Ready, Able
1 Capítulo Único
Remus sempre foge das festas.
Na verdade, ele é conhecido por isso.
Agora ele está aqui, rindo e bebendo entre aquela multidão animada da festa, e então, em uma piscada, ele desaparece. Ele também não sabe muito bem o porque de fazer isso, mas quando Remus escuta Peter dizer que sente que ninguém gosta dele, nem mesmo os próprios amigos, Remus sente vontade de rir e gira os olhos de descaso, não conseguindo lembrar de um momento sequer em que sentiu aquilo.
Entretanto, segundos antes dele sumir, ele sente um corpo invisível e pesado abraçá-lo durante a festa quando ele olha seus amigos, animados e felizes, e não consegue sentir o mesmo. Dá seu melhor sorriso ao dizer que vai ali no bar, ou ao banheiro, ele consegue até montar uma história fictícia, e quando eles se dão conta, já fazia meia hora que Remus havia sumido.
A primeira coisa que ele sente quando dá passos largos para fora da festa ou do bar é alívio e vontade de rir, como se estivesse pregando uma peça em alguém. Ele já sabe aquele costume, então corre o suficiente para uma avenida movimentada, onde ele pode pegar o Noitibus, seu salvador fiel de suas fugas. Muitas vezes ele sente uma adrenalina quase orgástica ao quase correr entre ruas escuras e estranhas, visivelmente perigosas, rumo ao lugar seguro... Não é sua casa em especifico, mas um lugar onde ele possa... Ele não sabe explicar... Sua mente pode...
No dia seguinte ele divide suas desculpas entre cansaço e tédio, mas ele não sentiu nada daquilo. Ele sentiu vontade de chorar, um pouco de raiva e dúvida. Talvez seja aquela a forma como bebida alcoolica age nele, por exemplo, Sirius se isola e tende a viajar dentro da própria mente, ao contrário de James, que provavelmente irá escalar o teto, pendurando-se nos lustres. E Peter, que fica o ser mais sociável do universo, conseguindo socializar com metade da festa.
Veja, Remus também é assim, mas como diria Sirius...
“Sempre tem uma hora da noite que você fica melancólico”, ele semicerra os olhos, olhando Remus como um paciente. “É muito doido, uma hora você está mais animado que James então você fica triste e... Triste”.
Por que isso acontece?, pergunta-se Remus, rindo do que Sirius disse.
“É o presságio de que a festa já está acabando”, ele ri, abaixando os olhos, envergonhado de coisas que nem ele mesmo compreende. Entretanto, quando ele vê James encostar sua face na face de outra garota qualquer, tudo que Remus pode fazer é dar um grande gole em sua bebida e olhar ao redor, clamando por companhia, mas assustado e enojado de qualquer toque. Se repreende por sentir carência.
Todas as festas é a mesma coisa, em vinte minutos Remus olha ao redor e tem certeza absoluta que sequer devia ter saído de casa. Pare de se colocar em situações em que você quer fugir!, ele grita mentalmente para si mesmo enquanto assiste James e Sirius dividirem algum tipo de droga. Queria ter o animo de James para se entupir tanto de entorpecentes a ponto de ter que ser carregado. Só de pensar nisso Remus é quase derrubado por uma série de constatações apavorantes do tipo: E se alguém abusar de mim? E se alguém me matar, sequestrar, roubar...
“É porque James tem 16 anos e você tem 76”, explicou Sirius ao ouvir o comentário de Remus. O garoto ri, apertando seu copo e então algumas pessoas se juntam para falar com Sirius, mas sem excluir Remus da conversa. O Lupin parece sentir o dejavu, era como se fosse uma segunda Lua Cheia. Ele dá alguns passos para trás, como se fosse ir para a pista de dança. Toma todo o conteúdo de seu copo e mais uma vez foge, se perguntando o porquê dele se dar o trabalho... Toda maldita vez... Toda vez...
Dorcas, assim como James, era a alma da festa, mas ali estava ela, dando toda sua atenção para Remus, como se ele fosse o único ser do mundo. Ele não sente vontade de fugir, não sente vontade de correr, não sente um vazio...
“Vamos curtir com o povo?”, pergunta ela, animada, soltando-se dos braços de Remus.
“Não, vamos ficar aqui!”, ela faz biquinho, tentando arrastá-lo para o meio da multidão novamente. Ele a olha sentindo-se traído, quer perguntar se ele não é bom o suficiente para ela, por que ela precisa de mais pessoas, se... Ele força um sorriso e uns passos no meio da multidão, querendo matar todos que esbarram nele. Por que eu sou assim?, se questiona, irritado. Dá mais um gole em sua bebida e um beijo na bochecha de Dorcas, avisando que vai ao banheiro.
E vai em direção da saída.
Após um tempo, simplesmente desistiu de tentar. Só ia às festas se realmente quisesse e ainda assim já avisava que não ia virar a noite, que daqui a pouco ia embora... Ficava o suficiente, ficava poucos minutos antes de sua crise existencial ataca-lo como um velho amigo.
Ele ainda some, e a melancolia ainda o cobre em alguma hora da noite em que Sirius parece até sentir, o olhando de longe como se ele fosse um quebra-cabeça muito complicado. Remus se esquiva dos toques convidativos... Ele sente carência, mas sabe que se levar aquilo adiante, mesmo que aquela desconhecida seja muito bonita, ele só vai se sentir mal depois.
Não precisa tanto assim daquele copo cheio, e se começar a ficar animado demais, é um sinal para pausar. Ainda olha as horas, ansiando pelo fim, mas já não há desespero. Ele participa de algumas conversas e então sente um certo cansaço, uma certa exaustão. Toca o ombro de Sirius e anuncia sua partida.
Se despede dos amigos.
Passa pela saída, dando passos tranquilos em direção da avenida, sozinho.
Não demora muito para ele sentir-se a cada passo, melhor. Provavelmente ele estará na segunda camada de sono enquanto James irá dar seu primeiro vômito, pronto para beber mais em seguida. Ele não quer aquilo. Por que ele pensou que queria? Na cama de quem Sirius acordaria naquela manhã? Ele não quer aquilo. Por que ele pensou que ele queria? Em que casa lotada de desconhecidos bêbados e animados Peter passaria a manhã rindo? Ele não quer aquilo. Por que...?
Por que ele pensou que queria?
Parou diante de um poste, olhando a avenida escura, iluminada pelos faróis dos carros velozes e ergueu a mão da varinha, sentindo a melancolia.
Abraçou a como uma velha amiga.
Subiu no Noitibus.
“Boa noite”, cumprimentou, com um sorriso sincero.
Notas finais
Espero que gostem.
Fale com o autor