Receio
1 Receio
Receio: Sentimento de temor quando confrontado com algo de extremo perigo. Incerteza, acompanhada de certo medo, a respeito dos resultados ou consequências de algo que aconteceu ou pode acontecer; apreensão, medo.
Ser da casta dos serafins, a maior e mais nobre de todas as castas, não serve para nada quando se está perto da morte. Ser mestre em manipulação mental, estratégias teórica de luta e possuir o dom de resgatar lembranças, não socorrem no fim.
Eu, Sieme, mais conhecida como Mestre da Mente, tinha um propósito de vida. Minha existência baseava-se em torno de uma questão bastante singular: o mundo e a fé. Eu não estou apenas citando o meu mundo, ou a Haled (Terra), e sim todos os outros que existem em outas realidades alternativas. Eu lutava porque confiava no Criador e julgava certas atitudes de meus inimigos como um simples sentimento de revolto e abandono. Porém, no fundo do meu interior eu tinha a impressão de que Deus observava todos os acontecimentos e não "se metia" (ouvi essa expressão de uma jovem moça numa lanchonete), pois nos concedeu algo que os anjos acreditavam que só existiam para os humanos: o livre-arbítrio. Não era possível que o Criador não soubesse o caos em todos os mundos que ele protegia...Devia haver um propósito!
Eu menti. Menti para Ablon, para Aziel, para Gabriel e para todos que juravam meu comportamento como o mais perfeito exemplo de rebelião. Entretanto, eu lutava por uma única causa, a minha causa, que foi supracitada.
Foi exatamente com esse sentimento de que querer fazer de minha filosofia algo prático, que aceitei ir àquela missão com o ishim. Sinceramente, ishins e querubins são seres de castas muito guerrilheiras. Qualquer outro serafim iria recusar este convite. Todavia, eu sabia que se aceitasse iria me aproximar do General e talvez tentasse lhe convencer, sem usar meios mentais, pois isso seria antiético, da minha teoria.
Eu conhecia a Haled. Não era o que eu imaginava, os seres humanos não cuidam de suas próprias casas, jogando entulhos nas ruas e abusando em demasia de carros com alto-falantes, causando uma terrível poluição sonora. Mas, ignorando estes fatos absurdos, despertou-se em mim, certa curiosidade em relação a essas criaturas curiosas. Lembro-me de ver, pela primeira vez, uma lata de refrigerante nas mãos de uma linda menininhas de olhos castanhos. Olhei-a com certa displicência, enquanto Aziel teimava em querer discutir comigo a aura do local. A menininha correu ao meu encontro e esticou a latinha, sorridente, e percebi que dois de seus dentes faltavam.
-Você pode abrir pra mim, moça? — perguntou gentilmente, numa voz forte e calorosa. Olhei-a intrigada, examinando a lata confusa. Aziel pegou a lata e apertou a parte pequena do metal que tinha em cima, soltando umas gotinhas de líquido e fazendo um barulho estranho. Assustada, quase tropeço, mas a menina não me julgou como muitos fariam, apenas sorriu e me ofereceu o líquido. Neguei com a cabeça — Você vai gostar! É coca-diet!
Não sabia o que significava, mas peguei o curioso objeto e o tomei num gole. O refrigerante tem um gosto maravilhosamente dolorido e ao primeiro gole senti minha garganta rasgando. Tossi um pouco e devolvi a lata à menina, que me sorriu banguela e se afastou.
-Como os seres humanos gostam disso? — indaguei com a mão cobrindo a boca, ainda sentindo a ardência na garganta. Aziel deu de ombros.
-É uma espécime de vício e eles gostam de vícios!
Aos poucos, fui adquirindo confiança nos assuntos mundanos. Depois de encontrar Ablon, seguimos sempre as ordens dele e me habituei a ouvir os pensamentos dos outros, sem criar coragem para penetrar em suas mais íntimas lembranças e sentir o mesmo que sentiam. Achei graça ao ouvir pensamentos tão amenos das crianças, engracei-me com a vaidade das moças, fiquei excepcionalmente confusa com a luxúria demasiada dos homens, sorri ao som de fofocas adolescentes, sem sequer entender o que era "eu estou a fim" ou o motivo pelos jovens usarem a palavra "tipo" no meio das frases. Talvez servisse para dar uma pausa e relaborar ideias.
Enfim, embora tivesse evitado, tive que usar meus poderes mentais para invadir a mente de um homem. Eram sensações... Avassaladoras. Tenho certeza de que muitas memórias, nem mesmo ele se lembrava. Ah, a sensação do conforto dos pais era maravilhosa. As paixonitas infantis foram confusas, seguidas de um sentimento alucinador de um beijo; o ódio de uma traição conjugal ardia em meu peito, mas era logo substituído por um amor descomunal paternal. Era tudo muito confuso, ligeiro, tentador...
Quase desfaleci e cai nos braços de Aziel. Senti meu avatar se entregar às sensações quando meu parceiro salvou-me de uma embaraçosa queda. Meu sangue flui mais intenso e o coração bateu mais rápido enquanto negava qualquer exibição de fraqueza. Tive que me restabelecer com algo "bebível" que o Primeiro General me entregara e me pus a meditar sobre tudo o que vi e senti.
Depois daquela dolorosa e prazerosa sensação, sentia internamente que meu fim estava chegando. Eu havia lutado pela minha própria causa, havia provado de momentos que eu, como um celestial, jamais poderia provar em carne, havia sentido tudo o que o ser humano sente sejam esses sentimentos negativos ou postivos. A experiência mental com ilusões carnais era o sinal de que minha vida iria deixar de existir.
E quando fiquei frente a frente a Apollyon, esperando minha morte, só conseguia sentir receio. Mas não era um receio medroso, e sim curioso. O que será que havia depois da vida para um anjo? Seria um vazio eterno? Um paraíso tal qual o paraíso das almas humanas? Voltaria para o local de onde havia vindo?
Assim que o Exterminador arrancou meu coração, meu sentimento foi de alívio pela dor ter cessado. E de repente me vi voando, mas não voava com asas, nem por forças gravitacionais terrenas. Eu simplesmente flutuava, sem sentir peso de avatar ou dor. Eu era parte daquele mundo, como partículas que se encaixam em sintonia com as outras. Ao mesmo tempo, eu sabia quem eu era, mas a sensação era tão tranquila que não queria deixar de ser o que era. Porém, com um simples desejo, consegui transformar-me novamente numa entidade, embora no fundo eu soubesse que ninguém poderia ver-me, apenas o Criador. Poderia, entretanto, ajudar meus amigos a seguir em sua missão.
Afinal, tinha que continuar lutando pela minha teoria, agora que já sei que estou certa!
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