​A guerra não era mais apenas uma disputa de tronos; tornara-se uma conflagração que sacudia os alicerces da Europa. No terceiro dia de combates, quando o aço inglês e francês parecia prestes a estilhaçar sob a pressão numérica da Espanha, o horizonte ao norte se transformou. Navios de casco robusto e velas pesadas romperam a neblina. A Escócia trazia seus montanheses ferozes, a Irlanda seus guerreiros de sangue indomável e a Noruega seus lobos do mar, cujos ancestrais haviam ensinado o mundo a temer o oceano.

​No acampamento fortificado na costa, a exaustão era visível. Homens de diferentes línguas e estandartes compartilhavam o pouco que restava de ração e vinho. O General Thomas, marido de Camilly, caminhava entre as fileiras com a armadura amassada. Ele, que começara como um simples guarda, agora comandava a linha de frente com uma bravura que fazia até Edmund respeitá-lo. Thomas era o elo entre a nobreza e os soldados, o homem que mantinha a esperança viva quando o cansaço ameaçava derrubar as espadas.

​Enquanto isso, a quilômetros dali, no alto de um palácio fortificado na costa francesa, as mulheres da dinastia aguardavam. Sabrina, Selene, Alycia, Kristine e Camilly formavam um conselho de vigília. Elas olhavam para o leste, onde clarões de fogo cortavam o céu noturno e o som surdo das explosões de canhão chegava como batidas de um coração moribundo.

​— O chão treme mais forte esta noite — sussurrou Camilly, apertando as mãos contra o peito. — Thomas disse que os espanhóis não recuariam enquanto tivessem um único navio flutuando.

​— Thomas é um leão — Selene respondeu, colocando a mão sobre o ombro da cunhada. — E ele não está sozinho. Edward, Charles e Arthur estão com ele. Eles têm o mundo inteiro às costas agora.

​Kristine permanecia junto à janela, a mão repousando sobre o ventre que carregava o herdeiro daquela união sangrenta. Ela não chorava; seus olhos estavam fixos nas chamas distantes. Sabrina, a Rainha Mãe, observava a neta com uma admiração silenciosa. Ela sabia que aquela criança estava sendo batizada pelo fogo antes mesmo de nascer.

​No campo de batalha, o segundo dia de guerra finalmente chegava ao fim com um silêncio perturbador. Os homens, cobertos de fuligem e sangue, desabavam onde estavam. Arthur sentou-se sobre um barril de pólvora vazio, limpando o rosto com um pano sujo. Edward e Edmund aproximaram-se, sentando-se ao lado do príncipe. Não havia mais insultos ou brigas de ego; a guerra os tornara iguais.

​— A Escócia e a Noruega seguraram o flanco direito — disse Edward, a voz rouca. — Mas Filipe ainda tem a reserva da armada.

​— Que ele venha — Edmund murmurou, bebendo um pouco de água. — Nunca achei que morreria lutando ao lado de um Tudor, mas se for para cair, que seja com o mundo sabendo que não nos curvamos.

​Charles, o mais velho de todos, apareceu entre eles, sorrindo apesar de um corte na testa. — Ninguém vai cair hoje. Olhem ao redor. Irlandeses, escoceses, noruegueses... todos dormindo sob o mesmo céu para proteger o que construímos.

​O descanso era breve, uma trégua necessária para os pulmões e para a alma. Enquanto o acampamento mergulhava em um sono inquieto, a promessa do terceiro dia pairava no ar. A guerra estava longe de terminar, mas pela primeira vez em séculos, o Norte estava unido contra a tirania. No palácio, as mulheres mantinham as velas acesas, uma luz de guia para os homens que lutavam para que o amanhã ainda tivesse um rei.