​A manhã do casamento surgiu sob um céu de chumbo, com uma garoa fina que transformava as pedras de Whitehall em espelhos cinzentos. Dentro da Capela Real, o ambiente não era de celebração, mas de um funeral solene. O cheiro de incenso era tão carregado que parecia sufocar os poucos nobres presentes, que sussurravam sobre o escândalo que forçara aquela união repentina.

​Edward estava parado diante do altar, mas não vestia as roupas de seda e ouro esperadas de um noivo real. Ele usava sua armadura de guerra, a placa peitoral negra polida até brilhar como obsidiana, e seu manto de veludo escuro caía pesadamente sobre os ombros. Sua mão descansava no punho da espada, e seu rosto, esculpido em ódio e exaustão, não se moveu quando as portas se abriram.

​Selene entrou com uma beleza que era quase uma afronta ao ambiente lúgubre. Seu vestido de cetim prateado, detalhado com rendas negras, arrastava-se pelo chão de mármore como uma serpente de metal. Ela não caminhava com a hesitação de uma noiva; sua cabeça estava erguida, e seus olhos azuis buscavam os de Edward, desafiando a frieza que emanava dele. Ao seu lado, o Rei Luís exibia um sorriso de triunfo geopolítico, enquanto Sabrina e Charles observavam da primeira fileira com expressões de quem via a própria linhagem ser desmantelada.

​A cerimônia foi rápida e gélida. O arcebispo, visivelmente desconfortável sob o olhar assassino do Rei, apressou os ritos. No momento em que Edward deveria segurar a mão de Selene para o juramento, ele o fez com uma rigidez que fez os dedos dela empalidecerem sob a pressão do metal de sua manopla.

​— Eu, Edward Tudor, recebo-te como minha rainha e esposa — ele disse, sua voz ecoando pelas abóbadas da capela, destituída de qualquer traço de afeto.

​Quando chegou a vez de Selene, ela pronunciou seus votos com uma clareza cortante, olhando fixamente para o homem que a possuíra com fúria e agora a recebia com desprezo. No momento em que Edward deveria beijar a noiva, ele apenas inclinou a cabeça, seus lábios mal roçando a bochecha de Selene, um gesto tão impessoal que fez o Rei Luís fechar o sorriso por um instante.

​Ao final da bênção, enquanto os sinos de Whitehall dobravam de forma melancólica, Edward inclinou-se em direção ao ouvido de Selene, o hálito quente contrastando com o tom gélido de suas palavras.

​— Você tem a sua coroa, Selene. Mas a partir deste momento, você descobrirá que este palácio tem mil salas, e em nenhuma delas você encontrará o meu respeito. Você reinará sobre paredes de pedra, pois o meu coração está trancado em uma cripta onde você nunca terá a chave.

​Ele soltou a mão dela bruscamente e, sem esperar pela procissão oficial ou pelo braço da esposa, desceu os degraus do altar e atravessou a nave da capela. O som de suas botas de metal contra o mármore foi o único aplauso que a nova Rainha da Inglaterra recebeu.

​Camilly, sentada ao lado de um Jonas que já a olhava com a posse de um dono, chorava silenciosamente. Ela sabia que aquele casamento não era apenas o fim da liberdade dela, mas o golpe final na sanidade de seu irmão. Selene permaneceu sozinha diante do altar por alguns segundos, a coroa pesando em sua cabeça e o olhar de Sabrina queimando em suas costas. Ela havia vencido o Rei, mas percebia, com um calafrio, que a guerra dentro daqueles quartos estava apenas começando.