Reason
22 Ponto de equilíbrio
Notas iniciais
—O que foi? Por que não para de me olhar desse jeito? -Luiza sentiu o olhar de Marcelo em si, enquanto preparava o suco de Joaquim para que o menino tomasse após terminar sua alimentação.
—Não sei, ao certo. Estou apenas admirando essa beleza tão singela e natural, as vezes acho que não estamos vivendo isso tudo de verdade, sabe? É difícil acreditar que estou sendo feliz novamente. – a voz do moreno era completamente sincera. Seus olhos sorriam ao pronunciar cada palavra e, com isso, Luiza não podia sentir-se mais feliz.
—Eu fico muito contente em fazer parte dessa felicidade, Marcelo. Você não imagina o quanto idealizei, sonhei com esse momento. – com um sorriso largo, a loira pegou o suco que já estava na mamadeira e rodeou a mesa a sua frete para encontrar o motivo de toda a sua alegria.
— Eu preciso e quero que sejamos assim pra sempre, Lú; naturais, sinceros, amigos, amantes... Não consigo mais projetar o meu futuro sem que você esteja ao meu lado. – Marcelo acariciava o rosto da jovem que sentou ao seu lado sorridente, enquanto expunha seu coração para ela.
—Eu também quero o mesmo. Vocês são o meu futuro! -declarou.
Luiza ficou ao lado de Marcelo brincando com Joaquim naquela manhã de uma quarta feira qualquer. A jovem babá, e agora namorada de seu patrão, amanheceu na casa dele, pois não havia ido a faculdade na noite anterior e se deu o presente de assistir a um filme na tv enroscada nos braços de Marcelo, num sofá de três lugares. Ela estava feliz, tudo estava se encaixando e, definitivamente, ela sabia que não havia mais nada no caminho dos dois, uma vez que Marcelo conseguira provar veemente o quanto gostava dela. Aquele foi um dia feliz, inteiramente feliz.
Eram lembranças como essa que Luiza acabara de ter que lhe davam forças para continuar respirando e lutando para sair livre e ilesa das mãos do Thiago. Como ela pôde se envolver com alguém como ele? Como ela não enxergou antes o monstro que era Thiago? Perguntas como essas, volta e meia, apareciam em sua mente como um farol forte. Por fim, a loira impediu que o sentimento de culpa a tomasse por completo, uma vez que este já estava enraizado em seu peito a muito tempo e reuniu forças para, mais uma vez, suplicar que ele a soltasse para que, ao menos, ela pudesse, em algum momento de distração, conseguir usar o celular ou o notebook do homem que tanto a maltratava.
—Thiago, pelo o amor de Deus, me solte. Eu estou sentindo muitas dores nos pulsos e tornozelos. Eu estou me comportando, não há motivos para você me manter assim. -Luiza suplicava pela compaixão de seu sequestrador, deitada de conxinha ao seu lado, enquanto o mesmo jogava um jogo idiota em seu celular.
— Não sei, não, Princesa. O que você me daria como garantia de que não vai aprontar nada? -perguntou desviando os olhos da tela para olhá-la de lado.
—Eu não tenho nada para te dar, Thiago. Por favor, eu prometo que não vou gritar nem correr. Não tem como sair daqui, não é mesmo? Você mesmo quem assegurou isso. Eu não vou fazer absolutamente nada, só não aguento mais tantas dores. – A loira já estava a ponto de enlouquecer, pelas suas contas e por ter conseguido ver rapidamente no visor do relógio de braço de Thiago, já passavam das 16 Hrs da tarde, ela não tinha ideia do que aconteceria dali para frente, porém já não aguentava mais aquela agonia.
—Acho que você tem muito a me oferecer, Lú. Que tal começar com um pedido de desculpas por ter me traído? -falou sarcasticamente com um sorriso de lado, já sentado de frente para a moça.
—Como é que é? Quando foi que eu fiz isso, Thiago? Que loucura! -disparou com a voz um pouco alterada.
—Não tente negar, querida. Brigamos e você cuidou logo em correr para os braços do primeiro que abriu a porta para você. -respondeu prontamente, demonstrando realmente acreditar em tudo o que estava dizendo.
—Olha, tínhamos terminado, você não lembra? Mas presta atenção, Thiago, ele nunca significou alguma coisa para mim. Na verdade, o Marcelo estava servindo mais como um escape para te esquecer, você sabe de quem eu realmente gosto. – A voz de Luiza estava embargada, seu coração doía dentro de seu peito, ela jamais se imaginou pronunciar tal coisa.
—Agora estamos falando a mesma língua. Eu sempre soube que você me amava. Luiza, você é minha e assim será até o fim das nossas vidas. Concorda? -perguntou olhando-a anos olhos.
—Sim. Pra sempre. -afirmou meneando a cabeça positivamente com os olhos marejados e um sorriso sôfrego nos lábios. Thiago precisava acreditar nela.
—Bom, como iremos pegar a estrada daqui a algumas horas, eu vou te soltar para que você possa descansar, meu amor. Aquela mala não é muito espaçosa. -disse, ficando de pé para retirar do bolso as chaves das algemas afim de soltar primeiro os pés da moça.
—Como assim pegar a estrada? Para onde vamos, Thiago?
—Não posso dizer, meu bem. É uma surpresa! -sorriu largamente após soltar os pés da moça para voltar a se deitar ao seu lado.
—E minhas mãos? -perguntou olhando para o homem que agora mantinha um olhar obscuro direcionado a ela. Luiza já conhecia aquele olhar e sabia exatamente o motivo que o ocasionava.
Marcelo ponderou, fez um ar de quem estava pensando no que ela havia dito, e então sorriu de lado, dizendo:
—Acho que para soltar essas lindas mãozinhas, você terá que me fazer um agrado, doce Luiza. No caso, um ato que comprove o quanto você me ama. -seus olhos brilhavam numa escuridão profunda.
—Thiago, eu não quero que façamos nada aqui nesse lugar, desse jeito. Quero que nossa reconciliação seja especial, num ambiente especial. -alegou com a voz trêmula, temendo o que Thiago poderia lhe fazer.
—Então, façamos o seguinte, eu lhe solto quando estivermos prestes a pegar a estrada. É melhor! Porém, quando chegarmos ao nosso ninho de amor, você e eu seremos um só novamente, amor. -disse, acariciando o rosto da moça sem fazer esforço algum para esconder os pensamentos que passavam por sua mente.
Luiza bufou cansada daquela situação, mas conteve sua raiva e revolta afim de não transparecer seu real estado de espírito. Ela virou de peito para cima e se pôs a encarar o teto esticando e movimentando os pés que doíam em movimentos circulares. Até quando ela aguentaria aquele quadro? Já estava anoitecendo e a barriga da moça roncava ferozmente de fome, contudo a dor em seu peito por estar longe de quem a amava era muito maior do que qualquer incomodo físico.
Naquele mesmo entardecer, estava Marcelo com Joaquim no colo olhando desesperado para o crepúsculo de sua varanda. Dentro de sua casa, estava seus pais e Júlia que tentava a todo custo conseguir contato com alguém da família de Thiago, pois, sem sombra de dúvidas, ela sabia que o sumiço de Luiza fora causado por ele. Sem resultados positivos, ela caminhou até a varanda e presenciou o choro sôfrego do pai com o filho no colo a sua frente. Marcelo estava apaixonado de corpo e alma por Luiza, constatara Júlia. A moça acabou por lamentar profundamente aquela cena e toda a situação, visto que pouco mais de uma semana havia se passado desde que ele se permitira descobrir seus reais sentimentos.
Marcelo não conseguia conter dentro de si a angustia que estava sentindo, o não saber o paradeiro de Luiza o atormentava como jamais achou ser possível. Sua linda escritora, a luz dos seus dias estava em perigo justo quando ele prometera que nada de mal iria lhe acontecer. Infelizmente, ele havia falhado. A culpa, a cada hora que se esgotava, preenchia seu amago. Aquilo estava lhe matando. Contudo, algo ainda era capaz de lhe produzir algum sentimento feliz, Joaquim, seu amado filho, brincava com a barba por fazer do pai, soltando um “papai” entre gargalhadas por sentir a aspereza dos pelos do rosto de seu pai pinicar suas finas mãozinhas. Joaquim, era o ponto de equilíbrio que o sustentava razoavelmente estável naquele momento, pois tudo dentro dele dizia para sair correndo dali em busca de sua namorada.
As horas se arrastavam, parecia que o tempo estava contra ele. A cada instante, Marcelo checava as horas em seu relógio de pulso, ele precisava que tudo corresse mais rápido, uma vez que fora a delegacia mais cedo denunciar o sumiço de Luiza e o policial que os recepcionou alegou que só poderia gerar a ocorrência do fato quando este completasse vinte e quatro horas. Para o jovem e atordoado pai, era tempo demais. Em vinte e quatro horas, Thiago já poderia tê-la matado e ninguém saberia.
—Querido, o Joaquim já dormiu. Você tem certeza que não quer comer nada? Eu preparei uma sopa de legumes. -disse Lavinha extremamente preocupada com a situação do filho.
—Não, mãe. Obrigada! Eu só quero poder fazer alguma coisa e logo. Será mesmo que o circuito de câmeras do prédio dela estava realmente sem funcionar ontem? Não é possível, mãe! Como é que isso pôde acontecer justamente ontem? Isso é um absurdo! -disse colocando as mãos na cabeça e posicionando-a entre os joelhos. Júlia sentou mais próxima a ele, afim de lhe passar algum conforto.
—Calma, Marcelo. Iremos encontrá-la. Eu tenho certeza de que aquele imbecil não irá matá-la. -falou segurando o ombro do homem que tinha o olhar distante ao seu lado.
—Eu não sei, Júlia. Eu acho que aquele crápula é capaz de qualquer coisa. Ele é completamente louco! -sua voz soava extremamente preocupada.
—Filho, ele não fará mal a Luiza. Por favor, coma alguma coisa. Pense bem, se a Luiza estivesse aqui não iria lhe querer assim, você precisa estar forte para procurar por ela, meu bem. Venha, vamos até a cozinha comigo. Venha também, Júlia. -a mulher era insistente quando se tratava do bem estar dos seus.
Luiza olhava em volta enquanto empurrava a comida goela à baixo, pois, por mais que estivesse com fome, seu estômago estava completamente embrulhado, ela não tinha vontade alguma de comer. Sem ânimo, ela observava o comportamento agitado de Thiago, que por sua vez mexia no celular e caminhava de um lado para o outro repetida vezes. “Algo estava dando errado” pensou a moça. Entretanto, por mais que ela tentasse descobrir alguma coisa sobre o destino que a aguardava, seu ex-namorado era bastante dissimulado sempre lhe respondendo nas entrelinhas sem deixar muitas brechas para conclusões assertivas.
—Vamos! Eles pensavam que eu iria esquecer desse detalhe... Jamais! Vamos, Luiza, levante-se agora! -gritou olhando para a moça que ainda tentava comer alguma coisa da marmita a sua frente.
—Pra onde? -perguntou enquanto erguia-se com uma certa dificuldade por causa da posição em que estava a tanto tempo.
—Você é burra ou se faz, Luiza? Eu já disse que é uma surpresa, mas que droga! -falou pegando suas mãos com força para puxá-la até a única porta de saída.
O coração de Luiza batia descompensadamente, ela sabia que, logo, ele abriria a porta, seria sua chance. Contudo, como se amasse demasiadamente tudo o que estava fazendo, Thiago se aproximou por trás dela e deu um beijo na ponta da orelha direita da moça, com o toque ela se assustou, tentando se afastar daquele tormento, porém e sem demora, Thiago a abraçou colocando a chave da algema para abrir. A loira mal podia acreditar no que estava acontecendo, ele iria lhe soltar como tinha dito mais cedo. Ou seja, eles estavam de partida.
—Obrigada, Thiago. Eu prometo que vou fazer tudo o que você mandar. Não se preocupe! -disse a moça sorrindo contra sua vontade para o homem que estava perto demais do seu corpo.
—Claro que vai, meu amor. Não tenho dúvidas quanto a isso. -falou como num sussurro próximo ao ouvido de Luiza.
Já com uma ponta de alegria surgindo dentro de si, a moça sentia que conseguiria escapar dali para algum lugar seguro onde Marcelo pudesse encontrá-la. Mas, como num piscar de olhos, Thiago juntou sua mão na mesma algema que ainda segurava a mão direita de Luiza. Com lágrimas nos olhos, a jovem olhou de lado para Thiago e passou a respirar pesadamente, ela não aguentava mais de raiva que sentia dele.
—Você é um completo imbecil, Thiago! Eu te adeio e nunca, mais nunca mesmo vou amar você. Seu idiota filho de uma mãe! -esbravejou entre dentes sentindo a outra mão de Thiago puxar seu queixo para o lado esquerdo.
—Eu não falaria dessa forma estando em sua posição, Luizinha do meu coração. -sorriu maliciosamente enquanto as palavras eram pronunciadas próximas a bochecha da jovem.
—Eu não tenho medo de Você, Thiago. Eu não sou mais o seu brinquedo. -alegou segurando com sua mão livre no braço do homem.
—Pois se eu fosse você, teria. -falou depositando um Celinho forte no canto dos lábios dela para depois gargalhar alto. _ Agora, meu bem, vamos! Temos uma longa viagem pela frente, nosso futuro junto nos aguarda.
Sendo praticamente arrastada, Luiza caminhava tropeçando nas pedras do chão do terreno que ficava em frente ao galpão. Com raiva, ela começou a gritar desesperadamente, afim de que alguém a ouvisse.
—Socorro, pelo o amor de Deus, tem alguém me ouvindo? Socorro! Eu estou sendo sequestrada! -quanto mais ela gritava, mais Thiago se agitava.
—Cale a boca, sua vadia de merda! -gritou dando um tapa com toda sua força na parte trazeira da cabeça da mulher ao seu lado.
—Socorro, socorro, socorro! -Luiza não se deixou abater pela dor, ela continuou gritando e gritando até chegarem ao carro. Infelizmente, esse não estava muito distante e logo ela foi aprisionada dentro da mala apertada do carro, contudo, antes, sentiu seu corpo ficar dormente e sua vista escura sem sua permissão.
Thiago estava atordoado, dirigia rapidamente pela rodovia Vereador Júlio da Silva, afim de chegar o mais rápido possível a um chalé no interior remoto de Minas Gerais. Seria lá seu local de destino, um lugar onde ninguém os conhecesse, onde as redes telefônicas funcionassem precariamente. Ele precisava daquilo, precisava passar o resto da sua vida ao lado do seu grande e eterno amor sem que nenhum filho da pu#$% a tirasse de perto dele nunca mais.” Sim, é realmente disso que precisamos, meu bem!” pensou consigo mesmo, deixando as palavras ecoarem ao vento forte que invadia o carro pela janela em alta velocidade.
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