Raspão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Poxa, como ela tava linda.
O tempo não passou mesmo pra ela
Mudou o corte do cabelo, mas as covinhas do sorriso
Continua o charme dela
Ouviu a campainha tocar enquanto colocava os pratos na mesa. Soltou um suspiro preparatório fechando os olhos. A voz animada de Orihime veio da cozinha:
— Ichigo-kun, pode abrir a porta, por favor? Estou terminando a sobremesa.
— Certo. — respondeu posicionando o último prato.
Seguiu a passos lentos em direção a porta da clínica. Não era a primeira vez que passava por aquela situação, ainda assim seria mentira se dissesse que tinha se acostumado.
Abriu a porta com seu melhor sorriso treinado.
— E aí!
— Oi! — foi Rukia quem disse sorrindo também.
O cabelo estava maior mas a expressão e os olhos travessos continuavam iguais. Usava um vestido amarelo, do mesmo tom do pijama que ela havia afanado de Yuzu anos atrás. Tão nostálgico...
Renji estava ao seu lado. Os braços cruzados na altura do peito, esboçando um sorriso.
— Bom, vamos entrando. — disse Ichigo afastando-se um pouco da porta — Orihime está na cozinha.
— Não me diga que foi ela que fez o almoço. — Renji sussurrou puxando o amigo para o lado. Rukia seguiu para o cômodo informado a fim de cumprimentar a dona da casa e amiga. O Kurosaki evitou segui-la com os olhos; sentia uma estranha satisfação ao vê-la tão á vontade em sua casa.
— Não se preocupe, Renji. — respondeu levantando as mãos em sinal de paz — Eu fiz o almoço, ela ficou com a sobremesa.
O suspiro do Abarai foi mais do que de alívio.
— Abarai-kun, como vai? — escutaram a voz de Orihime perto e suaram frio; ela colocava a mesa junto com Rukia e seu sorriso encantador denunciava que não tinha ouvido nada. Falar de sua culinária era um tabu. — Sentem-se, por favor. O almoço está servido.
Só aquele cara estranho
No lugar que era meu
Beijando a boca que era minha
Não conseguia se controlar, ainda que sentisse que explodiria se olhasse de novo. Toda vez que Renji se aproximava da boca de Rukia, Ichigo o encarava disfarçada e ameaçadoramente. Ainda que fosse uma ameaça velada, inútil.
Tinham marcado aquele almoço por razões especiais, tanto a Kuchiki, quanto Inoue tinham uma grande novidade para contar. O ruivo ficava sinceramente feliz pela presença dos amigos, por terem se deslocado da Soul Society afim de escutar a novidade – que também o deixava radiante – e que em breve seria contada, mas estava prestes a surtar com toda aquela beijação que o Abarai fazia questão de demonstrar.
Aquela boca, pensou encarando os lábios livres da morena. Aquela boca já tinha sido sua. Mesmo que ali, naquela mesa, só quem sabia realmente disso fosse ele e a mulher beijada.
Seus cônjuges desconfiavam, claro. Todo mundo desconfiava, mas ninguém tinha como provar nada. Isso porquê, desde o começo, Ichigo e Rukia nunca assumiram, nem denominaram o que estavam sentindo um pelo outro. Se, por um acaso, uma atitude demonstrasse algo diferente de amizade, o Kurosaki diria que a Kuchiki era também mais que uma amiga; era uma companheira e quase uma sensei – o que ela foi, de fato, em áreas longe da área espiritual. Sabiam que não poderiam falar sobre isso com ninguém. Grande parte, por causa das represálias que sofreriam e outra, por que só tornaria mais difícil quando tudo tivesse que acabar.
Porquê uma hora acabaria. Não poderiam ficar juntos, era impossível, pertenciam a planos diferentes. Rukia repetia essa ladainha toda noite depois de fazer amor com Ichigo. Ele apenas revirava os olhos. Contudo, ter ciência disso não impediu o sentimento de crescer e muito menos o sofrimento quando a hora chegou.
— Então, e a novidade? — questionou por impulso quando viu mais um avanço de Renji. Passou os braços pelos ombros de Orihime sentada ao seu lado.
— Vocês primeiro. — Rukia respondeu olhando com intensidade nos olhos do ex-parceiro de cama. O garoto nem precisou perguntar para saber que ela já sabia do que se tratava.
Orihime olhou para o marido feliz e corada esperando que ele falasse. Coisa que Ichigo fez com orgulho e com um sorriso mal disfarçado. Honesto dessa vez:
— Estamos esperando uma criança.
A ruiva cobriu a boca para não dar um grito de felicidade. Abraçou os ombros do marido e beijou-o intensamente. Como um espelho, o Kurosaki sentiu o olhar da Kuchiki fixo na cena.
— Isso é incrível. — ouviu Renji dizer com um sorriso enorme. Agarrou a mão da esposa. — Rukia e eu também.
Ichigo pôde ver sua expressão nos olhos de Rukia, assim como ela pôde ver a sua nos olhos dele.
Foi de raspão, mas valeu
Foi no canto da boca
Voltei no tempo em que eu era seu, só seu
Nunca pensou que ficaria tão feliz ao ouvir a voz de Renji como ficou naquele momento:
— Rukia, temos que ir.
Depois das novidades reveladas, Ichigo ainda conseguiu disfarçar bem seu ânimo a ponto de comer sorridente a sobremesa que a esposa tinha feito – e que, na verdade, não estava tão estranha – e jogar cartas com Renji enquanto as grávidas conversavam sobre nomes de bebês, cores para os quartos e até mesmo sobre o futuro que desejavam para a pobre criança que nem tinha nascido ainda.
No fim, tinham passado uma tarde agradável, mas mais agradável foi a fala do Abarai pronto para partir. O Kurosaki queria, precisava de um tempo em silêncio, sozinho.
Orihime levantou do sofá pronta para acompanhá-los até a porta.
Se foi transmissão de pensamento ou um combinado silencioso feito anteriormente, jamais saberemos. O que sabemos é que Rukia disse que precisava beber água no exato instante em que Ichigo começou a lavar a louça.
— Eu conheço o caminho. — ela disse a Inoue e ao marido em tom de brincadeira — Podem ir na frente, eu alcanço vocês.
A senhora Kurosaki ainda olhou uma vez mais para trás, para o marido antes de se afastar com o Abarai parabenizando-o gentilmente.
Ichigo estava de costas, esfregando os pratos, mas sentiu a aproximação de Rukia com tamanha nitidez que o desconcertou.
— Ichigo. — ela disse baixo apoiando a mãozinha em seu ombro. O nomeado virou-se para encará-la e viu um sorriso lindo naqueles lábios que um dia o pertenceram — Estou feliz. Parabéns!
O ruivo permitiu que seus lábios imitassem os dela e sorriu.
— Obrigado. Para você também, Rukia.
— Tenho que ir agora. Cuide-se.
Notou a Kuchiki puxá-lo para mais perto pelo ombro e, como sempre, cedeu. Seu coração foi parar na garganta e seu corpo inteiro tremeu quando sentiu a boca dela encostar no canto da sua. Sua primeira reação foi a de choque, contudo tão acostumado e desejoso daquela presença quase a prendeu nos braços.
Antes que o fizesse, porém, ela se afastou despedindo-se, de costas, com um aceno.
O Kurosaki não terminou de lavar a louça aquela noite.
As mãos tremiam tanto que, com toda certeza, quebraria metade dos copos.
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