Notas iniciais
Feliz Páscoa, queridos! Como vocês estão?

33 dias para o solstício — Olimpo

O Olimpo dormia tranquilamente nessa noite, claro tão tranquilamente quanto se podia dormir em tempos de guerra. Nos últimos dois dias seguidos haviam sofrido ataques incessantes de Lestrigões liderados por Céos o titã da inteligência, mas pela manhã finalmente conseguiram expulsá-los de vez. Pelo menos por enquanto.

Um freixo de luz podia ser visto na grande biblioteca olimpiana. As prateleiras eram gigantescas todas revestidas por livros, mapas e documentos antigos. Era dividida por sessões meticulosamente organizadas pela deusa que ali estava.

Já fazia horas que Atena estava organizando os relatórios que os soldados fizeram sobre os ataques dos dois últimos dias. Por ela mesmo estar na linha de batalha não tivera tempo de os organizá-los e agora que deveria estar descansando como os outros estava ali na biblioteca.

Quando finalmente passou a limpo o último relatório o colocou junto com os outros de acordo com a ordem alfabética. Atena suspirou cansada, se encostando na cadeira por alguns segundos de olhos fechados, antes de levantar e guardar o arquivo junto com os outros, estes organizados por ordem de data, na estante de guerra.

— Malditos sejam esses titãs — resmungou a deusa enquanto caminhava a outra extremidade da biblioteca.

Uma mesa de aproximadamente dois metros ilustrava o mapa do Olimpo, posicionados meticulosamente estavam os soldadinhos mostrando o plano tático de defesa e ataque. Com toda a paciência do mundo, Atena retirou grande parte dos soldados já que o ataque havia terminado, deixando apenas os da defesa básica. Suas mãos se moviam com rapidez e familiaridade sobre aquele grande tabuleiro.

— Atena.

A deusa se virou surpresa ao reconhecer a voz do irmão.

— Ares? Pensei que estivesse descansando.

O deus da guerra sorriu debochado, caminhando até ela. Aparentemente, ainda não havia tirado sua armadura que permanecia manchada de sangue da batalha mais cedo.

— E deixar você com toda diversão? — ele riu — Acho que não.

Atena deu um sorriso fraco, gostava do irmão apesar de seu machismo exagerado e pose de valentão. Por os dois serem deuses da guerra passavam grande parte do tempo juntos, claro Ares gostava mais da parte violenta evitando o quanto pudesse toda parte tática, mas como um bom general de guerra sabia que não podia menosprezá-la. Atena, obviamente supervalorizava a parte técnica, o que causava muita discussão entre os dois.

— Já acionou os alarmes? — perguntou Atena com a voz fraca e cansada.

— E todo o sistema defensivo — Ares puxou uma cadeira sentando ao lado dela.

— Se você está aqui, foi porque viu alguma coisa no radar — deduziu Atena torcendo internamente para que estivesse errada — O que é dessa vez?

— Dragões, uma porção deles- Ares tirou o capacete apoiando-o na mesa, enquanto coçava os olhos. Agora que ele se aproximara na luz, Atena viu que sua cabeça estava enfaixada.

— Quanto tempo temos? — sua testa se franziu olhando para o mapa, certamente já pensando nos posicionamentos.

— Umas três horas.

— Certo, colocamos os melhores arqueiros nessas três torres aqui, quero Apolo e Ártemis na linha de frente — começou a deusa apontando para o mapa e posicionando os bonequinhos que seguravam um arco e flecha. — E pelo menos duas catapultas com bolas de fogo grego em cada entrada, temos que abater o máximo possível no ar. O que aconteceu com a sua cabeça?

Ares concordou com ela, vendo os dedos de Atena agilmente posicionar os bonecos e miniaturas de catapultas.

— Certo, podemos mandar uma equipe tática com aquelas asas metálicas que Hefesto construiu mês passado para retardá-los. Eu estarei com os meus soldados na entrada principal — Ares acrescentou alguns soldadinhos segurando espadas, sob os olhos atenciosos de Atena — E eu bati a cabeça quando fui arremessado contra uma pilastra, fez um corte bem feio. E o seu braço?

— Vou estar com a outra tropa no flanco direito e vou colocar Hermes no flanco esquerdo- Atena posicionou mais alguns bonequinhos e vendo o olhar confuso de Ares em si, claramente achando desnecessário mais tropas, Atena explicou-se — Da última vez que Cronos mandou dragões foi só para nos cansar, uma hora depois tinha um exército de monstros subindo o Monte e estávamos completamente despreparados. Não vai acontecer de novo. E sobre o meu braço, eu estava do lado Oeste quando explodiu aquela bomba de fogo grego.

Atena mexeu desconfortavelmente o braço queimado, também tinha um rasgo na panturrilha e seu rosto estava repleto de pequenos arranhões. A deusa estava muito perto da explosão e acabou sendo arremessada o que explicava o corpo completamente dolorido e os machucados. Se ela não estivesse de armadura, com certeza teria todo o corpo queimado.

— Certo — Ares olhou satisfeito para organização que os dois tinham feito — Vou acordar Hefesto e pedir que reabasteça nosso estoque, daqui há meia hora vou soar o alarme e acordar os outros. Esteja pronta.

Atena assentiu e despediu-se de Ares, precisava urgentemente de um banho para relaxar mesmo que um pouco e cuidar dos próprios machucados ou não conseguiria colocar uma armadura.

Quando a deusa voltou até a mesa onde estava organizando os relatórios para apagar a luz, lembrou-se que Hermes tinha deixado o Expresso Olimpiano em cima de uma das poltronas para ela. Rapidamente a deusa o pegou, para ler mais tarde, caminhando em direção ao seu templo.

***

O Olimpo estava um caos. Como Atena imaginara, os dragões eram apenas para deixá-los cansados, algumas horas depois atacou um exército de lestrigões, cães infernais, dracaenaes, empousas e uma hidra gigantesca. Em sua liderança vinha Campe, a ninfa do Tártaro fiel serva de Cronos e Equidna, mãe de todos os monstros. A deusa da sabedoria jamais imaginaria uma ataque tão forte assim de repente.

Eles sabem que Zeus não está no Olimpo.

A deusa desintegrou mais um lestrigrão e guardou sua espada enquanto olhava ao seu redor para ver a situação. Os soldados lutavam bravamente contra todos os monstros malditos que haviam sido jogados em cima deles, alguns dragões ainda sobrevoam o céu cuspindo fogo, mas Ártemis os perseguia em sua carruagem prateada atirando flechas flamejantes em cima dos mesmos. Atena podia ver Ares lutando contra Equidna na entrada do Olimpo e imaginava que a Hidra estava no flanco esquerdo com Hermes. Apenas a dez metros de distância Campe se aproximava dela.

Atena estreitou os olhos, tirando a espada da bainha e erguendo o escudo. Campe era um monstro gigantesco, em sua cabeleira haviam serpentes sibilando, seu tronco feminino era revestido por grossas escamas e, da cintura para baixo, tinham mil víboras, partindo de sua barriga que cuspiam ácido e veneno. Campe tinha duas espadas compridas e afiadas, uma em cada mão, para proteger por completo suas víboras.

— FILHA DE ZEUS! — gritava enfurecida — QUERO SEU ICOR NO CHÃO ATÉ O FINAL DO DIA.

Vamos lá Atena, você não é a deusa da sabedoria atoa. Um ataque frontal seria estupidez, com certeza seria atingida com veneno, preciso me livrar das víboras. Mas como?

A deusa olhou ao seu redor novamente procurando qualquer coisa que pudesse usar. ISSO!

— ESTOU BEM AQUI, SUA COBRA NOJENTA — provocou a deusa, sorrindo satisfeita quando Campe avançou nela correndo completamente cega pela raiva.

Seis metros. Quatro metros. Dois metros. AGORA!

Com uma leveza e velocidade dignas de uma exímia lutadora, Atena deu um giro de trezentos e sessenta graus desviando por pouco da espada de Campe e a golpeando nas costas que rugiu em dor. Sem tempo a perder, a deusa aproveitou a distração momentânea de Campe para correr até o seu lado direito, onde tinha um barril de fogo grego. Pelo canto do olho, viu que o monstro estava bem atrás dela pronta para golpeá-la, Atena rapidamente arremessou o barril de fogo grego em direção a cabeça de Campe que por impulso ergueu as duas espadas para se proteger, deixando o caminho livre para as víboras. Atena utilizou o escudo para se proteger do veneno e com um gesto rápido cortou a cabeça das cobras.

— ARGHHHHHH — rugiu campe em fúria, enquanto Atena se afastava com um sorriso — MINHAS LINDAS VÍBORAS, FILHA DE ZEUS VOU ARRANCAR A SUA CABEÇA!

Atena fez uma careta ao ver o estado do seu escudo, o veneno havia aberto pequenos rombos nele que estavam se expandindo e antes que o corroesse por inteiro a deusa o jogou no chão.

— AÉ? QUE NEM EU FIZ COM AS SUAS COBRINHAS?

Eu preciso falar com Ares, esses monstros não param de aparecer. Tem alguma coisa errada.

— CUIDADO COM AS PROVOCAÇÕES FILHA DE ZEUS — Campe rodou as espadas se preparando para atacar — SOU MUITO MAIS PODEROSA DO QUE VOCÊ!

— VOU TE MANDAR DE NOVO PARA O TÁRTARO!

Campe a golpeou com uma espada e Atena a defendeu com facilidade, porém a deusa lembrou tarde demais que não tinha um escudo para defender a outra espada que a acertou em cheio na barriga fazendo-a voar alguns metros para trás. Sua cabeça bateu como um baque no chão e ela sentiu o icor escorrendo pela sua testa.

Di immortales, mas como sou estúpida! Eu preciso de um escudo agora.

A deusa fez força para se levantar, sentindo o corpo reclamar ainda dos machucados da última luta, fora a cabeça que parecia explodir. Pegou sua espada segundos antes de Campe a atingir novamente, dessa vez a deusa conseguiu bloquear as duas espadas se esquivando dela o mais rápido possível.

— DESISTA FILHA DE ZEUS!

Atena não lhe deu ouvidos, golpeou-a de novo no flanco direito e abaixou-se quando Campe tentou lhe golpear com a espada da esquerda. Aproveitando que estava abaixada Atena lhe deu uma rasteira fazendo-a cair no chão.

— APOLO! — a deusa olhou para cima vendo o irmão passar com a carruagem dourada — DIGA A HEFESTO QUE PRECISO DE UM ESCUDO, AGORA!

Atena praguejou por sua estupidez pela segunda vez quando novamente foi atingida dessa vez no braço esquerdo.

Nunca dê as costas ao inimigo. Sua própria voz ecoou em sua cabeça, já havia dito aquilo mais de um milhão de vezes para seus soldados e agora ela mesma se distraíra. A deusa foi parar no chão novamente, dessa vez ela sentiu algo contra suas costas. Com surpresa lembrou que tinha uma pequena faca encurvada escondida em sua armadura.

— VOCÊ ESTÁ BEM ATENA? — escutou Apolo gritar em meio aquela confusão.

— ANDA LOGO APOLO!

E logo estava de pé, com a espada em mãos enquanto observava Campe atentamente. Os olhos, cinzas e vermelhos, se encaravam com a mesma fúria e uma guerra silenciosa acontecia entre eles. Atena engoliu em seco sentindo a garganta arder, sua cabeça começava a pesar enquanto icor dourado escorria de sua testa e lábio inferior.

Preciso distraí-la, não posso lutar sem meu escudo é arriscado demais.

Dessa vez foi Atena que partiu para o ataque, ela correu em direção a Campe que se posicionava próxima a pilastra do templo de Hefesto. Em um movimento ágil a deusa golpeou-a com sua espada fazendo Campe cambalear e chocar-se contra a pilastra que ficou frágil.

O templo precisa de todas pilastras alinhadas para ficar de pé.

Com um plano maluco e potencialmente suicida em mente Atena começou a agir. Desviava-se das investidas de Campe o máximo que podia, tentando não se afastar muito do templo.

Vamos Apolo, eu preciso desse escudo.

Com um golpe certeiro Campe acertou-a na perna fazendo-a cambalear. A deusa tentou revidar acertando-a no flanco esquerdo mas falhou consideravelmente recebendo um corte no rosto que, por pouco, não fez um estrago gigantesco. Vulnerável por causa do choque e da dor que lhe atingiu o rosto, Atena foi golpeada novamente na brecha da armadura e caiu no chão com icor escorrendo na altura do quadril.

A deusa da sabedoria nunca se sentiu tão frágil quanto agora. Caída no chão com o corpo doído e ferido e com a cabeça rodando, parecia que havia um peso a puxando para baixo impedindo-a de levantar. Podia ver os pés grotescos de Campe se aproximando dela, sua gargalhada era a única coisa que Atena ouvia apesar do barulho que se fazia.

Como um baque um escudo prata recém feito caiu ao seu lado. Atena jamais agradecera tanto por Apolo ter essa mania de chegar sempre na hora H. Eu tenho que pelo menos tentar. Ainda absurdamente fraca, a deusa puxou o escudo para si erguendo-se do chão. Mantinha a cabeça levantada ainda que sua postura estivesse encurvada e que sua perna direita mal tocasse o chão.

— Tenho que admitir filha de Zeus — era a primeira vez que Campe não gritava — És, de fato, uma lutadora. Pena que todos os seus esforços são inúteis, terei prazer em esmagar seu crânio com minhas próprias mãos.

Atena usou as costas da mão que segurava a espada para limpar o canto da boca que escorria sangue e lhe deu um sorriso amargo.

— Prazer será o meu — começou a deusa com um tom de desprezo quase ácido — Em lhe jogar no Tártaro para uma eternidade repleta de sofrimento.

Campe a atacou com a espada da esquerda que Atena bloqueou com seu novo e poderoso escudo tão fortemente que a arma voou longe. Foi difícil para Campe esconder o olhar surpreso ao perder a espada o que fez Atena dar um leve sorriso satisfeito.

As duas duelavam com maestria, a deusa da sabedoria ia aos poucos conduzindo Campe para o interior do templo. Precisa ser agora, não aguentarei muito mais tempo. Com um movimento ágil e extremamente preciso, Atena desarmou sua inimiga. O baque da espada no chão despertou a ira de Campe que veio correndo na direção da deusa.

Com a perna ferida, Atena apenas conseguiu cambalear até alguns metros da entrada do templo. Segundos antes de Campe a alcançar, a deusa da sabedoria arremessou seu escudo na pilastra enfraquecida e jogou-se para fora rolando escadaria abaixo enquanto o templo de Hefesto desmoronava em cima de Campe.

Quando chegou lá embaixo a deusa sentia todo seu corpo triturado. Ela rolara no mínimo três lances de escada. Atena já havia perdido a conta dos machucados que revestiam seu corpo. A deusa fez força para se levantar mas seus braços falharam e como um baque caiu no chão, sua visão estava completamente turva e mesmo que tentasse se concentrar em um ponto fixo não conseguia. Imaginava que qualquer coisa pudesse acontecer com ela, ser pisoteada por um monstro, atacada por algum oponente, que fosse desmaiar a qualquer momento, tudo menos que alguém fosse pegá-la no colo.

No entanto, mesmo entorpecida, Atena sentiu quando braços fortes a pegaram com toda delicadeza do mundo. Assustada e extremamente confusa, a deusa tentou falar alguma coisa, porém sua voz lhe traiu profundamente ficando presa na garganta. Com um último esforço virou o pescoço na tentativa de identificar quem a carregava, a última coisa que a deusa viu antes de cair na inconsciência foram magnéticos olhos verdes. Olhos que ela jamais havia visto, mas tinha certeza que nunca esqueceria.

Notas finais
Ahhh e enfim começamos a história! Mais um capítulo direto do forno para vocês... Reparei que estou cheia de leitores fantasmas O.0 Apareçam galera, quero conhecer vocês!! Ansiosos pelo tão esperado encontro desses dois?? Ah para quem gosta de Harry Potter dá uma olhadinha no meu perfil também. Beijinhoss