​O Grande Salão de Whitehall estava decorado com uma opulência que escondia a podridão moral que acabara de se consolidar no altar. O banquete de casamento era uma exibição de poder francês e resiliência inglesa, mas o Rei de Ferro parecia determinado a transformar a celebração numa tortura pública. Edward sentou-se no trono central, mas não se deu ao trabalho de trocar a armadura negra. Ele permanecia como um monumento de guerra no meio de uma festa, bebendo vinho com uma voracidade que preocupava até mesmo Charles.

​Selene, sentada ao seu lado pela primeira vez como Rainha, tentava manter a dignidade. Ela recebia os cumprimentos dos nobres com um sorriso treinado, mas sentia o vácuo gelado que emanava do marido. Edward não lhe dirigiu uma única palavra durante todo o serviço de carnes e vinhos. Quando o Rei Luís se levantou para um brinde à "nova era de união", Edward nem sequer levantou sua taça, deixando o sogro segurando o metal no ar diante de toda a corte.

​— Um brinde à união? — Edward finalmente falou, sua voz cortando a música dos menestréis como um chicote. — Digamos as coisas como elas são, Luís. Um brinde ao resgate de uma filha que você não sabia onde colocar e ao preço que eu tive que pagar para manter um fantasma fora da minha cama.

​O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Luís sentou-se, o rosto vermelho de humilhação. Selene apertou os talheres com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. Ela percebeu que, se continuasse a ser apenas a receptora do desprezo de Edward, sua autoridade morreria antes da aurora.

​— Já que o Rei está tão interessado em preços e pagamentos — Selene disse, levantando-se e projetando sua voz para que todos no salão pudessem ouvir —, eu gostaria de exercer meu primeiro ato como Rainha da Inglaterra. Um trono não é feito apenas de silêncio e mágoa, mas de justiça.

​Edward inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma curiosidade perigosa. — Justiça, Selene? Você mal aprendeu onde fica a cozinha deste palácio.

​— Eu aprendi o suficiente para saber que uma união baseada em sacrifício de inocentes é amaldiçoada — ela rebateu, olhando para Camilly, que estava pálida ao lado de Jonas. — Como Rainha, e em virtude das leis de hospitalidade e proteção às damas da coroa, eu declaro nulo o compromisso de Camilly Tudor com o senhor Jonas de França. A Inglaterra não precisa vender suas filhas para garantir a paz com Versalhes enquanto eu portar esta coroa.

​O salão explodiu em murmúrios. Jonas levantou-se, indignado, olhando para o Rei Luís em busca de apoio. Sabrina soltou um suspiro de choque, enquanto um brilho de esperança cruzou o rosto de Camilly.

​Edward levantou-se lentamente, a armadura rangendo. Ele caminhou até Selene, parando tão perto que ela podia sentir o cheiro de vinho e fúria em seu hálito.

​— Você ousa? — ele sibilou, a voz baixa e letal. — Você ousa desafiar um tratado que eu assinei com o seu próprio sangue?

​— Eu sou a sua Rainha, Edward. Você mesmo disse isso diante de Deus — Selene sustentou o olhar, sem recuar um milímetro. — Se você quer que eu seja o seu erro, então eu serei o erro que corrigirá os seus crimes contra a sua própria família. Camilly não será a moeda de troca para a minha estadia aqui.

​Edward olhou para a irmã, depois para a multidão que esperava sua reação. Ele estava encurralado. Desautorizar Selene agora, diante de todos, seria admitir que o casamento fora uma farsa completa, o que daria a Luís o motivo perfeito para a excomunhão que ameaçara. O Rei de Ferro sentiu o gosto amargo da derrota pelas mãos da mulher que ele possuíra na sombra da cripta.

​— Que assim seja — Edward disse, as palavras saindo como se estivessem sendo arrancadas de seus pulmões. Ele virou-se para Jonas. — O noivado está desfeito. Saia da minha vista antes que eu decida que a sua cabeça é uma compensação melhor do que as terras do Norte.

​Ele então se virou para Selene, os olhos prometendo uma vingança que o palácio nunca esqueceria.

— Você salvou a irmã, Rainha. Mas acabou de condenar a si mesma. O banquete acabou.

​Edward saiu do salão, derrubando a cadeira real em seu rastro. Selene permaneceu de pé, triunfante, mas tremendo por dentro. Ela havia libertado Camilly, mas acabara de trancar a porta de sua própria prisão com sete chaves de ódio.