Recém Casados
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Hyun Min Jun me beijou calmamente, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Uma de suas mãos desceu delicadamente para o meu pescoço e a outra para minha cintura. Deixei-me levar por alguns segundos até que recobrasse minha consciência e abri os olhos me afastando dele no mesmo instante. Seus olhos se abriram, seu rosto parecia confuso e pulei para fora da banheira sentindo que meus pulmões explodiriam devido a minha respiração completamente irregular.
— Vo-vo-você me beijou! – Desta vez era eu quem gaguejava enquanto apontava em sua direção como uma acusadora.
— Lisa eu...
— Você colocou sua boca na minha! – Toquei meus lábios lembrando-me de poucos minutos atrás – Você me beijou!
— Sim – Ele se levantou.
— Mas você disse que só beijaria a mulher por quem está apa... – Então me dei conta do que disse e Min Jun abaixou a cabeça – Não, não pode ser, você não? Por mim? Não... Está errado, está errado, você me odiava, não está certo.
— Lisa! Eu posso explicar o que eu sinto...
— Não! – O interrompi e tapei os ouvidos com as mãos – Eu não posso ouvir, eu não quero ouvir – Saí correndo do banheiro e procurei por meu telefone sobre a cama para sair de casa o mais rápido possível.
Peguei o carro e dirigi a casa da única pessoa com quem eu poderia desabafar àquela hora da manhã.
Toquei a campainha algumas vezes até que a porta fosse aberta por Brie que vestia apenas um roupão fino de seda em tom champanhe. Sua cara estava amarrada, seu cabelo curto desgrenhado e segurava a porta fazendo um bico.
— O que faz aqui?
— Ei, o que é isso? Estou apenas visitando minha melhor amiga do coração.
— Não, não está apenas me visitando, não está certo, você nunca vem até minha casa, eu vou até a sua.
— Eu queria fazer uma surpresa? – Ela manteve sua expressão séria intacta.
— O que faz aqui sem avisar Lisa?
— Preciso avisar quando te visitar?
— Sim, já que nunca faz isso.
— Tem alguém com você, não é?
— Ela adivinhou – Cruzou os braços.
— Eu sinto muito, mas você é a única pessoa com quem posso conversar! – Fiz um beiço e segurei seu braço cruzado – Por favor, por favor – A chacoalhei como uma criança birrenta e franzi as sobrancelhas – Por favor?
— Entra... – Saiu da frente da porta me dando passagem e se dirigiu até seu quarto – Eu tenho uma visita, você pode me esperar um pouco? Eu prometo que volto pra gente terminar o que começou – Ouvi sua voz e me senti nauseada enquanto me acomodava em seu sofá.
Brie voltou ainda contrariada e se sentou ao meu lado.
— Tem que ser algo realmente importante pra interromper o que eu estava fazendo lá, eu estava de olho nele há muito tempo.
— É o cara do bar que estava flertando?
— Não, esse é outro.
— Com quantos cara já dormiu essa semana?
— Um... – Fez uma careta – Três. Mas você não veio aqui pra falar sobre mim. O que é tão importante capaz de interromper minha ação matinal? – Segurei sua mão e fitei seus olhos cor de mel e respirei fundo.
— Hyun Min Jun me beijou.
— E? – Sua expressão continuava a mesma.
— Hyun Min Jun me beijou! – Tentei soar mais dramática – A boca dele encostou na minha!
— E daí? Quer um prêmio?
— Você não entendeu? Ele me beijou!
— Qual é o problema? No seu lugar eu já teria transado com ele há muito tempo, não sei se percebeu Lisa, mas ele é gostoso!
— Só consegue pensar em sexo?
— Minha terapeuta disse que tenho tendências ninfomaníacas – Respondeu com calma.
— Eu nunca imaginaria – Disse irônica.
— Pra você ver.
— O problema não é exatamente ele ter me beijado, mas o porquê.
— O que quer dizer?
— Lembra quando eu te contei que ele tinha aquela coisa de beijar apenas quem ele estivesse apaixonado?
— Ah... Então ele está caidinho por você! – Ela sorriu e me empurrou com o dedo indicador em meu peito – O que você andou fazendo para conquistar o coração do nosso asiático favorito depois do Jackie Chan?
— Nada, eu não fiz nada, nós apenas brigamos muito e depois as coisas meio que melhoraram sozinhas.
— Entendi! – Estalou o dedo como se acabasse de ter uma ideia genial.
— O que? – Indaguei perdida.
— É a “Teoria da Lagoa Azul”!
— Teoria do que? – Brie estava louca.
— Eu chamo de “Teoria da Lagoa Azul”, eu mesma dei esse nome – Continuou orgulhosa – Depois de assistir os três filmes da “Lagoa Azul” constatei que existe uma linha tênue entre o ódio e o amor – Ela explicava concentrada em sua teoria maluca – Isso acontece quando duas pessoas que não se suportam ou não tem muita afinidade são de alguma forma forçadas a conviver juntos na mesma casa, no começo elas brigam, e se implicam gratuitamente, mas com o tempo acabam percebendo que precisam uma da outra e que não há muitas opções, pois estão numa ilha deserta de qualquer forma, se acostumam com a presença um do outro e pá! – Ela bateu as mãos me assustando – Quando enfim se dão conta estão completamente apaixonados!
— Até que isso faz sentido – Constatei depois de pensar por alguns segundos.
— É claro que faz, eu sou mais inteligente do que você pensa. Devido vocês passarem muito tempo juntos Hyun Min Jun deve ter criado sentimentos amorosos por você, resta saber se tais sentimentos são recíprocos – Ela aproximou seu rosto e arqueou as sobrancelhas – São?
— Não?
— Quer dizer que não sente nada por ele?
— Sentir eu sinto, eu gosto dele, somos amigos oras, mas não daquele jeito.
— Tem certeza? Nenhum pouco? Nada?
— Para ser franca eu nunca pensei nisto, eu nunca me imaginei nesta situação antes. Ele era o cara chato, não passou pela minha cabeça que pudesse acabar se apaixonando pela minha pessoa. Nunca o vi de forma romântica, ou seja, lá o que for.
— Você pode dormir com ele mesmo assim, sabe disso, não é?
— Eu não vou dormir com Min Jun, ele é virgem, seria estranho...
— Todo mundo tem uma primeira vez, você pode ser a dele! – Mordeu o lábio e levantou uma sobrancelha sugestivamente.
— Estou bem assim Brie, eu queria ouvir conselhos da minha melhor amiga, mas isso não soa bem como um.
— O meu conselho é que deve descobrir o que sente por ele, ou simplesmente dizer ao seu marido que não se sente bem com tudo isso e fingir que nada aconteceu, vocês só têm mais três meses de programa, em breve cada um seguirá seu rumo e se tudo der certo você estará de volta aos holofotes desfrutando do doce sabor de recuperar a fama perdida.
— É isso! – Assinalei – Vou dizer a verdade, que não estou confortável com toda essa situação e que devemos continuar como éramos antes, simples e sem crise.
— É isso aí, agora pode voltar pra sua casa?
— Credo, parece que está me expulsando – Disse ressentida.
— Estou, tem um cara me esperando no quarto, é claro que estou te expulsando. Você não tem um reality pra filmar?
— Já estou saindo – Me levantei – Tenha um ótimo dia com quem quer que esteja no seu quarto.
— O nome dele é Tommy – Dizia enquanto me acompanhava até a porta.
— Tommy, diga “oi” pro Tommy por mim.
— Não, eu não vou.
***
Min Jun me esperava sentado cabisbaixo no sofá. Sem jeito caminhei até ele que se levantou quando notou minha presença.
— Lisa... Eu acho que estou...
— Hyun Min Jun – Comecei – Acho que é melhor fingirmos que nada aconteceu – Senti um nó na garganta. De alguma forma eu me sentia mal por ele – Podemos apenas não falar sobre aquilo e seguir como era antes.
— Antes de eu me apaixonar por você? – Indagou com a voz fraca.
— Isso, apenas seja como antes – Ele acenou com a cabeça.
— Certo, se é o quer – Abaixou a cabeça contraindo os lábios – Eu posso fazer isso.
— Obrigada por entender – Agradeci e Min Jun concordou com a cabeça se afastando de mim.
— Você deveria dormir um pouco, passou a noite acordada, eu tenho que ir gravar – Se afastou caminhando até a porta.
— Min Jun? – Ele parou segurando a maçaneta – Você vai ficar bem?
— Eu vou – Abriu a porta e saiu sem dizer mais nada.
Eu sei que deveria estar me sentindo melhor e aliviada, mas eu não estava. Eu me sentia como uma vilã daqueles dramas que Min Jun costumava atuar, me sentia como se algo dentro de mim se apagasse. Por alguma razão eu o esperei por um tempo. Esperei que ele voltaria e passaria caminhando rapidamente pela porta e viria até mim, me seguraria em seus braços e diria que não aceitaria meus termos.
— Por que diabos estou pensando nisso? – Chacoalhei a cabeça tentando me livrar de tais pensamentos que não faziam nenhum sentido.
Decidi seguir o conselho dele e dormir um pouco, talvez minha mente funcionasse melhor com o devido descanso.
Mas não consegui, minha cabeça não parava de pensar, pensar e pensar, enquanto eu virava de um lado para o outro da cama, mesmo que estivesse morta de sono, minha mente me obrigava a pensar como se não houvesse amanhã. Pensar em Min Jun e em seu olhar triste e que ele provavelmente estava magoado o bastante para não dizer nada.
Passei meu dia sozinha entre tentativas frustradas de tirar uma soneca, a comer qualquer coisa que achasse na geladeira e andar pela casa mexendo no celular. Não notei quando anoiteceu, estava ocupada demais tentando fazer minha cabeça pensar em qualquer outra coisa não relacionada a meu marido de mentira.
Voltei para a cama acreditando que finalmente dormiria e deixaria os pensamentos idiotas que permeavam minha mente de lado, mas fora tudo em vão. Me peguei lembrando daquela manhã quando tudo parecia normal e nada estranho. Quando Min Jun decidiu dizer que estava apaixonado por mim e me beijou. Não havia sido um beijo ruim nem nada do tipo, era bom, calmo e tranquilo, sem qualquer tipo de urgência ou desejo, era tão simples e puro quanto ele. Min Jun era certamente a pessoa mais inocente que eu havia conhecido em toda minha vida, no entanto sua inocência não o fazia idiota ou estúpido, era apenas o que o destacava entre tantos outros.
Fingi estar dormindo quando ele chegou e entrou no quarto. Desde algum tempo deitávamos um de frente para o outro para que pudéssemos conversar até que um dos dois adormecesse. Mas naquela noite ele se deitou de costas para mim. Tentei acreditar na possibilidade de que ele não havia feito de propósito, de que se deitou de costas porque eu já estava dormindo. Mas no fundo eu sabia que ele estava me evitando.
Na manhã seguinte acordei sozinha na cama, o que não acontecia há algum tempo. Vagarosamente caminhei até a cozinha e não o encontrei, imaginei que estivesse fazendo sua caminhada matinal na esteira e o procurei no quarto vago e lá estava ele.
— Bom dia Min Jun! – Procurei soar o mais animada possível.
— Bom dia – Respondeu frio sem desviar o olhar do programa que passava na televisão à sua frente.
— Eu vou preparar o café, quer alguma coisa?
— Não, estou bem – Reparei em sua garrafa com o suco verde sobre o painel da esteira.
— Eu posso fazer ovos se quiser.
— Estou bem – Reafirmou ainda sem olhar para mim.
— Certo, eu estou na cozinha se precisar.
— Não vou.
Os dias seguintes seguiram todos da mesma forma. Eu acordava e convidava Min Jun para tomar café da manhã, mas ele recusava e continuava com sua corrida matinal habitual. Saía para almoçar fora ou para reuniões com seu empresário. E apenas voltava na manhã seguinte após encerrar as gravações.
Quando nos cruzávamos pela casa ele não dirigia qualquer palavra a mim, a não ser que fosse realmente necessário. Era como se nosso relacionamento tivesse voltado à estaca zero, como no começo de tudo. Havíamos voltado a ser dois completos estranhos dividindo o mesmo teto. E eu só havia notado o quão isso poderia ser solitário tarde demais.
Eu estava no sofá assistindo um programa qualquer quando Min Jun se sentou ao meu lado. Ele não olhou para mim, nem disse palavra alguma, sua atenção parecia completamente voltada ao que era transmitido na televisão.
— Não vai gravar esta noite? – Indaguei com a pouca coragem que ainda me restava.
— Não – Respondeu com sua frieza habitual.
— Então vai ficar em casa? – Continuei um pouco mais animada, mas ele somente balançou a cabeça positivamente – Quer comer alguma coisa, eu posso pedir uma pizza...
— Eu realmente quero escutar o que estão falando na TV – Me interrompeu seco e apertei os lábios irritada com seu comportamento estúpido.
— Por que está agindo assim? − Min Jun finalmente me olhou – Por que continua sendo um idiota dia após dia?
— Não estou fazendo nada – Sua expressão continuava a mesma.
— É claro que está, você simplesmente me ignora e me trata como alguém que te incomoda.
— Você pediu por isso Lisa!
— Eu pedi para agirmos como quando ainda não...
— Não estava apaixonado por você – Murmurou quase silenciosamente, de qualquer forma ainda estávamos sendo filmados – Esse era eu quando não estava apaixonado por você se lembra? Nós não conversávamos com Lisa, nós brigávamos, eu acordava e fazia meus exercícios sem trocar uma palavra sequer com você, você fazia as suas coisas e eu as minhas quando Genna não interferia. Eu virava para o outro lado na cama e dormia antes de você.
— Mas você não tinha tantos encontros com seu empresário ou... ou com quem quer que seja.
— Eu sempre tive, apenas deixei de ir na maioria porque eu queria passar mais tempo com você – Ele soltou um longo suspiro – Você me pediu pra fingir, eu sou um ator, estou atuando. Talvez essa seja minha melhor performance. Ele se levantou e dirigiu-se ao nosso quarto e o segui irritada.
Eu não deveria estar tão zangada ou irritada com seu comportamento. Eu não deveria me sentir tão solitária. Mas de certa forma eu não o queria longe. Eu apreciava sua presença, eu apreciava rir com ele e de como havíamos aprendido a nos divertir juntos.
Min Jun escovava seus dentes e me seguiu com os olhos quando viu meu reflexo no grande espelho do banheiro. Alcancei minha escova e escovei meus dentes irritada o bastante para sentir sangue misturado ao sabor do creme dental, eu fuzilava seu reflexo com os olhos, eu queria estapear seu rosto e xingá-lo de todos os palavrões que eu conhecia, eu poderia até aprender alguns xingamentos em coreano apenas para ofende-lo com mais precisão.
— Você é um idiota! – Disse enraivecida após enxaguar a boca, mas fui ignorada quando ele deu de ombros e se dirigiu até a porta – Um grande idiota – Continuei – Eu adoraria aprender coreano apenas pra te xingar em sua língua e te deixar mais ofendido – Disse com a voz trêmula e caminhei até ele parando diante de suas costas.
Então eu o abracei. Envolvi meus braços ao seu redor e recostei minha cabeça em suas costas. Ele parou e tentou se virar.
— Não, não vire – O segurei com mais força – Você é realmente forte. Eu odeio isso Min Jun. Eu odeio o fato de você estar aqui e não falar comigo, eu odeio você se deitar na cama de costas pra mim, eu odeio me sentir sozinha mesmo estando na mesma casa que você, eu odeio imaginar o quanto deve ser difícil fingir que não se importa. Eu não sei o que sinto por você, eu apenas sei que não consigo ficar sem você, é como se estivesse faltando algo, eu gosto de quando sorri e ri comigo, eu gosto de nossas conversas noturnas antes de dormir, eu... – Min Jun se virou e reparei em seus olhos vermelhos e molhados, ele chorava. Eu nunca havia o visto chorar, ele sempre parecia ser forte o bastante para não precisar disso. Seu peito subia e descia rapidamente, sua respiração era forte e suas mãos alisaram meu rosto delicadamente.
Ele não disse nada, apenas senti quando calmamente me beijou, seus olhos se fecharam e fiz o mesmo deixando-me levar, sem pensar em mais nada. Eu não queria pensar. Queria apenas senti-lo perto de mim. Sua mão direita segurou minha cintura me trazendo para mais perto de si e o abracei com mais força. Eu me sentia alegre, como se aquela coisa dentro de mim que havia se apagado retomasse folego e voltasse a brilhar numa pequena chama novamente, quente e calma. Min Jun fitou meus olhos com os lábios entreabertos e beijou minha testa me trazendo para um abraço e repousei minha cabeça em seu peito.
Eu não fazia ideia do que aconteceria no dia seguinte, ou o que faríamos de agora em diante, eu apenas estava feliz o bastante naquele momento para não pensar em mais nada.
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