Razão ou Coração livro 2
3 O Sacrifício da Rosa Ruiva
Os meses que se seguiram à chegada da corte foram marcados por um inverno rigoroso e um silêncio ensurdecedor entre o Rei e a dama de companhia. Edward mergulhou nos preparativos da coroação e nas exigências diplomáticas de Katherine, que, percebendo a ameaça, fazia questão de exibir Edward como um troféu em todos os bailes.
Edward e Isabelle tornaram-se mestres na arte de habitar o mesmo ambiente sem se tocarem. No entanto, o que começou como uma faísca de atração transformou-se em uma gravidade inevitável. Cada olhar cruzado por cima de uma taça de vinho ou cada vez que suas vestes se roçavam nos corredores estreitos de Whitehall parecia um grito de socorro.
Isabelle, porém, tinha a astúcia de Sabrina correndo em seus aprendizados. Ela via o sofrimento de Edward e a fúria contida de Katherine. Ela sabia que, se permanecesse ali como uma tentação, o império ruiria antes mesmo da coroação.
Em uma tarde de névoa densa, Isabelle solicitou uma audiência privada com Charles e Sabrina nos jardins de inverno. Ela não usava as sedas finas da corte, mas um vestido de lã escura que realçava a brancura de sua pele e o fogo de seus cabelos ruivos, agora presos com firmeza.
Sabrina a recebeu com um olhar que misturava alívio e tristeza. Ela sabia o que estava por vir.
— Meus soberanos — Isabelle começou, sua voz firme apesar do tremor em suas mãos. — Eu observei o Rei. Eu vi o peso que ele carrega e a sombra que eu represento em seu caminho. Edward é um homem justo, mas o coração dele é teimoso como o de um lobo.
Charles, encostado em uma coluna de mármore, observava-a com um respeito silencioso.
— Eu não serei o motivo da queda da casa Tudor — continuou Isabelle, olhando nos olhos de Sabrina. — Por isso, peço que exerçam sua autoridade sobre mim. Arrumem-me um casamento. Um nobre de York, um aliado de confiança... qualquer homem que me leve para longe de Londres e dê a Edward a paz necessária para se casar com a russa.
A Dor da Duquesa
Sabrina aproximou-se e segurou o rosto de Isabelle. Por um momento, não era a Duquesa calculista, mas a mulher que via em Isabelle o seu próprio passado de sacrifícios.
— Você tem certeza disso, minha querida? — sussurrou Sabrina. — Uma vez assinado o contrato, não haverá volta. Edward nunca perdoará a mim por permitir isso, e talvez nunca perdoe a você por sugerir.
— Ele não precisa me perdoar — Isabelle respondeu, uma lágrima solitária escapando. — Ele precisa reinar.
O Candidato de York
Charles deu um passo à frente, sua voz ruidosa ecoando pelo jardim.
— Se é isso que deseja para proteger o meu filho, eu tenho um nome. O Conde de Richmond, Lorde Thomas. Ele é um homem de honra, leal a York e tem terras vastas no norte. Ele está em Londres para a coroação e já demonstrou interesse em encontrar uma esposa que tenha a coragem necessária para as terras frias.
Isabelle sentiu o peito apertar. Thomas era um homem bom, mas ele não era Edward.
— Que assim seja — disse Isabelle. — Anunciem o noivado no baile de amanhã. Façam com que pareça um desejo meu, uma escolha por ambição e segurança. Que Edward me odeie se for preciso, contanto que ele suba naquele altar com a razão.
O Flagrante de Alycia
O que eles não sabiam era que, atrás das sebes altas do jardim, a jovem Alycia Tudor ouvira tudo. A princesa de 16 anos, que sempre fora a maior defensora do amor do irmão, ficou paralisada. Ela viu Isabelle se afastar com os ombros curvados e viu seus pais trocarem um olhar de puro peso político.
Alycia correu pelos corredores do palácio, seu coração batendo forte contra as costelas. Ela encontrou Edward em seu gabinete, analisando mapas de fronteira com uma expressão exausta.
— Edward! — ela entrou sem anunciar, fechando a porta com estrondo. — Você precisa agir agora! Eles estão vendendo a Isabelle! Ela pediu para se casar com Richmond para fugir de você!
Edward levantou-se tão rápido que a tinta do tinteiro respingou sobre o mapa da Rússia.
— O que você disse, Alycia? — a voz de Edward saiu como um rosnado, o lobo de York despertando sob a casaca de seda.
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