Reason
6 Conversas e revelações
Notas iniciais
O dia amanhecera de forma tranquila na casa dos Brito. Marcelo acordara cedo se sentindo um pouco melhor, os remédios estavam finalmente fazendo efeito, levantando-se ele abriu as cortinas do quarto deixando o sol de ameno de São Paulo entrar para aquecer e iluminar o quarto. Lentamente, foi até seu closet e pegou uma muda de roupa, sabendo que não iria trabalhar naquela manhã, preferiu comparecer a empresa somente na parte da tarde.
Já vestido e de banho tomado, Marcelo desceu as escadas rumo a cozinha, quando lá chegou notou que Joaquim já estava em sua cadeirinha tomando seu café da manhã com Luiza. Ele sorriu e sentou-se ao lado da moça que já estava devidamente arrumada para o dia de trabalho com a mesma calça jeans do dia anterior e uma blusa azul clara também polo.
—Bom dia! Como vocês estão? –perguntou sorrindo para a loira ao seu lado que se virou em sua direção ainda envergonhada por causa da noite anterior.
—Estamos bem, e você? Está se sentindo melhor? –falou rapidamente, voltando seu olhar para o pequeno que estava impaciente querendo sair da cadeirinha para brincar no chão.
—Estou me sentindo melhor, mas meu corpo ainda dói e essa voz ainda não melhorou... –disse parecendo um pouco manhoso, o que só fez Luiza pensar no quanto ele poderia ser fofo.
—Que bom, fico feliz! Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? Ainda tem um pouco de sopa, posso esquentá-la para nós dois! –falou gentilmente sem olhá-lo.
—Pode ser... O que você fez para ele preferir isso ai ao mingau? –perguntou surpreso notando que o pequeno mesmo impaciente comia toda sua comida.
—Segredo! Mas ele deve se acostumar a comer outras coisas pela manhã, pois o café da manhã é a refeição principal para uma criança, quer dizer, não só para as crianças, mas para qualquer ser humano. –falou um pouco agitada sem entender o porquê de estar agindo daquele jeito.
—Ah... certo. Já que você está ocupada, eu mesmo vou esquentar nosso café da manhã! –exclamou Marcelo, beijando rapidamente a cabeça do seu filho, tudo o que ele não queria era que o pequeno pegasse seu resfriado.
Colocando dois pratos de sopa na mesa, Marcelo sentou-se e tomou o café da manhã ao lado da babá do seu filho. Ele estava um pouco distraído pensando em tudo o que poderia ter acumulado no trabalho, quando notou Luiza limpando os lábios com o guardanapos, ela tinha um jeito engraçado para fazer aquilo, o que o fez rir de lado, chamando a atenção da moça.
—O que houve? Por que está me olhando assim? –perguntou olhando-o nos olhos pela primeira vez naquela manhã, entretanto Marcelo demorou a responder e passou a encará-la o que só aumentou o vermelho que havia se aglomerado em suas bochechas.
—Desculpe, desculpe. Eu só acabei me distraindo... –a voz de Marcelo soou confusa enquanto ele direcionava o olhar novamente para o seu prato.
—Tudo bem. –disse apenas levantando com o seu prato nas mãos.
Depois de arrumar a cozinha Luiza foi para a sala de estar com Joaquim nos braços, Marcelo estava tentando ler o jornal na poltrona, tentando porque sua cabeça começara a latejar interferindo na leitura. Ao redor de Luiza estavam vários dinossauros e bonequinhos de brinquedo, sorrindo ela fazia que ia pegar o menino com o dinossauro e ele gargalhava tentando se esquivar dos ataques do “dinossauro”. Marcelo, observava aquilo tudo maravilhado, ele jamais imaginara que uma babá poderia se entrosar tanto com seu filho.
—Sempre foi assim? Digo, você sempre conseguiu esse bom relacionamento tão fácil com as outras crianças? –curioso, Marcelo chamou a atenção da moça, fazendo-a olhá-lo.
—Mais ou menos, com o Victor demorou um pouco mais, ele era um pouco rebelde e mais velho, na época que cuidei dele e do seu irmão chamado Lucas, eles estavam com 6 e 4 anos respectivamente. Mas após um ou dois meses as coisas melhoraram, no final nos tornamos grandes amigos. –disse sorrindo largamente já olhando para Joaquim que havia colocado o rabinho do dinossauro na boca.
—É incrível esse seu jeito de lidar com crianças, creio que seja um dom... Por que é mesmo que você não faz pedagogia? –perguntou num tom brincalhão.
—Por que quero me tornar uma grande escritora e professora universitária! Claro que eu amo trabalhar com crianças, mas esse não é meu foco... –disse pegando o pequeno no colo sentindo que algo não estava cheirando muito bem.
—Você poderia me mostrar algum protótipo se já tiver algum pronto... –falou Marcelo, realmente interessado em ler alguma coisa escrita pela moça.
—Na verdade, eu tenho um sim, mas acho que você não vai gostar... –falou insegura parada na frente do seu patrão.
—Por que não? Do que se trata? –perguntou curioso.
—Drama, romance, tragédia... essas coisas. –falou apenas querendo mudar de assunto.
—Sei... você conseguiu colocar tudo isso dentro de um só livro? –perguntou, agora realmente interessado.
—Podemos dizer que sim, mas depois conversamos sobre isso, se não isso aqui vai feder de verdade! –disse fazendo uma careta.
—Tudo bem, mas vou cobrar heim!? Quero ler seu trabalho! –disse firmemente olhando-a nos olhos.
—Okay, já voltamos! –falou apenas sentindo-se um pouco envergonhada com tanta curiosidade da parte do seu patrão.
Luiza subiu rapidamente afim de limpar o pequeno, Joaquim brincava com um patinho de pelúcia enquanto Luiza fazia toda a sua higiene, entretanto seus pensamentos estavam longe... Será mesmo que ele estava interessado apenas em seu trabalho? Ou estava fazendo aquilo por ela está sendo tão prestativa e então ele queria retribuir de alguma forma? Enfim, ela não saberia nem tão cedo quais eram as verdadeiras intenções de Marcelo, por outro lado, preferiu ficar na dúvida, não queria estreitar muito seu relacionamento com ele, uma vez que sabia onde tudo aquilo poderia dar, e tudo o que ela não queria naquele momento era se envolver com alguém sabendo que se esse alguém não lhe pertencia.
Ao descer as escadas com Joaquim nos braços viu que Marcelo cochilava no sofá, ela parou em sua frente e se pôs a observá-lo, ele era extremamente bonito, e sua beleza não era comum, mas era algo que o tornava único e simples. Ela sorriu com aquele pensamento, e colocou Joaquim sentado no tapete, porém, energético como era, logo o menino passou a percorrer toda a sala com passos meios brincalhões e rápidos. Luiza ficou assim, ora brincando com Joaquim, ora observando Marcelo dormir...
Quando já passavam das 11:00Hrs da manhã, Marcelo acordou dizendo que sua cabeça estava estourando e o pescoço estava dolorido, logo Luiza se culpou por não tê-lo chamado para ir pra cama. O homem se levantou e subiu rumo ao seu quarto alegando que iria fazer algumas ligações para tentar ficar em casa mais aquele dia. Depois de dar almoço a Joaquim, Luiza o colocou para dormir e subiu as escadas com ele nos braços afim de colocá-lo no berço. Passando pela porta do quarto do seu patrão, viu que o mesmo estava dormindo, através da brechinha da mesma.
Com fome a moça desceu rumo a cozinha, decidiu fazer uma macarronada de frango rápida, enquanto a preparava seu celular tocou, era Júlia.
—Olá moça, você está viva? –perguntou ironicamente pois Luiza não havia dado notícias.
—Oi, Jú, perdão, eu tive que ficar por aqui, pois como você já sabe o Marcelo adoeceu e sua mãe não pôde vir ficar com o Joaquim. –disse rapidamente enquanto mexia o frango.
—Eu imaginei, amiga, mas ele melhorou? Os meninos falaram que ele também não viria hoje, estou preocupada. –disse a morena sinceramente.
—Ele estava bem melhor, mas cochilou um pouco e acordou dizendo que estava com muita dor de cabeça... Nem sei se a febre voltou. –falou lembrando que deveria verificar isso.
—Entendo, você ficará por ai hoje novamente?
—Creio que sim, Jú, a não ser que a Lavinha venha para cá. –disse preocupada.
—Cuidado com essas faltas na faculdade, você não pode perder sua credibilidade por lá. –alertou Júlia, pois Luiza participava de um projeto de extensão que lhe proporcionaria mais facilidade para a publicação do seu primeiro livro.
—Eu sei, eu sei. Mas o que posso fazer? ele está realmente gripado. Mas não se preocupe, vou tentar ir hoje a faculdade e depois volto para cá. Qualquer coisa te ligo. –disse despedindo-se da amiga.
Com a macarronada pronta, Luiza colocou dois pratos na mesa, copos e talheres devidos. Rapidamente, ela subiu as escadas e entrou no quarto de Marcelo, ascendendo o abajur com cuidado.
—Oi, você está se sentindo melhor? –perguntou encostando a mão na testa do homem que abriu os olhos rapidamente e balançou a cabeça dizendo que sim.
—Acho que foi o jeito como dormi no sofá... Me desculpe, mas ainda não pedi o nosso almoço, perto do telefone, lá na sala, tem uma agenda com alguns números de restaurantes que você pode ligar, não estou com fome então você pode ficar à vontade para escolher o prato. –falou com a voz rouca fechando os olhos novamente.
—Não precisa, eu preparei um pouco de macarronada de frango para nós dois, mas você terá que se levantar e descer, pra mim não importa que você esteja sem fome, você precisa se alimentar e se não comer nem que seja um pouco me sentirei ofendida. –falou olhando para ele que abriu os olhos estreitando-os, um sorriso leve brincava nos lábios dos dois, e Marcelo constatara que Deus estava abençoando-o demasiadamente com aquela babá que cozinhava e cuidava tão bem do seu filho e dele.
—Só por que você tem sido realmente um anjo, eu vou fazer esse esforço. –falou se endireitando na cama para levantar.
—Esforço? –perguntou fazendo uma careta brincalhona.
—Sim, não por sua comida, mas sim porque estou realmente sem fome. –disse ficando de pé na frente da moça que apenas balançou a cabeça em sinal afirmativo, ficando um pouco zonza com o olhar de Marcelo.
O almoço foi tranquilo e delicioso, pois mesmo sem fome, Marcelo comeu não só um pouco, mas tudo o que estava em seu prato fazendo Luiza abrir um sorriso largo.
—E isso é porque o senhor estava sem fome, heim!? –disse sorrindo olhando para Marcelo.
—Quem manda você cozinhar tão bem, creio que nunca irei lhe demitir, mesmo quando o Joaquim já estiver com seus 18 anos... Estou ficando muito mal acostumado com seus mimos e cuidados... –disse sem pensar duas vezes, mas logo quando notou o que havia dito, se repreendeu mentalmente.
—Eu tenho que cuidar da minha carreira, isso aqui é só para me manter enquanto não consigo nenhum trabalho na área. –falou com a voz um pouco baixa voltando seu olhar para o prato.
—Eu sei, estou brincando Luiza. Você pretende dar aulas assim que se formar? –perguntou mudando de assunto.
—Por incrível que pareça não, pretendo emendar o mestrado e o doutorado. Não quero dar aulas para o ensino médio, sei que irei passar um bom tempo da minha vida sobrevivendo com um salário baixo, mas quando estiver dentro de uma universidade como professora valerá a pena. –falou ainda sem olhar para Marcelo.
—Entendo, mas no que depender de mim, vou te ajudar no que eu puder. Nota-se que você é uma moça muito esforçada e merece uma boa oportunidade. –disse olhando para a moça que agradeceu olhando nos olhos.
Após o almoço, Luiza correu até o quarto de Joaquim que estava chorando no berço. Ela o pegou e o ninou, quando ele se acalmou ela desceu as escadas rumo a sala que notou estar vazia. Sem demora, a moça pegou um pouco de água na chuquinha e deu para Joaquim que tomou tudo. Logo após, ela o colocou no quadrado com seus brinquedinhos de lego e preparou uma vitamina para o bebê.
Quando o relógio marcava 15:30, Joaquim já se encontrava nos braços de Luiza tomando sua vitamina de banana, ela por sua vez acabou cochilando. Marcelo saiu do escritório e foi até a sala, encontrando Joaquim encostado na moça tomando a vitamina enquanto ela cochilava suavemente.
—Desculpe. Eu não sei o que houve, de repente me bateu um sono enorme. Perdão! –falou assim que sentiu Joaquim saindo de perto dela.
—Não tem problema. Ele já terminou. Será que ele pode mesmo pegar meu resfriado? Estou com tantas saudades que não consegui não pegá-lo no colo. –falou sorrindo para o filho que tentava puxar a barba por fazer do pai.
—Creio que sim, mas tenho dado bastante vitamina C a ele. –falou ficando de pé e pegando de bom grado o pequeno nos braços.
—Então, deixa eu melhorar que mato minhas saudades, eu já sou molenga doente e se o meu filho adoecer por minha causa creio que ficarei quase inútil cuidando apenas dele. –falou sorrindo de lado.
—Você esqueceu de dizer que estaria chorando quase que o tempo inteiro, caso isso acontecesse. –disse Luiza brincando com o patrão sem medo.
—Obrigada por me lembrar desse tão importante detalhe. Mas é a verdade, ele é muito importante para mim e sei que o amo mais que a mim mesmo. –disse passando a mão na cabeça do menino.
—Eu sei, já notei isso. –disse olhando para o pequeno.
—Bom, quero te mostrar uma coisa. Venha cá! –pediu segurando a mão da moça que um pouco nervosa com aquele toque o seguiu até o escritório.
—O que houve? –perguntou apenas sentando numa poltrona perto da mesa de Marcelo.
—Meu primeiro protótipo, ele foi publicado há quase 6 anos atrás. Esse é o rascunho original, gostaria que você o lesse, não é nada romântico, é na verdade um amplo estudo sobre a literatura brasileira. Espero que goste. –falou sorrindo sentando no braço da poltrona para observar Luiza enquanto a mesma folheava o punhado de papéis em suas mãos.
—Obrigada, sinto-me lisonjeada! Como sabia que eu gostava de literatura brasileira? –perguntou olhando para o livro maravilhada.
—Quase todos os escritores brasileiros gostam. Creio que você irá achar muitas informações pertinentes para ajudá-la em seu curso. Aí dentro não falo apenas das escolas literárias como estamos acostumados a ler no ensino médio, mas sim a história analítica da literatura, o como e o porquê ela surgiu e etc. –explicou.
—Nossa, muito obrigada! Começarei a ler hoje mesmo. –falou arrumando os papeis para que Joaquim não o rasgasse, uma vez que ele já estava inquieto para tocar nas páginas.
—Não é nada. Mas por falar em livros... Quero ler o seu, e se possível gostaria de começar hoje mesmo. –falou sorrindo levantando-se da cadeira para sentar atrás de sua mesa.
—Tem certeza? Está tão cru ainda... cheio de erros e nem sei se o enredo é tão bom assim... –falou um pouco agitada levantando-se com Joaquim nos braços.
—Tenho certeza, e pode ficar tranquila que se for tão ruim assim não hesitarei em lhe ajudar, mas se for bom, darei um jeito de conseguir uma entrevista para publicá-lo. –falou olhando para a moça que sorriu apreensiva, entretanto, seus olhos estavam marejados de alegria.
—Muito obrigada, eu vou lhe enviar o documento por e-mail mesmo com o coração na mão. –falou sorrindo sofregamente.
O dia passou de forma amena na casa dos Brito, Luiza já estava ninando o Joaquim, quando Marcelo entrou no quarto do filho encontrando Luiza com um camisão e sua samba canção, seus cabelos estavam soltos e escorriam pelos ombros. Rapidamente ela olhou para Marcelo, e sabia que com toda certeza suas bochechas estavam vermelhas como um pimentão.
—Passei apenas para dar boa noite a vocês e lembrar-lhe do livro. Não esqueça. –disse sorrindo numa tentativa de acalmar a jovem.
—Tudo bem, não vou esquecer. Boa noite! –disse apenas caminhando na direção dele. Após dar um beijo na cabeça de Joaquim, Marcelo surpreendeu Luiza com um beijo em sua testa. Ela arregalou os olhos e sorriu nervosa.
—Não se preocupe, pode confiar em mim. Eu vou te ajudar com sua carreira, afinal estou viciado na sua comida, lembra? –perguntou sorrindo gentilmente.
—Okay, então muito obrigada! Mas agora devo colocá-lo no berço senão ele pode acordar agitado. –falou ficando um pouco mais calma.
—Tudo bem. Até amanhã. –disse entendendo que Luiza estava realmente incomodada com aquela aproximação.
—Até. –disse apenas caminhando em direção ao berço.
Luiza colocou Joaquim na cama e logo em seguida ligou seu notebook para enviar o documento. Infelizmente teve que enviar para o e-mail empresarial de Marcelo, uma vez que não tinha o pessoal. Com o documento enviado a jovem se sentou no sofá cama e começou a ler o livro que Marcelo lhe havia emprestado. Ela estava compenetrada numa análise sobre o período renascentista quando Marcelo bateu em sua porta.
—Oi, desculpe o horário, mas estou um pouco curioso e preocupado também... –falou rapidamente olhando para a moça que ainda estava segurando a maçaneta da porta.
—O que houve? Poxa, eu falei que não estava bom... –disse quando foi interrompida pela voz de Marcelo.
—Não, não é isso. O livro é maravilhoso! Mas minha pergunta é: A marina é você?
Fale com o autor