Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
20 O Sol de York
A aurora que surgiu após aquela noite não era apenas o início de um novo dia, mas o marco de uma nova era para a Inglaterra. Nos aposentos reais, o calor da lareira ainda persistia, mas era o calor dos corpos de Edward e Selene, finalmente em paz, que preenchia o ambiente. Pela primeira vez em dez anos, o Rei de Ferro dormira sem pesadelos, e Selene acordara sem o peso da incerteza.
Edward levantou-se antes que o sol estivesse alto. Ele mesmo ajudou Selene a se vestir, um gesto de intimidade que nenhum servo jamais testemunhara. Ele não vestiu sua armadura negra. Em vez disso, escolheu uma túnica de veludo carmesim e ouro, as cores da vida e da soberania.
O Grande Salão foi convocado com urgência. O Conselho Real, a Rainha Mãe Sabrina, Charles, Alycia e Edmund estavam presentes, o murmúrio de curiosidade e apreensão pairando como fumaça. Quando as portas se abriram, Edward entrou, mas não caminhava sozinho. Ele trazia Selene ao seu lado, suas mãos firmemente entrelaçadas, e no colo, ele carregava o pequeno Arthur.
O silêncio caiu como uma cortina. Edward subiu ao estrado, mas não se sentou no trono. Ele permaneceu de pé, diante de sua corte, com a voz clara e firme, recuperada da rouquidão da embriaguez.
— Senhores do Conselho, minha família e meu povo — Edward começou, sua voz ecoando com uma autoridade que não vinha do medo, mas da convicção. — Durante anos, eu governei este reino como um homem morto, guiado por sombras e por um luto que quase nos destruiu. Eu falhei com vocês, e falhei com as mulheres da minha linhagem.
Ele olhou para Selene, e o brilho em seus olhos era público e inegável.
— Mas a Rainha retornou. E com ela, a luz voltou a York. Eu anuncio hoje que Selene não é apenas minha esposa por contrato ou necessidade. Ela é a Rainha absoluta da Inglaterra, minha co-regente em todas as decisões, e a senhora do meu coração. Qualquer desrespeito a ela será tratado como alta traição contra a própria coroa.
Sabrina inclinou a cabeça, aceitando a derrota com a dignidade de quem sabia que, no fim, o amor do filho era a única coisa que manteria o trono firme. Charles sorriu abertamente, trocando um olhar de cumplicidade com Selene.
— Além disso — continuou Edward, levantando o menino para que todos o vissem —, apresento-lhes Arthur Tudor, meu filho legítimo e o Príncipe de Gales. No próximo domingo, ele será batizado na Capela Real. Este menino não foi criado em cortes de intrigas, mas na verdade de uma mãe que o protegeu. Ele é o futuro de todos nós.
Um grito de "Longa vida ao Rei! Longa vida à Rainha!" rompeu o protocolo, liderado por Edmund e seguido até pelos conselheiros mais ranzinzas. Alycia chorava de alegria ao ver o irmão finalmente livre das correntes do passado.
Edward entregou Arthur aos braços de Selene e, diante de todos, beijou a testa da esposa e depois a mão, um gesto de devoção que selava o compromisso.
O banquete de batismo seria a maior celebração que Londres já vira, mas para Edward e Selene, a verdadeira celebração acontecia ali, no olhar que trocavam — um olhar que dizia que, embora o caminho tivesse sido pavimentado por erros e dores, o destino finalmente os encontrara.
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