​O sol da manhã rompeu a névoa de Londres, iluminando os jardins de Whitehall com uma clareza que o palácio não via há anos. Selene estava na sacada de pedra, protegida pelas sombras, observando a cena abaixo com o coração batendo em um ritmo desconhecido.

​Lá embaixo, Edward estava sentado na grama, cercado por rosas brancas. Ele estava limpo; a barba desgrenhada fora aparada, os cabelos castanhos estavam lavados e presos, e ele vestia uma túnica simples de linho azul, sem a armadura pesada ou os trajes manchados de vinho. Ele parecia o homem que ela conheceu anos atrás — o Lobo de York em sua forma mais pura. Arthur corria ao redor dele, rindo enquanto o Rei tentava, com dedos desajeitados, consertar um pequeno cavalo de madeira que o menino trazia.

​— Ele é rápido, não é? Tem os reflexos do pai — a voz de Charles surgiu ao lado de Selene, fazendo-a sobressaltar-se.

​O velho Tudor encostou-se no parapeito, observando o filho e o neto com um brilho de orgulho que há muito não se via em seu rosto. Ele soltou uma risada curta e olhou para Selene.

​— Parabéns, minha querida. Você conseguiu o que nem eu, nem Sabrina, nem todo o exército da Inglaterra conseguiu: você trouxe o meu filho de volta do inferno.

​Selene manteve o olhar fixo em Edward, que agora carregava Arthur nos ombros, correndo pelo jardim sob o olhar atento dos guardas.

​— Ele precisava de um motivo, Charles. Eu apenas fui o espelho da sua própria ruína.

​— Não seja modesta — Charles rebateu, ficando sério. — Os homens da linhagem Tudor são idiotas por natureza, Selene. Somos fortes em batalha, mas perdidos em paz. Só sabemos o que é ser homem de verdade quando temos mulheres de verdade ao nosso lado, mulheres que nos desafiam. Quando as mulheres são fracas ou submissas demais, o monstro desperta. Veja o que o antigo Rei Henrique fez... ele matou esposa após esposa porque nenhuma delas conseguia segurar o peso daquela coroa junto com ele.

​Charles aproximou-se um pouco mais, baixando a voz como se estivesse prestes a entregar o maior tesouro de York.

​— Eu vou te contar um segredo que nem Sabrina sabe, e que Edward morreria se soubesse que eu descobri. Você se sente em segundo lugar por causa da memória de Isabelle Pierce, não sente? Pois saiba que você foi a primeira e única mulher a estar intimamente com Edward. Isabelle foi uma promessa, um amor platônico, um noivado de pureza que ele guardou em um pedestal. Ele nunca a possuiu. Ele a idealizou como uma santa porque nunca conheceu a realidade do corpo dela.

​Selene virou-se para ele, os olhos arregalados, o ar faltando em seus pulmões.

​— O quê? Mas ele dizia que ela era o seu mundo...

​— E era. Mas um mundo de sonhos — Charles sorriu com sabedoria. — Edward era um virgem até aquela noite na cripta com você. Você foi a primeira a quebrar a armadura dele, a primeira a ver o homem por trás do Rei. O ódio dele por você não era porque você era um "erro", mas porque você foi a única que o fez sentir algo real, algo que a memória de Isabelle nunca pôde dar porque ela nunca foi sua de fato.

​Selene olhou de volta para o jardim. Edward acabara de colocar Arthur no chão e, como se sentisse o olhar dela, levantou a cabeça. Seus olhos verdes encontraram os azuis de Selene na sacada. Ele não sorriu, mas abaixou a cabeça em uma reverência lenta e profunda, um gesto de submissão que um rei só faz a uma divindade ou à mulher que governa sua alma.