Razão ou Coração

12 O Altar dos Sacrifícios


O sol nasceu pálido sobre o Reino de Tudor, mas o clima dentro das muralhas era de uma eletricidade sufocante. O dia do casamento não parecia uma celebração, mas o prelúdio de uma batalha épica. Sinos dobravam em todas as torres, convocando a nobreza para testemunhar a união que selaria o destino do "Lobo" e da "Protegida".

​A preparação de Sabrina foi conduzida em um silêncio quase fúnebre. A Rainha Genevieve e Camilly supervisionavam cada detalhe. O vestido de noiva era uma obra-prima de seda branca e fios de prata, com mangas longas e ajustadas e uma cauda que se estendia por metros. O decote, embora respeitável, deixava à mostra a linha elegante de seus ombros.

​— Você está deslumbrante, Sabrina — sussurrou Camilly, ajustando o véu de renda que cobria o rosto da amiga. — Mas seus olhos parecem gelo puro.

​Sabrina olhou-se no espelho. Por baixo da saia volumosa, amarrada à sua coxa com uma fita de seda, estava a adaga que Charles lhe enviara. O toque do metal frio contra sua pele era o que a mantinha sã.

​— Eu não sou uma noiva, Camilly. Sou um tratado de paz que caminha — respondeu Sabrina, a voz desprovida de emoção.

​A Espera no Altar

​A Catedral Real estava lotada. O cheiro de incenso misturava-se ao perfume das centenas de lírios brancos. No altar, Charles Tudor esperava. Ele vestia o traje oficial de Duque, em tons de azul-marinho tão escuros que pareciam negros, com o medalhão da Ordem de Tudor brilhando em seu peito. Sua postura era rígida, os maxilares travados. Ele não olhava para os convidados; seus olhos estavam fixos nas portas duplas ao fundo.

​Ao seu lado, o Rei William observava tudo com um sorriso de satisfação fria. Ele havia vencido. O lobo estava na coleira.

​As portas se abriram.

​A marcha nupcial ecoou, e Sabrina surgiu. Ela caminhava com uma dignidade que silenciou até os críticos mais ferozes. A cada passo, o tecido de seu vestido roçava no chão de mármore, um som que, para Charles, soava como a contagem regressiva para sua rendição.

​Quando ela chegou ao seu lado, Charles estendeu a mão. Ele notou que, apesar da aparência calma, a mão dela tremia levemente. Ele a apertou com uma força que não era de carinho, mas de reconhecimento: estamos nisso juntos, quer queiramos ou não.

​Os Votos de Fogo

​O Arcebispo começou a liturgia, as palavras sobre amor e obediência soando como ironia fina nos ouvidos do casal.

​— Charles Tudor, você aceita Sabrina Drake como sua legítima esposa, para amá-la e honrá-la, na saúde e na doença, até que a morte os separe? — a voz do clérigo ecoou.

​Charles hesitou por um segundo eterno. Ele olhou para Sabrina através do véu. Ele viu a sombra de seus olhos, o desafio que ela ainda sustentava.

​— Aceito — ele disse, a voz barítona vibrando pela nave da igreja, firme e sombria.

​— E você, Sabrina Drake, aceita Charles Tudor como seu legítimo esposo...

​Sabrina sentiu o peso da adaga em sua perna. Ela pensou em fugir, pensou em gritar "não". Mas ela viu o Rei William, o homem que lhe dera tudo e que agora cobrava o preço. Ela olhou para Charles, o homem que a beijara com ódio e desejo.

​— Aceito — ela pronunciou, as palavras saindo como um veredito.

​Quando o Arcebispo os declarou marido e mulher, Charles levantou o véu dela. O rosto de Sabrina apareceu, belo e gélido.

​— Pode beijar a noiva — disse o clérigo.

​Charles inclinou-se. Não foi um beijo de cinema. Foi um toque rápido, possessivo e carregado de uma promessa silenciosa de que a noite de núpcias seria o acerto de contas.

​O Banquete e a Tensão

​A festa que se seguiu no Salão Principal foi um borrão de brindes, risadas de Alexander e música alta. Mas, na mesa principal, o novo Duque e a Duquesa Tudor mal se falavam. Eles eram o centro das atenções, o casal mais bonito e enigmático do reino, mas entre eles havia um abismo.

​— Você está muito silenciosa, minha esposa — Charles murmurou, inclinando-se para ela enquanto Alexander contava uma piada obscena para um grupo de nobres. — Está pensando na adaga que escondeu sob o vestido? Sim, eu sei que ela está aí.

​Sabrina virou o rosto para ele, um sorriso gélido nos lábios.

​— Se sabe que ela está aqui, sabe que não deve se aproximar mais do que o necessário, Milorde. O casamento aconteceu, o Rei está feliz. O resto... o resto é apenas um detalhe que pretendo evitar.

​Charles riu baixo, um som que fez os pelos do braço de Sabrina se arrepiarem.

​— Você acha mesmo que William vai nos deixar dormir em quartos separados hoje? Ele quer um herdeiro, Sabrina. Ele quer a garantia de que este laço nunca será quebrado. E eu... — ele aproximou-se do ouvido dela, o cheiro de vinho e virilidade a envolvendo — eu nunca deixo uma arma sem uso. Se você me deu a honra de carregar o meu presente, eu terei a honra de ver como você pretende usá-lo.

​O Rei William levantou-se, batendo na taça de ouro.

​— A hora chegou! — ele anunciou, os olhos brilhando. — Que os noivos sejam conduzidos aos seus aposentos! Que a linhagem Tudor seja fortalecida esta noite!

​Gritos e aplausos explodiram. Camilly e as damas de honra aproximaram-se de Sabrina para levá-la, enquanto os homens cercavam Charles com piadas grosseiras e tapinhas nas costas.

​Sabrina foi levada pelo corredor de pedra, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ao entrar no quarto nupcial, decorado com sedas vermelhas e centenas de velas, ela se virou para a porta. Em poucos minutos, Charles estaria ali. E a guerra que começara com um baile e uma provocação no jantar atingiria o seu ponto mais crítico.

​Ela soltou a adaga da coxa e a colocou sobre o travesseiro de seda, esperando.