Razão ou Coração

8 :O Baile das Sombras e das Alianças


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​O Palácio de Tudor estava envolto em uma atmosfera de opulência e conspiração. Velas de cera de abelha, aos milhares, criavam uma névoa dourada no Salão Principal, onde a nobreza se espremia para testemunhar o noivado oficial do Príncipe Alexander com a Princesa Virgínia. Mas o verdadeiro assunto dos sussurros, escondidos atrás de leques de seda, era o retorno de Charles e o destino da pupila do Rei.

​Charles estava encostado em uma pilastra de mármore, uma taça de vinho na mão e o tédio estampado no rosto. Ele usava um gibão de veludo negro com bordados em fio de prata que realçavam sua estatura imponente e a largura de seus ombros. Ele ignorava as investidas de várias damas que passavam, lançando-lhe olhares sugestivos. Seus olhos varriam a entrada do salão constantemente, uma inquietação que ele se recusava a admitir como expectativa.

​— Você parece um homem esperando o carrasco, meu tio — Alexander aproximou-se, elegantemente vestido em tons de azul e dourado, acompanhado por uma Virgínia Stanford que parecia uma estátua de gelo esculpida.

​— E não estou? — Charles rebateu, tomando um gole generoso. — Seu pai vai colocar a corda no meu pescoço diante de toda a Inglaterra em menos de uma hora.

​— Pelo menos a corda é feita de seda e vem acompanhada da mulher mais cobiçada da corte — provocou Alexander com um sorriso travesso.

​Antes que Charles pudesse responder, as trombetas soaram. O mestre de cerimônias bateu o bastão no chão três vezes.

​— Sua Alteza Real, a Princesa Camilly Tudor e a Senhorita Sabrina Drake!

​O salão mergulhou em um silêncio reverencial. Camilly entrou primeiro, radiante em amarelo, mas foi a figura ao lado dela que roubou o fôlego da corte.

​Sabrina não viera vestida como uma órfã protegida, mas como uma soberana. O vestido era de um carmesim profundo, a cor do sangue e do poder, com um decote quadrado que realçava seu pescoço longo e a pele de alabastro. Seus cabelos loiros estavam presos em um penteado complexo, adornado com rubis que brilhavam como brasas. Ela não caminhava; ela deslizava, o rosto mantido em uma máscara de serenidade absoluta, os lábios pintados com um vermelho desafiador.

​Charles sentiu o ar escapar de seus pulmões. A taça de vinho em sua mão inclinou-se perigosamente. Ele esperava uma menina emburrada ou uma jovem em prantos. O que ele viu foi uma mulher que exalava uma confiança gélida, uma beleza que não pedia permissão para existir.

​— Pelos deuses... — murmurou Charles, a voz rouca.

​Sabrina sentia o peso de cada olhar, mas manteve o foco no trono, onde o Rei William a observava com aprovação. Quando ela passou por Charles, não desviou o rosto, mas também não parou. Apenas o cheiro de seu perfume — algo como sândalo e jasmim noturno — o atingiu, deixando um rastro de perturbação no ar.

​O Rei William levantou-se. O salão silenciou.

​— Hoje celebramos o futuro do meu herdeiro, Alexander. Mas a estabilidade de um reino não se faz apenas com o herdeiro, mas com a união de toda a família — William olhou diretamente para o irmão. — É com imensa satisfação que anuncio o noivado de meu irmão, Lorde Charles Tudor, com minha amada pupila, Sabrina Drake. Que esta união traga a paz que nosso sangue exige.

​Aplausos educados, porém carregados de choque, ecoaram. Charles caminhou até o centro do salão, como o protocolo exigia. Ele estendeu a mão para Sabrina.

​O toque foi como um choque elétrico. Quando a mão enluvada de Sabrina pousou na dele, ele sentiu que ela estava fria como gelo, apesar do fogo que queimava em seus olhos.

​— Você está tentando me matar antes do altar, Sabrina? — ele sussurrou, enquanto a música começava para a dança oficial dos noivos.

​— Estou apenas mostrando o que você nunca terá, Charles — ela respondeu, mantendo o sorriso mecânico para a plateia enquanto ele a conduzia pela pista.

​Eles começaram a dançar. Charles a segurava pela cintura com uma firmeza que beirava a posse. Ele a girava com uma habilidade que denunciava seus anos nas cortes europeias, mas Sabrina acompanhava cada passo com uma leveza que o irritava.

​— Esse vestido é um convite ao pecado — ele murmurou perto do ouvido dela, sua respiração quente contra o pescoço dela. — Você quer que todos saibam o que eu ganhei, ou está apenas tentando me provocar?

​— Eu me vesti para mim mesma, não para você — ela rebateu, olhando-o nos olhos sem vacilar. — Quero que você saiba que, embora possa ter o meu nome em um contrato, você nunca terá a minha vontade. Olhe para todos esses homens nos observando, Charles. Eles invejam você agora. Mas eles não sabem que você está levando para casa uma tempestade, não uma esposa.

​— Eu sempre gostei de tempestades, Sabrina — ele disse, apertando-a um pouco mais contra si, desafiando a etiqueta. — O problema das tempestades é que elas eventualmente se acalmam. E eu tenho toda a paciência do mundo para ver você se render.

​— Então você vai morrer esperando — ela sorriu, um sorriso que foi capturado por um pintor da corte próximo, mas que Charles sentiu como uma adaga.

​A dança terminou, mas nenhum dos dois soltou a mão do outro imediatamente. Por um breve segundo, em meio aos aplausos e ao brilho das velas, o ódio entre eles pareceu se fundir com algo muito mais perigoso: uma admiração mútua e indomável.

​Sabrina soltou-se bruscamente, fez uma reverência perfeita e se afastou em direção a Camilly, deixando Charles parado no meio do salão, com o coração batendo em um ritmo que ele não conseguia mais ignorar. O Lobo estava encurralado, sim, mas agora ele começava a desejar a própria jaula.