Raria - Sangue Por Vitória
1 1-Acordar do Leão
Notas iniciais
Verão do ano de 216 D.F. do Calendário Áureo (D.F.= Depois da Fundação do Império)
Os aposentos do Senador eram amplos e bem arejados,com paredes,teto de cúpula e colunas circulares de puro mármore branco,com jarros de plantas em prateleiras e nos cantos do cômodo.As grandes portas em forma de arcos que dominavam uma das paredes davam para uma ampla sacada,com vista para a gloriosa cidade de Alba,que parecia ter um brilho azul-escuro em seus prédios brancos sob o céu noturno iluminado pela lua cheia.Sua enorme cama com cobertores de linho se encontrava totalmente desorganizada após a noite inquieta e sem sono. Ele nunca havia ficado tão ansioso em relação à guerra, preferindo ficar na sacada observando o silêncio da cidade do que tentar em vão fechar os olhos deitado.
O pai do Senador Julius e do General Tulius, Cleos Bianco morreu sem ver o ápice da glória dos filhos. Ele fora um dos conselheiros do auto-proclamado ‘Imperador-Deus’,e um dos mais importantes conspiradores contra o monarca. Após sua queda do trono e a instalação do Senado como governo do Império, Cleos se tornou um dos mais prestigiados membros da sociedade de Alba, tornando fácil ajudar seus filhos a ascender na carreira política e militar. Entretanto a morte o tocou friamente quando começou a ter crises constantes e sangrentas de tosse, levando a sua morte súbita apenas dois anos antes de seus dois filhos chegarem aonde estavam.
Uma brisa refrescante atingiu a sacada, balançando levemente seus encaracolados cabelos dourados. Os olhos cor de mel do político se focavam na planície que se estendia além das muralhas de Alba, aonde uma procissão de luzes indicava que a legião de seu irmão se aproximava de casa. Seu rosto jovem e impecavelmente barbeado não deixava transparecer a grande ansiedade que ele sentia. O General Tulius preferia marchar com seus homens até os portões, ao invés de cavalgar à frente com seus oficiais, como qualquer comandante faria. Julius sempre apoiou a atitude do irmão mais velho com seus combatentes, mas esta noite ele queria que o irmão tivesse vindo à frente durante todo o trajeto.
Duas tímidas batidas foram ouvidas na porta do quarto de Tulius.
― Senador,o senhor está acordado? — disse uma voz baixa do outro lado – O Senhor me pediu para avisar quando os legionários começassem a chegar...
― Sim,estou! — Respondeu ele, com uma voz imponente.
A porta se abriu, e por ela entrou um homem de cerca de quarenta anos, com calvície avançada e trajando uma túnica de um tecido não tão nobre entrou nos aposentos do Senador.
― Me desculpe lhe incomodar, Senador Julius...- começou o servente.
― Eu lhe pedi que me incomodasse quando os legionários chegassem, Dano. Mas e meu irmão, vem marchando com os homens? Eles devem demorar chegar aos portões?
― O General Tulius veio a cavalo, senhor...chegou à cidade alguns minutos atrás,e pede para falar com o senhor assim que possível...
‘Se ele veio a cavalo e pede pra falar comigo,as notícias são excelentes ou terríveis.’ Entendeu Julius.
― Pode mandá-lo subir a meus aposentos, Dano.E mande os escravos me trazerem uma jarra de vinho e uma bandeja de frutas frescas, imediatamente para que eu receba meu irmão.
― Sim senhor, senador. — disse Dano, retirando-se do quarto com uma reverência.
Julius se sentou à pequena mesa com dois lugares em um dos cantos de seu amplo quarto, impaciente. Desde que o Senado fora instaurado em Alba, quatro anos antes, as rebeliões insurgidas por toda a Planície Áurea se tornaram freqüentes em apoio ao Imperador derrubado. Em três anos, onze tribos e cidades haviam se levantado contra o Senado de Alba. As respostas foram implacáveis. Das vinte legiões, cada uma em média com cinco mil soldados do Império Áureo, dez haviam sido mandadas em campanha pela Planície Áurea suprimindo as rebeliões, das quais seis estavam sob comando do General Tulius Bianco. Todas as notícias de guerra haviam sido positivas para o irmão, que massacrara sete líderes rebeldes sem dificuldades, ao passo que o General Colombo e suas quatro legiões chegou perto de ser derrotado pelo último levante a ele incumbido. Mas,no momento, as rebeliões pelo antigo imperador já haviam sido esquecidas por Julius. Agora, suas idéias iam das terras geladas além de Midgard a Atlantis. Iam da Arcádia aos desertos do Leste.
― Vejo que meu irmão caçula tem perdido a noção de auto-segurança que é esperada de um Senador. — disse uma grave voz à porta do quarto.
Julius levantou os olhos, para ver o General Tulius parado de pé. Sua barba se assemelhava a um monte de cor castanha de cabeça pra baixo, cobrindo seu pescoço e terminando em uma ponta bem aparada para não perder a forma. Seus impiedosos olhos de mel fitavam o irmão, sob as espessas sobrancelhas também castanhas (a direita com uma profunda cicatriz de guerra) e os longos caracóis castanho-claros que lhe caíam aos ombros. O General ainda trajava sua armadura dourada por cima das roupas de tecido vermelho e couro, e trazia nas mãos a bandeja de frutas e o jarro de vinho que Julius havia pedido ao servente.
― E meu irmão mais velho perdeu a noção de serventia,pois é Primeiro General das Legiões mas insiste em fazer o trabalho de meus empregados. — retrucou o Senador.
Um momento de tenso silêncio se instaurou entre os dois, até que o General Tulius ergueu uma sobrancelha, e os dois irmãos começaram a rir como faziam quando eram mais jovens. Tulius colocou o vinho e as frutas sobre a pequena mesa, enquanto Julius se levantava para abraçar o irmão. Eles não se viam a cerca de um ano e meio.
― Sinceramente, Tulius, a guerra te fez mal. Esse cabelo e barba crescidos te fazem parecer um artista de rua!
― Os senhores rebeldes do Império Áureo temem esse artista de rua como um coelho teme um lobo, Julius. — retrucou ele, sentando-se e servindo vinho em duas taças sem esperar seu anfitrião fazê-lo.
Os dois brindaram e tomaram um longo gole de vinho cada um. O general não parou até que sua taça estivesse completamente vazia, a seguir batendo-a com força na mesa. Seu irmão colocou-a calmamente no móvel, ainda metade cheia da bebida.
― Eu acho que preciso de uma cama macia com uma mulher logo, a marcha para Alba foi mais cansativa do que eu esperava. E depois que se prova da cerveja nas fronteiras de Midgard, vinho nenhum é capaz de deixar um homem bêbado, acredite em mim. Eu cavalguei à frente das minhas tropas por que sabia que temos algo a conversar antes que eu tenha meu merecido descanso, irmão. Ou estou errado?
Julius se levantou e trancou bem a porta de seus aposentos antes de se sentar novamente e responder ao irmão, em voz baixa.
― Não está. Eu espero que seus relatórios tenham sido específicos como eu lhe pedi antes de você sair em campanha pela planície, Tulius.
― Eu consegui o máximo que pude, e espero que seja tudo que você precisa. Mas eu te garanto, dois anos não foi tempo pra coletar poucas informações. Se quiser saber tudo dos cinco povos que eu pude saber, será uma leitura demorada.
― Isso não é problema pra mim, você sabe. Além do mais, apresentar todas estas informações ao Senado um dia após o retorno das legiões seria muito precipitado. É bom que haja um tempo pras coisas de acertarem e eu poder analisar bem todas as páginas. Mas a existência desses registros é secreta, eu espero?
― O livro está com meu pagem, que pensa que é uma coleção de mapas e registros de guerra. Quando acordar de manhã me certificarei de que o livro esteja na sua mesa de cabeceira sem que ninguém saiba demais, irmão.
Julius não pôde conter um sorriso de satisfação.
― Muito obrigado Tulius, você não sabe o quanto você...
― O que eu realmente não sei é por que você sempre me diz que estou ajudando algo maior, mas nunca me diz o que é, Julius! — interrompeu o General, com traços de irritação na voz — Faz dois anos que parti para as planícies pra dominar as rebeliões de homens que nem conhecem Alba mas juram marchar sobre ela, e todos os dias eu coletei informações sobre geografia, guerra, história, cultura e tudo que pude sobre os quatro cantos de Raria, e agora que finalmente estou de volta eu acho que seria justo pelo menos que eu soubesse quais são seus tão grandiosos planos!
O senador tomou um rápido gole de seu vinho e deu um longo suspiro antes de responder a seu irmão.
― Certo, eu fui injusto com você, Tulius. Diversas vezes nos últimos anos eu tenho tentado encontrar livros que me dêem informações precisas sobre todos esses aspectos dos cinco povos, mas os registros dos Midgarden são escassos, os dos Tuátha são incompletos, os Goraten imprecisos... Eu precisava de um registro de confiança quanto a isso, por isso me assegurei que o melhor general de Alba o fizesse. Parece que todos outros escritores são ignorantes ao ponto de esperar conhecer os quatro cantos do mundo sem tirar seus traseiros de Alba, por isso vi na sua campanha a oportunidade perfeita, general.
Os dedos encobertos pela luva de couro do líder de guerra se fecharam em torno de uma maçã na bandeja, a qual ele mordeu vorazmente enquanto escutava.
― Mas o propósito disso tudo... é o mesmo do imperador Leone Molto Primeiro, Tulius. Aquele que conquistou e unificou todas as tribos da Planície. — finalizou o Senador,com o sorriso de volta aos lábios.
O general terminou de mastigar e engolir um pedaço de maçã, e desviou os olhos da fruta para o irmão à sua frente.
― Conquistar todos os cinco povos? É isso que você quer?-o tom na sua voz parecia zombar da proposta.
― Basicamente, sim. — a resposta foi curta e direta,como se o plano fosse simples.
A risada do general ecoou por todo o quarto. Por um instante ele se engasgou com um pedaço de maçã, mas re recuperou rapidamente.
― Espero que no Senado eles não te incluam nas discussões de assuntos de guerra, Julius...você tem noção de qual é o contingente necessário para conquistar o norte, sul, leste e oeste?
― Por mais que não tenhamos o contingente pra tomá-los por batalha frontal, se usarmos as estratégias militares e políticas certas, poderíamos conquistá-los com meia dúzia de cavalos e dez espadas! Não precisamos ter o contingente necessário, contanto que façamos com que nossos inimigos nos temam o suficiente para se ajoelhar! Se lutarmos contra um de cada vez, teremos contingente suficiente para que os restantes se rendam mais facilmente ainda, sem contar situações como a guerra civil do norte, que os torna presas fáceis se conhecermos o terreno deles como eu espero conhecer com seus registros!
Julius parecia exultante com a estratégia. Parecia estar tão seguro daquilo como de que o sol nasceria. Mas Tulius sabia que, para um soldado, nem o nascer do sol era certo.
― Por este ponto de vista, talvez seja possível alguma conquista menor. Mas eu insisto que leia os registros antes de levar essa proposta pro senado ou para qualquer pessoa envolvida. Mas eu te aviso Julius, não tente abrir a boca pra falar em tomar os quatro cantos de Raria no Senado. Eu sei muito bem que há senadores que iam lhe conseguir uma bela adaga nas costas por levar adiante essa loucura. Estou lhe avisando, nosso pai se empenhou muito em te colocar aonde está, não arruíne isso dessa forma. — Tulius engoliu o restante da maçã, e se pôs de pé. — Bem, agora preciso de descanso. Sou um homem também, não uma maldita estátua de bronze...ou um senador. Amanhã leia o que puder de meus registros, e assim que pudermos conversaremos mais.
Julius também se levantou para receber mais um abraço do irmão.
― Tudo bem Tulius, começarei a ler assim que o livro chegar a minhas mãos. E tem minha palavra que nem sequer mancharei as obras de nosso pai em vida.
O general lhe presenteou um afetuoso sorriso antes de se despedir mais uma vez e sair dos aposentos do senador, em passos calmos. Julius ficou parado uns instantes ao lado da mesa, com o olhar fixo no cálice vazio. Então se dirigiu de novo à enorme sacada, para ver os primeiros raios de sol se levantando a Leste, na direção oposta da coluna de legionários que passava pelos portões de Alba. Era o nascer de um novo dia, e a grande cidade começava a se agitar por entre as paredes brancas das incontáveis construções. Muitos soldados abraçariam pela primeira vez seus filhos, ou os filhos de outros homens, julgando serem seu próprio sangue. Entretanto, muitas viúvas chorariam e muitos filhos jurariam vingança. Centenas se reuniriam para festas, enquanto outras se reuniriam para funerais de honra. Era o preço a se pagar pela coroa do Império Áureo. Embora ela não repousasse na cabeça de apenas um homem, Julius era um pedaço de um imperador de mármore branco e imponente. A sede do senado, que seu pai tanto trabalhara para instaurar. O senado que talvez ainda governaria os quatro cantos de Raria.
― Eu não vou destruir sua obra,pai.-disse Julius a si mesmo.-Eu vou estendê-la,mais e mais.De horizonte a horizonte,do céu à terra.Um dia,seus tataranetos poderão se nomear descendentes de heróis.Descendentes de deuses!
O senador já havia desistido de dormir.Havia muito a pensar,e mais ainda a fazer.A glória não viria até ele de graça.
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