Rastro de Uma Explosão
1 Eu vejo estrelas
Notas iniciais
O clima estava quieto naquela noite, com ventos moderadamente fortes e gélidos que, a cada sopro lançado, arrepiavam dos pés à cabeça quem passeava por ali. E, tarde como já era, Spencer se viu pensativa enquanto andava pela rua, enrolada em seu sobretudo e agarrada ao próprio corpo para se livrar do frio. Mas, claro, havia falhado nessa missão.
Quando virou na esquina seguinte, passou a se perguntar os reais motivos de caminhar naquela hora, naquele frio. Que sentido fazia? Fora aprovada em NYU(New York University) recentemente, deixaria Rosewood no próximo final de semana e sua festa de despedida estava, provavelmente, parada naquele exato momento justamente porque a anfitriã não se encontrava lá. É claro, Spencer era do tipo de garota que não negaria em momento algum uma festa para exaltar suas qualidades. Mas, daquele jeito, nada parecia ser como era antes. Encarando os fatos como um todo, agora, que o “fim” se aproximava, já não parecia mais tão simples levantar, pegar as malas e fugir.
Tudo o que havia vivido desde a suposta morte de Ali, e até mesmo desde antes disso: Ian, Wren, Alex, Toby, mortes, choros, sequestros, alegrias, A… Um turbilhão de coisas que não têm o baixo cacife de serem chamadas para sentimentos. As experiências que havia adquirido, dentre elas, boas e ruins, a faziam pensar em voltar atrás na sua decisão de ir embora. Mas os pontos chatos pareciam superar as coisas legais, de todo modo. E isso a entristecia por demais.
Mais alguns quarteirões andados, chutando pedrinhas e, de tempo em tempo, se perdendo na luz do luar que, por sinal, estava incrível naquela noite. Perdia-se ao tentar contar estrelas, pensando em como o que ela via era apenas o rastro de uma explosão, acontecido há tempos, mas que, agora, exalava beleza, proporcionando maravilhosos espetáculos todas as noites. Incrível! Maravilhou-se mais ainda quando, de repente, parou em frente a uma casa muito bem conhecida por ela. Cada canto, cada louça, cada cômodo, cada lençol, cada cheiro… Mas só um cheiro a hipnotizava, a fazia perder as estribeiras.
Deu alguns passos até que ficasse bem próxima daquela residência, observando atentamente as luzes das três janelas frontais do andar de cima. Apagada. Apagada. Acesa. Ótimo! Era tudo o que ela esperava encontrar. Sorriu suavemente ao lembrar das tantas vezes que chegou lá, observou tudo da mesma forma e muitas felicidades se concretizaram depois de escalar algumas grades e tubulações. Era incrível como, mesmo que suas saídas e entradas fossem autorizadas até no fim do mundo, o perigo esquentava o momento, e a travessura tornava as coisas menos tensas e mais divertidas. Era apenas incrível.
Após contemplar mais alguns minutos a luz da janela contrastando com a escuridão do resto da casa, Spencer depositou as mãos na primeira grade e, habilmente, escalou por entre galhos, tubulações e outras coisas mais até conseguir chegar na varanda do cômodo em questão. Aproximou-se vagarosamente das portas de vidro e observou atentamente a pessoa que jazia lá dentro. Olhou, admirou, suspirou, sorriu. Chorou, sim, chorou. Rapidamente, não podia fazer barulho algum. Ninguém sabia de sua presença ali.
Encostou-se ao lado da porta, tentando se esconder quando foram até lá, por dentro, para encarar a noite. A porta foi aberta e o aroma interno mostrou seu valor ao mundo de fora. Inclusive para Spencer. A pele alva coberta apenas por um cardigã azul-marinho e uma calça de flanela com estampa de ursinho quase brilhava sob o luar; os cabelos presos num coque mal feito voando com a ventania e levando alguns suspiros entrecortados pelo caminho; os olhos levemente marejados e vidrados no horizonte.
Aquela imagem parecia tão utópica e livre de imperfeições que Spencer não pôde deixar de sentir seu coração palpitar fortemente, intensamente. Observou que os suspiros haviam se transformado em fungadas e, após isso, soluços graduais de choro. Seu coração, cortado e amargurado. Ela sabia, é claro que ela sabia o porquê daquela tristeza. E sabia muito bem, diga-se de passagem. Mas que coragem ela tinha de ir até lá e abraçá-la, reconfortá-la? Aliás, que direito ela tinha de estar ali, depois de tudo o que havia acontecido. De fato, o que havia acontecido? Nada. Talvez, menos que isso. Noites em claro, conversando sobre a vida, agarradas e entrelaçadas, esquentando-se sem dó ou pudor. Não, nunca aconteceu nada. Um beijo, um toque… Nunca. Nada. E por que essa dor, ué? A dor de nunca ter dito nada, mesmo sabendo de tudo. A dor de nunca ter feito nada, mesmo querendo tudo. A dor de nunca ter amado, mesmo amando tudo.
— Aria — a voz saiu falha, quase imperceptível, mas o vento se encarregou de levar sua “impotência” até os ouvidos da garota.
E, como num repente, cada onda sonora da voz de Spencer percorria o ser de Aria por inteiro, fazendo-a enrijecer completamente, e cada pelo de seu corpo levantar. Seus olhos cheios de lágrima, arregalados em surpresa tornaram lentamente para a garota na varanda.
— S-spencer... — não mediu suas forças, nem as consequências e, menos ainda, suas vontades ao correr em direção a amiga e abraçá-la desesperadamente. O frio que antes corroía os corpos de ambas, agora, era afastado pelo calor transmitido entre seus seres. O que poderia ser levado em consideração naquele momento? Estavam juntas, por fim. Abraçadas, por fim. Como sempre, juntas. As mãos geladas de Spencer, levemente úmidas, apertavam o corpinho de Aria contra o seu como se tentasse fundir seus corpos num só. Mas, na verdade, aquilo seria apenas uma decisão física, pois, bem antes disso, suas almas já estavam trancafiadas uma na outra. Seus corações já se pertenciam e nada mudaria isso.
— Me desculpe, — afastou-se vagarosamente — mas eu não poderia dar uma festa sem você. — continuou enquanto limpava as lágrimas do rosto de Aria.
— Eu que te devo desculpas. Nem dei as caras por lá. — encostou-se no ombro de Spencer — Não conseguiria encarar aquilo como uma última vez.
— Não encare! — disse, fazendo-a voltar a olhá-la surpresa — Vamos, venha comigo! Será incrível, você verá!
— M-mas, Spe-
Seus lábios foram calados, rapidamente, pelos de Spencer. Uma surpresa maior ainda. Quando, em que momento, em que situação ela se imaginou sendo beijada pela melhor amiga numa situação como aquela? Para falar a verdade, o tempo todo. Todos os dias um sonho diferente. E, justo hoje, isso não mudaria. Era como num daqueles “romances-porcaria” em que o herói chega no último segundo para salvar a mocinha da tristeza infinita, meio Adrião e Maria da Piedade em “No Moinho”, de Machado de Assis. Só que, diferente de Adrião, que era um pervertido inconsequente, Spencer era seu príncipe num cavalo-branco, que surgiu para salvar sua pequena da depressão de viver longe do amor.
Então, logo a língua da mais alta pediu passagem para aprofundar o beijo(Que porcaria de clichê, eu sei. Trabalharei em outras descrições) que, prontamente, foi concedida. Era doce e suave, mas, ao mesmo tempo, quente e voraz. Houve uma compilação de sentimentos apedrejados, enterrados, escondidos, não revelados para, então, surgir uma implosão de restrições e um Big Bang de felicidade. O riso era livre naquela hora. O sorriso era tudo.
— Eu posso te dizer que esperei tanto que o tempo falasse por mim coisas que eu não sabia dizer olhando pra você e, entenda, ainda não sei. — riram — Mas não posso mais me conter. Estou num momento decisivo da vida. Quero que você compreenda que não posso desistir de NYU, mas também não quero me afastar de todos. Não quero ficar um segundo longe de você.
— Você promete que nunca vai me deixar? — perguntou serena.
— Mas claro! Eu não pensarei em mais nada quando estiver voltando para casa. Jamais te deixaria, entenda!
Alguns segundos de silêncio tomaram conta do ambiente e a insegurança de Aria constrangia e assustava Spencer. E se ela dissesse não, apesar de tudo? E se aquilo fosse só um teste, sei lá? Se ela só estivesse “experimentando” Spencer, como seria? Então, para a alegria do povo e bem geral da nação, Aria lançou-se novamente contra os lábios da amiga. Um beijo mais calmo, mais cheio de respostas do que o anterior. Mas o que dizia, afinal? Um grande sim, cheio de felicidade e certeza? Ou um baita não, com muito pesar e chateação?
— E se eu disser que te amo, você vai me corresponder? — afastou-se vagarosamente, encarando os olhos castanhos de Spencer de modo que nunca havia feito antes.
— Pro resto dos meus dias, eu também te amo.
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