Razão ou Coração

1 Capítulo 1: O Retorno do Lobo



​O Salão de Cristal estava mergulhado em um mar de sedas coloridas e o aroma doce de jasmim e cera de abelha. Para Sabrina Drake, de apenas 17 anos, o baile de recepção para a comitiva norueguesa — que trazia a noiva de Alexander, a Princesa Virgínia — deveria ser apenas mais uma noite de etiqueta rigorosa.

​Ao lado de Camilly, sua amiga e filha do Rei, Sabrina tentava manter a postura, embora o espartilho parecesse apertar um pouco mais a cada vez que ela via o Rei William, com seus imponentes 50 anos, observar o salão como um falcão.

​— Alexander parece um pouco nervoso, não acha? — Camilly sussurrou, indicando o irmão de 19 anos, que tentava manter uma conversa polida com a loira e gélida Virgínia Stanford.

​— Ele carrega o peso de um reino nos ombros, Camilly. Como todos nós — respondeu Sabrina, ajustando a renda de seu vestido.

​De repente, a música parou. Um silêncio súbito, como uma lufada de ar frio, percorreu o salão. As portas duplas de carvalho foram abertas com um estrondo que não condizia com a delicadeza da noite.

​No topo da escadaria, surgiu uma figura que parecia ter saído das sombras das tavernas e dos campos de batalha para a luz da nobreza. Charles Tudor.

​Ele não vestia as cores tradicionais da família com o devido rigor. A camisa branca estava levemente aberta no pescoço, revelando a pele bronzeada, e seu olhar varreu o ambiente com uma arrogância encantadora. Aos 32 anos, ele não era mais o jovem problemático que o Rei enviara para longe; ele era um homem em sua plenitude, com um sorriso de lado que já havia partido corações em três continentes.

​— Dez anos... — murmurou a Rainha Genevieve, sua voz um misto de surpresa e apreensão ao lado do marido.

​Charles desceu os degraus com uma graça felina. Ele ignorou os sussurros e os leques que se agitavam freneticamente. Seu objetivo era o trono, onde seu irmão o esperava com o rosto rígido.

​No entanto, no meio do caminho, seus olhos pararam.

​Ele fixou o olhar em Sabrina. Ela era a "pequena pupila" que ele mal lembrava, agora transformada em uma jovem de beleza serena e olhos que pareciam gritar por liberdade. Sabrina sentiu o sangue fugir do rosto. A razão lhe dizia para desviar o olhar, para se esconder atrás da sombra de Camilly. Mas seu coração, pela primeira vez em dez anos de corte, deu um salto descompassado.

​Charles inclinou a cabeça brevemente na direção dela antes de chegar ao Rei.

​— Irmão — a voz de Charles era um barítono profundo que ecoou pelo salão. — Espero que ainda haja um lugar na mesa para o filho bastardo. Ouvi dizer que a festa está apenas começando.

​O Rei William estreitou os olhos, a tensão entre os dois irmãos era quase palpável. O retorno de Charles não era apenas uma visita familiar; era um desafio ao equilíbrio perfeito que Sabrina chamava de vida.