Reason
14 Arms
Notas iniciais
O clima havia amenizado um pouco em relação aos primeiros minutos dentro daquele hospital, o quadro do Sr. Marcos Brito era estável até então, o tumor havia sido retirado e o resultado da biopsia só iria sair em dois dias. Luiza estava sentada ao lado de Marcelo, já passavam das 05:00Hrs da manhã, ela estava exausta assim como Lavinha, entretanto nenhuma das duas dormiam, apenas Marcelo cochilava com a cabeça encostada na parede fria.
Luiza não conseguia acreditar em como tudo havia ocorrido tão rápido, num instante ela estava dançando ao som de uma bela música nos braços de Marcelo e no outro estava tentando ser forte para, apenas, enfrentar uma realidade terrível com ele. Mas a vida era assim, nos surpreendendo a cada minuto, as vezes as surpresas nos arrancam sorrisos e em outras vezes lágrimas.
Quando estava quase pegando no sono, despertou sentindo uma cabeça aconchegar-se em seu ombro, Marcelo havia se largado ainda mais na cadeira , de modo que o ombro de Luiza ficou paralelo ao seu.
—Não sei o que faria sem você aqui, Lú! –disse como num sussurro próximo ao ouvido da moça, sua voz soava sonolenta e num tom que só Luiza conseguira ouvir.
—Descanse um pouco, Marcelo, não se preocupe, eu não estaria em nenhum outro lugar a não ser aqui. –falou segurando sua mão carinhosamente sentindo o peso da cabeça relaxar quase por completo.
Lavinha falava com alguém ao telefone quando o médico chegou e fez um sinal pedindo para que ela o acompanhasse. Luiza observou o movimento dos dois ao se afastarem, mas uma presença familiar lhe roubou a atenção fazendo com que ela voltasse o olhar para frente.
—Oi! Como estão as coisas? –disse Pedro em pé a sua frente com três copos grandes de café, ele observou cada detalhe da imagem a sua frente, a mão de sua namorada parou no mesmo instante de fazer carinho na mão do seu melhor amigo e ao ouvir sua voz, viu Marcelo de súbito tirar a cabeça do ombro dela.
—Está tudo na mesma, só o Doutor Augusto que levou a Lavinha para ter uma conversa particular ainda agora. E você como está? –Luiza levantou e se aproximou do namorado, olhando-o nos olhos.
—Bem! Não dormi a noite, mas estou bem. E vocês? –perguntou olhando para Marcelo que também ficou de pé. Pedro se aproximou um pouco mais de Marcelo, entregando a bandeja de café a Luiza para abraçar o seu melhor amigo. _Eu sinto muito, mas ele vai ficar bem, o tio Marcos é forte ele vai resistir. –Pedro tentava confortar Marcelo com suas palavras.
Os três sentaram nas cadeiras novamente e entre conversas tomavam cada um o seu café. Marcelo estava bem melhor, e mesmo muito cansado, se sentia mais forte para enfrentar os dias que viriam juntamente com uma boa ou péssima notícia. Os pensamentos de Luiza estavam mais confusos e turbulentos do que de costume, pois agora ela achava ter sentido algo diferente da parte de Marcelo, como se ele estivesse se dando conta do que realmente sentia por ela. Mas ao mesmo tempo, ali estava Pedro, seu namorado que havia entrado em sua vida para preencher um vazio, mas que agora ela não sabia como lhe dizer a verdade, entretanto qual seria a real verdade? Ela realmente permanecia irredutivelmente apaixonada por Marcelo, ou algo começara a florescer por Pedro dentro do seu peito?
—Bom, eu vou tentar encontrar a mamãe para saber o que está acontecendo. Encontro vocês daqui a pouco. –falou Marcelo levantando-se para ir em direção ao interior do corredor. Porém, quando estava prestes a dar as costas viu o olhar de Luiza paralisar por um pouco mais de tempo em si , fazendo com que Pedro a encarasse sem entender aquilo.
Assim que Marcelo sumiu do campo de visão dos dois, Pedro disse:
—Não seria melhor você ter ficado com o Joaquim? –sua voz estava estranha como se uma irritação guardada sobressaltasse naquele exato momento.
—Eu precisava vir, Pedro, já disse que a Júlia está com ele. –respondeu a loira visivelmente cansada.
—Por que? Por que você precisava vir? –não haviam mais dúvidas, Pedro estava com ciúmes.
—Porque o Marcelo precisava de mim aqui. –disse apenas, olhando nos olhos do namorado.
—Mas vocês mal se falavam, você mesma disse.
—Olha, é complicado explicar, mas desde que eu comecei a trabalhar naquela casa viramos amigos, e as coisas só ficaram estranhas entre nós porque algo muito chato aconteceu há algum tempo atrás. Mas isso não vem ao caso agora. Por que você está me perguntando isso, Pedro? achei que já havia lhe explicado tudo quando nos falamos durante a madrugada. –disse começando a se irritar.
—O que foi esse “algo chato”, Luiza? –perguntou, apenas, ignorando completamente a indagação da loira.
—Nada que lhe interesse, Pedro. O que há com você? –falou olhando-o incisivamente.
—O que há comigo? Estou agindo como qualquer namorado agiria ao presenciar um olhar daqueles do qual você acabou de direcionar ao Marcelo. –falou firmemente olhando-a nos olhos.
—Mas que olhar? –disse juntando as sobrancelhas como se não estivesse entendendo a que se referia a justificativa do moreno.
—Olha, eu não vou discutir com você aqui dentro, eu só quero deixar bem claro que eu sei o que eu vi, Luiza, e acho bom eu estar engando. Por que senão... –disse inquietantemente irritado surpreendendo a loira ao seu lado.
—Se não o quê, Pedro? –perguntou diretamente cruzando os braços abaixo do peito.
—Nada, Luiza, nada. Olha eu estou no meu limite, tá!? Esqueçamos isso , por favor! –respondeu passando as mãos nos cabelos sabendo que a moça jamais abaixaria a cabeça para ciúmes.
—Okay! Pelo o amor de Deus, Pedro, eu estou com você e sabes que não tolero ciúmes. –disse relembrando ao namorado uma conversa que eles tiveram logo nos primeiros dias de namoro.
—Tudo bem, me desculpe! Vem cá, eu senti sua falta! –falou abraçando-a fortemente de maneira carinhosa fazendo Luiza soltar um suspiro sôfrego.
Enquanto Pedro tentava se livrar de toda sua insegurança naquele abraço, Marcelo chegou com sua mãe e presenciou o ato de reconciliação, ao olhar para Luiza nos braços do seu amigo de infância Marcelo sentiu algo diferente, como se algo que ele quisesse muito não pudesse lhe pertencer, mas rapidamente Lavinha chamou sua atenção, percebendo mais uma vez o que estava acontecendo.
—Está tudo bem, querido? –perguntou a mulher olhando diretamente nos olhos do filho que baixou o olhar no mesmo instante.
—Sim. Vem, vamos dar a notícia aos dois! –falou com um sorriso leve nos lábios para passar veracidade a mãe.
Marcelo e Lavinha se aproximaram do casal que ao vê-los ficaram de pé. Luiza foi a primeira a falar.
—O que houve? Como ele está? –ansiosa a moça não pôde evitar a pergunta rápida.
—Está se recuperando muito bem, o médico falou que se ele continuar assim terá alta até o final da semana. As coisas poderão mudar completamente, caso o resultado da biópsia seja negativo. Mas enquanto não sai, o que devemos fazer é esperar. –disse com seu jeito calmo de sempre.
—Vai ficar tudo bem, Tia, não se preocupe. Lu, eu te levo pra casa, só assim você descansa um pouco. –falou olhando para a loira ao seu lado.
—Não, Pedro, eu vou pra casa do Marcelo, a Júlia é quem precisa ir pra casa! Preciso apenas que você passe lá no apartamento e pegue algumas coisas minhas, tudo bem? –disse olhando para Pedro que comprimiu os lábios em resposta e apenas meneou a cabeça em sinal positivo.
—Bom, já que o Marcelo vai para casa com a Luiza, será que você poderia me deixar em casa, querido? –perguntou Lavinha para Pedro.
—Claro, Tia! –disse apenas.
—Mãe, eu só vou tomar um banho e dar um beijo no Joaquim, antes das 12:00Hrs estarei de volta. –falou Marcelo gentilmente para sua mãe.
—Tudo bem, filho, eu também farei isso, não pretendo demorar! –disse firmemente.
—Mãe, já que eu vou voltar, por que você não descansa um pouco? Venha na parte da tarde. Só assim podemos fazer um certo revezamento. –sugeriu.
—Não sei, meu bem, não quero ficar longe do meu marido. –disse sinceramente.
—Lavinha, pondere um pouco, você está exausta! Se você descansar conseguirá ajudar o Sr. Marcos melhor, caso ele precise. –falou Luiza preocupada olhando para a mulher a sua frente.
—Eu prometo que irei pensar! –disse a todos.
Os quatro saíram do hospital a passo largos, Lavinha já estava longe do hospital a caminho de casa no carro de Pedro. Ela estava sofrendo muito, mas permanecia firme. Há muito tempo, desde quando as dores começaram a se repetir com mais frequência, ela desconfiara de algo mais sério, entretanto nada falara ao filho, não queria que ele se preocupasse com o pai daquela forma. E agora, a cada minuto que se passava ela ficava ainda mais apreensiva, em sua mente, a possibilidade de um possível câncer não a deixava em paz. Entretanto a mulher expulsou todos os pensamentos negativos que a rodeavam, para pensar em coisas boas, coisas que a fortalecessem para continuar, e nada melhor do que pensar em Deus e em toda a fé que tinha nEle.
Luiza estava inquieta naquela manhã, em silencio ela observava os carros passarem através da janela do carro, Marcelo não estava muito diferente, seu pai permanecia internado e a sombra do resultado da biópsia pairava em sua mente, mas agora que se encontrava sozinho com ela, as lembranças da noite passada vieram à tona. Mais uma vez, poucos centímetros separavam seus lábios, e novamente sentira-se completamente atraído por aquela mulher. Sem dúvidas Luiza deixava-o atormentado. “Ela é a namorada do meu melhor amigo!”. Esse pensamento ascendia em sua memória como se fosse um outdoor fosforescente, alertando-o todas as vezes em que seus olhares se encontravam.
—Luiza, sobre ontem a noite, antes de recebermos a notícia do meu pai... –começou mas logo foi interrompido pela moça.
—Não precisa dizer nada, Marcelo, eu já sei. Não se preocupe! Afinal você ainda ama a Verônica e eu estou com o Pedro, não há o que dizer diante desses fatos, não é mesmo? –as palavras saíram quase que sem sua permissão, mas não havia outra coisa a dizer.
—Certo. Me desculpe, sei que não devo pedir desculpas por algo que eu quis fazer, mas não é certo. Você merece mais do que isso, e o Pedro também. Me perdoe! –falou olhando para a estrada a frente.
—Quis fazer? Sério? Você premeditou tudo? –perguntou incrédula virando a cabeça afim de encontrar seu olhar.
—Sim eu quis dançar com você, eu quis estar perto, te tocar, te beijar mas não premeditei, não planejei nada. Não há mais motivos para esconder a atração que sinto por você, Luiza; você é linda, inteligente, doce e ama meu filho. Não é muito fácil não sentir interesse por você. –falou sinceramente admitindo pela primeira vez seus sentimentos confusos para alguém.
—Não acho que isso tudo seja verdade, mas fico feliz que tenha admitido isso, eu já sentia a muito tempo algo muito forte por você, mas nunca obtive reciprocidade... –ela falava com os olhos marejados, o coração batia descompensado.
— E por isso resolveu aceitar o pedido de namoro do Pedro. –falou de forma pesarosa olhando para ela rapidamente.
—Sim, afinal você jamais faria o que ele fez, certo? –perguntou deixando as lágrimas escaparem sem vergonha alguma.
—Luiza, por favor... –pediu com a voz baixa estacionando na garagem de casa.
—Vamos, Marcelo! É só responder, sim ou não. –disse nervosamente.
—Não. Eu ainda amo a Verônica, e não me sinto pronto para enfrentar um novo relacionamento, e acho que isso não irá acontecer nem tão cedo. –falou de uma só vez sabendo exatamente qual seria o peso daquelas palavras sobre a moça.
—Olha, sabe de uma coisa? Tudo bem! Eu já entendi, só peço um favor, nunca mais tente se aproximar, okay? Você já deve saber o que sinto por você, e até alguns dias atrás estava tudo tão adormecido aqui dentro, eu até conseguia sorrir de verdade ao lado dele, mas agora, parece que tudo reascendeu, Marcelo, e droga! Você nem ao menos tinha a pretensão de ter algo mais sério comigo, você acha isso justo, se aproximar de alguém sabendo que não ficará com ela? Se aproximar apenas para tentar preencher um vazio com outro? –falou sentindo seu sangue ferver, o coração já havia entrado num ritmo que ela mal podia acompanhar.
—Não, não acho justo! Mas existe um sentimento dentro de mim que fala mais alto, entretanto vou fazer exatamente o que você está me pedindo, como eu disse, você e o Pedro merecem mais que isso, não vou mais te perturbar, Luiza. Eu sinto muito! –respondeu sentindo um bolo em sua garganta, ele não conseguia vê-la chorar daquele jeito, tudo em seu corpo gritava pedindo para abraça-la e cuidá-la, mas ele se conteve e apenas a olhou.
—Obrigada, mas já que você não consegue nem mesmo discernir o que sente, creio que isso é o melhor a ser feito, ainda mais agora, sua família precisa de nós dois bem e equilibrados. Vem vamos entrar, você tem que voltar ao hospital! –disse tentando resgatar a calma e comprimir o que estava doendo. Em outra hora ela deixaria doer, mas não naquele momento.
—Vamos! –falou apenas, completamente surpreso com tamanha maturidade que emanava da loira.
Marcelo e Luiza entraram na casa, encontrando Júlia com o pequeno Joaquim nos braços lhe dando mamadeira, porém quando Joaquim viu o pai, não quis mais saber da morena. Rapidamente Marcelo pegou o filho nos braços e o abraçou carinhosamente.
—Muito obrigada por isso, Júlia, serei eternamente grato por ter cuidado bem dele! –falou gentilmente apertando a mão da moça. _Pode deixar que eu termino de alimentá-lo. Qualquer coisa estaremos lá em cima, meninas, Bom dia! –disse caminhando em direção as escadas com o pequeno nos braços.
Júlia extremamente atônita observava o olhar choroso de Luiza acompanhar os dois ao subirem, ela aparentava estar desolada.
—o que houve? –perguntou Júlia se aproximando da loira tocando em seu antebraço.
Luiza nada disse, apenas abraçou a amiga fortemente e depois sorriu levemente. Júlia não conseguiu entender nada, mas compreendeu que ela não queria conversar. Luiza agradeceu por tudo que a morena fez por ela e se despediu da mesma depois de algum tempo, pois Júlia avisou que precisava ir embora.
Quando já passavam das 10:00Hrs, Marcelo desceu as escadas com Joaquim nos braços, o menino já estava de banho tomado e sorria brincando com a barba por fazer do pai. Marcelo pegou uma maçã na cozinha e avisou que estava indo embora. Luiza pegou Joaquim e lhe deu um beijo na cabeça, logo após caminhou até a sala sem em nenhum instante dirigir o olhar ao moreno.
—Volto antes das 17:00Hrs para que você possa ir a faculdade. –sua voz estava firme mas triste.
—Tudo bem, não se preocupe! –disse apenas.
—Muito obrigada por tudo o que tem feito por nós. Você não sabe o quanto sou grato. –disse olhando-a afim de que ela o encarasse.
—Por nada! –falou olhando para Joaquim.
—Tchau! –despediu-se ainda olhando diretamente para ela, porém sem obter reciprocidade alguma ele foi embora sentindo seu coração apertado.
Luiza brincou o resto da manhã com Joaquim, ele a distraia e até conseguia lhe arrancar alguns sorrisos, mas quando o garoto adormeceu durante a tarde ela aproveitou para tirar um cochilo.
— Olha, sabe de uma coisa? Tudo bem! Eu já entendi, só peço um favor, nunca mais tente se aproximar, okay? Você já deve saber o que sinto por você, e até alguns dias atrás estava tudo tão adormecido aqui dentro, eu até conseguia sorrir de verdade ao lado dele, mas agora, parece que tudo reascendeu Marcelo, e droga! Você nem ao menos tinha a pretensão de ter algo mais sério comigo, você acha isso justo, se aproximar de alguém sabendo que não ficará com ela? Se aproximar apenas para tentar preencher um vazio com outro? –falou sentindo seu sangue ferver, o coração já havia entrado num ritmo que ela mal podia acompanhar.
—Luiza não faz assim... é claro que não é justo, mas quando eu estou perto de você, sinto como se tudo se tornasse possível, e então esqueço o mundo, esqueço todos os conceitos do que é certo ou errado, e tudo o que me resta somos nós! –as palavras de Marcelo acertaram Luiza em cheio um sorriso sôfrego estampou o rosto da loira. Marcelo se aproximou do seu rosto e continuou: _Beijar você é mágico, sentir sua respiração próxima a minha me faz esquecer de todos os meus anseios, e isso tem me tomado por inteiro, Lú, eu durmo pensando em você, acordo e lembro do seu sorriso! Eu não sei ao certo, mas acho que estou apaixonado novamente. Não me pergunte como isso é possível, porque não saberei responder, mas a verdade é que eu te amo! –nada mais os separavam, um beijo apaixonado os abraçou.
Os olhos da loira se abriram, ao lembrar do sonho uma lágrima molhou seu rosto, mas de ímpeto ela tratou de enxuga-la. Não queria mais sofrer por sentir o que sentia. De uma vez por todas a moça estava decidida a colocar uma pedra no amor que sentia por ele. Tudo o que ela queria era se concentrar no seu relacionamento com Pedro, ele sim poderia fazê-la esquecer, ao menos, um pouco tudo o que lhe trazia a memória Marcelo. Não tinha outro jeito, sabia que poderia estar errando com Pedro, mas ela tinha que arriscar. contudo iria se esforçar ao máximo para fazer o rapaz feliz, e ser a namorada que ele merece.
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