Razão ou Coração livro 4: Arthur e Kristine
9 : O Veneno da Serpente e o Julgamento de Ferro
O silêncio que se instalou em Whitehall após a partida de Kristine era pesado, como o ar antes de um desabamento. Arthur estava confinado em seus aposentos por ordem do Rei, mas o verdadeiro perigo não vinha da rebeldia do príncipe, e sim da cobra que ainda rastejava livre pelos corredores.
Selene não era mulher de aceitar a derrota sem antes revirar cada pedra do palácio. Enquanto Edward tentava acalmar os ânimos do Conselho Real, ela se isolou em seus aposentos com Charles. O velho Tudor, com seus anos de experiência em intrigas, trouxe a peça que faltava no quebra-cabeça: um dos criados de Lorde Julian fora visto saindo da embaixada espanhola horas antes da explosão de Edmund.
— Ele não apenas traiu a coroa, Selene — Charles disse, a voz gélida. — Ele traiu o sangue. Ele usou o amor de dois jovens para provocar uma guerra que o beneficiaria.
Selene levantou-se, seus olhos azuis faiscando com o mesmo fogo que outrora desafiara o exílio.
— Edward pode estar preso à diplomacia, mas eu não estou. Se Julian queria um escândalo, ele terá um que jamais esquecerá.
Naquela mesma noite, Lorde Julian foi convocado a uma reunião privada na ala leste do castelo. Ele entrou no salão com a arrogância de quem acreditava ter vencido a partida. Mas, ao cruzar o umbral, não encontrou um banquete ou um conselho. Encontrou Edward sentado nas sombras, com a coroa de ferro sobre a mesa, e Selene de pé, segurando o pergaminho que provava a comunicação secreta com a Espanha.
— Você achou que as paredes de Whitehall não tinham ouvidos, Julian? — Edward começou, sua voz saindo como o estalar de um chicote.
— Majestade, eu apenas prezei pela segurança do reino contra uma aliança francesa duvidosa... — Julian tentou, mas o olhar de Selene o calou.
— Você não preza por nada além da sua própria ganância — Selene aproximou-se, a luz das velas revelando a fúria em seu rosto. — Você vendeu o segredo do herdeiro do trono para uma nação estrangeira. Isso tem um nome em todos os reinos do mundo: Alta Traição.
Edward levantou-se, e a aura do "Rei de Ferro" que ele tentara suavizar nos últimos anos retornou com força total.
— Você pretendia desonrar a minha neta e destruir o meu filho. Por menos que isso, homens foram pendurados nas muralhas de Londres.
— Vocês não podem me tocar! — Julian gritou, o pânico começando a surgir. — Meu pai controla as rotas do Norte!
— Seu pai já recebeu a notícia de que seus bens foram confiscados pela coroa até que sua lealdade seja provada — Selene sentenciou, entregando o pergaminho ao capitão da guarda que surgiu das sombras. — Você não será um mártir, Julian. Você será uma lição.
A lição foi rápida e impiedosa. Julian foi despojado de seus títulos e propriedades, sendo arrastado para as masmorras sob a acusação de espionagem. Mas a vingança de Selene não parou por aí. Ela fez questão de que a notícia da traição de Julian chegasse aos ouvidos de Edmund antes que ele alcançasse a costa francesa.
Ao descobrir que sua fúria fora manipulada por um traidor inglês vendido à Espanha, a mente de Edmund começou a vacilar. O sacrifício de Kristine, que antes parecia um dever, agora começava a arder em sua consciência como uma injustiça.
Enquanto isso, em seus aposentos, Arthur recebia de sua mãe a pequena pedra de rio que Kristine deixara para trás.
— O caminho está livre de traidores agora, meu filho — Selene disse, tocando o rosto dele. — Mas a batalha por Kristine agora será travada no coração do seu tio. Prepare-se. O próximo movimento não será com espadas, mas com a verdade.
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