Razão ou Coração livro 2

14 Capítulo Final: O Rei de Ferro e o Mausoléu do Amor Perdido



​A viagem de volta de York a Londres foi uma procissão de silêncio e horror. O Rei Edward não permitiu que ninguém tocasse no corpo de Isabelle. Ele mesmo a envolveu em seu manto real de veludo negro e a carregou em seus braços durante todo o trajeto, montado em seu cavalo, como se ela estivesse apenas dormindo contra seu peito. A neve que caía sobre os campos ingleses parecia querer purificar o sangue que ainda manchava as vestes de ambos.

​Quando a comitiva real atravessou os portões de Whitehall, a corte estava reunida, esperando por uma notícia de reconciliação ou vitória. O que viram, no entanto, foi o fim de uma era. Charles, Sabrina e Alycia estavam no topo da escadaria. O choque foi imediato. Sabrina levou as mãos à boca, abafando um grito, enquanto Alycia desabou em prantos ao ver o rosto pálido e sereno de Isabelle, cujos cabelos ruivos pendiam inertes sobre o braço da armadura de Edward.

​O Rei desmontou com dificuldade, seus movimentos rígidos pela exaustão e pelo peso do cadáver. Ele caminhou até o centro do pátio, sob o olhar petrificado de nobres, servos e soldados. Ele não entregou o corpo aos boticários; ele o depositou sobre o pedestal de mármore da entrada principal, como se oferecesse o seu próprio coração ao julgamento de Deus.

​Edward virou-se para a multidão. Sua armadura estava suja de lama e sangue, e seus olhos verdes, outrora cheios de vida, eram agora duas fendas de vidro frio.

​— Olhem! — a voz dele rugiu, quebrando o silêncio como um trovão. — Olhem para o preço da paz que vocês tanto pediram! Olhem para o sacrifício que esta coroa exigiu de mim e desta mulher!

​Ele caminhou entre os nobres, que recuavam diante de sua aura de fúria.

​— Vocês falaram de dever. Falaram de alianças, de linhagens e de razão de estado. Eu dei a vocês o meu sangue, a minha saúde e o meu tempo. Eu aceitei uma rainha que tentou me assassinar e exilei a única pessoa que me amava sem querer nada em troca. E o que eu ganhei? — Ele apontou para Isabelle. — Eu ganhei um cadáver! Eu ganhei o silêncio eterno da única voz que me mantinha humano!

​Sabrina tentou se aproximar, as lágrimas correndo por seu rosto. — Edward, meu filho... nós fizemos o que era necessário para salvar York...

​— Vocês salvaram o trono, mas mataram o Rei! — Edward a cortou, o olhar carregado de um desprezo que fez a Duquesa vacilar. — A partir de hoje, não haverá mais conselhos. Não haverá mais "razão" que não seja a minha vontade. Vocês queriam um Rei Tudor? Vocês terão o monarca que criaram. Um homem que não tem nada a perder não teme a Deus, nem ao inferno, e certamente não teme nenhum de vocês.

​Edward aproximou-se do corpo de Isabelle uma última vez, beijando-lhe a testa gélida diante de todos.

​— Enterrem-na na Capela Real, sob o altar principal. Que cada missa celebrada neste reino seja feita sobre o corpo da mulher que vocês destruíram. E que cada vez que vocês olharem para mim, lembrem-se de que o homem que eu era morreu em York, pelas mãos de um covarde que o silêncio de vocês alimentou.

​A partir daquele dia, Edward Tudor tornou-se conhecido como o "Rei de Ferro". Ele nunca mais se casou e nunca mais permitiu que uma risada fosse ouvida nos salões de Whitehall. Katherine Petrovic apodreceu na Torre de Londres até o fim de seus dias, e os nobres que conspiraram contra Isabelle foram exilados ou executados sumariamente sob qualquer suspeita de deslealdade.

​Edward governou a Inglaterra com uma mão implacável, expandindo o império e esmagando rebeldes com uma frieza que assombrava a Europa. Ele era um rei brilhante, justo na lei, mas gélido na alma. Todas as noites, antes de dormir, ele descia sozinho às criptas da capela para depositar uma única rosa ruiva sobre o túmulo de mármore branco onde se lia: Isabelle — A Razão de York.

​O Lobo finalmente tinha o seu reino, mas o silêncio de seu palácio era o lembrete constante de que a coroa é a joia mais pesada que um homem pode carregar sobre um coração dilacerado.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!