Real Mission
6 Mitologias
Notas iniciais
Débora acordou assim que os dois saíram, ela nem chegou a pegar no sono completamente. Aquilo foi apenas para ajudar Camila, que queria ficar a sós com Lucas e sua amiga sabia disso. Fingir aquele enjoo foi propício à situação e aos interesses da garota, ela queria falar com Dawis e Gaby sem que ninguém estivesse ali. Talvez porque ainda não se sentisse a vontade com Dawis e todos ou porque queria esconder algo.
A garota puxou um dracma de ouro do bolso dos jeans e jogou na torneira aberta da pequena pia do banheiro.
– oh deusa, aceite minha oferenda. Patrick Dawis, acampamento meio-sangue – disse. A imagem que surgira a sua frente oscilou e desapareceu — Localize Patrick Dawis... – disse sem saber onde ele estava exatamente.
– Deb! – gritou Vick acompanhada de um latido de Teu Pai.
– Vique? – Débora perguntou confusa e tentou olhar mais atentamente.
– Como vai, querida? – Vick perguntou gentilmente enquanto segurava o focinho de Teu Pai que latia sem parar.
– Nada de anormal – ela deu de ombros – onde você está? Dawis está com você? E a Gabryela? Isso é um taco? – olhou para a mesa atrás de Vick.
– Ah...! Sim, isso aqui é um taco – ela pegou o taco e enfiou todo na boca.
– Hun... – continuou Débora meio sem graça.
– Dawis... – ela falava quando o taco ia se arrumando em sua boca – ta no banheiro e a Gabuy foi pagar... – ela se engasgou com o taco – a conta... – já estava vermelha e ofegante.
– Êpa...! – Débora riu – Quíron os deixou sair do acampamento assim de boas?
– Estamos... Em uma missão porque a gabuy viu... – ela tossiu – umas paradas de Apolo...
– Deb! – Dawis apareceu na imagem e Vick virou pra tossir, ele parecia assustado – como vai? Eh... Ah... Que bom que ligou. Gaby, Vick e eu estamos em uma missão a mando de Apolo. Paramos para comer taco. Onde você está?
– Dawis – Débora cumprimentou com um sorriso – os dois saíram pra procurar mantimentos e eu fiquei aqui... Onde está a Gabryela? – Dawis olhou ao redor, mas não a encontrou – Pois bem, a névoa está cada vez pior e fomos atacados por um...
Então Débora parou de falar, um ruído que parecia ser o motor do barco se tornava cada vez mais alto.
– O que é isso? – perguntou Vick recuperada.
– É o que eu vou saber – Débora respondeu – tchau gente – ela acenou e deu uma piscadela na direção de Dawis, mas ele não devolveu como sempre fazia.
A filha da deusa da sabedoria correu para fora da maloquinha, aquele som não poderia ser de Lucas e Camila, eles não iriam embora sem ela. Quando se aproximou do iate, Débora o viu prestes a zarpar do litoral da pequena ilha.
– MAS O QUE?! – Débora puxou uma adaga de dentro do Converse verde cano médio e lançou em direção à popa, um pouco acima do motor.
A adaga bateu no barco e caiu entre a hélice do motor, fazendo o Barco parar.
– Supimpa! – comemorou a garota e depois correu para lá.
– Mas que gárgula! – gritou o dono de uma voz aguda e um tanto fanha. A garota subiu no convés e foi até o lugar do piloto
– O que...? Bob Esponja, é você? — Débora procurou a voz.
De trás do banco do piloto surgiu um homenzinho narigudo que usava uma boina vermelha e um macacão marrom coberto por uma saia escocesa e um colete preto que combinava com as botas. Tudo muito pequeno, cada peça parecia ter sido feita especialmente para ele.
– Ora, sua ordinária! Quem você pensa que é para me impedir de levar este brinquedinho para dar uma volta? – gritou o carinha enfurecido.
Naquele momento Débora boquiaberta encarou o sujeito de cima a baixo, em sua mente veio a vontade de dizer “marmininu, você quer um marido”. Mas ela sabia que ele não iria entender essa gíria que ninguém entendia. Apenas evocou sua espada e apontou na direção do invasor.
– Ladrão! Ladrão! Ahhh! – ela partiu para o ataque, mas o homenzinho era rápido e esperto.
– Lelo-lelo! – ele fez uma dancinha quando escapou da quarta tentativa de captura.
– Seu maldito! – gritou Deb – o que é você afinal?
– Sir Aidan, Leprechaun a seu dispor – ele se curvou como um servo.
– Leprechaun? Mas isso é... Nórdico! – então uma Deb pensativa tomou conta da situação. Sua expressão de raciocínio era tão fluente e penetrante que até o leprechaun parou de fugir e a encarou com interesse.
– É mais grave do que pensei – ela concluiu e o outro concordou com a cabeça, como se estivesse a par da situação.
– Aidan! – uma voz grave e rouca gritou de dentro do iate – por que parou?
– Ah, você tem um amigo? – Débora aproveitou o momento de distração de Aidan e lhe deu um pescotapa. O segurou no alto pela gola da camisa e foi até o outro.
Quando chegou a entrada dos aposentos do iate, se deparou com mais um leprechaun, ele usava um traje típico irlandês e segurava um saco cheio, provavelmente coisas que roubara do lado de dentro.
– Quem é você? – ele perguntou ao vê-la.
– Alguém que você não vai querer conhecer – e jogou Aidan em sua direção. Os dois se chocaram espalhafatosamente.
Débora riscou cortes em seus corpos com sua espada afiada, mas eles não desistiram tão fácil assim. Os três lutaram. A garota com a espada e os dois com objetos. E quando não havia mais o que quebrar ou por onde escapar o amigo de Aidan se jogou no mar, mas antes orou a alguém. Um deus nórdico? Talvez.
– Espera! – Débora segurou o tornozelo de Aidan antes que este também pulasse – por que estão aqui?
Ele se forçou tentando a liberdade, mas a garota o rendeu com a espada apontando o pescoço.
– D-do-do que você está falando? – ele gaguejou com um olhar sínico.
– Não tente me fazer de boba. Não é a toa que vocês vieram aqui, e ainda por cima em um transporte grego. Leprechauns são guardiões de inestimáveis riquezas, não precisam roubar... Ou precisam? – Aidan fez silêncio – vocês são uma fraude.
Então ela o largou e ele pulou na água. Débora podia jurar que ele falou algo como “Minha Senhora” antes de um portal se abrir sobre as águas e levá-lo para algum lugar seguro.
***
– Mas se você não parar agora ele vai fazer xixi em cima de mim! – gritou Vick.
Dawis parou o carro abruptamente e todos ali dentro foram pra frente. — Seja rápida! – protestou o garoto.
Dawis era o único que podia dirigir dos três, estava agora com dezesseis anos e uma recém tirada carteira de motorista. Gabryela se encostava na janela do banco de trás do carro, não olhara Dawis uma única vez desde que a viagem começara. Nada pior do que isso em uma missão.
Vick pulou para fora do carro chutando Teu Pai com bicudas. O cão infernal avançou em disparada para o arbusto mais próximo enquanto sua dona fingia procurá-lo, mas na verdade também queria um arbusto.
Dawis tamborilou os dedos no volante do automóvel e observou Gaby pelo retrovisor, ela continuava a encarar o lado de fora, sem direcionar qualquer sinal de vida a ele. Então ele encarou o assento vazio ao seu lado e ligou o som. Na rádio tocava uma música antiga, algo que lhe parecia ser “True Colors”, ele deixou a música penetrar seus tímpanos e deitou a cabeça sobre o volante.
– Você não vai mesmo falar comigo? – disse baixo, mas tinha certeza de que ela ouvira.
Gaby suspirou forte como quem dizia “claro que não”.
– Sabe, eu não sei o que dizer... Bom, eu sinto muito – ele baixou os olhos e Vick entrou no carro com Teu Pai.
– AIII! Que sem graça isso aqui – disse a filha de Hades – vocês dois mereciam um prêmio Nobel de tédio.
***
– Perséfone? A tiazinha das flores? – Deb perguntou incrédula – por que ela iria querer que Camila fosse com ela?
– Eu não sei, mas talvez tenha a ver com a profecia – respondeu Lucas.
– E se... Alguma coisa acontecer a ela? – a garota olhou para a amiga que calada os ouvia discutir – Magalhães, você devia ter se informado melhor a cerca disso...
– Chega. – disse Camila calmamente – nada vai me acontecer. Esqueçam essa história, por favor – pediu, e Débora podia jurar que havia charme ali, mas Lucas não notara.
– Está certo – aceitou Lucas.
Débora ainda estava pensativa e um tanto preocupada. Encarou Camila com um olhar que só ela entenderia e depois se voltou para Lucas que havia perguntado algo sobre o ataque ao iate.
– Ah, sim... Dois leprechauns, criaturas da mitologia nórdica. Isso significa que a névoa vai pior do que temíamos.
– Sim, você tem razão – ele concordou.
– Espera... O que? – Débora achou estranho ouvir aquelas palavras saírem de sua boca.
– Deve haver alguém por trás de tudo isso – disse Camila.
– Fato. – concordou Lucas.
– Então estamos rodeados de pistas e sem nenhuma evidência... supimpa! – comentou Débora.
– Temos que avisar Gaby imediatamente. Se ela está indo procurar Hécate a mando de Apolo, então temos um problema – Lucas parecia sinistro – ela está indo para o próprio perigo.
***
Para Dawis, dirigir nunca fora tão difícil, qualquer coisa o distraía para fora da direção. Vicke agora estava no banco da frente, balançando a cabeça no ritmo de músicas lentas e suaves. Gaby e Teu Pai estavam no banco de trás repousando.
– Maninho, eu queria muito parar pra comer... – disse Vick.
– Hã...? O que? – Dawis perguntou perdido em pensamentos.
Ainda estava se arrumando para a missão no chalé de número 13 quando uma garota do décimo chalé entrou pela porta sem ser convidada.
– Ah, desculpe incomodar. É que eu preciso de ajuda com... – começou a visitante, mas foi interrompida.
– Adoraria ajudar – Dawis sorriu – mas estou de saída agora mesmo e...
– Mas serei breve, não demora nada. – a garota se aproximou de Dawis, o pressionando contra a parede oposta.
Ele não sabia o que fazer. A cor púrpura nos olhos da semideusa contrastava com sua pele bronzeada e seu cabelo loiro. Ela continuou a se aproximar até deixá-lo sem saída, empurrou seus ombros contra a parede do chalé e o beijou. Aquilo parecia demais, como se nada de mal existisse no mundo e somente o que importasse fosse beijá-la eternamente. Que efeito esquisito aquela filha de Afrodite causara sobre o filho do inferno?
Dawis soltou-se do beijo e empurrou a garota para o lado com gentileza e rispidez. Tentou sair pela porta dos fundos, mas ela o cercou, e o lhar naqueles olhos era inevitavelmente esplêndido. Ele amava outra garota, isso era fato, mas nada mais importava ali.
Foi quando Gaby surgiu e visualizou toda aquela cena. A garota intrusa logo se retirou ao vê-la. Mas Dawis não teve tempo ou motivo para explicar a causa daquela desagradável situação.
– Maninho! – Vick quase teve que gritar para que o irmão saísse do transe – você está bem? – perguntou atenta as atitudes do irmão.
– Estou. Quer dizer, não sei. Não foi nada. Você quer fazer o número dois outra vez? – Patrick estava confuso.
– Quero comer! – exclamou – Ah. E quando precisar é só falar – deu uma piscadela de apoio psicológico para o garoto no banco do motorista.
– Falou... – ele baixou a cabeça por alguns instantes.
– Dawis! – Victória gritou. Ele ergueu a cabeça rapidamente, mas sua irmã desaparecera.
Como pode alguém se perder dentro de um carro? Nem mesmo sair pela porta e cair na estrada seria tão rápido. Gaby e Teu Pai acordaram com o grito da outra semideusa. O cachorro começou a latir feito uma matraca, Gabryela optou por quebrar o gelo com Dawis e encontrar Vick.
– O que está havendo? – perguntou nervosa. Os latidos de Teu Pai dificultavam tudo. Dawis desacelerou o automóvel e olhou para fora da janela, mas lá fora nada havia senão o céu e a estrada que parecia infinita – onde está a Vick? – Gabryela parecia mais furiosa a cada segundo.
– Não faço ideia... – ele parou o carro de repente. “BAM!”. O teto do carro afundou por conta do enorme peso que se projetara sobre ele.
– Mas que droga...?! – xingou Dawis.
Os três desceram do carro e se depararam com uma criatura negra, quadrúpede e peluda que carregava Vick apenas com a boca. Parecia uma espécie de cruzamento de lobo com leão, seus olhos negros e penetrantes, como os de humanos.
Gaby preparou o arco e Dawis pegou sua espada, mas entre os dois não havia mais a mesma confiança. Quando uma tentou render a besta, o outro tentava defender Vick. E diferente do que parecia, foi algo que prejudicou o salvamento da garota. O animal avançou nos dois, ainda com Vick desmaiada entre seus gigantescos dentes.
– O que você ta fazendo?! – gritava a garota em pergunta para Dawis quando ele tentava golpear a face do monstro – você pode machucá-la.
– Não se preocupe, eu vou conseguir – dizia ele.
– Não! Não ouse fazer isso! – então era retrucado.
Teu Pai foi o mais sensato da equipe. Pulou contra a criatura e o rendeu fazendo-o soltar Vick, enquanto Gaby lhe fechava como golpe de misericórdia. Vick estava bem e o monstro morto.
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