Razão ou Coração livro 2
10 O Casamento das Cinzas
O céu de York não ofereceu clemência no dia do consórcio entre Isabelle Pierce e o Conde de Richmond. Uma névoa espessa e acinzentada subia dos pântanos, envolvendo a capela particular do castelo como um sudário. Diferente da grandiosidade dourada de Westminster, aquele cenário era composto de pedras frias, velas de sebo que estalavam com a umidade e o cheiro persistente de incenso barato. No entanto, o que tornava a atmosfera verdadeiramente insuportável não era o clima, mas a presença da carruagem real negra e dourada estacionada no pátio. Contra todos os conselhos de Sabrina e os protestos de Katherine, o Rei Edward Tudor cruzara o país para testemunhar o fim de sua própria alma.
Dentro da capela, a corte de York e os representantes de Londres estavam divididos. Sabrina e Charles ocupavam os primeiros bancos, mantendo expressões de mármore, embora o olhar de Charles estivesse fixo na porta, temendo o que o filho poderia fazer. Katherine Petrovic, a Rainha, estava sentada ao lado do marido, usando um vestido de veludo violeta tão escuro que parecia negro. Ela mantinha a mão enluvada sobre a de Edward, um gesto de posse que ele ignorava completamente. Edward permanecia imóvel, a coroa pesando sobre sua cabeça, os olhos verdes fixos no altar com uma intensidade que parecia capaz de incendiar a pedra.
As portas rangeram e Isabelle surgiu. Ela não vestia o branco da pureza, mas um tom de creme pálido, quase da cor de um osso antigo. Seus cabelos ruivos estavam presos em uma rede de pérolas, mas alguns fios rebeldes escapavam, emoldurando um rosto que não possuía mais vestígios de juventude. Ela caminhava com uma rigidez mecânica, os olhos focados no nada, até que, inevitavelmente, seu olhar cruzou com o de Edward. O impacto foi físico; o Rei tencionou os ombros e Katherine apertou seus dedos com força, sentindo a eletricidade de dor que emanava dele.
Thomas de Richmond recebeu a mão de Isabelle das mãos de Charles com um sorriso de triunfo que não tentou esconder. O Arcebispo iniciou a liturgia, mas cada palavra parecia um insulto ao silêncio da capela.
— Thomas de Richmond, você aceita esta mulher como sua esposa, para honrá-la e protegê-la? — a voz do clérigo ecoou.
— Aceito — Thomas respondeu, sua voz ruidosa carregada de uma satisfação cruel.
Quando a pergunta foi direcionada a Isabelle, o silêncio que se seguiu foi agonizante. Ela sentiu o olhar de Edward queimando suas costas, uma súplica silenciosa por uma rebelião que ela não podia se permitir. Ela lembrou-se das palavras de Sabrina, do tratado russo e da segurança do trono.
— Aceito — Isabelle sussurrou. Foi o som de uma porta de cela se fechando para sempre.
No momento em que o Conde inclinou-se para beijar a noiva, Edward levantou-se bruscamente. O som de sua espada cerimonial batendo contra o banco de madeira ecoou como um tiro. A corte prendeu a respiração. Katherine levantou-se logo atrás, o rosto lívido de medo e raiva.
— Majestade? — Thomas de Richmond interrompeu o beijo, olhando para o Rei com um desafio mal disfarçado. — Deseja abençoar a união?
Edward caminhou até o altar com passos lentos, parando a poucos centímetros do casal. Ele ignorou o Conde, fixando seus olhos nos de Isabelle. O Rei de Gelo parecia estar derretendo por dentro, revelando a fúria do Lobo que Isabelle tentara matar.
— Eu vim ver o preço da minha coroa — disse Edward, a voz rouca, audível apenas para os que estavam no altar. — Você se vendeu bem, Isabelle. Richmond é um homem rico em terras, mas pobre em espírito. Espero que o ouro dele a aqueça tanto quanto o meu amor a teria aquecido.
Isabelle sustentou o olhar, embora seus lábios tremessem. — O senhor é o Rei, Edward. Reis não têm o direito de serem aquecidos. Eles apenas têm o dever de queimar para que os outros não sintam frio.
Edward soltou uma risada amarga e voltou-se para a congregação. — Um brinde ao Conde e à Condessa de Richmond! Que o Norte lhes dê o que o Sul não pôde: esquecimento.
Sem esperar pelo banquete ou pelas saudações, o Rei virou as costas e saiu da capela, atravessando a névoa de York como um furacão de seda e fúria. Katherine Petrovic foi deixada para trás, tendo que sorrir e cumprimentar os convidados enquanto o marido fugia para a escuridão da estrada. O casamento fora selado. Isabelle Pierce era agora propriedade de Thomas de Richmond, e Edward Tudor era um monarca que acabara de perder a única guerra que realmente importava.
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