​Edward avançou um passo, a mão estendida como se tentasse tocar um milagre, mas Selene foi mais rápida. Ela ergueu a mão, espalmando-a contra o peitoral da túnica dele, impedindo-o de diminuir a distância. O toque não foi de carinho; foi uma barreira.

​— Não dê mais um passo, Edward — ela ordenou, e sua voz tinha um peso que fez os soldados na porta baterem as lanças no chão em sinal de respeito instintivo. — Você não tem o direito.

​— Ele é meu filho, Selene! Meu sangue! — Edward exclamou, o desespero começando a transbordar. — Eu preciso vê-lo. Eu preciso...

​— Você precisa de muitas coisas, mas a presença de Arthur não é algo que você possa exigir — ela o cortou, os olhos azuis faiscando sob a luz das tochas. — Você quer ver o seu herdeiro? Olhe ao seu redor primeiro. Olhe para este salão, para essas mulheres, para o estado deplorável em que você se encontra. Você cheira a vinho barato e a arrependimento tardio. Arthur nunca viu um homem bêbado. Ele nunca viu uma mulher ser tratada como objeto. Ele conhece a honra porque eu a ensinei. Se você entrar naquele quarto agora, ele verá apenas um estranho perigoso.

​Edward olhou para as próprias mãos, trêmulas, e depois para a corte que o observava. A humilhação era completa. Selene estava exercendo a vingança mais refinada de todas: ela não o estava ferindo com lâminas, mas com a verdade da sua própria indignidade.

​— O que você quer que eu faça? — ele perguntou, a voz quebrada, caindo de joelhos diante dela, ignorando os sussurros de choque de toda a nobreza. — Eu farei qualquer coisa. Eu destruirei este salão com minhas próprias mãos. Eu mandarei cada uma dessas pessoas embora. Apenas me deixe ser o pai dele.

​— Você quer ser pai? Então comece sendo um Rei — Selene sentenciou, olhando-o de cima. — Limpe este palácio. Expulse a podridão que você convidou para entrar. Retome o seu posto, recupere a sua sobriedade e, acima de tudo, peça perdão à sua irmã e à sua mãe, a quem você tratou como lixo nesses últimos anos.

​Ela se inclinou, sussurrando para que apenas ele ouvisse, com uma frieza que o fez estremecer.

​— Arthur passará a noite sob a guarda de Sabrina e Alycia. Você não passará da porta daqueles aposentos. Você vai dormir sozinho, Edward, com o silêncio que você mesmo cultivou. E amanhã, quando o sol nascer, se eu vir o Rei de Ferro e não este libertino patético, talvez — e apenas talvez — eu permita que você saiba qual é a cor favorita do seu filho.

​Selene deu as costas a ele, caminhando com a cabeça erguida em direção às escadas. Edward permaneceu ajoelhado no chão sujo de vinho, cercado pelos restos de sua decadência. O silêncio que caiu sobre o Grande Salão era absoluto. Ele olhou para a escadaria por onde ela desaparecera, sentindo a queimação de uma esperança que doía mais do que qualquer ferida de guerra.

​Naquela noite, as luzes de festa em Whitehall foram apagadas. Edward não dormiu. Ele passou as horas seguintes expulsando, pessoalmente e aos gritos, cada cortesão parasita e cada amante de seus aposentos. Ele lavou o rosto com água gelada, sentindo cada nervo de seu corpo clamar pela presença do filho que ele nem sequer sabia o tom da voz. A vingança de Selene fora perfeita: ela lhe dera um motivo para viver, mas o proibira de tocá-lo até que ele provasse que merecia ser chamado de Tudor.