Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
1 O Aroma de Rosas e o Vinho de França
Dez anos haviam se passado desde que o último vestígio de calor humano deixara os corredores de Whitehall. O palácio, sob o reinado de Edward Tudor, agora era uma estrutura de silêncio e eficiência militar. As tapeçarias coloridas foram substituídas por brasões pesados e armaduras polidas que pareciam vigiar cada passo dos nobres. O Rei de Ferro, como era chamado pelos embaixadores estrangeiros, raramente era visto sorrindo; sua barba agora tinha fios de prata e seu olhar era como o mar do Norte no inverno: profundo, escuro e impenetrável.
O banquete desta noite, porém, exigia uma pompa que Edward desprezava. A comitiva da França chegara para selar uma aliança através do casamento da Princesa Alycia Tudor com o Delfim Edmund. Aos vinte e seis anos, Alycia tornara-se o pilar emocional da família. Ela era a única que ousava entrar no gabinete do irmão sem ser anunciada, e a única que ainda conseguia arrancar dele um aceno de cabeça que não fosse uma ordem direta.
As portas do Grande Salão foram abertas, e a realeza francesa entrou sob o som de trombetas. O Rei Luís e a Rainha Marie-Antoinette caminhavam com a elegância esperada, seguidos por Edmund, um príncipe de beleza clássica e modos impecáveis. Mas foi a figura que caminhava logo atrás deles, com uma postura que desafiava o protocolo, que fez o ar sumir dos pulmões de Edward.
Selene.
A filha ilegítima do Rei Luís, fruto de um romance ardente de duas décadas atrás, não se escondia nas sombras. Ela usava um vestido de seda azul meia-noite que contrastava violentamente com a cascata de cabelos ruivos que caía por seus ombros. Ela não baixou o olhar ao se aproximar do trono de Edward. Pelo contrário, Selene sustentou o olhar do Rei de Ferro com uma curiosidade atrevida e uma língua pronta para o embate.
— Majestade — disse Selene, fazendo uma vênia que tinha mais de deboche do que de submissão. — Dizem em Versalhes que o seu castelo é feito de gelo. Eu trouxe um pouco do sol da Provença para ver se ele derrete, ou se apenas racha.
Charles e Sabrina, sentados à mesa de honra, empalideceram. Ninguém falava assim com Edward. Alycia, ao lado de seu pretendente Edmund, prendeu a respiração.
Edward sentiu um soco no peito. O tom de pele, a curva do pescoço, mas acima de tudo, aquele fogo ruivo que ele jurara nunca mais ver diante de si. Era como se Isabelle tivesse voltado do túmulo para zombar de sua solidão. O Rei apertou os braços de seu trono com tanta força que as juntas de seus dedos estalaram.
— O sol da Provença costuma queimar aqueles que não conhecem o rigor do Norte, Mademoiselle — Edward respondeu, sua voz saindo mais rouca do que o habitual, uma vibração que ele não sentia há uma década. — Sente-se. E tente manter sua língua atrás dos dentes, ou descobrirá que o gelo de Whitehall pode ser muito afiado.
O jantar começou com uma tensão eletrizante. Edmund tentava encantar Alycia com histórias da corte francesa, e Alycia, embora intrigada pela inteligência do príncipe, não conseguia desviar os olhos do irmão. Ela via como Edward evitava olhar para Selene, e como, a cada vez que Selene ria — uma risada clara e desafiadora —, o Rei bebia sua taça de vinho de um só gole.
— O senhor parece incomodado, Rei Edward — Selene provocou, inclinando-se em direção a ele durante o segundo prato, ignorando a etiqueta que exigia que ela falasse apenas com os convidados ao seu lado. — É a minha presença que o perturba, ou o fato de que eu o lembro de algo que o senhor tentou enterrar sob este chão de mármore?
Edward cravou os olhos nela. O ódio e o desejo lutavam uma guerra sangrenta em seu peito.
— Você é apenas uma convidada ilegítima em uma mesa de reis — ele sibilou, a voz carregada de veneno para esconder o tremor. — Não se dê tanta importância.
— Ilegítima de sangue, talvez — Selene sorriu, e por um segundo, Edward viu o brilho de Isabelle naquele sorriso, mas com uma malícia que Isabelle nunca possuiu. — Mas minha alma é mais livre do que a sua, que vive acorrentada a um fantasma.
Edward levantou-se bruscamente, interrompendo o serviço de jantar.
— Alycia, Edmund... continuem. Perdi o apetite para as frivolidades francesas.
Ele saiu do salão a passos largos, o manto negro ondulando atrás de si como as asas de um corvo. Selene observou-o partir, levando a taça de vinho aos lábios com um olhar vitorioso. Ela viera para a Inglaterra para acompanhar o irmão, mas agora percebia que o verdadeiro desafio estava naquele Rei quebrado que tentava, desesperadamente, lutar contra o calor que ela acabara de reacender em seu coração de ferro.
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