Razões
1 O Famigerado
Notas iniciais
- Espera, como é que é?
- O Lucas está me traindo!
Jéssica apenas revirou os olhos, antes de ajeitar o canudo pra continuar bebendo seu chá.
- Fala mais alto pros homofóbicos virem te pegar. Você viu aquela menina que foi espancada no estacionamento?
Lá estávamos nós, numa lanchonete do campus comento torta. Não muito saudável, mas suficientemente barato. Ela estava falando já há alguns meses alguma coisa sobre uma viagem para a qual precisava juntar dinheiro, mas se recusava a comer no restaurante da faculdade.
Alguma coisa sobre infecção intestinal, pombos, e sangue escorrendo dos freezers.
A única parte que eu sei que é verdade é a do sangue.
- Isso não vem ao caso agora, meu namoro de três semanas está arruinado! Isso deve ser algum recorde...
- Tá, tá, que seja, para de lamentação de menininha e me diz porque você acha que ele está te traindo.
- Primeiro, ele está usando um ‘’L’’ no pescoço.
- Ah, claro, óbvio. Afinal, Lucas começa com ‘’W’’’, né?
- ‘’L’’ pode ser de ‘’Luciano’’ também. Ou de ‘’Larissa’’.- Duas pessoas que eu odiava com todos os motivos do mundo. O primeiro era um babaca que vivia arrastando o Lucas pra lugares que eu não pudesse ver e a outra era a ex dele.
Mas, pelo visto, a Jéssica preferia dar mais atenção aos restos da sua torta de frango do que para os meus graves problemas de relacionamento.
- Pelo amor de deus Matheus, deixa de ser paranoico. Eu ainda acho que é ‘’L’’ de Lucas mesmo.
- Mas não é só isso!
- Para de gritar, idiota.
Algumas pessoas que passavam com bandejas olharam estranho para nós.
Não pretendo admitir assim na cara dura que às vezes acabo sendo um pouco escandaloso, mas quando apontam pra você é difícil negar.
- Ontem eu chamei ele pra sair, pra irmos no cinema. Ele disse que não podia ir porque tinha um trabalho pra terminar!
- Jura que eu estou ouvindo isso do cara que faltou no meu aniversário de dezoito anos pra fazer um teste on-line de cálculo?
- A diferença, minha cara, é que estava falando a verdade, mas o Lucas não! Eu rodei toda a biblioteca atrás dele, todos os três andares, e nada! Nada!
Sim, todos os três andares, cada um com duas sessões de prateleiras e entre as prateleiras! Só achei pessoas perdidas e pessoas se pegando.
- Você me dá medo. Ele estava em casa então, ué. Ah, já sei, você como bom psicopata foi na casa dele, certo?
- Fui mesmo. E ele não estava.
Há!
- Então, ele podia ter ido fazer na casa de alguém.
- Esse é exatamente o problema Jéssica! Ele não me avisa mais nada! Ele some, vai pra casa dos outros, não almoça mais comigo, fica no computador até tarde fazendo-se sabe lá Deus o que sem nunca me responder! Jéssica, meu namoro acabou!
Ela esfregou os olhos, como costuma fazer quando quer que eu cale a boca.
- Você já terminou de comer?
- Já. Mas o que isso tem a ver com o meu apocalipse pessoal?
- Tudo. Vamos logo atrás desse menino pra você se acalmar e me deixar em paz.
- Você está louca? Eu não posso simplesmente chegar nele e despejar todas as minhas desconfianças e suspeitas!
- Ah, mas em mim pode né, animal. Ah, veja só que sorte, LUCAS!
E ela começou a acenar.
Um sorriso no rosto, convidando- o para nossa mesa.
Eu pensei em, sei lá, dar um soco na nuca dela e deixa-la inconsciente antes que meu futuro ex-namorado a visse, mas tarde demais. Quando arrisquei olhar para trás, ele já estava retribuindo, e, ainda por cima, vindo direto na nossa direção.
- Senta aqui, Lucas, já almoçou?
No dia que ela mostrar metade dessa simpatia para comigo, Sauron vai sair distribuindo flores num pônei por toda a Terra Média.
- Não, eu estava procurando alguém que não atende o celular para almoçar comigo, sabe...
Uma olhada bem discreta na tela do aparelho que estava no meu bolso.
Dez mensagens e uma ligação.
Odeio quando não tenho argumentos.
- Ué, você está usando colar agora?- A Jéssica foi toda descarada e já tentando agarra a ponta de corrente que escapava pela gola da blusa dele.
Sutileza, pra quê. Naquele instante eu estava com vontade de levantar e falar que tinha que ir embora. Por algum motivo convivente qualquer. Qualquer um.
Cheguei ao cúmulo de rezar para que minha parceira de Física Experimental aparatasse do meu lado e me levasse algemado pro laboratório, como ela às vezes ameaçava fazer.
Mas não.
Fui forçado a ve-lo puxando o famigerado L para fora da blusa.
- Puxa! Não sabia que você gostava de Death Note!
....
Quê?
- Na verdade, eu estava assistindo agora, nem terminei ainda! Uma amiga minha me mandou assistir, e eu achei incrível! Ela ficou empolgada e meu deu esse ‘’L’’.
- Espera, Death Note é aquele desenho, né? Aquele que a Jéssica é viciada.
Levei um chute na canela. Mas ela era viciada mesmo, prontofalei.
Lucas concordou, sorrindo.
- Eu assisto de noite, alias!, desculpa não ter te respondido esses dias, é que eu vejo em tela cheia, ai nem vejo o Skype apitando...
Ah...
- Alias, eu passei na sua casa ontem, cê não tava.... Foi fazer trabalho na casa de alguém?
- Hã? Não. Eu estava na biblioteca, ué. Eu te disse que ia ficar lá.
- Ah... Hã?
- É. Sabe aquela parte lá em baixo onde dá pra ver filmes? Então, eu estava assistindo um documentário sobre Virginia Woolf. Eu ia fazer um resumo sobre ela para a aula de Literatura Inglesa.
Jéssica me sorriu triunfante do outro lado da mesa, antes de se enfiar numa acalorada discussão sobre qual era o personagem preferido de Lucas, e porque ela gostava tanto do Mello (independentemente da opinião dele, claro).
Suspirei, capturando as últimas gotas da minha Coca-cola, apenas olhando os dois animados conversando.
Eu poderia até ter alguma reflexão profunda aqui, algo bonito, digno, apaixonante e caloroso.
Mas deixa quieto.
O cara das humanas é ele.
Notas finais
Essa one eu fiz enquanto pensava em uma long-fic que ainda estou escrevendo, também com o Lucas e o Matheus.
Eventualmente, fará sentido.
Agradecimentos à Chriss, que me fez pensar que vale a pena seguir com essa ideia.
Ficam os avisos de sempre,
Kalhens.
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