Rebeldia
3 Dois.
Já era noite quando chegaram em sua nova casa, mas por conta de sua localização perto à rua principal, tudo ali era bem iluminado.
Brent sorriu ao ver as estacas de madeira brancas que traçavam o limite do jardim daquela casa. A casa era pintada em um tom cinza claro, possuía dois andares e todas as suas janelas e portas eram pintadas de branco. O telhado era de um cinza mais escuro e era coberto pelos galhos repletos de folhas de algumas árvores situadas naquele enorme jardim. Todos eles saíram do carro logo após o pai estacioná-lo em frente à casa e pode-se ouvir algo parecido com um ‘‘wow’’ saindo da boca de Susan. A família parecia agora feliz, sorridente. A não ser por um dos seus membros.
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Brian pai e Brent logo se aconchegaram nos sofás de madeira com almofadas laranjas que havia na sala e, colocando sua televisão sobre a estante que fazia parte da mobília residencial, estavam assistindo alguns filmes que haviam comprado a VHS, já que ainda não possuíam sinal de TV a cabo ali. Susan estava organizando a cozinha enquanto McKenna só sabia dormir e chorar. Brian subiu as escadarias e, olhando pela janela situada no fim do grande corredor, pode observar a praia. Haviam garotos lá, garotos com garrafas nas mãos, correndo, rolando. Rindo. Garotos felizes. Garotos que provavelmente sabiam onde a mãe deles estava agora e, provavelmente quando voltassem para a casa, teriam suas mães perguntando por onde andaram e oferecendo-lhes um café quente para protegê-los da gripe.
Brian nunca saberia o que era isso.
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Definitivamente fora uma noite cansativa, pois nenhum membro da família fechou os olhos durante aquela noite. Não, eles passaram a noite toda organizando suas coisas em seus devidos lugares, tentando amenizar o desconforto da casa nova. Em poucas horas, o cheiro dos seus corpos já estava impregnado em suas paredes tingidas de branco e o desconforto já era menos desagradável. De fato, eles estavam se adaptando bem àquele lugar.
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Não demorou muito até que os meninos de dezesseis e quatorze anos fossem para a escola. Huntington Beach High School foi a escolhida por Brian, por estar localizada na Main Street.
Era uma escola grande, quase do tamanho de uma quadra e tinha um time chamado "The Oilers". A escola possuía times oficiais de basquete, hoquei, futebol e suas cores eram preto e laranja. Há quem faça um trocadilho com "The Losers". Em breve, Brian tornaria-se um desses.
Ainda em suas primeiras aulas, ele mal era notado e mal notava as pessoas. Ele era mais um garoto normal vestido com uma camisa e calças jeans e estava tão preocupado com sua própria vida que acabara esquecendo-se de preocupar-se com suas amizades. Ele corria de um canto para o outro nas trocas de períodos por não conhecer a escola.
Até que, lá pelo seu quarto ou quinto dia de aula, teve aula de educação física pela primeira vez. A aula era em turno inverso, e a quadra era partilhada entre alunos de todos os anos. Foi lá que pela primeira vez em sua vida viu com seus próprios olhos um homem com as unhas pintadas de preto. Aquilo não era nenhuma novidade para Brian, ele estava acostumado a ver isso na televisão. Ok... Era assustador. Tanto quanto suas roupas totalmente pretas. Um All star preto, uma camisa preta do AC/DC com as mangas cortadas e uma calça apertada... Apertada? Também preta. Ora, quem se veste assim para ir à Educação física? Ele, e seus outros dois amigos.
‘‘... não está me ouvindo?’’ Brian acordou dos seus pensamentos e seu olhar fito àquele menino de preto, dando de cara com seu professor que falava aparentemente há algum bom tempo com ele enquanto outros meninos riam dele e até soltavam alguns comentários que ele só ouvia pela metade como ‘‘... só podia ser um capira’’, ‘‘... ele é?’’, ‘‘você viu... ele olhava para o punk?’’ ‘‘Ele deve ser...’’, ‘‘... Gay!’’
‘‘Você está sobrando, precisa de um time.’’ Disse seu professor, apoiando de forma receosa sua mão no ombro de Brian. ‘‘Alguém aí quer ele no time?’’
Silêncio.
‘‘Ei.’’ Um deles levantou a mão e quebrou o silêncio, um dos de preto. Com calças largas pretas, uma regata preta e uma estatura bastante grande. Bastante. ‘‘Estamos em quatro, precisamos de cinco. Você pode entrar.’’ Brian andou em direção à eles, momentâneamente feliz por ter sido chamado para um time, porém tal felicidade fora estragada quando os quatro meninos começaram a fazer breves comentários, cochichar e rir entre eles.
‘‘Ei, cara, você me achou bonito?’’ Disse o menino de preto com um sorriso de total deboche nos lábios.
‘‘Não!’’ Brian exclamou assustado, observando o menino fechar rapidamente suas expressões e risadas de aprovação vindo dos outros. ‘‘Não, não foi isso é que...’’ Brian se enrolava nas palavras enquanto se explicava.
‘‘Você não é gay.’’ Disse o mais alto deles, uma lombriga vestida num kimono.
‘‘E você lê meus pensamentos.’’ Brian virou-se para ele, deixando um suspiro de alívio escapar.
‘‘Então...’’ — Achegou-se um quarto menino rechonchudo, também vestido de preto, com os olhos pintados de vermelho envolta. — ‘‘Por que ficou olhando para o Zach daquela forma?’’
Brian demorou para responder, tomou ar, coragem e abriu sua boca para falar.
‘‘O estilo... Eu eu eu’’ gaguejou ‘‘eu nunca tinha visto ninguém assim na vida real.’’
Os quatro então caíram novamente na gargalhada.
‘‘Vai me dizer então que onde você morava vocês comiam sucrilhos no café da manhã...’’ Completou a lombriga enquanto Brian os encarava. Gargalhadas novamente entre o rechonchudo e o alto.
‘‘Eu gosto de sucrilhos.’’ Disse "Zach", começando a gargalhar com eles então.
‘‘Ei, como você se chama?’’
‘‘Brian, e você..?’’ Brian disse com certo receio, vai que eles fossem rir do seu nome também...
‘‘Me chame de The Reverend Tholomew Plague.’’ Disse a lombriga, em pose majestosa.
‘‘Esse é o seu nome mesmo?’’ E Brian se assustava ainda mais.
Gargalhadas novamente.
Após alguns instantes, The Reverend Tholomew Plague resolveu parar de rir e respondê-lo. ‘‘Você não precisa saber o meu no...’’
‘‘JAMES!’’ Foi interrompido pelo professor. ‘‘Tire esse kimono ou vou ser obrigado a lhe expulsar do time.’’
‘‘Desgraçado... Ok, finja que não sabe meu nome.’’ — Disse enquanto retirava seu kimono. — ‘‘E vocês todos façam o mesmo!!!!’’ Completou num tom ameaçador. Ou foi só ameaçador para Brian.
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