Charles saiu do gabinete do Rei como um animal que acaba de ser enjaulado. O corredor parecia estreito demais para sua fúria. Ele não foi para os seus aposentos; ele sabia exatamente onde encontrá-la. Sabrina sempre buscava o observatório da ala leste quando queria fugir do mundo, um lugar alto o suficiente para que ninguém a incomodasse.

​Ele subiu as escadas em caracol dois degraus por vez. Quando abriu a porta pesada, o vento frio da manhã o atingiu. Sabrina estava lá, de costas, apoiada no parapeito de pedra, observando o horizonte como se procurasse uma rota de fuga que não existia.

​— Espero que esteja satisfeita — a voz de Charles chicoteou o silêncio.

​Sabrina não se sobressaltou. Ela apenas fechou os olhos por um segundo antes de se virar lentamente. O rosto dela estava pálido, mas os olhos brilhavam com uma faísca que ele ainda não tinha visto: puro fogo.

​— Satisfeita? — ela repetiu, a voz perigosamente baixa. — Você entra aqui, destrói a pouca paz que eu tinha com sua arrogância, e agora me pergunta se estou satisfeita por ser entregue a um homem que me vê como um fardo?

​Charles caminhou até ela, invadindo seu espaço pessoal até que ela estivesse prensada contra a pedra fria do parapeito. Ele apoiou as mãos de cada lado do corpo dela, cercando-a.

​— William acabou de me dar um ultimato. Ou eu me caso com você, ou perdo tudo. Títulos, terras, proteção. Ele me encurralou usando você como isca.

​— E você acha que eu tive escolha? — Sabrina disparou, empurrando o peito dele com as mãos. Ele era sólido como uma rocha, mas ela não recuou. — Eu sou a pupila do Rei, Charles! Eu sou uma peça no tabuleiro dele desde os sete anos de idade! Você acha que eu trocaria minha liberdade por um libertino que vai passar as noites em camas de outras mulheres enquanto eu espero no palácio como uma idiota decorativa?

​Charles riu, um som sem alegria, o rosto a centímetros do dela.

​— Oh, não se preocupe com as outras mulheres, Sabrina. Se formos obrigados a passar por esse inferno, eu garanto que minha maior ocupação será infernizar a sua vida. Você me humilhou diante de toda a corte. Você fez meu sobrinho rir da minha cara!

​— Eu apenas disse a verdade! — ela gritou, a respiração ofegante. — Você é um homem vazio, Charles Tudor. Você volta para cá achando que o mundo lhe deve algo, mas você não passa de uma criança grande em busca de atenção.

​Charles apertou o parapeito de pedra, seus olhos descendo por um instante para os lábios dela antes de voltarem para os olhos castanhos e furiosos. A atração era uma força física entre eles, um magnetismo que ambos odiavam sentir.

​— Pois saiba que essa "criança" agora é seu dono perante a lei — ele sussurrou, a voz carregada de veneno e algo mais profundo. — Nós vamos nos casar. Mas não espere flores, nem poemas, nem uma vida de contos de fadas. Se William quer um casamento, ele terá um campo de batalha.

​— Ótimo — Sabrina respondeu, aproximando-se ainda mais, desafiando-o a recuar. — Porque eu nunca soube perder uma guerra, Milorde. Se você quer o inferno, prepare-se para se queimar. Eu vou fazer você se arrepender de cada dia que passar ao meu lado. Eu vou ser o seu pior pesadelo, o espinho na sua carne que você nunca vai conseguir tirar.

​Charles sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Pela primeira vez na vida, ele não estava diante de uma conquista fácil ou de um flerte passageiro. Ele estava diante de uma igual.

​— Então temos um acordo — ele disse, a voz rouca. — Um casamento de fachada, um ódio compartilhado e nenhuma trégua.

​— Nenhuma trégua — ela confirmou, o olhar firme.

​Eles ficaram ali, próximos demais, o ódio e o desejo colidindo no ar frio, dois prisioneiros de uma coroa que exigia seus destinos em troca de poder.