Reason
4 Um pequeno ato que faz uma grande diferença.
Notas iniciais
O relogio marcava 05:30 da manhã, o sol mal havia nascido e o Joaquim já chorava próximo aos ouvidos de Marcelo, fazendo o mesmo levantar-se rapidamente pegando-o nos braços. Ele olhou em todos os cantos no quarto e não achou a caixa térmica com o mingau do pequeno, então lembrou-se que havia esquecido de prepara-la anteriormente.
—Droga! Calma, filho... shhhhh! –ele ninava o bebê de modo que ele se acalmasse, enquanto com o outro braço preparava a comida tão esperada.
Quando Joaquim estava devidamente alimentado e sorrindo novamente, ele o colocou em seu quadrado e ligou a TV mais uma vez, reclamando consigo mesmo por fazer aquilo, mas ou era a TV ou não tomar banho para ir ao trabalho. Rapidamente Marcelo tomou seu banho e se arrumou colocando um terno cinza escuro com uma camisa branca por dentro e calças combinando sem gravata. Arrumou seu cabelo de qualquer jeito, pois nunca gostara de penteá-lo, de fato e colocou perfume. Ele já estava calçando os sapatos quando sua mãe entrou na casa, ela não precisou tocar a campainha, porque tinha a cópia das chaves. Entrando, pegou o neto no colo beijando o topo de sua cabeça e chamou por Marcelo.
—Filho? Você está ai? –gritou de modo que Marcelo desceu as escadas com sua maleta no ombro direito.
— Oi mãe, que bom que você chegou! Bom dia! –disse sorrindo beijando a testa da mãe.
—Querido, o que houve? Você ainda não está atrasado! Por que está tão agitado? –perguntou olhando para o filho que colocou a maleta em cima da mesa de jantar e respirou fundo.
—Eu não sei ao certo, acho que o susto por acordar com o Joaquim chorando de fome e não está com o mingau pronto deve ter me deixado assim... e também, não queria deixá-lo, mas preciso trabalhar... –falou soando visivelmente frustrado.
—Você sabe que eu posso cuidar dele, não sabe? –disse sua mãe carinhosamente.
—Sei mãe, mas eu não quero lhe sobrecarregar, de jeito algum posso deixar a senhora fazer isso. –disse sinceramente, e Lavinha o entendeu perfeitamente.
—Tudo bem, mas se acalme, você não disse que a babá é uma boa moça e que tem experiência? –perguntou sorrindo gentilmente.
—Sim, ela é sim. Mas não sei, o que eu queria mesmo era poder cuidar dele em tempo integral, na verdade, tudo o que eu queria era que a Verônica ainda estivesse aqui. –falou com os olhos marejados, se repreendendo por dentro por ser tão descontrolado e não conseguir segurar as lágrimas diante de sua mãe.
De repente, a campainha tocou, fazendo com que Marcelo enxugasse as lágrimas num único ato dirigindo-se a passos rápidos em direção a porta. Era Luiza. A moça vestia uma calça jeans e uma blusa polo branca, seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo e trazia consigo uma mochila enorme preta nas costas. Ela sorria gentilmente, mas quando olhou nos olhos do homem a sua frente, viu que ele parecia ter chorado, então seu semblante mudou automaticamente para algo mais sério.
—Bom dia Luiza! Tudo bem? Pode entrar. –falou mantendo um tom brando e educado.
—Bom dia, está tudo bem sim, e com vocês? –perguntou notando a presença da mulher que calculou ser a avó do Joaquim.
—Tudo bem também, mãe essa é a Luiza. Ela foi contratada para cuidar do Joaquim, assim como eu havia lhe falado. –disse Marcelo tentando não se prolongar.
—Eu sei filho. Oi Luiza, me chamo Lavinha, muito prazer! –disse a senhora olhando para jovem amigavelmente.
—Bom, agora que estão apresentadas eu vou indo, já estou ficando atrasado! Qualquer coisa podem me ligar. –disse beijando a mãe e o filho para sair de casa.
Quando Marcelo já estava longe, Luiza avisou para Lavinha que iria dar banho no Joaquim, e perguntou se ela queria lhe acompanhar. Lavinha mostrou onde ficava o banheiro principal e disse que logo iria lá. Joaquim foi para o banheiro sem reclamar, enquanto Luiza lhe cantava uma canção animada ele batia palmas e brincava com os fios soltos do cabelo da moça. Ela sorria em resposta. Porém, enquanto o menino se banhava, a moça ficou toda molhada, pois o banho era o momento preferido de Joaquim, mas ela não se importou. Lavinha entrou no banheiro, quando Luiza já estava enxugando seu neto. Ela achou surpreendente o modo como ele ficava calmo com a garota, pois sempre que tentara tirá-lo da banheira ele fazia birra por não querer sair. Mas agora, ele estava ali brincando com os cabelos da moça contente, enquanto a mesma o arrumava.
Lavinha gostou de ímpeto da jovem babá, obtendo reciprocidade. Luiza arrumou o menino e o levou para a ala de vídeo, mas não ligou a TV, muito pelo contrário, ela sabia o quanto o uso abusivo de qualquer aparelho eletrônico poderia fazer mal a uma criança. Pegando a grande caixa de legos, a moça começou a brincar com o pequeno que se divertia nitidamente ao tentar montar alguma coisa, mas como não conseguia derrubava tudo jogando algumas peças longe. A avó entrou na sala e juntou-se a eles fazendo um pequeno interrogatório para a Luiza.
—Querida, o Marcelo disse que você tinha experiência nessa área, mas me pergunto se você, tão nova, nunca pensou em trabalhar com outra coisa? –a mulher não queria parecer intrometida mas estava curiosa.
—Bom, eu já pensei sim, mas os outros trabalhos são muito estressantes, e como eu estudo a noite e não posso deixar de trabalhar, preferi permanecer numa área que me desce prazer enquanto não me formo. Sem falar que preciso estudar, fazer as atividades e trabalhos da faculdade, e cuidando dessas gracinhas posso aproveitar o tempo da soneca deles para adiantar os estudos. –falou sem desviar o olhar de Joaquim.
—Entendo, então fico muito feliz que você goste mesmo de trabalhar com crianças, não é todo mundo que prefere isso. –falou sinceramente.
—Dona Lavinha, sei que posso parecer um pouco xereta, mas porque o Marcelo estava chorando quando cheguei? Ele me parecia tão abatido, digo, sei que a esposa dele faleceu há pouco tempo, mas ontem ele estava tão bem, ou ao menos, aparentava estar... –falou olhando rapidamente para a senhora a sua frente.
—Ele sente falta dela, meu bem, apenas isso. Meu filho amava muito a Veronica, eles começaram a namorar muito jovens, e logo se casaram, quando o Joaquim nasceu eles ficaram nas nuvens mas então, como a vida é cheia de surpresas e nem sempre elas são boas, ela morreu e levou uma boa parte dele com ela. –disse tristonha olhando para o neto.
—Compreendo, é uma pena mesmo. Eu sinto muito! Ela foi embora tão cedo, nem mesmo poderá ver o filho crescer, isso é muito triste. Mas com o tempo ele vai melhorar, e no que depender de mim farei o possível para manter tudo em ordem com o Joaquim, só assim ele não precisará se preocupar tanto com o filho. –falou sinceramente, tentando inutilmente se colocar no lugar do Marcelo, mas isso era impossível, pois ela nunca havia passado por uma situação de perda tão difícil e delicada como aquela.
—Eu agradeço de todo o meu coração, querida. Bom, mas e você, não tem namorado ou algum paquera, ou como é que vocês dizem hoje em dia...? Ficante? Peguete? –sorriu olhando para a moça que retribuiu o sorriso largamente com a tentativa de acerto dos termos românticos da atualidade.
—_Não, não. Terminei o namoro com o Thiago há alguns meses. Desde então, tenho dado um tempo para mim mesma, não penso em me relacionar tão cedo. –falou um tanto cabisbaixa, desviando seu olhar da senhora e de Joaquim para encarar a grande janela da sala onde estavam.
—_Desculpe, não quis ser tão invasiva dessa forma, percebe-se que você ainda gosta desse rapaz... –olhou bem nos olhos da moça ao falar.
—Acho que sim, ele foi muito importante pra mim, estávamos planejando o noivado, para casarmos, mas ele desistiu e aparentemente foi porque sou pobre, a família dele jamais aceitou nosso relacionamento, era tudo muito complicado e então ele cansou de lutar e desistiu de nós dois. Isso foi a gota d´água para mim. Sem falar que seu comportamento era, num todo, muito flutuante; eu nunca soube o que esperar dele. –disse com um sorriso sôfrego pegando algumas pecinhas de lego e entregando-as para Joaquim.
—Querida eu sinto muito, mas preciso lhe dizer que se ele realmente te amasse jamais desistiria. Mas já que o fez, ele é um tolo, nota-se que você é especial e o homem que casar com você, com toda certeza, será um privilegiado. –disse sorrindo gentilmente tocando levemente a mão da moça, pois havia notado que ela ficara realmente mexida com aquele assunto.
—Obrigada, a senhora é muito gentil. –disse apenas e um silencio tomou conta do ambiente.
A manhã passou rapidamente, quando estava perto das 12:00Hrs, Marcelo ligou dizendo que estava chegando com o almoço, pois havia passado num restaurante para comprá-lo. Não demorou muito e todos estavam sentados à mesa de jantar, Joaquim estava ao lado do pai em sua cadeirinha, mais a esquerda estava Luiza que dava o almoço do menino em algumas colherinhas fazendo aviãozinho para que ele comesse tudo. Marcelo a observava de vez em quando e sorria com sua habilidade e naturalidade ao cuidar da criança. Todos terminaram o almoço e foram para a sala de estar, Marcelo pegou seu filho no colo e começou a brincar com ele, entretanto, após 15 minutos, sentiu um mal cheiro horrível e que ele já conhecia muito bem. Lavinha e Luiza se ofereceram para subir e limpar o pequeno, mas o pai do bebê disse que não precisavam se preocupar, pois ele mesmo limparia seu filho.
Marcelo subiu as escadas segurando o filho pelas batatas da perna e Luiza o seguiu preocupada em fazer o seu trabalho. Quando entraram no quarto, o homem olhou para trás e sorriu com o canto dos lábios dizendo mais uma vez que ela não precisava se preocupar e que se quisesse poderia descer.
—Não, eu não me importo, já estou acostumada. Deixa eu te ajudar! –falou se aproximando ficando bem ao lado de Marcelo que sorria olhando para seu filho brincando com a pomada fechada, completamente alheio a situação prazerosa que estava proporcionando aos dois adultos a sua frente.
—Tudo bem. Coloque isso aqui naquela lixeirinha, por favor. –falou entregando a fralda suja para a moça que pegou e sorriu comentando que graças a Deus o intestino do pequeno Joaquim funcionava corretamente.
—É verdade, e como funciona! –disse Marcelo sorrindo.
—Toma, passa um pouquinho de talco. –disse entregando o frasco a Marcelo. _Calma, desse jeito você vai sujar o paletó! Vem, estica os braços. –ordenou de modo que Marcelo obedeceu e ela retirou o paletó dele e o colocou jeitosamente no berço do menino.
—Obrigada, você sempre foi atenciosa assim? –perguntou olhando rapidamente para a moça.
—ócios do oficio, meu caro. Olha a carinha dele, está gostando disso tudo aqui. –falou enquanto observava Joaquim sorrindo enquanto os olhava.
—Ele se parece tanto com a mãe, os olhos são idênticos. – sua voz soou triste e Luiza tocou seu ombro em sinal de conforto.
—Eu sinto muito, ela era uma grande mulher pelo o que eu soube. Farei de tudo para que esse anjinho fique bem ao máximo, mesmo com a ausência da mãe. –disse sinceramente olhando para o homem ao seu lado, ele a olhou nos olhos e ela pode sentir a tristeza que emanava daqueles olhos.
—Obrigado, Luiza! Bom, vamos descer, senão vou acabar não voltando ao trabalho. –disse forçando um meio sorriso.
Marcelo, Luiza e Joaquim desceram as escadas em direção a sala de estar onde Lavinha segurava o celular nas mãos com uma expressão um pouco apreensiva.
—Querido, seu pai me ligou e infelizmente vou precisar voltar para casa pois ele disse que comeu alguma coisa que não o fez bem e agora está sentindo dores na barriga e não sabe nem mesmo preparar um misero chá. –falou olhando para o filho que deu um sorriso com o canto dos lábios lembrando do desastre que é o seu pai na cozinha.
—Tudo bem, mãe, acho que a Luiza é realmente uma moça confiável e cuidará bem do nosso menino aqui. –falou olhando para a moça que sorriu fazendo sinal de continência.
—Então eu vou indo, estou começando a ficar preocupada. –disse pegando sua bolsa, caminhando em direção ao filho e ao neto.
Lavinha se despediu de todos e quando abraçou Luiza fez a moça sentir um carinho imenso abarca-lhe e lhe preencher o peito. Logo após a saída de Lavinha, Marcelo fez sua higiene bucal e saiu beijando várias vezes Joaquim que já estava um pouco sonolento nos braços de Luiza.
—Eu volto às 16:30 para que você não se atrase para a faculdade. –falou olhando nos olhos da moça com um meio sorriso.
—Tudo bem, não se preocupe. –limitou-se a falar, mergulhando sem querer na beleza natural do seu patrão.
—Ok. Qualquer coisa é só me ligar. –disse e saiu se sentindo um pouco estranho por ter notado o olhar de Luiza.
A tarde passou rapidamente, enquanto Joaquim dormia em seu quadrado, Luiza aproveitou o tempo para organizar a cozinha lavando os pratos que haviam ficado do almoço e estudar um pouco. Ela sabia que aquilo não fazia parte do seu trabalho, mas não custava nada ajudar, pois Marcelo era um homem sozinho, apesar de saber que uma diarista ia ali semanalmente, preferiu adiantar o serviço que ele com certeza teria que fazer após chegar de um dia cansativo de trabalho. Quando Já passavam das 16:00Hrs, Joaquim já estava tomado banho e com seu pijama levinho do Bob esponja esperando pelo pai, enquanto ele brincava com vários brinquedos dentro do quadrado, Luiza aproveitou para escovar os dentes rapidamente e arrumar os cabelos, uma vez que o menino o bagunçara todo. Marcelo chegou no horário que havia dito e entrou sutilmente em sua casa, encontrando Joaquim nos braços de Luiza que estava sentada no sofá se fazendo de pula-pula para o pequeno.
—Oi, cheguei. –disse, fazendo a moça se assustar um pouco com a voz lindamente rouca do homem que se aproximava.
—Papaiiiiiiiii! –gritou Joaquim batendo palmas.
—Oi querido, como foi sua tarde heim? Brincou muito com a tia Luiza? –Joaquim desandou a responder um monte de palavras que não existiam para os adultos e tanto Luiza como Marcelo sorriram alegremente ao ouvir a voz do pequeno.
—Daqui a pouco ele estará falando tudo! Você é um rapazinho muito inteligente, viu!? –falou para Joaquim que a essa altura já estava nos braços do pai.
—Desculpe se lhe assustei ao entrar. Não foi minha intenção. Entretanto, não precisa se preocupar, pois tenho um sistema de segurança, de modo que vocês estão bem protegidos em tempo integral. –falou olhando para a moça com gentileza.
—Tudo bem! Fico feliz em saber sobre o sistema. Bom, já que você chegou creio que já posso ir, não é mesmo? –perguntou olhando para o patrão com naturalidade.
—Claro, claro. –disse Marcelo rapidamente sem desviar o olhar da moça.
Luiza foi até a mesa de jantar e pegou sua mochila pesada colocando-a nas costas com um pouco de dificuldade.
—Podemos te dar uma carona até o ponto de ônibus se você quiser. –Marcelo percebeu que a bolsa da moça estava pesada e numa tentativa de lhe ajudar fez a pergunta.
—Não precisa, você deve estar cansado, eu posso ir caminhando. –falou educadamente se aproximando para beijar a cabeça de Joaquim. _Até amanhã, viu? meu pequeno anjinho! Durma bem e não incomode muito seu papai.
—Faço questão, parece que você está carregando o mundo inteiro ai dentro, me deixe ajudar... –insistiu dando um meio sorriso para a moça que aceitou sem pensar muito, pois a mochila já estava lhe matando.
Os três saíram e logo Marcelo já havia encostado o carro para Luiza descer, mas antes ela o olhou e tocou em sua mão que estava posicionada no controle da marcha.
—Muito obrigada mesmo, foi muito gentil de sua parte! Boa noite e até amanhã! –falou com um sorriso largo no rosto arrancando um “até” alegre de Marcelo que a observou sair do carro e bater na janela de Joaquim que sorriu largamente para ela batendo na janela em resposta.
Logo, Luiza sumiu de vista e Marcelo fez a volta. Ao entrar em casa caminhou até a cozinha afim de beber um pouco de água com Joaquim nos braços e quando a olhou viu que estava perfeitamente arrumada ele sorriu sinceramente e fez uma nota mental para agradecer a bela jovem por seu pequeno ato que fez uma grande diferença na noite dele.
Fale com o autor