus cabelos são loiros. Espelhos cobrem as paredes internas da sala. Posso ver meu reflexo de todos os ângulos: a figura vestida de preto. O teto branco brilhando com as luzes. No centro da sala está uma cadeira reclinável, como aquelas do dentista, com uma máquina próxima a ela. Parece um lugar onde coisas terríveis acontecem. Parece o lugar perfeito. Sorrio.
– Não se preocupe. – a mulher diz. – Não irá doer. Sente-se e fique confortável. Meu nome é Nathalie Prior.
Deito — me na cadeira, colocando minha cabeça no encosto. As luzes machucam meus olhos. A mulher, Prior, ocupa –-se com a máquina a minha direita. Vários fios em suas mãos e pela primeira vez me sinto nervosa.
O que o teste vai revelar: Abnegação? Acho pouco possível. Franqueza? Minto muito bem e fácil de mais para ser dessa facção. Amizade? Os conflitos me acham como um imã. Não conseguiria viver “na paz”. Erudição? Paro por um momento. A Erudição não me parece tão ruim, mas repito mentalmente: Meu lugar é na Audácia.
Meu pai me disse uma vez que tudo que nossa mente quer se torna realidade. Enquanto penso, a mulher preciosa o fio em minha cabeça e depois na dela. Todas as facções têm regras, até na Audácia. Essa mulher da Abnegação não fala muito, apenas o necessário, assim como todos da sua facção. Creio que tenha vezes que ela não quer agir assim, mas não podemos desafiar as regras.
Ela posiciona — se atrás de mim e me entrega um frasco com algum líquido transparente:
– Beba isto – ela diz.
– O que é isso? – minha garganta fica seca. – O que vai acontecer?
– Não posso te dizer isso. Apenas confie em mim.
Tomo fôlego e bebo rapidamente todo o conteúdo do frasco. Meus olhos se fecham e a ultima coisa que vejo é o seu sorriso.
Eu estou na lanchonete mais uma vez, mas todas as mesas estão vazias e eu vejo através das paredes de vidro que está nevando. Na mesa em minha frente estão duas cestas. Em uma delas um pedaço generoso de queijo, na outra, uma faca do tamanho do meu antebraço.
– Escolha. – diz uma voz atrás de mim. É uma mulher.
– Por que? – cruzo os braços olhando para a cesta. Será que é algo haver com a fome? Se for eu escolherei o queixo, mas com certeza, seguindo a logica, não terá haver com fome. Estico minha mão até a faca, mas paro.
– Escolha! – ela grita. Seguro a faca em impulso e me viro para trás, em posição de ataque. Nesse momento gostaria que aquele menino que perdi na competição de facas, tivesse me ensinado a atirar rapidamente e precisamente antes de ter mudado de facção.
As cestas desaparecem. Ouço uma porta abrindo e me viro para ver quem é. Eu vejo não um “alguém”, mas “algo”. Um cachorro com nariz pontudo está parado a alguns metros de mim. Ele abaixa — se, seus lábios repuxados para traz expondo seus dentes brancos, um rosnado cresce do fundo de sua garganta.
O cão rosna e eu quase posso sentir o som reverberando em meus ossos.
Meu livro de Biologia diz que cães podem farejar o medo devido a uma substância química secretada pelas glândulas humanas em estado de coação, a mesma substância liberada pela presa de um cão. Farejar o medo leva-os a atacar. O cachorro avança em minha direção, suas unhas arranhando o chão.
Levanto a faca. Mirando em seu peito. Fecho os olhos sentindo o peso de seu corpo me derrubar no chão. Eu o matei.
Minha respiração é alta, mas constante. Fico de joelhos e abro os olhos. Ao invés de estar no refeitório, eu estou sozinha—na sala de teste, agora vazia. Viro — me devagar e não consigo ver meu reflexo em nenhum dos espelhos. Abro a porta e caminho para o corredor, mas não é um corredor, é um ônibus e todos os lugares estão ocupados.
Paro entre os bancos e me seguro a um dos encostos. Sentando próximo a mim está um homem com um jornal. Não consigo ver seu rosto, mas posso ver suas mãos. Elas estão cheias de cicatrizes, como se ele tivesse as queimado, elas seguram o papel como se desejassem destroça-lo.
– Você a conhece? – ele pergunta mostrando a foto na primeira página do jornal. A manchete diz “Assassina brutal finalmente presa!”. Encaro a palavra “assassina”. Muito tempo se passou desde que ouvi essa palavra.
Na foto abaixo da manchete está uma mulher. Seus cabelos loiros emolduram sua face com expressões descontraídas. Ela não me parece uma assassina. Olho em seus olhos e a reconheço. É minha mãe. Mas... O que? Não estou entendendo nada.
– E então? – ouço raiva em sua voz. – Você a conhece?
Não posso entregar que ela é minha mãe. Talvez ele me matasse. Uma das coisas que se aprendem na Audácia é a não confiar em ninguém.
– Não. – digo firmemente. – Não a conheço.
Ele levanta e finalmente posso ver seu rosto. Ele usa óculos escuros e sua boca se dobra em um sorriso ameaçador. Sua bochecha está marcada por cicatrizes, assim como suas mãos. Ele se inclina próximo ao meu rosto. Seu hálito cheira a cigarros.
– Você está mentindo. – ele grita.
– Não estou. – grito de volta com toda a minha força.
– Se você a conhece. – ele diz em voz baixa. – você poderia me salvar. Você poderia me salvar!
– Lamento. – digo olhando para baixo. – Não a conheço.
Eu acordo com as palmas das mãos suadas e gosto de sangue na minha boca. Meus lábios ardem. Devo ter o mastigado durante o teste. Ri com esse pensamento, não foi tão difícil assim.
Quando eu inclino minha cabeça de volta eu vejo Nathalie atrás de mim. Ela comprime os lábios e remove os eletrodos das nossas cabeças. Eu espero ela falar alguma coisa sobre o teste—o teste acabou; ou que eu fui bem, embora como eu pudesse falhar em um teste como esse? —mas ela não fala nada, só retira os fios da minha testa.
– Isso. – ela fala, – foi confuso. Com licença, eu volto logo.
Confuso? Como confuso? Ela sai da sala e sento-me na cadeira, com as costas curvadas, as pernas separadas e meu braço pendendo no meio delas.
Como se pode falhar em um teste onde não é permitido se preparar para ele? Enquanto o tempo passa, eu fico mais nervosa.
E se eles falarem que eu não estou apta para nenhuma das facções? Eu teria que viver na rua, com os sem facção. Eu não posso fazer isso. Viver com os sem facção não é só viver na pobreza e no desconforto; é viver separado da sociedade, separado da coisa mais importante na vida, a comunidade.
Meu pai me falou uma vez que nós não podemos sobreviver sozinhos, mas mesmo se nós pudéssemos, nós não iríamos querer. Sem uma facção, nós não temos propósito e nem razão para viver. Minha vó é uma sem -facção.
Quando se atinge certa deterioração física na Audácia é convidado a deixar a facção. Meu avô preferiu morrer, minha avó é uma sem — facção agora.
Finalmente a porta abre e Nathalie entra.
– Desculpe preocupa -lá. – ela diz. Seus cabelos estão mais bagunçados, mas ela parece calma. – Helena, os seus resultados são inconclusivos. – olho em seus olhos tentando achar algum conforto. Estou me preparando psicologicamente para quando ela disser que sou uma sem — facção. – Tipicamente, cada estágio da simulação elimina uma ou mais facções, mas no seu caso apenas três foram descartadas.
– Três? – pergunto. De cinco facções apenas três foram eliminadas? Isso é possível?
– Se você tivesse demonstrado um desgosto automático pela faca e escolhido o queijo, a simulação teria levado você a um diferente cenário e confirmado sua aptidão para a Amizade. Isso não aconteceu, e é por isso que a Amizade está fora. – ela explica. – Normalmente, a simulação progride de modo linear, isolando uma facção e descartando o resto. As escolhas que você na parte do ônibus descartou a Abnegação e a Franqueza. Apenas os realmente verdadeiros falam a verdade nessa. – ela sorri como uma mãe. Vejo pequenas semelhanças entre ela e a menina da Abnegação que chamou a enfermeira para mim á um ano atrás. Talvez elas sejam parentas.
– Isso significa que... – tento formular a frase mas eu realmente não consigo.
– Significa que você teve aptidão para a Erudição e a Audácia. – ela diz olhando para os lados e sussurrando. – Pessoas que recebem esse tipo de resultado são chamados de Divergentes. – eu assinto para ela. O que é “Divergente”? Ela se aproxima de mim, falando em meu ouvido. – Não deve alar para ninguém que é Divergente, okay? Ninguém. Se puder...fuja.
Minha mente gira. Erudição, Audácia, Divergente.
O que eu escolherei amanhã?
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