Reason
2 Conclusão
Notas iniciais
As horas pareciam intermináveis, tudo o que Marcelo queria naquele momento era acordar e perceber que tudo não passara de um terrível pesadelo, mas seus olhos estavam abertos e ele sentia as lágrimas caírem uma por uma a medida que o tempo passava e nenhuma enfermeira vinha ao seu encontro para lhe dar alguma noticia. Finalmente, quando o relógio já marcava 22:15Hrs o médico principal que estava cuidando do caso da Verônica apareceu na sala de espera com um semblante indecifrável, os pensamentos de Marcelo pareciam ter pausado em sua mente agitada, ele levantou-se rapidamente e correu até o médico para obter noticias de sua amada.
—Iaí, doutor? Como ela está? –a voz do homem amedrontado saiu rapidamente, suas pernas estavam um pouco tremulas e sua mãos geladas , mas ele precisava saber qual era a verdade o mais rápido possível.
—Marcelo, infelizmente não há outra maneira de lhe dizer o que houve. Eu sinto muito, mas a Verônica não resistiu; fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. –falou apenas, entretanto a cena que o experiente médico viu a sua frente foi extremamente desesperadora.
Marcelo perdeu a fala e suas pernas não aguentaram. Caindo ajoelhado ele não chorava, mas sim gritava com todo seu corpo tremendo e seu coração doía, ele não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Ele não pudera acreditar que o grande amor de sua vida havia ido embora para sempre, eles ainda iam completar três anos de casamento e dez de relacionamento no final do ano, o fruto do amor dos dois ainda era tão novo, apenas um menino. Tudo que o homem prostrado na frente do médico e de todos que ali estavam era poder fazer um milagre e trazer a vida de volta para sua esposa. O que seria dele? O que seria do pobre Joaquim?
Marcelo não sabia quanto tempo havia permanecido ali ajoelhado tentando acordar daquele terrível pesadelo, porém os dias se passaram, já fazia um mês desde que Verônica havia sido enterrada. Joaquim estava com os avós e ele só ficava com o menino durante os finais de semana. Ele decidiu que não ficaria em casa por muito tempo e quando a terceira semana após a morte de sua esposa se passou, o jovem pai resolveu voltar ao trabalho e desde então tudo o que ele fizera fôra isso, trabalhar e trabalhar. Os amigos e a família já estavam preocupados, Marcelo perdeu cerca de 5Kg em menos de um mês. Toda comida que ele conhecia nesse meio tempo não passavam de algumas torradas e café, nada mais que isso entrava...
Numa certa noite Marcelo saiu mais tarde da editora e quando chegou em casa se jogou no sofá como sempre, acabando por pegar no sono, porém acordou de repente com a imagem do sonho que tivera. Sua linda e falecida esposa sorria num parque enquanto brincava com Joaquim, e ele estava apenas por ali, parecia que não fazia parte do sonho, todavia ela sussurrou em seus ouvidos algo como: “Cuide dele, ele é o nosso maior tesouro.”
A lembrança da voz de Verônica lhe perturbou e lágrimas rolaram em seu rosto ao observar uma foto que estava na escrivaninha, os três sorriam no momento do parabéns na festinha do aniversário de um ano de Joaquim, e aquilo aconteceu a menos de três meses atrás. Como sua vida poderia ter mudado tanto em tão pouco tempo? Reunindo forças, Marcelo subiu os degraus da escada vagarosamente e entrou no quarto do filho, parou no centro do quarto e se pôs a olhar cada detalhe daquele cômodo. Ele havia ajudado na decoração, mas a maioria das coisas quem escolhera fôra Verônica, ela preferiu um tema natural, nada de desenhos animados, daí o quarto de Joaquim parecia um mine zoológico, tudo combinava harmoniosamente e ele sempre amou os animais que ficavam pendurados no enfeite do seu berço. Sua maior diversão era tentar arrancar com suas pequenas mãozinhas a girafa que ali estava. Marcelo sorriu pela primeira vez ao lembrar dos bons momentos que viveu ao lado da sua família. E ele chegou a conclusão de que precisava lutar por ela, afinal era exatamente isso que sua esposa iria querer, ele sabia com toda a certeza que se fosse ela em seu lugar faria o mesmo, e Deus! Como ele queria que fosse ele em seu lugar, pois amava-a com toda sua alma.
Sem titubear, Marcelo pegou a chave do carro e saiu em disparada para a casa de seus pais. Chegando lá, ele sorriu ao ver Joaquim com seu pijama de bichinhos assistindo TV na sala enquanto tomando sua mamadeira. Quando o pequeno o viu ficou em pé no sofá e pulando gritava: _ Papai, papai!
Lavinha ouviu o neto e foi até a sala rapidamente. Quando olhou para seu filho viu que o mesmo chorava com Joaquim nos braços. Então sem demora, ela os abraçou, Pedro viu a cena e fez o mesmo. Eram uma família unida e a dor do único filho eram suas.
—Vem, filho, sente aqui. O que houve? _Falou Lavinha gentilmente enxugando as lágrimas.
—Eu vim buscar o Joaquim, Mãe. Vou levá-lo para casa. –disse se recompondo.
—Mas, filho, você trabalha demais. Como vai cuidar de uma criança? –perguntou Pedro sem entender a decisão do filho.
—Pai, ele já perdeu a mãe e eu não posso deixá-lo me perder também. Precisamos um do outro agora mais do que nunca. Vou dar um jeito de trabalhar apenas meio expediente e vou contratar uma babá. Eu amo meu filho e farei o que for preciso para educá-lo. –falou com firmeza fazendo sua mãe sorrir levemente. Era nítido o orgulho nos olhos de Pedro e Lavinha, eles jamais imaginaram que Marcelo iria tomar uma decisão dessas tão cedo.
—Tudo bem, querido, não se preocupe. Vou arrumar as coisas dele. –disse Lavinha levantando e indo agilmente ao quarto improvisado do neto.
— Filho, o que lhe fez tomar essa decisão tão de repente? Pensávamos que o Joaquim iria passar muito mais tempo aqui conosco. –disse Pedro sinceramente.
—Eu sonhei com a Verônica, Pai. Ela me pediu para cuidar dele. E eu não tenho outra escolha, sou o pai dele e o amo mais que tudo nessa vida. Devo assumir o meu papel o mais rápido possível. Ele é minha responsabilidade. –Joaquim brincava com a barba do pai enquanto o mesmo falava.
—Você sabe o quanto eu te amo, não é mesmo!? –perguntou o homem grisalho com um olhar marejado que Marcelo conhecia tão bem.
—Sim, eu sei. E também te amo muito. –falou abraçando o pai com um pouco de dificuldade por causa de Joaquim.
—Querido, está tudo aqui. Tem certeza que vai fazer isso? –perguntou a mulher um pouco insegura ao filho.
—Sim, mãe, não se preocupe. Se eu precisar de alguma coisa eu ligo, okay? –falou sorrindo.
Os pais do rapaz concordaram e ele saiu com uma bolsa enorme e Joaquim em seus braços. De fato Marcelo não sabia como ira se organizar para cuidar do seu filho, mas iria dar um jeito. Quando chegaram em casa, Marcelo colocou as coisas de Joaquim no quarto e o levou para o seu, ele não acostumaria a criança a dormir com ele, pois Verônica não iria gostar disso, mas aquela noite seria uma exceção.
O menino dormiu rapidamente enquanto assistia desenho na TV, Marcelo estava cansado, mas foi até o banheiro e tomou um banho demorado e quente. Um pouco mais relaxado, foi até a cozinha e preparou a mamadeira do filho do jeito que sua esposa havia ensinado há alguns meses atrás. Ele colocou a mesma numa caixinha térmica e levou para o quarto. Deitando ao lado do filho o homem cansado adormeceu.
Quando o relógio marcava 04:00Hrs da manhã, Joaquim acordou chamando por “Mamãe”. Há alguns dias atrás sua mãe havia dito que isso se tornara recorrente e que com o tempo Joaquim se acostumaria melhor com a ausência da mãe e não teria mais essas crises de choros durante a noite. Marcelo levantou e aninhou o menino em seus braços sussurrando uma canção que Verônica costuma cantar para o pequeno. Ele foi até a caixa térmica e pegou a mamadeira, mas Joaquim não quis. Porém, após alguns minutos o menino se acalmou e voltou a dormir. Marcelo fez o mesmo após derramar algumas lágrimas, pois ele também sentia muita falta de sua esposa.
—Papaaaaai? Papapapa, papaaaaai? –falava Joaquim por volta das 06:30 da manhã tentando abrir os olhos de Marcelo.
Marcelo sorriu com a inquietação do filho e lhe respondeu:
—Oi meu filho, bom dia! –sua voz ainda estava rouca, porém amável.
—Gagau! –falou deitando a cabeça no peito forte do seu pai.
—Vamos lá! –disse pegando o menino no colo.
Para sua felicidade a mamadeira que estava na caixa térmica ainda estava morna. Ele a pegou, balançou e deu ao filho que a tomou calmamente em seus braços. Marcelo foi até sua maleta e pegou seu iPhone, discando o número de Júlia, sua secretaria, esperou a mesma atender.
—Júlia? oi, bom dia! Desculpe o horário, mas preciso que você consiga algumas babás para que eu possa fazer uma seleção. Preciso disso para hoje, pode marcar a entrevista pra hoje às 14:00Hrs aqui em casa. No máximo , umas dez meninas. E Não vou trabalhar hoje. –disse rapidamente, pois Joaquim já havia acabado seu mingau e derrubou a mamadeira no chão para tentar tirar o aparelho da orelha do pai.
—Tudo bem, Sr. Marcelo, não há problemas. Daqui a pouco lhe ligo com as informações sobre as moças escolhidas. Posso ajudar em mais alguma coisa? –perguntou prontamente.
—Bom, na verdade, será que você não tem uma amiga que seja educada, de confiança, que goste de crianças e queira trabalhar? –perguntou na torcida de que sua resposta fosse positiva.
— Na verdade, tenho sim. É minha amiga e divide apartamento comigo, ela ainda está na faculdade, mas precisa trabalhar, vou pedir para ela ir até sua casa no horário marcado junto com as outras meninas. Seu nome é Luiza.
—Muito obrigada, Júlia, obrigada mesmo! Espero noticias. –falou e desligou após Júlia se despedir.
Marcelo colocou Joaquim no quadrado e ligou a TV do quarto do filho. Ele precisava conseguir algo mais educativo para entreter a criança, pois ele podia até ouvir a voz de Verônica reclamando por Joaquim está ligado na TV o tempo todo. Marcelo sorriu com esse pensamento e foi até a cozinha. Preparou um pouco de suco e tomou deixando um pouco para Joaquim tomar mais tarde. Preparou o banho do menino e foi buscá-lo no quarto. Depois do banho tomado e arrumado, Joaquim só queria saber de correr pela casa inteira. Seu pai não conseguia nem mesmo ler o jornal, pois ficava o tempo todo andando pra lá e para cá como uma barata tonta.
Logo chegou a hora do almoço. O horário mais difícil do dia, pois Joaquim não queria nada que não fosse Mingal e doces. Marcelo cozinhou algumas verduras e fez uma papinha com um pouco de molho de carne sem olho que havia preparado apenas para o menino, pois de maneira alguma almoçaria algo como aquilo. Colocando Joaquim em sua cadeirinha, Marcelo começou sua historinha, fazendo o aviãozinho Joaquim comeu as três primeiras colheres e depois ele fez o pai cantar, imitar um jacaré, dançar e tudo o mais. E como sempre, Joaquim venceu em disparada deixando Marcelo extremamente frustrado. Ele limpou a cozinha rapidamente e foi preparar tudo para receber as garotas para a seleção da nova babá. Aquela seria uma longa tarde.
Fale com o autor